O FILHO DO INVERNO
Ikarus foi lançado para longe com a força do soco de Zéfiro. O som de "craack" anunciava que algumas costelas do semideus haviam quebrado com o impacto; os órgãos internos, protegidos pela caixa torácica, também sofreram com o golpe. Zéfiro não golpeara com intenção de matar, apenas de torturar o semideus, que caiu no chão e rolou por alguns metros.
Deitado de costas na neve, o pequeno olhava para o céu claro da manhã que se formava. Ele abria a boca, tentando puxar ar para dentro dos pulmões, mas sem sucesso, enquanto tudo começava a escurecer. Ele nunca havia sentido tamanha dor física em toda sua vida.
— Quebrou? — Zéfiro perguntou, caminhando em direção ao pequeno, com uma expressão preocupada.
-100°C
Em um piscar de olhos, uma nevasca invadia Oymyakon, a temperatura diminuía drasticamente; em apenas um segundo, uma muralha de gelo se formava entre Ikarus e Zéfiro; o deus, ao perceber, deu um pequeno sorriso.
Theminaris havia chegado.
A divindade abriu suas asas cor-de-rosa. Atento ao redor, Zéfiro estalava os dedos, controlando seus ventos para dissipar a nevasca que havia se formado, mas não teve sucesso. A força da tempestade invocada por Despoina era tão grande que Zéfiro precisava se concentrar para não ser levado por ela.
O deus se preparava para alçar voo e ter uma melhor visão, mas, quando estava prestes a pegar impulso para sair do chão, uma mão feminina e branca, pálida como a neve, surgiu em meio à nevasca, bem em frente ao seu rosto. Os olhos de Zéfiro vidraram, e um calafrio percorreu toda sua espinha conforme ele se aproximava. Tudo acontecia rápido demais para que o deus do vento pudesse evitar.
TSSS...
Foi o som do gelo de Despoina engolindo Zéfiro. Com um único toque, a deusa colocou a mão no rosto da divindade e, a partir daquele ponto, o gelo mágico, criado pela energia divina de Despoina, congelou momentaneamente o corpo do deus, que não foi rápido o bastante para fugir. Do outro lado da muralha de gelo, Ikarus gemia por não conseguir respirar:
— Ah... Argh...
Aos poucos, a consciência de Ikarus se esvaía conforme ele cuspia sangue devido ao dano sofrido nos órgãos. Antes que o pequeno perdesse completamente a consciência, viu uma mulher pálida, cujos cabelos brancos ondulados caíam de seu capuz, descendo em mechas até a altura de seus seios.
Enquanto ela se ajoelhava ao lado dele, o pequeno notava um brilho vindo da armadura, feita de um metal divino único. A cor alternava entre prata e branco; a peça era justa e ofuscou momentaneamente os olhos do semideus, que em seguida viu os olhos cristalinos da deusa. Os lábios pálidos se moviam conforme ela gritava.
— Ikarus! Ikarus! — a deusa chamava por seu filho, colocando uma mão na nuca do pequeno como apoio e a outra em seu peito. Desesperada, ao ver o filho padecer, ela logo enviou energias divinas para o corpo do semideus, com a intenção de estabilizar o dano que ele havia sofrido. Incitando o garoto a usar os dons que carregava, a deusa disse:
— Respire fundo, concentre-se, cure-se.
O semideus ouvia a voz preocupada de sua mãe. Fechou os olhos e a boca e, com todas as suas últimas forças, esforçou-se para respirar. O pequeno puxou o ar para dentro dos pulmões, inflando-os. O dom de Despoina estabilizava o corpo do garoto; as costelas fraturadas e estilhaçadas eram congeladas para voltar à normalidade, impedindo que os estilhaços de ossos perfurassem seus órgãos.
Quando respirou, sentiu o oxigênio revigorando sua sanidade e consciência. Ikarus voltou a enxergar e viu com clareza a expressão de preocupação de sua mãe, que estava quase o abraçando. "Então, essa é minha mãe?", o pequeno se questionou ao ver o rosto belo e pálido da divindade com clareza.
A deusa tornou a dizer:
— Concentre-se e respire, garoto, regenere seus órgãos!
Ikarus ouviu e imediatamente seu subconsciente se questionou sobre como ele poderia fazer aquilo, mas a natureza divina do semideus estava no controle, sobrepondo o subconsciente. Ikarus, de alguma forma, sabia o que tinha que fazer e, mais uma vez, respirou fundo. O semideus fechou os punhos, segurando a neve abaixo dele. Concentrado, pensou na temperatura negativa ao seu redor, nos flocos de neve, na brisa fria e em um cenário onde o gelo cobria tudo.
O mesmo gelo que congelava cachoeiras agora, em seus pulmões e estômago, resfriava por completo o superaquecimento mortal dos órgãos danificados. O gelo percorria suas artérias e veias; os vasos sanguíneos dilatavam até que, por fim, a temperatura do garoto era igual à do ambiente: cem graus negativos. Seus órgãos foram revestidos por finas camadas de gelo, e a hemorragia interna cessou por completo.
— Mãe? — O semideus soltou a neve, levando a mão para tocar o próprio peito, chamando por sua mãe, que o olhava com um semblante sereno, aliviada por saber que a criança estava a salvo.
Crack, BLAM!!!
A muralha de gelo que estava em frente a Ikarus e Despoina explodiu em uma chuva de estilhaços de gelo e pétalas de rosas. A deusa rapidamente se colocou em frente ao semideus para protegê-lo de possíveis danos. Puxando com uma mão a longa capa semitransparente e prateada, acoplada aos ombros de sua armadura, ela impedia que as pétalas de rosas de Zéfiro chegassem perto do pequeno.
— Levante-se, corra para a floresta — disse a deusa.
Ikarus se levantou, sem saber de onde vinham os ataques de Zéfiro, mas, ainda que não concordasse com a ideia da mãe, obedeceu. Ikarus fora treinado desde cedo; sua mente era forte. Mesmo sendo uma criança, ele entendia o que sua mãe estava prestes a fazer. Enquanto Ikarus corria, flocos de neve envolviam seu corpo, formando uma camada protetora contra os ventos de Zéfiro.
O gelo de Despoina congelava as pétalas de rosas mágicas que voavam em direção ao semideus na tentativa de feri-lo. O som das pétalas de rosas cortando o ar era como um sussurro distante. O vento trazia um cheiro doce e perturbador, um contraste com o frio gélido que emanava do corpo de Despoina. A cada passo que Zéfiro dava, a neve estalava sob seus pés, como se o chão estivesse prestes a ceder sob a pressão de seus poderes.
Despoina respirou fundo e, ao ver o filho saindo da zona de conflito, soltou o ar, aliviada. Em seguida, a deusa levou as mãos até o capuz que usava, para então, lentamente, tirá-lo. A expressão sombria de Despoina se revelava; envolta em fúria, ela ergueu o queixo com um ar de arrogância e chamou por Zéfiro:
— Apareça, lixo! — disse, decidida a exterminar o deus da face do cosmos.
— Eu estava me divertindo tanto com seu filho! Você nem imagina o que eu ia fazer com ele. Não gosto de dar spoilers, mas ia ser muito pior do que aquilo que Poseidon e Deméter fizeram com você, sua pobrezinha! — o deus respondeu à divindade com a mesma arrogância.
O egocentrismo e o orgulho do deus dos ventos e da primavera não o permitiriam ser desrespeitado por Despoina. Zéfiro caminhava de braços cruzados, exibindo suas poderosas asas cor-de-rosa, com um largo sorriso branco estampado em seus lábios vermelhos. Ele fazia questão de provocar a deusa.
— Você não se lembra, Despoina? Da última vez que tentou interferir nos nossos domínios? — Zéfiro sibilou. — Quantos morreram, quantos cultistas choraram, enquanto você destruía tudo o que tocava? Você se acha no direito de ter uma família depois de tudo isso? — disse Zéfiro, com um sorriso sarcástico, se divertindo.
Despoina ficou em silêncio, olhando profundamente nos olhos de Zéfiro. O desejo de destruição da deusa era nítido e se manifestava no ambiente; o corpo de Despoina era envolto por uma aura branca que lembrava uma condensação.
Aquele fenômeno era a força de vontade manifestada em forma física e, no caso da deusa, o desejo pela cabeça de Zéfiro. O fenômeno também era chamado de “Conatus”, a materialização do desejo, um poder que todos os seres vivos tinham e que impulsionava suas forças.
— Juro que arrancarei sua cabeça — sentenciou Despoina.
Zéfiro riu da deusa, parado a um metro de distância. Frente a frente, as divindades se encaravam imóveis; as ações passadas de ambos determinavam aquele momento.
— Você tem sido um estorvo para muitos, por muito tempo. Sua puta fria, jamais será perdoada por suas atrocidades.
O deus deu três passos à frente, ficando a centímetros de Despoina. Ele a olhava de baixo para cima.
— Nunca quisemos guerra, mas agora não há mais como parar nossa caçada contra você. Bóreas quer te enfrentar, ele quer provar que o gelo dele é superior ao seu, mas sou eu quem vai destruir você — disse o deus enquanto estalava os dedos.
Logo, ele invocou, de forma prepotente, uma armadura de metal divino na cor de ouro maciço, que surgiu cobrindo seu corpo: uma armadura tradicional grega. Esse gesto indicava que ele não pretendia deixar Theminaris sair viva daquela briga.
— Então, quer lutar com ou sem armas? — Zéfiro perguntou, debochando de Despoina.
— Vou arrancar sua cabeça com minhas próprias mãos — respondeu Despoina friamente. A deusa olhava para Zéfiro com o queixo erguido; ela se achava superior ao deus. Estava determinada a destruí-lo.
— Ótimo — falou Zéfiro. Em um piscar de olhos, ele explodiu em pétalas de rosas, tomando distância da deusa, que avançou em um pulo em direção ao pescoço do deus do vento.
A metros de distância, Zéfiro deslizava pelas ruas de Oymyakon. Ele havia tomado uma posição estratégica para enfrentar a deusa. Ambos estavam preparados, mas apenas um sairia vitorioso. Logo, Zéfiro e Theminaris pensaram:
“Que o Combate comece!”
O deus do vento do oeste pegou impulso, assim como Despoina, e ambos colidiram no ar. A deusa do gelo aparou um soco do deus com os antebraços unidos. Ainda no ar, Zéfiro girou o corpo e desferiu um chute contra o rosto da deusa, que foi lançada em direção ao chão; mas, antes de colidir contra o solo, ela deu uma cambalhota no ar, pousando de pé.
A deusa apontou a mão aberta em direção ao peito de Zéfiro, invocando uma lança de gelo que se formou a partir de seu dom, revestindo-a com a energia de seu Conatus. Em seguida, arremessou-a com uma velocidade e maestria impressionantes em direção ao peito de Zéfiro. A trajetória e o arremesso da arma eram perfeitos, e ela explodiu contra a armadura que o deus usava. O impacto da explosão o fez ser arremessado para longe.
O deus colidiu contra uma casa da cidade, destruindo a parede com o impacto do próprio corpo. Ele ria, caído no chão dos escombros, e se levantava calmamente, para então caminhar para fora da estrutura.
Despoina estava parada de braços cruzados, metros à frente do buraco na parede, aguardando-o sair. O deus caminhava para fora, gargalhando, com seus olhos rosados repletos de êxtase pelo prazer de lutar contra a deusa que ele mais odiava.
— Theminaris! Sua habilidade... me dá taaanto tesão!
Despoina, ao ouvir seu nome verdadeiro pronunciado por aquele deus, irou-se. Em uma explosão de flocos de neve, teletransportou-se para os flocos que caíam em frente ao deus e, com grande força, desferiu um soco em cheio em sua boca.
BLAM!
Zéfiro aguentou o soco. Dessa vez, não foi arremessado para longe; no entanto, virou o rosto, cuspindo sangue dourado, a cor natural do sangue dos deuses. Junto do sangue cor de ouro, dentes eram cuspidos na neve. O deus, vendo que havia conseguido irritar a deusa do gelo, sorriu com a boca ensanguentada e gemeu em uma voz chorosa, repleta de excitação:
— Own, não precisa pegar leve comigo!
Zéfiro era o tipo de divindade que sentia prazer em emoções intensas, e o combate o deixava alucinado de tanto prazer. O deus avançou contra sua inimiga, desferindo socos em direção ao rosto da deusa, que desviava e aparava os golpes com maestria.
O som da colisão entre defesa e ataque seria ensurdecedor para os moradores de Oymyakon, caso algum estivesse vivo. Zéfiro gargalhava enquanto trocava golpes com Despoina, que bloqueava os ataques. A cada segundo que passava, a fúria psicótica de Zéfiro o consumia ainda mais.
A deusa era uma estrategista em combate; bloqueava os avanços do deus para entender o padrão de ataque que ele usava em seus golpes e, ao aprendê-los, decidiu que era hora de revidar. Ela bloqueou um uppercut, um golpe cuja trajetória era direcionada de baixo para cima, visando acertar o queixo do oponente. Despoina posicionou a palma da mão virada para baixo logo abaixo de seu próprio queixo e, quando Zéfiro acertou o soco, a deusa fechou a mão, segurando o punho do deus. A divindade do gelo congelou a mão de seu inimigo para, em seguida, pressioná-la, fazendo com que ela se estilhaçasse, sendo destruída.
Zéfiro gritava de dor. Theminaris aproveitou a brecha de um único segundo para desferir um soco em cheio no estômago do deus. O corpo de Zéfiro voou, bateu contra o telhado de uma construção e continuou a subir em direção aos céus. Enquanto era arremessado no ar, o deus sentia uma dor estranha em seu peito: os instintos das divindades não falhavam.
Quando olhou para o peitoral, viu que Despoina havia destruído sua armadura; primeiro, ela enfraqueceu o metal divino com o golpe da lança de gelo, em seguida desferiu um soco para romper o metal.
Zéfiro sorria, concentrando-se para regenerar o próprio corpo e os danos sofridos até então. O deus abriu as asas cor-de-rosa no ar e invocou os ventos do oeste para virem em seu auxílio. Aumentando drasticamente sua velocidade, Zéfiro sumiu do campo de visão de Theminaris. Antes que a deusa pudesse localizar o deus, recebeu um ataque brutal vindo dos céus.
BLAM!
O deus surgiu atrás de Despoina e desferiu um soco diretamente na nuca da deusa, que viu tudo escurecer por uma fração de segundos. A deusa do gelo voou, arrebentando casas consecutivamente. O soco de Zéfiro foi tão forte que fez a neve de toda a rua se dissipar, e as paredes de pelo menos quatro casas naquela rua foram destruídas pelo corpo de Despoina. Antes que a deusa pudesse recobrar sua postura, Zéfiro voou em alta velocidade. Agarrando os cabelos da deusa com uma mão, gritou animado:
— EU VOU TE DESMEMBRAR!
Despoina tentava se soltar, mas sem sucesso. Zéfiro batia suas asas, criando uma pressão que destruía as construções da cidade. O deus colocou o corpo de Theminaris à sua frente, como um escudo, e, com o corpo da deusa, voou em direção à floresta congelada. Zéfiro usaria o corpo de sua inimiga contra as árvores.
BLAM, CRACK, BLAM, BLAM,
CRACK, BLAM, CRACK,
BLAM BLAM, CRAAACK CRACCKK!!!
As árvores eram destruídas com o corpo da deusa. Zéfiro voava como uma bala; os troncos de algumas árvores explodiam com a força do impacto, enquanto outras se partiam, sendo lançadas a metros de distância. A deusa sentia o impacto se multiplicar em forma de dano conforme a velocidade do deus dos ventos aumentava. Por fim, Zéfiro subiu, rodopiando com a deusa no ar em um redemoinho que invocava pétalas de rosas e penas que saíam de suas próprias asas. Cada pétala e pena cortava a pele exposta da deusa, e a armadura que Despoina usava começou a ser danificada.
No ar, Zéfiro lançou Despoina em direção a uma grande rocha na floresta. O corpo da deusa voou a uma velocidade surreal, quase invisível aos olhos humanos. Ela estilhaçou a rocha, partindo-a em pedaços que voaram por toda a neve da floresta. Zéfiro batia suas asas no ar, observando Despoina com repúdio e nojo. O semblante psicótico do deus foi substituído por uma expressão séria; para ele, Theminaris era uma divindade que já havia perdido a dignidade e a função no mundo divino, e por isso, deveria ser exterminada.
— Você causou muita destruição a muitos seres. Não merece existir, não merece a bênção de ser mãe. Você e seu filho são aberrações, frutos das sombras e da vingança. Viu quantas pessoas foram assassinadas pela sua prole naquela pequena cidade mortal? — Zéfiro disse, enojado.
Despoina ouvia as palavras do deus e lentamente recobrava a postura, regenerando o dano sofrido dos múltiplos impactos.
— O fruto não cai longe da árvore, não é mesmo, Theminaris?! — gritou Zéfiro para a deusa, que terminava sua regeneração.
O Sol, que recém havia nascido, estava encoberto por nuvens. Um fenômeno único estava se desdobrando. Nuvens de tempestade se formavam no céu, que escurecia, trazendo sombras para a floresta. As correntes de ar de Zéfiro e o gelo de Despoina haviam ocasionado aquele fenômeno divino no mundo mortal.
Na região da floresta onde Zéfiro e Despoina lutavam, havia uma pequena caverna formada pela neve e gelo, em conjunto com as raízes de árvores que haviam morrido há muito tempo pelo frio intenso. Dentro do buraco, uma criança de cabelos cacheados brancos estava escondida. Ikarus via sua mãe se levantando após ser lançada por Zéfiro contra a rocha.
O semideus estava encolhido, abraçando as próprias pernas enquanto sua essência divina congelava seus sentimentos para preservar seu estado mental. Os olhos de Ikarus ainda brilhavam, manifestando a presença divina que ele exercia na região, e isso fazia tanto Theminaris quanto Zéfiro sentirem que a criança estava próxima.
A deusa do gelo olhou de canto e conseguiu ver os olhos do semideus brilhando, encarando-a de dentro da pequena caverna. Ao ver seu filho ali, em conflito interno, sozinho, Despoina decidiu que já estava na hora de encerrar aquele combate. Zéfiro também estava decidido. O desejo de vingança e de punição pelos crimes de Despoina dava forças ao deus para continuar usando sua velocidade máxima, assim como sua invocação de pétalas e penas mágicas cortantes.
Zéfiro pousou no chão, em cima da caverna onde Ikarus estava escondido, e, antes que o pequeno pudesse ter qualquer reação, o deus golpeou o gelo, arrebentando-o junto com as raízes, para então segurar o semideus pelos cabelos, arrancando-o de dentro de seu esconderijo. Zéfiro saltou e pousou a metros de distância de Despoina.
O deus tinha suas asas abertas; as penas eram afiadas, revestidas com energia divina, prontas para dilacerar a deusa do gelo. Ikarus foi feito de refém, o semideus esperneava e golpeava o ar, sendo mais uma vez subjugado pelo deus do vento.
— Renda-se e morra ou vou arrancar os bracinhos do seu filhinho — Zéfiro disse, ameaçando a deusa.
A manhã, que já estava sombria, tornou-se ainda mais obscura, e a ira de Despoina havia atingido o ápice. A deusa ergueu o queixo, revelando o mais puro caos vingativo em seus olhos.
As sombras das árvores, as de Theminaris, de Zéfiro e de Ikarus aumentavam, como se estivessem se esparramando pelo chão. Antes que o deus dos ventos pudesse perceber, todo o chão daquela região havia se tornado uma poça escura de sombras, advindas do dom das sombras que a deusa carregava como poder divino secundário.
Com uma velocidade impressionante, Despoina manifestou as sombras com sua Umbracinese, a arte do domínio das sombras. Ela as usou para moldar amarras similares a tentáculos que saíram da própria sombra de Zéfiro, prendendo-o. Zéfiro, paralisado, não conseguiu reagir a tempo, pois a fúria de Despoina impulsionava o poder de seus dons divinos: provocá-la foi um erro. Ikarus conseguiu se soltar. O semideus caiu no chão e começou a ser engolido pelas sombras de sua mãe, como se estivesse em uma poça de areia movediça. O pequeno ficou assustado ao ver as sombras o consumindo, mas, antes que o desespero o tomasse, ouviu as palavras de sua mãe.
— Ikarus, hoje lhe ensinarei três lições — a deusa disse enquanto caminhava lentamente, com o olhar de ira fixo em Zéfiro.