Prólogo
Cinco dias antes da Fratura
— Irmão Eoghan, o que está fazendo? — perguntou irmã Liane, incrédula.
— Eles precisam de ajuda! A guerra se aproxima, irmã. Não podemos ficar de braços cruzados — respondeu Eoghan, enquanto soltava Truque, seu mirrado cavalo, do estábulo.
O terror da guerra, antes distante das terras centrais de Eldravia, no coração do continente, agora se alastrava pelo reino. As notícias de que Torn, o rei, havia abandonado o trono acabavam de chegar. O avanço das tropas bharundianas comandadas por Meligor deixava no caminho cidades completamente dizimadas e riquezas saqueadas. Os que sobreviviam à devastação e ainda tentavam resistir eram capturados e levados para Gralthar, a capital de Bharundia.
O povo debatia nas ruas.
Alguns ainda mantinham a esperança.
"O rei Torn deve estar indo ao encontro dos aliados!"
"Um recuo estratégico!"
Outros não acreditavam.
"Estamos perdidos, vocês não veem? Ele abandonou o trono, abandonou a nós. Fugiu e deixou a capital para Meligor."
"Caiam na real! Não é recuo, é fuga. O povo da capital foi deixado como porcos para o abate. Logo seremos nós."
Eoghan subiu no cavalo, já pronto para partir, levando consigo uma pequena carroça de mantimentos.
— Você é louco, irmão. Essa comida que você está levando alimentará, quando muito, uma única família.
— Se eu salvar ao menos uma, será mais do que o que estamos vendo por aí.
Parou por um instante antes de completar:
— Talvez eles façam o mesmo por outra pessoa algum dia. Você não acha? — perguntou com um sorriso afável.
Liane suspirou e segurou as mãos de Eoghan, que se apressou em completar:
— Vai ficar tudo bem, irmã. O exército ainda demorará para chegar por essas bandas.
— Está bem, irmão. Mas me prometa que voltará ao primeiro sinal de perigo. A Peregrinação não pode perdê-lo. Eu não posso perdê-lo.
O jovem padre pressionou os calcanhares contra o flanco do animal, que começou a trotar.
O dia ainda não havia raiado. Eoghan sabia que, se esperasse mais, os irmãos não permitiriam que partisse. Muito menos que levasse um cavalo e alimentos.
Santa Jasala proverá, pensou.
O caminho até o vilarejo mais próximo era longo. Eoghan estimava que levaria alguns dias de viagem até lá.
No primeiro dia, fez algumas pausas para comer e descansar Truque.
— Se alimente, menino. Vamos precisar das suas forças — falou ao cavalo, que relinchou em resposta.
Ao final do dia, acampou em uma clareira próxima à estrada, lembrando-se das dicas do irmão Rhovan, quando se juntara à Peregrinação.
— Não saia de perto da estrada se não quiser se perder, a menos que sua segurança dependa disso. Avalie o terreno e busque um lugar onde você consiga enxergar por todos os lados. A Igreja não tem inimigos, mas saqueadores não distinguem um irmão de um lorde com posses.
Eram apenas alguns dos inúmeros ensinamentos do mentor.
Amarrou Truque a um tronco para que não se perdesse durante a noite e deitou-se próximo à fogueira. O inverno começava a chegar, e as noites se tornavam cada vez mais geladas nas terras do sul do continente.
O padre sonhou naquela noite. O mesmo sonho de sempre.
Conseguia sentir o calor das chamas. Ouvia o som de espadas brandidas. Sentia o
assoalho sobre a cabeça e a poeira à sua volta. Escutava também os gritos — vozes que um dia foram comuns, agora não passavam de reproduções falhas e sem constância.
No sonho, os urros cessavam, o piso sobre sua cabeça era removido e uma figura feminina sem rosto o abraçava.
Eoghan acordou no raiar da primeira luz do sol, suado e com frio.
Já estava acostumado.
Secou-se, vestiu a blusa e, em seguida, a túnica cinza. Lembrou-se de quando a recebera das mãos de irmão Rhovan, tantos anos antes:
— Sabe o porquê do cinza, jovem irmão Eoghan?
— Por que é o mais barato? — respondeu o pequeno Eoghan.
Rhovan gargalhou, perdendo a compostura habitual. Ao se recompor, respondeu:
— Também, pequeno irmão. Mas, principalmente, porque, para nós, o cinza representa a neutralidade: a ausência de cores, de representações e de bandeiras. Sabe, todos os povoados, capitais e reinos, de leste a oeste de Althoria, se diferenciam por brasões e símbolos das mais variadas cores, do púrpura eldraviano ao azul akari e ao dourado de Bharundia. Nós acreditamos que, sem tomar partido, podemos cultivar uma bondade verdadeira, sem preconceitos, exigências ou expectativa de recompensa.
O irmão ainda completou:
— Um peregrino não deve escolher quem merece ajuda segundo a bandeira que carrega. O sofrimento não pertence a um reino, irmão, e a compaixão não deve exigir juramentos de lealdade.
Eoghan amarrou a fita da túnica na cintura e saiu para buscar um pouco de água em um córrego próximo de onde acampara. Aproveitou para lavar o rosto e encheu o balde que carregava para Truque.
Pouco depois, seguiu viagem.
As pessoas que cruzavam seu caminho o olhavam com espanto.
Isso, contudo, encorajava Eoghan. Havia uma ponta de orgulho por fazer aquilo que seus irmãos não faziam. Ele via na incredulidade dos transeuntes a confirmação de que aquilo que se propusera a fazer era certo. Não era a escolha fácil — longe disso. Mas era o que precisava ser feito. Ia contra a maré para ajudar quem precisava.
Novamente, a voz do mentor surgiu em sua memória:
— Orgulho é a ferramenta dos fracos de convicção. Aquele que é convicto no seu propósito, irmão Eoghan, não precisa de orgulho. Ele não faz o que deve para satisfazer o íntimo; ele o faz porque é o certo a se fazer — costumava dizer Rhovan.
Eoghan sentiu o rosto esquentar.
Se o irmão Rhovan ainda estivesse no mundo dos vivos, estaria ele desapontado com o que penso? Ou feliz ao ver que seu pupilo tinha um propósito e uma convicção?
Isso o incomodou mais do que gostaria.
Enquanto tentava se afastar daquele pensamento, dezenas de pessoas passavam ao seu lado em uma comitiva.
Era numerosa, mas havia poucos cavalos e carruagens. Provavelmente aquelas pessoas haviam perdido tudo na guerra, ou já não tinham muito e carregaram o que puderam.
Mulheres levavam filhos no colo. Homens se dividiam para carregar caixas e baús.
Os olhos de Eoghan se fixaram em um senhor de idade, de ralos cabelos brancos, estrutura frágil e olhar desatento. Caminhava de maneira trôpega, ajudando outro homem, mais jovem e muito mais forte, a carregar um baú.
O padre desceu do cavalo, pegou o cantil e falou na direção do senhor.
— Senhor, senhor! Por favor, tome — disse, estendendo o cantil ao idoso.
O mais velho parou para pegá-lo, mas sua dupla continuou seguindo o caminho. O idoso perdeu o controle e soltou a alça.
A caixa caiu no chão.
O mais jovem bufou.
— Se você quer tanto ajudar o pobre e velho Gomen aqui, por que não carrega o peso por ele no resto do caminho? — falou, em tom de desdém.
— Meu caminho é o oposto, nobre senhor.
— Ha! De nobre eu não tenho nada, mas obrigado, eu acho. Você está indo para Eldras? Deve ser louco.
— Não, meu caminho não me leva à capital. Pelo que soube, não resta nada mais a ver lá. Nem o rei estará por lá.
— Isso é verdade. Aquele almofadinhas sentiu a sombra da pica que estava vindo e vazou — falou, orgulhoso da metáfora que acabara de criar. — Na verdade, estamos todos vazando. Poucos pobres de sanidade ficaram por aquelas bandas — acrescentou, apontando para trás com a cabeça.
— O que tem por lá?
— Morte, destruição e desespero. Só os insanos e os incapazes ficaram.
— Então é para lá que o destino me chama.
Gomen aproveitou a distração do jovem para sentar-se e entornar o cantil de uma vez.
— Uno sabe que uma boa e velha cachaça me deixaria mais disposto, mas água serve também — falou a Eoghan, estendendo o braço para devolver o cantil vazio.
— Tá hidratado, velho? Então levanta e vamos logo, que o seu filho não parou. Temos que alcançá-los — falou, ajudando Gomen a se levantar. — E você... boa sorte.
— Obrigado — respondeu Eoghan, curvando a cabeça.
Quando os dois se afastaram, tentou dar um gole na água e percebeu o cantil vazio.
— Imagina se fosse cachaça — falou para si mesmo.
Seguiu caminho. Via cada vez mais pessoas fazendo o trajeto contrário. Quanto mais Eoghan avançava, mais raro se tornava encontrar alguém seguindo na mesma direção que ele.
No segundo dia, começaram a surgir casas abandonadas. No terceiro, encontrou o primeiro povoado queimado.
Corpos eram expostos em troncos. A cena que mais o impactou foi a de uma família inteira pendurada: marido, esposa e duas crianças. Ele não sabia qual das opções era mais cruel: que saqueadores os tivessem matado e exposto os corpos como aviso aos que resistissem, ou que a própria família, depois de perder tudo, também tivesse perdido a esperança.
Seguiu viagem por mais dois dias, passando por inúmeros assentamentos e vilarejos. Todos desolados. Todos sem vida. Eoghan começava a se perguntar se encontraria algo além de sua própria morte seguindo em frente.
— Eu tenho esperança... não. Eu tenho convicção de que meu destino é em frente. Todos os santos estão comigo. A causa é nobre e justa. Irino me protegerá, Jasala me guiará
e Olin me absolverá caso eu siga o caminho errado.
O sol estava a pino, e o calor era reconfortante depois das noites de frio.
Eoghan tirou a túnica e a blusa. Ficou de tronco nu, deixando que o calor do sol batesse sobre seu corpo. Mais alguns dias, e até mesmo a túnica já não seria suficiente.
Os pensamentos do padre estavam longe, em Liane, Elina e nos outros irmãos que haviam ficado para trás.
Perguntava-se se algum dia voltaria a vê-los.
Espantou o pensamento.
Nada de bom viria de pensamentos como aquele.
Enquanto divagava, sentiu Truque tropeçar.
Mandou o cavalo parar.
Era hora de fazer uma pausa.
O pasto era escasso naquela região, e a água havia se tornado um luxo. Amarrou o cavalo próximo a um pequeno espaço onde ele ainda podia pastar. Pegou o cantil e saiu à procura de água.
Se não encontrasse um rio ou uma fonte, não sabia se o cavalo chegaria ao dia seguinte. Amarrou-o em uma árvore e vagou por algum tempo, até achar uma cabana.
Viu que as portas estavam abertas. Olhou para dentro e viu cadeiras e mesas tombadas, além de roupas jogadas pelos cantos. Deduziu que não encontraria ninguém por ali.
Fez uma oração pela alma daqueles que partiram e pediu proteção aos seus santos. Rezou para que encontrasse logo o que procurava.
Mas o que, exatamente, estava procurando?
Naquele exato momento, era água, claramente.
Mas... e naquela curta jornada?
Uma satisfação por ver alguém feliz?
Um destino maior?
Algo que lhe trouxesse uma chama para viver?
Levantou a cabeça.
Suas preces foram atendidas: viu um poço.
Correu até ele e percebeu que ainda funcionava. Desceu o balde tão rápido quanto pôde e o puxou com afinco ainda maior.
Bebeu, lavou o rosto e jogou água pelo corpo.
Baixou o balde e tornou a puxá-lo algumas vezes. Encheu o cantil e desamarrou a corda para levar o balde até Truque.
O cavalo relinchou.
Eoghan entendeu aquilo como um agradecimento.
Enquanto o cavalo bebia, o padre percebeu que começava a esfriar.
Sentia o vento gelado nas costas.
Olhou ao redor e notou que o sol havia se escondido atrás de nuvens. Aquilo lhe causou certo desconforto. Tinha certeza de que, quando encontrara o poço, o sol brilhava sem nenhuma nuvem no céu.
Truque parecia ansioso, relinchava e movia a cabeça freneticamente. Eoghan tentou acalmar o cavalo afagando-lhe o rosto. O cavalo bufou e relaxou por um instante.
O padre vestiu a túnica e notou uma figura caminhando ao longe: um homem vestindo um robe negro, andando com passos firmes para fora da estrada. Eoghan também notou uma marca nas costas do robe, mas estava longe demais para ver em detalhes.
Era um símbolo?
Se sim, de quem?
Quem enviaria alguém para um lugar no meio do nada?
— EI!! SENHOR!! ME OUVE?
Não teve resposta.
O homem continuava seguindo seu caminho, parecendo alheio aos relâmpagos que iluminavam o horizonte.
Eoghan sentia o coração palpitando. Um misto de medo e entusiasmo. Entusiasmo com o quê, exatamente? Não sabia.
A tempestade não parecia natural. Eoghan olhou para o homem e depois para o céu,
tentando encontrar alguma explicação.
Talvez fosse ele.
A ideia surgiu antes que pudesse avaliar se fazia sentido. Mas, se aquele homem fosse capaz de provocar algo assim, talvez também fosse capaz de enfrentar Meligor.
Pela primeira vez desde que se despedira de irmã Liane, Eoghan sentiu que talvez não estivesse caminhando em direção a mais uma tragédia.
Talvez tivesse encontrado alguém que pudesse mudar tudo.
A possibilidade bastou para que começasse a acreditar nela.
Por um instante, cogitou se deveria ajudá-lo.
Ajudar como, Eoghan?, pensou. Meligor transforma vilas inteiras em corpos moribundos num piscar de olhos. Quem sou eu para fazer qualquer coisa contra ele?
Respirou fundo.
Quem seria eu se não fizesse o que estivesse ao meu alcance?, encorajou-se. Aquele homem pode precisar da minha ajuda, e eu vou ajudá-lo.
Eoghan seguiu na direção do homem misterioso.
O vento aumentou. A cabana rangeu, como se fizesse esforço para não ser arrastada.
Nuvens carregadas tomaram o céu, fazendo o dia parecer noite.
O ar pareceu pesar sobre ele, carregado de uma tensão prestes a romper. Respirar exigia um esforço que antes não existia.
Cada passo era mais custoso, como se cada perna pesasse dez vezes o peso normal. Eoghan precisou erguer o braço diante do rosto para se proteger do vento.
Então viu que o homem havia parado.
Eoghan continuou.
Com dificuldade.
Ouviu uma voz grave.
Mas havia algo errado.
Não era uma voz.
Eram várias.
Como?
Era como se uma dúzia de pessoas falassem as mesmas frases em uníssono.
O coro ficava cada vez mais alto, mas não conseguia entender o que era dito.
Eoghan já não conseguia mais avançar.
Tentou gritar, mas o homem não parecia escutar.
Em seguida, Eoghan viu uma linha negra cortar pelo horizonte mais rápida do que seus olhos podiam acompanhar. A linha estremeceu por alguns instantes e se contraiu em um único ponto acima da cabeça do homem.
As vozes se intensificaram e abruptamente cessaram quando um raio completamente negro emanou do ponto onde a linha se concentrara.
Por um instante, não houve estrondo ou luz. Era como se o mundo ao redor tivesse parado.
Então, Eoghan sentiu o chão estremecer. Procurou algo para se agarrar. Em vão. Lutou para manter o equilíbrio, enquanto, ao longe, ouvia Truque relinchar, tentando se desvencilhar de suas rédeas.
Por um breve instante, teve a impressão de que o traço ressurgira, atravessando novamente o horizonte de um extremo ao outro. Não conseguiu compreender o que via. O chão e o céu pareciam se abrir. Não sabia se era uma fenda, uma sombra ou alguma coisa para a qual ainda não possuía palavras.
Então veio o som.
Não parecia vir do céu, nem de um ponto específico do horizonte. Era como se a própria terra tivesse produzido o som, apagando todos os outros ruídos do mundo.
Sentiu algo o atingir e tudo escureceu.
Eoghan sentiu novamente o calor das chamas.
Ouviu mais uma vez o brandir das espadas.
Sentiu outra vez a poeira e o assoalho.
Viu, finalmente, o rosto da mulher que o abraçava em seus sonhos.
Mas, desta vez, ela não o abraçava.
Jazia no chão, com a cabeça arrancada do corpo, olhando fixamente em sua direção, enquanto ele se escondia.
Eoghan tentou abrir os olhos, mas as imagens não se organizaram. Ouvia vozes, mas não sabia se vinham ao seu redor ou de algum lugar dentro da própria cabeça.
— Pai! Paaai!! Ele está vi...
— Vamos... água... ele…
— Como... possível...
A consciência de Eoghan ia e vinha.
Ouvia as vozes sem rostos.
Tal como em seus sonhos.
Seria aquele um sonho diferente?
Ele não sabia.