Capítulo 1 - Além do Rio
Mil e quatorze anos após a Fratura
Íris levou a mão ao bolso da calça e apertou o pingente em forma de ondas enquanto entrava no salão da guarda.
Sua pele azul-clara, úmida do calor lá fora, reluzia sob a luz do salão. Como quase todos os nymari, caminhava descalça. Entre os dedos longos e esguios das mãos e dos pés, membranas translúcidas repousavam quase imperceptíveis; sob a água, abriam-se e os impulsionavam pela correnteza.
— Senhor? — chamou pelo comandante.
Celis, comandante do Córrego — a guarda nymari — era uma figura imponente. Tinha a pele de um rosa vívido, o tronco musculoso, longos cabelos prateados e olhos profundamente negros.
Ao lado dele, Íris sempre se sentia minúscula.
— Envie três bons caçadores para o leste e dois a nordeste — ordenou Celis a um dos guardas. — A Nascente quer uma resposta.
O guarda assentiu e saiu em passo firme.
Celis voltou-se para Íris.
— Ísis, nosso prodígio. Como foram as buscas?
A jovem riu. Já não sabia mais se o comandante era incapaz de gravar seu nome ou se apenas gostava de provocá-la.
— É Íris, senhor.
— Perdão, perdão. São tantos nomes. Se um dia você for líder do Córrego, entenderá. — Fez um gesto breve, como se afastasse o assunto. — Enfim, algum progresso em achar Iura?
— Infelizmente não, senhor. Seguimos a trilha por alguns dias, até a mata. De lá,
perdemos o rastro.
— Não conseguiram seguir pela mata? Algum animal impediu? A vegetação ficou densa demais?
— Não exatamente. O rastro simplesmente desapareceu. Como se estivesse ali em um momento e, no outro, já não estivesse mais.
Celis franziu a testa.
— Mas isso não faz o menor sentido. Tem certeza de que o rastro não foi apagado pela chuva?
Íris assentiu.
Realmente não fazia sentido. Já era o terceiro desaparecimento desde a última lua cheia. Dentro de poucas noites, ela estaria cheia novamente.
Um Ciclo inteiro. Três nymari desaparecidos. Nenhuma resposta.
Íris não conseguia evitar a pergunta: aquilo teria alguma relação com o que acontecera em Rioveloz?
Mas isso faz tanto tempo. Também não faz sentido, pensou.
Apertou o pingente novamente.
Tentou afastar as lembranças daquele dia.
— Qual a sua teoria? — perguntou Celis.
— Teoria?
— Vai me dizer que uma jovem inteligente como você não tem ideia do que tem levado nossos companheiros?
— Bem...
Por um instante, cogitou falar sobre o incidente em Rioveloz.
Preferiu não fazê-lo.
— Acredito que temos que investigar mais a fundo na floresta. Nos afastarmos mais do rio.
— Você sabe que isso vai contra os Princípios, não sabe?
— Deixar de fazer o que podemos pelos nossos companheiros também não vai contra
os Princípios?
Ela deu um leve sorriso.
— Você é perspicaz. Não esperava nada diferente — disse ele, resignado. — Mas, infelizmente, você sabe que isso não depende exclusivamente de mim.
Íris assentiu, enquanto o sorriso desaparecia.
— A Nascente? — perguntou. A líder suprema de Quedasuave era conhecida pela rigidez e por colocar os Princípios Nymari acima de praticamente tudo.
Celis concordou com um gesto. Respirou fundo e olhou para o alto por alguns segundos. Soltou o ar bufando, como se soubesse que se arrependeria do que iria falar.
— Deixa comigo. Eu sei os meios para convencer Renilla — fez uma pausa e completou: — Só há uma condição: você não irá sozinha.
— Eu a acompanho — ecoou uma voz no fundo do salão. — Um pelo outro — completou a voz, entoando o lema do Córrego.
Íris não precisou se virar para reconhecer o filho do comandante.
— De jeito algum — respondeu Celis. — É necessário alguém com experiência em caçadas fora dos limites do vilarejo.
— Com todo o respeito, senhor comandante — interveio Íris —, mas eu tenho essa experiência.
— Viu? — disse Uli.
Ele tinha a pele rosa, característica dos homens nymari, e cabelos curtos de um negro tão intenso que pareciam reluzir sob a luz. Os olhos verdes vinham da mãe. Carregava uma cimitarra na cintura e vestia uma camisa branca, já levemente desbotada, com o símbolo do Córrego no peito: duas linhas curvas representando a fluência do rio. As calças eram escuras, com a bainha rasgada.
— Olha, eu disse que cuidaria da Renilla, mas você sabe que, no momento em que mencionar seu nome, sua mãe não vai permitir. Não depois de Ori.
Ao ouvir o nome, Íris sentiu um aperto no peito.
— Exatamente por isso que eu preciso ir. Não pude acompanhar nenhuma expedição desde que ela desapareceu. É a minha chance de fazer alguma coisa para encontrar a minha
irmã. A sua filha — disse Uli, ressentido.
Uli abriu a boca para continuar, mas se conteve.
— Além disso, eu sou o mais rápido de todo o vilarejo.
— Sem falar que o Dom dele é acima da média, senhor — acrescentou Íris.
Uli fechou os olhos e rapidamente sua pele adquiriu um tom de cobre, as orelhas ficaram arredondadas e as membranas entre seus dedos desapareceram. Ao abrir os olhos, perderam o verde intenso e tornaram-se castanhos. O rosto continuava sendo o mesmo, mas havia nele algo inexplicavelmente cativante. Sorriu com confiança.
Celis levou uma das mãos ao rosto, apertando o topo do nariz.
— E o que você fará se estiver sob o sol?
Uli ficou sem resposta.
— Nada que uma capa e um capuz não resolvam, senhor —interveio Íris.
Uli deu um sorriso. Celis fechou os olhos enquanto repetia o movimento com os dedos no rosto. Levou alguns instantes antes de abrir os olhos novamente.
— Filho... você tem certeza? Se os homens os pegarem, sua mãe me jogará ao fogo.
— Você mesmo disse que Íris não deveria ir sozinha. E, convenhamos, o Córrego não oferece muitas opções no momento.
Celis encarou os dois jovens por alguns instantes, com uma expressão que parecia levá-lo de volta à própria juventude.
— Está bem, está bem. Eu falo com a sua mãe — falou, finalmente cedendo. — Se ela autorizar, vocês podem ir.
Íris assentiu e baixou os olhos. Sabia que a Nascente jamais permitiria buscas fora do território nymari. Muito menos com seu último filho envolvido.
Uli retornou à forma natural, e os dois foram dispensados pelo comandante.
— Você acha que seu pai conseguirá convencer a Nascente Renilla a permitir a nossa missão? — perguntou Íris.
— Óbvio que não.
Ela lançou-lhe um olhar curioso.
— Por isso, partimos o quanto antes — completou Uli. — Pegue somente o necessário e me encontre ao anoitecer na Lágrimas de Sangue.
Íris conhecia os perigos de abandonar a proteção de Quedasuave. Ainda assim, precisava descobrir o que estava acontecendo. Se tudo aquilo estivesse conectado a Rioveloz, estariam em perigo. E ela não permitiria que acontecesse novamente.
Seguiu até o alojamento do Córrego, onde vinha morando nos últimos tempos. Ao chegar à tenda, pegou o velho arco, uma aljava de flechas adornadas com penas de arara-azul, uma bolsa de suprimentos e um par de botas que encontrara recentemente e mantinha escondido. Se precisassem usar o Dom diante de humanos, também precisariam se vestir como eles.
Não havia um par para Uli, mas isso poderia ser resolvido, se necessário.
Íris se deitou.
Fechou os olhos.
O sono não veio.
Em seu lugar surgiu o rosto de Ori. Não o rosto desaparecido que todos procuravam agora, mas o primeiro que Íris vira tantos anos antes, surgindo entre os arbustos.
Foram cinco anos sozinha antes de chegar a Quedasuave. Quando a encontraram, uma onça a havia atacado e deixado ferimentos graves em sua perna esquerda. Durante a fuga, conseguiu subir em uma árvore. Depois, perdeu a noção de quanto tempo passara ali.
Despertou ao ouvir vozes conversando.
Retesou o velho arco que carregava desde que ficara sozinha no mundo e encaixou nele a última flecha.
Havia pelo menos duas vozes: uma masculina, outra feminina. Se a vissem, teria de acertar um disparo limpo, no ângulo certo. Do contrário, estaria morta.
As vozes se aproximaram. As folhas dos arbustos se moveram. Íris prendeu a respiração e manteve o arco firme com toda a força que ainda possuía. Duas figuras surgiram entre a vegetação.
Tentou se conter, mas uma lágrima solitária escorreu de seu olho direito.
Eram nymari.
Havia cinco anos que não via outro igual a si.
Relaxou. Assobiou.
As duas figuras ergueram os olhos em sua direção. Uma delas era uma mulher alta, de pele azul-esverdeada e escamas nos antebraços. Ao lado dela estava um homem de pele rosa-clara e olhos azuis.
Ambos vestiam as roupas do Córrego.
A mulher carregava uma espada. O homem, um machado de duas mãos.
— O que está fazendo aí? — perguntou ele.
— Quem é você? Não pertence a Quedasuave, certo? — perguntou a mulher, lançando a Íris um olhar intimidador.
A jovem não respondeu.
Havia algo errado.
Os sons persistiam na densa vegetação às costas dos dois.
Íris retesou o arco novamente.
— Ei, ei, ei — disse o homem, erguendo as duas mãos. — Não queremos te machucar. Quem sabe você desce daí e conversamos como nymari civilizados?
— Largue esse arco, agora! — ordenou a mulher. — Se não quiser ser levada à força.
Íris lutava contra o arco, mas o mantinha firme.
Os sons se aproximavam.
Folhas se agitavam ao longe.
— Ela está assustada, Ori — cochichou o homem. — Olhe na perna dela, est...
A flecha cortou o ar.
Passou rente à cabeça da mulher. Íris viu os cabelos de Ori se mexerem.
Um grunhido explodiu atrás dos dois, seguido pelo impacto pesado de um corpo contra o chão. Uma onça jazia estatelada entre as folhas, ensanguentada, com uma flecha cravada no pescoço.
Íris descansou os braços. Dessa vez, não conseguiu manter os olhos abertos.
Veio apenas a escuridão.
Quando acordou, estava em Quedasuave.
Depois de chegar no vilarejo, Íris ingressou na guarda e começou a conquistar a confiança de Celis. Foi então que os desaparecimentos tiveram início.
Ori, a primogênita da Nascente e futura líder de Quedasuave, fora a primeira. Poucas luas depois, outra nymari desapareceu.
Apesar da insistência de Íris, o comandante não permitia que participasse das buscas. Somente quando Iura também sumiu Celis finalmente cedeu. Boa parte dos guardas ainda estava trabalhando nas buscas. Era a oportunidade de Íris provar seu valor. Mais importante, porém, era descobrir o que estava acontecendo.
Íris abriu os olhos e viu que a luz do dia começava a morrer. Ela deixou o alojamento e seguiu para o local indicado por Uli.
As Lágrimas de Sangue cresciam apenas junto aos rios e ocupavam um lugar central nos ritos nymari. Ao nascer, cada criança recebia no ventre uma marca com a seiva vermelha da árvore; ao morrer, devolvia a ela o próprio sangue.
Era assim, diziam, que o povo permanecia ligado às águas, aos mortos e à terra que o acolhia.
Uli estava ajoelhado diante da árvore, em oração.
Íris esperou. Ela poderia ter feito uma prece também, ter pedido proteção, mas já não acreditava no poder das Lágrimas de Sangue.
Quando Uli ergueu a cabeça, ela falou:
— Então, vamos logo?
Ele se assustou. Ela sorriu.
— É... sim — respondeu, desconcertado. — Há quanto tempo está aqui?
— Não muito. Só o suficiente para ver um nymari desse tamanho pedindo proteção divina.
— Todos somos filhos dos mares e dos rios. Quando nos afastamos, precisamos de proteção — disse ele, com o semblante fechado.
— Você está parecendo a sua mãe... digo, a Nascente — provocou Íris.
— Vamos. Logo mais vão notar que não estamos no alojamento.
— Que eu não estou no alojamento, né? Você mora na casa da Nascente, tem uma vida boa — disse Íris, deixando escapar o rancor.
Arrependeu-se assim que terminou.
— Desculpa. Falei sem pensar.
— Está tudo bem — suspirou Uli. — É fácil pensar isso quando se está de fora. Ori deveria assumir a Nascente. Agora todos esperam que eu ocupe o lugar dela, pelo menos até outra pele azul estar pronta.
— Eu imagino o peso que deve ser ter essa responsabilidade nos ombros. — Íris apertou o pingente dentro do bolso. — Bom, ficar aqui lamentando não vai trazer Ori de volta.
Ela se sentiu observada, como se a mata a vigiasse. Olhou em volta, mas não viu ninguém. Uli saiu rapidamente e já estava quase fora de vista.
— Vamos, antes que a Nascente venha nos arrastar pelas barbatanas! — gritou ele.
E partiram, deixando Quedasuave para trás.