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Inventário de Coisas Humanas · O Fim do Mundo — Wilker Sousa

Por Wilker Sousa

Um conjunto de contos criados em oficinas, desafios literários ou mesmo devaneios em um dia céu nublado.

O Fim do Mundo

O computador podia fazer aquele trabalho sozinho, sem a necessidade de um operador, mas Victor havia pedido para estar ali. Todos os dados eram coletados, checados e organizados pela inteligência artificial. Mesmo assim, ele havia solicitado sua permanência na estação. Queria acompanhar de perto os últimos segundos de sua terra natal.

Observava pela imensa janela à sua frente aquele velho globo flutuando em meio à imensidão negra. Mesmo a mais de um milhão de quilômetros de distância, ainda era surpreendente conseguir enxergar a superfície do planeta. Agora, não tão azul quanto fora no passado. Mais de quarenta por cento dos oceanos já haviam secado. A temperatura havia se tornado completamente inviável para a vida humana, e a última nave tripulada havia partido há mais de seis anos.

Ao perceber que, naquele instante, o planeta era uma casca vazia, sem vida, Victor sentiu o peito apertar. Uma mão invisível parecia pressionar sua garganta, dificultando até mesmo engolir a saliva.

– Computador, quais são os níveis de superaquecimento do núcleo?

– Estão subindo cerca de quinze por cento por minuto. As erupções já estão acontecendo em pelo menos trinta por cento do planeta.

Victor olhou novamente para a Terra, tentando enxergar as erupções na superfície. Sabia que, daquela distância, não seria possível. O computador poderia lhe fornecer imagens mais próximas, mas ele queria acompanhar aquele momento com os próprios olhos.

Lembrou-se dos tempos felizes que vivera naquele lugar. Era sua casa, e agora precisava dar adeus. Lembrou-se também da corrida entre os países para salvar a raça humana antes do cataclisma.

– Contagem para a explosão iniciando em trinta segundos – disse a voz do computador.

– Levantar escudos.

– Não há necessidade, senhor. Estamos há…

– Não importa! Levantar escudos.

Lágrimas escorriam pelo rosto de Victor enquanto a contagem regressiva ecoava pela estação.

Então, uma luz irrompeu do interior do globo e se espalhou por milhares de quilômetros em todas as direções, pintando de branco e laranja o vazio negro. Durou poucos segundos.

Quando a luz desapareceu, já não havia planeta. Apenas destroços flutuavam no vazio, e Victor não desviou o olhar.