A Cólera
O manto vermelho carmesim de Yalden tremulava ao açoitar do vento. Seus olhos ardiam, não apenas pela secura do ar, mas também pela privação de sono que ele enfrentava há semanas. Agora, ele e Kyr estavam a poucos quilômetros da Cidade Murada de Sanur, no topo de uma serra, de onde podiam ver a estrada que levava a um dos portões de entrada. A cidade era gigantesca, a terceira maior do Reino, e seus muros estendiam-se em uma imensa circunferência.
– Então é aqui que ele se escondeu – disse Yalden, semicerrando os olhos para tentar ver os limites da cidade.
– Tem certeza, lorde Yalden? – A voz de Kyr saiu mais trêmula do que ele desejava. Yalden, o grão-mago da Universidade Lucaria, estava mais sombrio nos últimos dias, e o comportamento o assustava.
– Sim, tenho. Isso não me deixa duvidar. – Ele apontou para um ferimento em seu rosto, que não cicatrizava. – Depois de nosso último encontro, estamos ligados por isso aqui. Eu o enfraqueci mais do que ele esperava, e ele fugiu para se recuperar. Acreditou que, se escondendo em Sanur, eu não o encontraria. Ele tem razão. Seria como procurar uma agulha num palheiro, e ele conseguiria escapar de alguma forma.
– O que faremos então, meu senhor?
– Você, Kyr, retornará para a Universidade Lucaria e se apresentará ao conselho. Explicará o que aconteceu aqui. Eu acabarei com Zafnael. Aqui e agora.
– Mas como, meu senhor, se o senhor mesmo disse que não poderemos encontrá-lo na cidade?
– Usarei A Cólera em Sanur.
Kyr deu um passo para trás para não cair. Não percebeu que estava prendendo a respiração até ser obrigado a soltá-la, o coração retumbando em velocidade descomunal.
– L-lo-lorde Yalden, A Cólera? Mas isso seria o fim!
– Se Zafnael escapar mais uma vez, Kyr, será o verdadeiro fim. Eu o destruirei.
– Mas o senhor perderá a sua essência! Será uma casca vazia!
– Ele já me tirou minha essência, K. – A voz de Yalden não carregava emoção. – Me tornei uma casca há muito tempo. Só não completamente vazia, pois a missão de aniquilar Zafnael me preenche.
Um pensamento sombrio passou por Kyr quando percebeu que havia algo muito pior.
– Existem milhares de pessoas na cidade!
– Sim.
– São inocentes! Todos irão morrer!
– Eu sei. Mas, às vezes, é preciso destruir a plantação para combater uma praga.
Yalden virou-se para frente, erguendo os braços. O manto vermelho ainda esvoaçava. Uma luz esverdeada começou a cobrir o corpo do mago, enquanto quantidades colossais de magia se acumulavam. Uma náusea lhe acertou feito um soco, e um gosto doce lhe cobriu os lábios. Seus olhos ficaram vítreos, e a cor sumiu de seu rosto.
Então, um círculo mágico gigantesco se abriu sob a cidade. Dele irrompeu uma chuva de centenas de dragões de luz verde, que caíam sobre muralhas, prédios e ruas. Imensas explosões surgiam ao contato da magia.
Por vários minutos, a chuva da morte seguiu caindo sobre a cidade, e Kyr assistiu a tudo com olhos arregalados, uma máscara de terror cobrindo-lhe o rosto. Quando o show macabro acabou e a poeira das explosões baixou, ele viu que a única coisa que restava no local era uma imensa cratera, sem nenhum vestígio do que pudesse ter sido Sanur.
Quando olhou para onde antes estava Yalden, percebeu que o corpo ainda estava ali. Ele ainda respirava. Ainda estava de pé. Mas Kyr sabia que Yalden estava vazio.