A Sombra da Maldição
Ryckard pousou as mãos sobre as gigantescas portas de ferro fundido, cobertas de ferrugem. Os intrincados desenhos de rosas e espinhos, símbolo do Reino Eterno de Gallad, tocaram seus dedos. Ele empurrou com todas as forças que ainda lhe restavam, e o metal respondeu com uma recusa por alguns instantes, até ceder em um rangido metálico ensurdecedor.
Um cheiro doce de rosas mesclava-se a um odor pútrido de carne em decomposição e atingiu o rosto de Ryckard como uma bofetada. O salão era iluminado por tochas presas aos pilares centrais. A luz permitiu que ele observasse paredes cobertas pelo que parecia ser carne, cheia de pústulas e feridas. No chão, emaranhados de espinhos e rosas vermelhas espalhavam-se feito um tapete.
Ele seguiu andando, Fendecéus em suas mãos. Caminhou por poucos segundos que pareceram horas, até chegar diante do trono.
– Ora, ora, ora. Finalmente, o glorioso Ryckard, o Glorioso, chegou até mim. Espero sua visita há meses. – A voz fraca vinha do topo da escadaria, de onde se erguia um trono imenso, rodeado por vinhas.
Ryckard sobressaltou-se ao ver a figura ali presente, dando alguns passos para trás. Uma figura esquelética jazia fundida ao trono, numa mescla grotesca de madeira, rosas, espinhos e carne. A coroa se contorcia do encosto até a cabeça da figura.
– O que foi? Esperava algum tipo de necromante ou mago poderoso?
– Sem dúvida, esperava algo diferente de você. – respondeu ele por detrás do elmo que protegia sua cabeça, com a voz entre dentes.
– Ora, vamos. Acreditou que enfrentaria um grande desafio após tudo que preparei para você? Você já se provou digno.
– Preparou para mim? O que quer dizer com isso?
– Todos os inimigos que enfrentou e símbolos que coletou foram preparados por mim. Você deveria se mostrar digno, ou então o reino não poderia morrer.
– Morrer? Não, meu objetivo não é matar o reino. Eu só estou aqui para libertar…
– A maldição é o que impede esse reino de morrer. Libertando-os da maldição, tudo vai ruir. E é para isso que eu fiz você chegar até aqui. Vamos, mate-me! Torne-se o herói que eu te destinei a ser!
Ryckard estacou. O suor escorria por suas têmporas, e a mão que empunhava Fendecéus tremia.
“Então eu fui apenas um fantoche?”
– Vamos, Ryckard. Salve o reino. Acabe com a tortura de todos! Acerte-me no peito!
Ele sabia que o rei falava a verdade. Se o matasse, a maldição cessaria, mas todos morreriam, inclusive ele. Seu coração ribombava. Cerrou os dentes e apertou firmemente o cabo de Fendecéus.
– Não. – Virou as costas para o rei e começou a caminhar em direção à saída.
– O que está fazendo? Volte aqui! Eu o moldei pra ser um herói! Vamos! Me mate! Acabe logo com isso!
Ryckard parou na entrada do salão e, ainda de costas para o trono, disse:
– Não. Não serei feito de marionete. Eu vou encontrar outra maneira. – Sem esperar resposta, seguiu para fora do palácio.
Preso ao trono, o rei observou Ryckard se recusar a cumprir seu papel. Então, um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.