Minha Época
A segunda mordida que Matheus deu naquele pequeno quadradinho doce, recheado de chocolate, o fez chorar. A primeira tinha sido extasiante. Seu cérebro demorou para processar a informação que suas papilas gustativas estavam recebendo. Quando deu a segunda, ele já estava preparado, mas trouxe algo que não podia ser previsto. Aquele sabor extremamente doce, com o chocolate hidrogenado grudando no céu de sua boca, enquanto a base do biscoito era triturada por seus dentes, era inigualável. Jamais tinha se esquecido dele. Chorou, pois algo dentro dele gritava sobre aquilo que agora era inalcançável.
Ele, atualmente, era sufocado por uma rotina extremamente desgastante. Acordou de madrugada, mal tendo tempo de trocar suas roupas, ajeitar seu cabelo e escovar os dentes, e teve que correr para o ponto de ônibus para tomar a sua condução. Caso atrasasse cinco minutos, o perderia. Nunca tinha tempo de tomar um café da manhã digno e, naquele dia, não seria diferente. Correu até o ponto, chegando no exato momento em que o ônibus parava ao seu lado. Ainda arfando, conseguiu subir os degraus, cumprimentou o motorista com a cabeça e passou pela catraca. Ainda tinha alguns bancos vazios, mas todos com pessoas ocupando um dos assentos. Querendo evitar o contato humano logo às cinco e meia da manhã, ele permaneceu de pé. Desenrolou o seu fone de ouvido, plugou-o em seu celular e abriu o aplicativo de música. Decidiu colocar no modo aleatório, para não ter de escolher nada. O sono ainda embotava suas ações.
De surpresa, foi presenteado pelo aplicativo com Déjà Vu, da Pitty, tocando em um dos seus fones. O outro estava queimado. Um aperto em seu peito começou a surgir, com um formigar na boca do seu estômago. O mundo ao seu redor continuava o mesmo, mas, subitamente, ele foi transportado para uma época diferente. Tempos em que sua única preocupação era tirar boas notas e impressionar os pais. Em que lutar pela própria subsistência ou por conquistas materiais eram apenas um futuro que ecoava ao longe. Onde a vida era mais simples. Ir à escola, jogar bola com os amigos e ler alguns quadrinhos. E, após o almoço, voltando dos estudos, passar a tarde assistindo seriados da Disney Channel. Era uma boa época, e Matheus não sabia que sentiria tanta falta. Na verdade, até aquela música jogá-lo novamente em um turbilhão de lembranças sequenciais, ele mesmo não havia percebido como sentia tanto essa ausência.
Dado aquele momento, seu aplicativo lhe jogou em um verdadeiro túnel do tempo, recheado de artistas que ele ouvia nessa época adolescente e nos quais há muito não prestava atenção. Cada música que começava era como uma bofetada, seguida de imagens sequenciais de seus dias sem preocupação. O coração ia se apertando a cada momento rememorado, seguido de um gosto doce, ao mesmo tempo amargo, em sua boca. Seu estômago reclamou. Ele ainda não tinha tomado seu café da manhã e acreditou ser apenas isso. Por um longo período, se permitiu fazer essa viagem, reencontrando em sua mente os amigos que havia muito não via, conversas que nunca percebeu que seriam as últimas, ou até mesmo programas que nunca finalizaria.
Mais de uma hora e meia após o início de seu percurso, deu o sinal ao motorista e então desceu do ônibus. Caminhou por alguns metros até parar em um mercadinho bem próximo ao seu local de trabalho. Com o estômago roncando, parou para comprar algo para saciar sua fome. Foi direto ao corredor dos biscoitos recheados. Imediatamente, seu olho captou, por uma fração de segundo, em uma das prateleiras, uma embalagem muito antiga. Por mais de quinze anos, ele não tinha visto novamente aquele pacote azul-escuro, escrito em branco e marrom, “Mousse Sabor Chocolate”, com desenhos dos biscoitos recheados, com uma mordida ilustrando-o. A marca da bolacha, como Matheus gostava de chamar, em seu logotipo vermelho, contrastava de uma forma muito engraçada, como ele sempre pensara. Era o mesmo biscoito que ele comia quase toda semana quando chegava do curso de inglês. Não pensou duas vezes, pegou um e se dirigiu ao caixa. Pagou os dois e cinquenta da bolacha, reclamou consigo mesmo de como estava tudo caro. Ela custava menos de um real na sua época. “Minha época”, pensou novamente, e deu um sorriso.
***
Saiu da mercearia e foi logo abrindo o pacote, continuando a caminhar rumo ao seu trabalho. Faltavam quinze minutos para ele iniciar sua exaustiva, detestável, mas necessária jornada de trabalho. Olhou bem para o biscoito que segurava, lembrando exatamente da sensação de quando abria um pacote como aquele, e então mordeu-o.
O sabor doce e reconfortante atravessava sua boca, trazendo uma lembrança infantil que o fez sorrir involuntariamente, mesmo enquanto lágrimas corriam de seu rosto, em uma torrente que não sabia explicar.
- Matheus, cê tá chorando, cara? - Cláudio, seu colega de trabalho, que também acabara de descer do ônibus, se deparou com aquela cena sem saber o que se passava com seu colega. - Tá tudo bem?
- Tá tudo tranquilo, cara. Só percebi que o tempo passou… Aceita uma? - Ofereceu o pacote ao colega, e juntos caminharam em direção ao escritório.