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Inventário de Coisas Humanas · A Moça da Janela — Wilker Sousa

Por Wilker Sousa

Um conjunto de contos criados em oficinas, desafios literários ou mesmo devaneios em um dia céu nublado.

A Moça da Janela

Aquele frio na barriga atingiu Guilherme, seguido pelo corriqueiro arrepio na espinha e pelo coração acelerado, quando fez sinal para o ônibus encostar. Umedeceu os lábios, ansioso por encontrá-la novamente. Seu peito parecia ecoar o ritmo da bateria de Panic! At The Disco que tocava em seu fone. Assim que o ônibus parou, subiu os degraus e cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça. Instintivamente, seus olhos percorreram o veículo à procura dela. Estava cheio, mas não lotado, com todas as cadeiras ocupadas. Ele buscava uma em específico.

Quase no meio do ônibus, ao lado da janela, estava uma linda garota. Os cabelos lisos e negros como a noite caíam sobre os ombros. Os olhos castanho-escuros eram protegidos por óculos de aros pretos discretos. Uma pequena cicatriz marcava sua testa. Assim como Guilherme, ela usava fones, alheia ao burburinho ao redor. Mantinha os olhos abaixados sobre um livro. Quando percebeu a parada em que estavam, porém, levantou os olhos, que por alguns segundos permaneceram presos aos de Guilherme.

“Como ela é linda”, pensou ele, quando ambos deram um sorriso envergonhado e interromperam a troca de olhares. Ele caminhou até ficar a uma distância nem tão longe, nem tão perto. Tinha vergonha de se aproximar. Aquele encontro silencioso acontecia havia mais de dois meses, e ele nunca reunira coragem para puxar assunto. Desde a primeira vez que a vira, passara a esperar ansiosamente por aqueles pouco mais de trinta minutos de viagem. Eram os melhores minutos de sua manhã. A cada vez que seus olhares se cruzavam, um breve sorriso bastava para deixar seu peito em brasa.

Sua cabeça girava, pensando em maneiras de conversar com ela, mas sempre era freado por algo que lhe dizia para adiar até a manhã seguinte. Talvez aquele olhar, antes de ela descer em sua parada, pudesse ser um adeus. Entre puxar assunto e se manter distante, seus pensamentos se digladiavam, fazendo suas mãos suarem enquanto segurava a barra de apoio do ônibus.

A moça fechou o livro. Deu mais um sorriso doce para Guilherme, que sentiu as pernas derreterem e uma escola de samba substituir seu coração. Pediu licença à senhora ao lado e deu sinal para o ônibus parar. Virou as costas para ele e dirigiu-se à porta. Guilherme ainda teria de ficar mais cinco minutos no ônibus. Por mais um dia, não conseguiria falar com ela.

Então, por um capricho do destino, uma chave caiu do bolso de trás da mochila que ela carregava, sem que percebesse. Guilherme correu, pegou-a e foi atrás da moça. Apertou o passo até alcançá-la e tocou seu ombro. Ela se virou assustada, mas, ao vê-lo, sorriu desajeitadamente e retirou o fone.

— Sim?

— Sua chave... Digo, você deixou cair essa chave - disse ele, encabulado, com a voz mais esganiçada e falhada do que imaginava.

— Nossa, muito obrigada. Você não tem noção do desespero que seria quando eu descobrisse que havia perdido.

— Ainda bem que consegui te alcançar a tempo.

Ela pegou a chave, e ficaram alguns segundos em silêncio. Até que ele arriscou:

— Er... qual é seu nome mesmo?

— Júlia - respondeu ela, animada, como se o fato de ele ter continuado a conversa a agradasse. - E o seu?

— Guilherme. Muito prazer, Júlia.

— Igualmente. Adorei seu chaveiro. - Ela indicou com a cabeça a mochila de Guilherme.

— Ah, sério? É de um joguinho de cartas que jogo com uns amigos. Você conhece?

— Não. Do que se trata?

E seguiram caminhando, Guilherme explicando para ela as regras do jogo.

Naquela manhã, a chave que ela perdera acabou abrindo a conversa que Guilherme nunca tivera coragem de começar.