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O caminhante das trevas · Prólogo — Anderson Amorim

Por Anderson Amorim

Prólogo

O relógio marcava 3h17 da manhã, James gostava desse horário. O mundo real ficava em silêncio, e o sossego era tudo que ele buscava.

Deitado no chão do quarto, um colchonete fino nas costas, respiração controlada, nada de rituais sem incenso, só técnica. Anos praticando projeção astral tinham tirado todo o misticismo, era como nadar depois de aprender o movimento, confia, e solta o corpo.

Ele sentiu o formigamento nos pés, subiu pelas pernas, o peito ficou leve, aquele puxão conhecido na altura do umbigo.

Dessa vez foi diferente.

O puxão não veio de cima, veio de baixo, não era a leveza de flutuar, era um gancho. Algo fisgou seu peito e puxou, James tentou abortar era tarde demais, a vibração virou ruído, o ruído virou grito. Não um som que ele ouvia com os ouvidos, um som que acontecia dentro dos ossos.

Ele abriu os olhos astrais e viu o quarto se distorcendo, as paredes não derretiam elas se dobravam para dentro, como papel molhado. No chão o livro, fiel amigo e companheiro das batalhas internas se abre sem a menor intervenção e não mostra palavras, mas sim um buraco.

Do buraco, braços, muitos, compridos demais, sem pele eles não o agarraram apenas apontaram. E quando indicaram, James caiu, não caiu para cima, como sempre fazia a queda foi literal, para baixo através do colchonete. Através do assoalho, através de camadas e mais camadas de alguma coisa fria a última coisa que pensou antes do impacto foi: eu não consigo sentir meu corpo.

Depois, nada, e o livro seguiu aberto.