Pular para o conteúdo

O caminhante das trevas · Espelho quebrado — Anderson Amorim

Por Anderson Amorim

Espelho quebrado

O primeiro sentido que volta é o olfato.

Chuva velha, ferro molhado, carne deixada no sol por três dias. E por baixo disso, um doce enjoativo, como fruta podre fermentando numa lata fechada. Abro os olhos, o céu é uma ferida um laranja sujo, sem sol, sem nuvem, sem profundidade. Só uma luz doente estagnada lá em cima, como se o dia tivesse morrido às 18h e ninguém teve coragem de tirar o corpo, parece que não tem horizonte.

A cor só desbota nas bordas do mundo até virar cinza de cinzas. Estou deitado no asfalto, rachado, com mato nascendo das fissuras, mas o mato não é verde ou marrom como mato seco. É preto, quebradiço, e quando o vento que não existe bate, faz um som de unha raspando em vidro.

Reconheço a rua na hora Rua General Osório, a rua da padaria. Quando eu tinha 10, ou 11 anos vinha muito nessa padaria, tentando fugir do ambiente caótico de casa, sempre um clima de guerra no ar, a família do meu pai contra família da minha mãe, meu pai brigando com a minha mãe, minha mãe brigando com vizinho, um barulho interminável, então pegava minha bicicleta e aqui era meu esconderijo, mesmo que no final não fosse.

Só que a padaria agora é um buraco, a fachada desabou para dentro, como uma boca sem dentes. As casas ao redor são cascas ocas, janelas como olhos vazios, e dentro delas, escuridão que não devolve o olhar. Carros enferrujados parados no meio da via, cobertos por um musgo cinza que pulsa, de leve, no ritmo de um coração com arritmia. Parece o nosso mundo, mas tudo destruído, uma realidade pós bomba nuclear ou algo assim.

Me levanto, o corpo parece o meu, sinto os calos nos dedos da mão esquerda por conta do violão, outra fuga da realidade, a música sempre foi uma calmaria em um ambiente barulhento. Cicatriz na sobrancelha esquerda de uma briga na escola, brigava muito, acho que para liberar toda a raiva ou frustração que acumulava em casa. Calça jeans, camiseta preta.

Tudo certo, mas ao mesmo tempo, tudo errado.

O mundo que eu visitava nas projeções era diferente, era como se fosse o nosso universo, como se eu estivesse me vendo e enxergando tudo ao redor, algo simples nada ameaçador, era seguro.

Minha pele formiga como se fosse adormecer em dois segundos. Encosto a mão no braço e a sensação vem com atraso, meio segundo depois, como um eco. Como se meu corpo e eu estivéssemos mal sincronizados. Como se uma parte tentasse voltar e a outra quisesse ficar aqui.

Tento gritar. “Tem alguém aqui?”

O som morre na garganta, não ecoa, não viaja. Cai no chão aos meus pés como uma pedra invisível e vira poeira.

Primeira regra desse novo lugar, silencio. Aprendo sozinho, na marra, o barulho não funciona direito aqui. Ou o mundo engole, como se mesmo sendo um lugar aparentemente vazio, não existisse o eco como conhecemos. Ou algo pior escuta. O silêncio é tão absoluto que ouço meu sangue correndo nas orelhas, e por baixo disso, longe, um som novo. Um arrastar, metálico, rítmico. Correntes sendo puxadas por um corredor sem fim, vem do Leste, sempre do Leste, eu acho, ainda não sei.

Comecei com projeção astral ainda muito pequeno, lembro de ter desenhado a mim mesmo voando e me olhando na cama, foi uma confusão explicar o desenho em casa. Descobri que se eu me concentrasse forte o bastante, se eu prendesse a respiração do jeito certo, eu saía. Saía do quarto, saía dos gritos, saía de mim. O astral era o único lugar silencioso naquela casa. Virou fuga, virou rotina e por fim, virou vício. Tive duas noites, aos doze e aos quinze, em que o silêncio quase venceu de outro jeito.

Por pouco não fiquei, a projeção me puxava de volta, era a meu acordo comigo mesmo: enquanto eu conseguisse sair, eu aguentava ficar. Fui ficando bom nisso, oito anos, dezesseis anos, e agora, dezessete. Nunca me perdi, nunca até hoje, ainda não sei onde exatamente estou dessa vez.

Começo a notar movimentos nas sombras, vultos ou sombras com formas amórficas, não reconheço de cara e como ainda não sei onde estou me preocupo com o que possam ser, se estou em perigo.

Dou um passo para trás, o asfalto estala sob o meu tênis, o som é alto demais, agudo. Parece errado, como uma nota quebrada em um piano, as formas na névoa baixa se viram. Todas de uma vez, sincronizadas, são silhuetas humanas, mas os contornos tremem, como se alguém tivesse desenhado e borrado com o dedo. Agora já sei o que são, mesmo sem nome. Em os chamo de Os Ocos, vazios, gente sem pessoas dentro um eco de almas, mesmo em viagens normais os ocos estavam lá como se fossem criaturas que se perderam e não voltaram, como partes de almas perdidas no vazio imenso que é o outro lado. O arrastar metálico para, por um segundo o mundo prende a respiração junto comigo.

Depois recomeça, mais rápido, vindo na minha direção, como se o metal estivesse sendo friccionado no asfalto quebrado, não são ocos, essas criaturas não são ameaçadoras, esse som é assustador e ao mesmo tempo confuso, pois o som aqui não se propaga como no mundo normal, não consigo dizer certo de qual lado está vindo, o que quer que seja a causa do barulho e de onde quer que esteja vindo, está vindo para cima de mim e rápido.

Corro, entro no que um dia foi a padaria, o cheiro de ferro fica mais forte, misturado com o doce podre, no balcão, pães, todos mofados, mas inteiros. Cobertos por um verde-azulado que se mexe se eu olhar por muito tempo, como se o mofo respirasse, como se o momento tivesse parado no exato segundo que apodreceram e decidido morar ali. Me encolho atrás do balcão e tapo a boca com a mão, meu coração bate tão forte que dói as costelas e o som sai pelas têmporas. Em todo esse tempo de viajem nunca senti esse medo gutural, como se eu tivesse a certeza que não conseguiria sair mais.

Lá fora, o arrastar passa pela porta, para, uma sombra cobre a entrada, alta e magra. Os braços são compridos a ponto de as mãos arrastarem no chão, e no lugar de dedos tem lâminas de osso, o que é essa criatura, pergunto a mim mesmo em pensamento.

Um Carniçal, a palavra aparece na minha cabeça sem que ninguém fale, esse lugar sussurra as próprias regras direto no cérebro. A criatura fareja, o som da respiração parece lixa no metal, o rosto pouco a mostra encoberto por um capuz, resquício de um sobretudo ou casaco rasgado, enfia a cabeça sem semblante para dentro da padaria.

Onde deveria ter feições, existe só uma placa lisa de couro repuxado, com uma boca vertical costurada com arame farpado, fica ali por um tempo que não dá para medir, parece uma serpente medindo e sentindo com a língua. O tempo aqui é elástico, estica e afrouxa sem avisar.

Depois de um tempo ele segue o arrastar diminui rua abaixo, voltando pro leste, eu acho, fico minutos sem me mexer, quando crio coragem para olhar pela janela quebrada, vejo uma torre.

Longe, no centro de tudo, onde deveria ser a praça da matriz, vejo a catedral, ela é o núcleo da cidade, está no lugar onde pode ver tudo, só que de ponta cabeça, as torres góticas apontam para o chão, quase encostam no asfalto, parando próximas o suficiente para achar que seria capaz de alcançar sem esforço. A base, com rosáceas e gárgulas, flutua no céu de crepúsculo, girando devagar. Dos vitrais não sai luz, sai uma fumaça negra que sobe e vira parte do céu. Lembro da frase que não sei de onde veio, não é uma memória é como um aviso, enfiado direto no cérebro como o nome da criatura: não olhe para torre.

Tarde demais. Já olhei.

Alguma coisa lá dentro olha de volta, não com olhos, com uma presença, com fome. Uma fome antiga, com o gosto do meu nome, sinto a palavra “James” sendo mastigada em algum lugar distante. Um calafrio desce pela minha espinha, não é medo puro, é reconhecimento. Como se a torre soubesse não só meu nome, mas o peso que carrego desde as duas vezes que quase não voltei, da névoa à minha esquerda vem outro som, o Carniçal havia retornado.

Como se algo ou alguém o tivesse avisado que alguém estava na padaria ele não precisou procurar veio direto onde eu estava, como se já soubesse, pude olhar mais de perto a feição retorcida no seu rosto as lâminas nas mãos, eram ossos afiados como se os dedos não tivessem mais pele e somente as falanges e os tendões restavam. O corpo esguio escondia marcas, como tatuagens, porém vermelhas e pulsantes como algo querendo sair. Fiquei quieto e prendi a respiração, pois como não vi nenhum olho imaginei que não me enxergaria mas me ouviria, mas não, ele sente o medo, e, portanto, estava me enxergando.

O Carniçal se arrasta para mais perto, a saliva que pinga da boca dele chia no chão, abrindo buracos no concreto como se fosse ácido. Ele não tem pressa, sou um rato encurralado e ele sabe. Levanta as garras, cinco lâminas de osso, cada uma do tamanho da minha mão, mira o meu peito, fecho os olhos, por instinto. Se vou morrer, que seja sem ver, em meu subconsciente peço ajuda, se alguém estiver me ouvindo, socorro.

A resposta vem, de trás, parece vir pelas minhas costas, mas não é somente um som e sim um impacto.

Uma coisa de dois metros e meio atravessa a vitrine da padaria sem quebrar o vidro. Simplesmente passa, como se o vidro fosse névoa.

É corcunda, feita de madeira podre, mas ao mesmo tempo viva, úmida, braços e pernas com juntas demais, dobrando em ângulos que gritam errado. Uma barba longa, trançada com arame farpado que vai até a altura da cintura e adornada com ossos pequenos, parecem falanges de dedos. Os olhos são buracos, não vazios, preenchidos com uma sombra que se mexe, oleosa como piche denso, sem pupila, sem íris, como se o interior da criatura estivesse exposta nos olhos.

O Carniçal sequer tem tempo de virar, A criatura corre, desliza, como se flutuasse no chão, alguém que conhece muito bem aquele mundo. Em um segundo está do outro lado do balcão, no outro já está com a mão nodosa fechada na garganta do Carniçal. O som que sai não é de carne, é de árvore seca partindo. Creck. O Carniçal guincha, um som agudo, de metal torcendo. As garras dele rasgam o ar, tentam alcançar a criatura que o ataca e ao mesmo tempo me salva, mas batem em madeira e ricocheteiam, soltando faíscas e lascas de lenha.

A criatura não faz força é como se estivesse segurando um saco de ração, como se não pesasse nada, ele só torce. Antes de concluir o ataque, olha para mim encolhido no canto e o seu nome surge na minha cabeça GRYDOR, não há tempo para questionar ou para pensar se já ouvi este nome antes.

Com a mão livre, Grydor, agarra a cabeça alongada do Carniçal pela mandíbula, e puxa. Não é rápido, é metódico, como arrancar erva daninha pela raiz. A coluna do Carniçal estica, vértebra por vértebra, com estalos úmidos, a gosma preta jorra, mas evapora antes de tocar Grydor, como se o corpo dele fosse quente demais para aquilo.

Com um último estalo oco, a cabeça se solta. Grydor segura ela pelo maxilar, olhando para o buraco vazio dos olhos sem boca, o corpo do Carniçal fica de pé por um segundo, tremendo, antes de desmoronar no chão como um saco de ossos molhados. Vira pó e fumaça, e nada. Grydor joga a cabeça no chão. Ela bate no chão uma vez, duas, e também vira névoa, somente as lâminas de ossos ficam no chão quase como um prêmio, Grydor as apanha e coloca em uma bolsa feita de madeira na lateral do corpo, parece uma sacola, mas acho que faz parte do seu organismo.

O silêncio volta e regressa com peso.

Grydor não olha para mim, olha para o teto da padaria, para cima, para o centro da cidade, para Catedral Invertida que gira devagar no céu. Como uma resposta ao que quer que esteja lá dentro, como um guardião das pessoas perdidas naquela realidade espelhada, falando no silêncio, o sossego só é quebrado por ele, com uma voz rouca, grave, quase como se fosse um rosnado:

“Ja-mes.”

Meu nome, é como se todos ali, incluindo o que quer que estivesse na catedral me conhecesse e eu os conhecesse também, pelo menos tenho essa sensação.

Depois vira as costas, os braços tortos balançam, as correntes de osso no tornozelo arrastam no chão com um som oco. Clec. Clec. Clec. Grydor já está indo, para o fundo da padaria, para uma escuridão desconhecida, um pedaço da padaria que pelo que eu me lembro não existia.

Devo segui-lo?