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O Décimo Terceiro · Como fracassar com excelência — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver.

Como fracassar com excelência

Minha mãe agradecia aos deuses por eu ser inútil. Nunca dizia “inútil”. Dizia “seguro”, que era uma palavra muito melhor para quase a mesma coisa.

Naquela manhã, ela colocou as duas mãos sobre meus ombros e me segurou como se eu pudesse fugir antes de chegarmos às preliminares.

— Lembre-se do que combinamos.

— Não chamar atenção.

— E?

— Ir mal sem parecer que estou indo mal.

— Principalmente no combate.

— Eu sei.

Os dedos dela apertaram meus ombros um pouco mais.

— Mãe, você vai arrancar meus braços.

Ela afrouxou as mãos, mas não me soltou.

— Estou nervosa.

Eu tinha percebido. Minha mãe passara a semana repetindo o plano, conferindo as regras e perguntando se eu continuava sem sentir nada diferente. Na noite anterior, entrou duas vezes no meu quarto para ter certeza de que eu estava dormindo. Na segunda, eu estava. Na primeira, fingi melhor.

— Vai dar certo — falei.

Ela me olhou de um jeito que dizia que esse era exatamente o tipo de frase que fazia uma mãe imaginar tudo dando errado.

— Só faça o que combinamos, Thaniel.

— Eu vou fazer.

Dessa vez, não brinquei. Ela percebeu e enfim me soltou.

Atenas despertava ao nosso redor. As pedras da rua ainda guardavam a umidade da madrugada, e o ar cheirava a pão quente, óleo, poeira e incenso. Acima dos telhados, as colunas do grande templo de Atena recebiam os primeiros raios do sol.

Era difícil esquecer quem governava nossa cidade. Havia estátuas nas praças, sacerdotes nas ruas e corujas gravadas em quase toda parede importante. Atena nos guardava. Zeus nos protegia. Os Doze haviam salvado a humanidade. Ninguém parecia correr o risco de esquecer, mas os sacerdotes continuavam lembrando por garantia.

Naquele dia aconteceriam as preliminares do Grande Agón. Todo cidadão com dez anos ou mais precisava se apresentar. Não importava se possuía um Dom capaz de partir pedras, fazer flores crescerem no inverno ou apenas esquentar a sopa sem usar fogo. Também não importava se tinha oitenta anos e precisava de ajuda para subir uma escada.

A cada dez anos, Atenas media seus cidadãos. Os vinte e quatro melhores seriam levados à Assembleia. Entre eles, doze receberiam a grande honra de representar a cidade no Agón.

Minha mãe queria meu nome o mais longe possível dessa lista. Eu também queria. Pelo menos, era o que dizia a mim mesmo desde que ela me explicara o plano.

Começamos a andar. As ruas estavam mais cheias do que de costume, tomadas por carroças, famílias e candidatos com cara de quem preferia continuar na cama.

— Só não exagere — minha mãe disse.

— A senhora acabou de mandar que eu vá mal.

— Mandei que não se destaque. Se cair em todas as provas, alguém vai perceber.

— Então preciso fracassar na medida certa.

— Precisa ser esquecível.

Ela falou a última palavra com cuidado, como se ser esquecido fosse uma coisa boa. Naquele dia, provavelmente era.

— A senhora pensou bastante nisso — falei.

— Pensei por dez anos.

Depois dessa resposta, não encontrei nada engraçado para dizer.

Meu avô havia participado do Grande Agón. Quando descobriam, as pessoas perguntavam até qual prova ele chegara, qual era seu Dom e se havia alguma estátua em sua homenagem. Para minha mãe, a história era bem mais curta.

Ele não voltou.

As honrarias vieram depois. Fitas foram amarradas diante de uma escultura, sacerdotes falaram sobre coragem e muita gente que não o conhecera disse que morrer por Atenas era um privilégio. Nada disso fez minha mãe crescer com um pai.

Por isso, quando ela dizia que eu era seguro, queria dizer que eu estava vivo e pretendia continuar assim.

Até aquela manhã, eu concordava quase por inteiro.

Viramos numa rua estreita e encontramos a loja do velho Nélios aberta. Era impossível não encontrá-la. Nélios acreditava que as pessoas comprariam qualquer coisa, desde que tropeçassem nela primeiro. Tecidos, sinos de bronze, bolsas, ferramentas, amuletos e duas gaiolas vazias ocupavam a parte da rua que deveria servir para caminhar.

Ele estava sentado diante da porta, prendendo as sandálias. Tinha os cabelos quase brancos, barba curta e rugas suficientes para provar que passara anos demais debaixo do sol. Era velho, mas não parecia fraco. Seus ombros continuavam largos, os antebraços tinham marcas antigas e suas mãos pareciam mais preparadas para quebrar uma mesa do que para contar moedas.

Nélios ergueu os olhos.

— Vocês demoraram.

— Não combinamos um horário — respondi.

— E você já começou o dia discutindo.

Minha mãe parou diante dele.

— Você também vai?

— Mandaram.

— Não está velho demais para isso?

Nélios puxou a tira da sandália com mais força do que precisava.

— Para trabalhar, talvez. Para os deuses, ninguém fica velho demais para ser usado.

Ele disse “deuses” de um jeito diferente. A palavra saiu curta e dura. Nélios já era pouco sorridente, mas, sempre que alguém falava dos Doze, até a pouca gentileza que ele guardava parecia desaparecer.

Levantou-se e começou a recolher as mercadorias mais próximas da porta. Movia-se depressa para alguém que reclamava da idade quase todos os dias.

— Vai deixar aquelas ânforas do lado de fora? — perguntei.

— Vou.

— Alguém pode roubar.

— Não vai.

— Porque todos gostam muito do senhor?

Nélios parou com um sino de bronze na mão e me encarou.

— Você sabe como chatear alguém, garoto.

— Eu estava preocupado com a loja.

— Claro.

Ele guardou o sino, pegou um manto e tornou a olhar para mim. Depois olhou para minha mãe. Não sei o que viu; talvez o modo como ela ainda apertava as mãos ou o fato de ter verificado três vezes se minhas sandálias estavam bem presas. Com Nélios, podia ser qualquer coisa.

— Faça exatamente o que sua mãe mandou — disse ele. — E não invente coragem hoje.

Minha mãe ficou imóvel.

— Eu não contei nada a você.

— Não precisava, Melissa.

Nélios fechou a porta da loja e passou por nós.

— Vão ficar aí?

Minha mãe soltou o ar pelo nariz e começou a segui-lo. Fui atrás dos dois. Nélios não perguntou qual era o plano, e nós não explicamos. Mesmo assim, eu tinha certeza de que entendera quase tudo.

Isso era irritante. Eu gostava dele, apesar desse defeito.

As preliminares aconteciam no complexo de treinamento público, ao sul do templo. O lugar parecia ter engolido metade de Atenas e colocado a outra metade numa fila. Soldados separavam os participantes por idade, escribas corriam de um lado para outro com placas de registro e sacerdotes marcados pela coruja vigiavam os avaliadores.

Havia Dons por toda parte.

Enquanto esperávamos, uma mulher fez pequenas pedras se erguerem do chão e girarem ao redor dos pulsos. Um homem três posições à frente de Nélios cobriu os braços com uma camada escura, parecida com metal. Perto de nós, uma menina que devia ter dezesseis anos mantinha uma chama dançando entre os dedos enquanto o pai dava instruções que ela não ouvia.

Observei a chama por tempo demais. Minha mãe tocou meu ombro, e voltei a olhar para a fila.

Na maioria das pessoas, um Dom não era grandioso. Meu vizinho pressentia chuva. A padeira mantinha o forno quente com as mãos. Um professor da minha rua nunca esquecia o que lia, embora ainda não percebesse quando os alunos dormiam durante a aula. Existiam Dons úteis, inúteis, perigosos e alguns que só pareciam importantes depois que a história era repetida muitas vezes.

Quase todo mundo, porém, tinha alguma coisa.

Eu nunca tivera. Nenhuma chama, nenhuma visão, nenhum objeto se movendo sozinho. Nada.

Isso não significava que eu fosse seco. Alguns Dons despertavam tarde; outros eram tão discretos que só apareciam durante uma avaliação oficial. Era essa possibilidade que assustava minha mãe. Eu podia passar dez anos sem manifestar nada, tocar o artefato naquela manhã e descobrir uma Centelha forte o bastante para colocar meu nome entre os vinte e quatro.

Era pouco provável. Para minha mãe, “pouco provável” apenas significava que uma coisa ruim ainda podia acontecer.

Por isso eu precisava ir mal no restante. Mal o bastante para que nenhuma surpresa dos deuses me empurrasse para o alto da lista, mas não tanto que alguém começasse a fazer perguntas.

— Thaniel.

Percebi que minha mãe falava comigo.

— Estou ouvindo.

— Não está.

Ela apontou para o começo da fila.

— Sua vez.

A primeira avaliação era simples: demonstrar o Dom. O homem responsável segurava uma placa de madeira e tinha a expressão de quem já passara a manhã inteira ouvindo pessoas garantirem que eram mais especiais do que pareciam.

— Nome?

— Thaniel.

— Idade?

— Dez.

— Dom conhecido?

— Nenhum.

Ele ergueu os olhos.

— Nunca manifestou?

— Não.

— Tente.

— Tentar o quê?

— Qualquer coisa que já tenha sentido vontade de fazer.

Eu teria preferido uma instrução melhor. Estendi a mão e fiquei olhando para ela. Quando nada aconteceu, prendi a respiração e fechei os olhos, porque as pessoas pareciam fazer isso quando queriam muito que alguma coisa funcionasse.

Não funcionou.

Quando abri os olhos, minha mão continuava sendo apenas uma mão. O avaliador ainda esperava.

— Sentiu alguma coisa? — perguntou.

— Minha mão.

Ele esperou um pouco mais.

— Só isso — acrescentei.

O homem fez uma anotação. Tive vontade de perguntar o que escrevera, mas vi minha mãe atrás dele e decidi que já havia falado o bastante.

Depois vinha o artefato. Ele me interessava mais do que eu queria admitir.

A estrutura de pedra clara, apoiada numa base de bronze, chegava ao meu peito. Cada participante colocava a palma sobre uma superfície negra, e linhas de luz mostravam a Centelha encontrada.

Um homem acendeu duas linhas. A mulher seguinte alcançou quase o dobro. A menina da chama ficou muito acima da média e arrancou murmúrios da fila. Ela sorriu para o pai. Ele sorriu de volta como se já a enxergasse entre os escolhidos.

Minha mãe tocou meu ombro.

— Não importa o que aparecer...

— Se aparecer.

— Thaniel.

— Eu ouvi.

O problema era que eu não sabia como terminava aquela frase. Talvez ela fosse dizer que ainda encontraríamos um jeito. Talvez dissesse que continuaria me amando. Eu já sabia disso. Quando minha mãe começava uma frase assim, normalmente significava que estava com mais medo do que eu.

Chegou minha vez.

Estendi a mão e parei antes de tocar a pedra. Foi só um instante, mas minha mãe percebeu. Ela sempre percebia as coisas que eu preferia esconder.

Durante semanas, eu dissera que não queria encontrar nada. Durante meses, fizera piadas sobre ser seco. Durante anos, crescera ouvindo que minha falta de Dom talvez fosse a única coisa capaz de me manter longe do Grande Agón.

Eu sabia que era melhor não ter nada.

Mesmo assim, queria que a pedra reagisse.

Não precisava ser muito. Uma linha, um brilho, qualquer coisa. Eu podia aquecer chá, enxergar no escuro ou saber quando alguém mentia. Não precisava ser forte. Só queria que houvesse alguma coisa dentro de mim.

Coloquei a mão sobre a pedra.

Ela permaneceu escura.

Esperei. O sacerdote franziu a testa, mexeu numa peça da base e pediu que eu tentasse outra vez. Tirei a mão e tornei a colocá-la. A superfície negra devolveu meu reflexo, mas não produziu uma única linha de luz.

— Zero — declarou ele.

Eu já sabia que seria zero. Ou achava que sabia. Ouvir em voz alta foi diferente.

Zero significava nenhuma Centelha detectável, nenhum Dom e nenhuma razão para alguém se lembrar do meu nome. Seco, oficialmente.

Era o que queríamos.

Não pareceu uma vitória.

— Pode seguir — disse o sacerdote.

— Certo.

Minha mãe me encontrou alguns passos depois. Sorriu pouco, como se um sorriso maior pudesse me machucar.

— Está tudo bem?

— Está.

Ela esperou.

— Era o que queríamos — falei.

— Eu sei.

Minha mãe não tentou me convencer a ficar feliz. Apenas apertou minha mão e caminhou comigo até a próxima fila. Gostei disso. Também odiei que ela soubesse que eu precisava daquilo.

Os testes físicos foram mais fáceis de estragar. Correr, carregar peso, subir e saltar não exigiam que eu descobrisse alguma coisa que nunca tivera. Bastava esconder parte do que conseguia fazer.

Eu não era o melhor em nada, mas também não costumava tropeçar nos próprios pés. Reduzi o ritmo depois da primeira volta, larguei a carga cedo e bati a ponta da sandália numa barreira. Quase caí de verdade. Minha mãe me lançou um olhar do outro lado da área.

Ela queria que eu fosse esquecido, não que me tornasse conhecido como o menino incapaz de atravessar uma pista.

Melhorei um pouco nas etapas seguintes.

Logo descobri que fracassar de propósito dava mais trabalho do que simplesmente tentar. Isso me pareceu injusto.

Nélios conseguiu resultados perfeitamente comuns. Correu melhor do que alguns homens mais jovens e pior do que outros. Levantou uma carga respeitável, sem impressionar ninguém, e terminou numa posição que não valia uma segunda olhada.

Quando saiu da pista, respirava mais forte. Pouco depois, já respirava normalmente.

Ofereci-lhe o cantil.

— O senhor podia ter corrido mais.

Nélios bebeu antes de responder.

— Você também.

— Eu tinha um motivo para não correr.

Ele devolveu o cantil.

— Guarde o fôlego para os seus próprios problemas, garoto.

Não era uma resposta. Pelo modo como começou a andar, ficou claro que eu não receberia outra.

Minha mãe foi pior do que nós dois, sem precisar fingir. Cumpriu as etapas com a calma de quem esperava numa fila para comprar pão. Quando terminou, limpou as mãos na túnica e pareceu aliviada por não ter quebrado nada.

Fiquei um pouco ofendido por ela conseguir fracassar com tão pouco esforço.

A última avaliação era o combate: três rounds, armas sem corte, proteções leves e nenhuma intenção de matar. Essa última regra me pareceu a mais importante.

Meu adversário se chamava Dorian. Tinha quatorze anos, era maior do que eu e, para minha infelicidade, sabia usar o bastão que recebeu.

Ele atacou primeiro. Desviei por pouco e senti a madeira passar diante do meu nariz. No golpe seguinte, percebi que avançava o pé direito antes de atacar pelo lado esquerdo. No terceiro, vi que demorava a levantar a guarda quando errava.

Era uma abertura. Se eu avançasse assim que o bastão passasse, conseguiria acertar seu ombro.

Mas não era isso que eu deveria fazer.

Afastei-me, esperei o ataque seguinte e deixei que o bastão atingisse minha proteção lateral. O avaliador marcou o ponto. Minha mãe assistia do outro lado da área. Não precisei olhar para saber que aprovava.

No segundo round, Dorian repetiu o movimento. Pé direito, golpe pela esquerda, guarda baixa. A abertura apareceu outra vez, maior do que antes.

Não a usei.

Ele marcou o segundo ponto.

No terceiro, Dorian sorriu. Não parecia cruel; estava apenas contente porque ia vencer. Mesmo assim, tive vontade de acertá-lo. Imaginei o bastão encontrando seu ombro e o sorriso desaparecendo. Um ponto não me colocaria entre os vinte e quatro. Provavelmente não faria diferença alguma.

Provavelmente era uma palavra perigosa. Minha mãe passara dez anos me ensinando isso.

Pensei no meu avô e baixei o bastão.

Dorian não hesitou; a madeira bateu firme contra a minha proteção e o avaliador gritou o fim da luta. Três rounds a zero.

Nélios me esperava na saída.

— No segundo round — disse ele.

— O que tem?

— Você viu a oportunidade.

Olhei para Nélios. Ele me observava com o mesmo rosto que usava quando alguém oferecia pouco por uma mercadoria.

— É, eu vi.

Nélios assentiu uma única vez.

— Imaginei.

Foi embora antes que eu perguntasse como sabia. Talvez já soubesse que eu perguntaria.

Os resultados foram anunciados pouco depois do meio-dia. Centenas de nomes e pontuações cobriam grandes painéis, e a multidão se apertava diante deles em busca de motivos para comemorar ou para fingir que não se importava.

Minha mãe abriu caminho comigo. Encontramos o nome dela primeiro, bem longe dos vinte e quatro. Nélios aparecia quase no meio da tabela, tão comum quanto parecera durante as provas.

Então começamos a procurar o meu.

Descemos pelo painel. Continuamos descendo até minha mãe franzir a testa.

— Você não precisava ter ido tão mal.

— O objetivo não era ir mal?

— O objetivo era desaparecer. Colocações muito baixas chamam atenção.

Isso teria sido uma informação útil antes das provas.

Encontramos meu nome na última linha.

Thaniel. Último lugar.

Fiquei olhando para ele. Minha mãe também. Nélios surgiu atrás de nós e leu por cima do meu ombro.

— Último — disse.

— Eu percebi.

— Você realmente fez questão.

— Não fiz.

Nélios continuou me encarando.

— Talvez um pouco — admiti.

— Não era bem isso o que eu tinha em mente — murmurou ela, correndo os olhos ao redor para ver se alguém apontava para nós.

Mas o nome estava longe dos vinte e quatro. Longe de tudo. Minha mãe tentou esconder um sorriso. Não conseguiu. No instante seguinte, puxou-me para um abraço apertado o bastante para erguer meus calcanhares do chão.

— Mãe.

— Eu sei.

— Todo mundo está olhando.

— Deixe olhar.

Por cima do ombro dela, observei os vinte e quatro nomes destacados no alto do painel. Famílias choravam, candidatos erguiam os braços e desconhecidos ofereciam felicitações. Até o anoitecer, aquelas pessoas seriam tratadas como o melhor de Atenas. Depois, doze receberiam aquilo que todos chamavam de maior honra possível.

Olhei outra vez para meu nome na última linha.

Eu tinha escapado.

Então me lembrei da pedra escura e do sacerdote dizendo “zero”, e a sensação boa diminuiu um pouco.

Minha mãe me soltou.

— Vamos comer.

— Isso é uma comemoração?

— É.

— As pessoas não costumam comemorar o último lugar.

— Hoje, nós vamos.

Pensei um pouco.

— Posso escolher a sobremesa?

— Não exagere.

Aquilo não era um “não”, então decidi aceitar.

A Assembleia começou ao entardecer. Parecia que toda Atenas tentara caber diante do templo. Estandartes brancos e dourados desciam das colunas, braseiros ardiam nas escadarias e soldados mantinham corredores estreitos no meio da multidão.

No centro, os vinte e quatro classificados estavam alinhados sobre uma plataforma de pedra. Pareciam diferentes do que pela manhã. Talvez fosse a luz do fogo, as roupas melhores ou o fato de milhares de pessoas agora conhecerem seus nomes. Reconheci entre eles a menina da chama. Chamava-se Helena e terminara em décimo segundo lugar.

Minha mãe segurava minha mão. Achei que não precisava, mas não reclamei. Nélios permanecia do outro lado, olhando para o templo.

— Já viu Hermes? — perguntei.

— Já.

Virei-me para ele.

— Quando?

— Faz tempo.

— Quantas vezes?

Nélios apertou a boca. Não tirou os olhos das escadarias.

— O bastante.

— Isso não é uma resposta.

— Chega, garoto.

Antes que eu pudesse insistir, os sacerdotes começaram a recitar. Nélios havia escapado da pergunta, e nós dois sabíamos disso.

O rumor da multidão desapareceu. Uma voz ecoou sobre a praça:

— Quando o mundo foi condenado, quem desceu aos homens?

Milhares responderam:

— Os Doze.

— Quando o céu se fechou e a misericórdia foi negada, quem permaneceu?

— Os Doze.

— A quem pertence a paz?

— Aos Doze.

Minha mãe respondeu. Eu também, embora minha voz saísse baixa. Nélios mexeu os lábios o bastante para que ninguém próximo decidisse prestar atenção nele.

Um sacerdote ergueu os braços.

— Para tempos de paz...

A praça completou numa única voz:

— Devem-se recordar dos tempos de guerra.

A cada dez anos, a cidade agradecia aos deuses enviando pessoas para sangrar por eles. Os adultos conheciam maneiras estranhas de dizer “obrigado”.

Então Hermes chegou.

Não houve raio nem explosão. Num instante, as escadarias estavam vazias. No seguinte, ele se encontrava ali, como se tivesse chegado antes e nossos olhos só percebessem depois.

A praça inteira puxou o ar.

Meus ombros enrijeceram. O peito apertou, e uma força que eu não entendia empurrou meu corpo para baixo. Quando percebi, estava ajoelhado com os dedos contra a pedra.

Hermes parecia mais jovem do que eu imaginava. Usava roupas claras sob um manto curto, com detalhes dourados que refletiam o fogo dos braseiros. Não tinha chifres, garras nem qualquer uma das formas monstruosas descritas em alguns sermões. Parecia uma pessoa.

Então olhei ao redor e vi milhares de pessoas ajoelhadas porque ele entrara numa praça.

Nélios também estava de joelhos. Mantinha a cabeça baixa, mas uma de suas mãos se fechara com tanta força que os nós dos dedos tinham perdido a cor.

Hermes sorriu.

— Atenas.

Sua voz não era alta. Mesmo assim, chegou com clareza até o fim da praça.

— Mais uma vez, a cidade da sabedoria oferece seus melhores filhos e filhas aos Doze.

Os aplausos começaram quando um movimento de sua mão nos permitiu levantar. Hermes desceu até a plataforma e caminhou diante dos vinte e quatro candidatos. Diante de alguns, parava e observava. De outros, passava sem diminuir o passo. Às vezes tocava a testa de alguém; em outras, apenas dizia um nome.

O primeiro escolhido quase caiu de joelhos novamente. O segundo começou a chorar. O terceiro ergueu o punho, e os aplausos ficaram ainda mais altos.

Minha mãe relaxava a cada nome que não era o meu, embora eu nem estivesse na plataforma. Acho que dez anos de medo não desapareciam só porque um painel dizia que podiam.

Primeiro. Segundo. Terceiro. Quarto.

Quando Hermes chegou ao oitavo, comecei a pensar no jantar. No décimo, minha mãe enfim soltou minha mão. O décimo primeiro recebeu uma ovação tão longa que achei que a cerimônia acabaria ali.

Então Hermes parou diante da menina da chama.

— Helena de Atenas — anunciou.

Ela levou as mãos à boca enquanto a praça explodia em aplausos.

Décima segunda.

Acabara.

Minha mãe soltou o ar devagar. Só então percebi que eu também prendia o meu. Quando olhei para ela, encontrei um sorriso diferente do que dera diante do artefato. Não havia cuidado nele. Não havia medo escondido.

O plano funcionara.

Eu recebera zero, ficara em último e me tornara exatamente aquilo que minha mãe queria: alguém que os deuses não tinham motivo para escolher.

Ninguém voltaria a olhar para mim.

Então um trovão atravessou o céu.

Não foi o rumor distante de uma tempestade. Foi um único estrondo, forte o bastante para vibrar dentro do meu peito. A praça inteira ficou imóvel, alguns gritos surpresos ecoaram na multidão.

Hermes ergueu os olhos.

Pela primeira vez desde que aparecera, não estava sorrindo.

As nuvens acima do templo começaram a se abrir.

Minha mãe agarrou minha mão outra vez. Nélios não se moveu, mas seu corpo inteiro pareceu ficar mais atento. Quando a luz desceu sobre as escadarias, milhares de pessoas se ajoelharam antes mesmo que qualquer sacerdote desse a ordem.

Demorei um instante. Talvez dois. O bastante para ver Hermes baixar a cabeça e entender que aquela visita não fazia parte da cerimônia.

Então me ajoelhei também.

Zeus havia chegado.