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O Décimo Terceiro · O Décimo Terceiro — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver.

O Décimo Terceiro

Até aquela noite, eu achava o templo de Atena grande.

Zeus apareceu no alto das escadarias, e o templo encolheu.

A luz que abrira as nuvens não desapareceu depois de trazê-lo. Continuou atrás de seu corpo, branca demais para ser fogo, estendendo as sombras das colunas por toda a praça. As chamas dos braseiros se inclinaram na mesma direção. As portas de bronze gemeram nos encaixes, e um som baixo percorreu o chão, como se a pedra tivesse começado a tremer muito antes de nós.

Eu já estava de joelhos. Atenas inteira também.

O ar pesava sobre meus ombros e apertava meu peito. Cada tentativa de respirar parecia pequena demais. Minha mãe segurava minha mão com os dedos frios; Nélios permanecia do outro lado, curvado e imóvel. Um sacerdote perto de nós havia encostado a testa na pedra e repetia a palavra salvador tão depressa que ela quase deixava de parecer uma palavra.

Então olhei para Hermes.

Ele mantinha um joelho no chão e a cabeça baixa.

Eu acabara de vê-lo caminhar diante de toda a cidade como se as escadarias tivessem sido construídas para seus pés. Hermes era um deus. Mesmo assim, estava ajoelhado.

Foi quando parei de tentar entender o que meu corpo sentia. Se um deus julgava mais seguro se curvar, eu podia continuar onde estava.

A luz diminuiu apenas o bastante para que eu enxergasse Zeus. Era alto, com cabelos e barba longos e brancos como nuvens. Vestia branco e dourado, mas não usava coroa nem carregava arma. As estátuas o mostravam assim havia séculos, sempre com o mesmo rosto sereno de quem já salvara o mundo e esperava que ninguém esquecesse.

As estátuas erravam numa coisa: nenhuma delas fazia o espaço ao redor parecer insuficiente.

Zeus contemplou a praça.

— Atenas.

Ele não gritou. Ainda assim, ouvi a palavra sair de sua boca, bater nas colunas e voltar pelo chão. O som vibrou em minhas costelas como o trovão que anunciara sua chegada.

— Ergam-se.

Levantar exigiu esforço. Minha mãe precisou apoiar a mão livre no meu ombro, e até os soldados usaram as lanças para recuperar o equilíbrio. Ninguém falou. Ninguém pareceu lembrar que tinha voz.

Zeus desceu um degrau. A pressão cedeu um pouco, e ele sorriu.

Era o sorriso das moedas, dos mosaicos e das páginas do Livro da Salvação. O mesmo que aparecia acima de palavras como misericórdia, proteção e gratidão.

— Os registros desta seleção chegaram a Dodona — disse ele. Sua voz continuava ressoando, mesmo calma. — Dons raros foram revelados nesta cidade, assim como Centelhas dignas da pólis de minha filha. Não permitiria que fossem apresentados sem meu testemunho.

Por um instante, ninguém reagiu. Então os sacerdotes ergueram os braços, e a praça se encheu de choro, preces e agradecimentos. Uma mulher atrás de mim começou a rir enquanto chorava. Um homem repetiu que os deuses se lembravam de Atenas. Outros se ajoelharam outra vez, embora Zeus tivesse acabado de mandá-los levantar.

Eu entendia o motivo. Não era comum um deus caminhar entre mortais fora dos rituais. O rei deles aparecer para assistir à escolha de nossa cidade parecia o tipo de acontecimento que adultos contariam até torná-lo maior do que realmente fora.

Naquele momento, eu também acreditei que fosse uma honra.

Zeus ergueu dois dedos. O barulho morreu depressa.

— Continue, filho.

Hermes voltou a ficar de pé. Seu sorriso retornou, mas já não parecia tão fácil quanto antes.

— Será uma honra, meu senhor.

Os doze escolhidos permaneciam alinhados na plataforma. Zeus caminhou até o primeiro, um rapaz grande que eu lembrava ter visto entre as melhores pontuações. O jovem tentou sustentar o olhar do deus. Durou pouco.

— Seu Dom — pediu Zeus.

— D-densidade, meu senhor.

— Mostre-me.

O rapaz fechou os punhos. A pele de seus braços ganhou um brilho escuro, quase mineral, e os músculos pareceram pesar sob ela. Quando bateu o pé, a madeira da plataforma rangeu.

Zeus assentiu.

— Bom.

Foi uma palavra só. O rapaz quase chorou.

Zeus seguiu pela fileira. Um dos escolhidos demonstrou força erguendo um bloco de pedra que dois guardas haviam carregado juntos. Uma mulher fez uma faixa de tecido endurecer até bater contra o chão como uma lâmina de metal. O campeão seguinte encostou dois dedos na própria garganta.

O som desapareceu ao redor da plataforma.

Não ficou mais baixo. Sumiu. Vi bocas se moverem sem produzir voz, sandálias tocarem a madeira sem ruído e braseiros queimarem sem estalar. Até o vento pareceu proibido de entrar naquele espaço. Quando o rapaz abaixou a mão, todos os sons voltaram de uma vez, e a praça inteira puxou o ar.

Eu sabia que Dons podiam produzir fogo, mover objetos ou alterar corpos. Nunca pensara que alguém pudesse arrancar uma coisa invisível do mundo. Por alguns segundos, esqueci que deveria estar feliz por não estar naquela fila.

Helena foi a última. Produziu a mesma chama que eu vira durante as preliminares, maior agora, girando acima de suas mãos. Naquela manhã, parecera capaz de iluminar o campo inteiro. Diante de Zeus, parecia uma lamparina tentando impressionar o sol.

Ele examinava os escolhidos com a atenção de Nélios diante de uma mercadoria rara. A diferença era que Nélios precisava pagar pelo que levava.

Ao passar por Helena, Zeus fitou a chama por mais tempo. Ela tremia, mas conseguiu mantê-la até que ele assentisse. Quando a apagou, seus joelhos quase cederam de alívio.

Hermes retornou ao centro da plataforma.

— Atenas apresentou seus melhores filhos e filhas. Diante dos Doze, que sejam reconhecidos como seus campeões no Grande...

Zeus virou a cabeça.

Foi um movimento pequeno. Mesmo assim, Hermes se calou.

A pressão na praça mudou. Não aumentou como antes; deslocou-se. Senti a pele da nuca se arrepiar enquanto os olhos de Zeus percorriam a multidão. Passaram pelos sacerdotes, pelos soldados, pelo Conselho e pelas famílias reunidas diante do templo.

Então encontraram os meus.

Olhei para trás. Havia dezenas de pessoas, todas imóveis e muito interessadas em não chamar atenção. Quando tornei a encará-lo, Zeus continuava olhando na mesma direção.

Para mim.

Durante um único instante, seu sorriso se atrasou.

Vi surpresa. Depois, alguma coisa que eu não conhecia bem o bastante para nomear. Não chegou a durar uma respiração. O rosto das moedas voltou ao lugar antes que alguém ao meu redor percebesse.

— Você, garoto — disse Zeus.

A voz continuava serena. As colunas devolveram cada palavra como um trovão distante.

As pessoas à nossa frente abriram passagem. Não fugiram. Afastaram-se com sorrisos, olhos arregalados e mãos unidas em prece. Uma senhora tocou meu cabelo ao passar e murmurou que eu havia sido abençoado.

Minha mãe não pareceu concordar.

— Aproxime-se — ordenou Zeus.

Melissa deu meio passo comigo.

— Meu senhor, ele é meu filho.

Zeus voltou o sorriso para ela.

— Então não tema. Desejo apenas conhecê-lo. Eu o devolverei em instantes.

A mão de minha mãe apertou a minha. Nélios segurou o pulso dela antes que avançasse mais.

— Não aqui — murmurou.

Ela virou o rosto para ele. Nélios não explicou. Observava Zeus com o semblante impassível, mas seus dedos haviam se fechado com força demais ao redor do braço dela.

— Vá, garoto — disse, sem me olhar. — Não o faça repetir.

Soltei a mão de minha mãe.

A caminhada até a plataforma pareceu longa, embora ninguém estivesse no caminho. Algumas pessoas sorriram para mim. Outras baixaram a cabeça quando passei, como se a atenção de Zeus pudesse escorrer para elas por engano.

Subi os degraus entre os sacerdotes e o Conselho. Hermes me acompanhava com uma expressão tranquila demais para ser verdadeira. Helena me reconheceu. Olhou de mim para Zeus e, depois, para minha mãe no meio da multidão.

Parei diante do rei dos deuses.

De perto, o ar tinha gosto de metal. Meus braços se arrepiaram, e respirar voltou a exigir cuidado. Zeus me examinou por um momento sem deixar de sorrir.

— Seu nome?

— Thaniel, senhor.

Minha voz saiu menor do que eu queria.

— Thaniel — repetiu ele.

Ouvir meu nome naquela voz fez parecer que eu tinha feito alguma coisa errada antes mesmo de nascer.

Zeus pousou a mão em meu ombro. Para a praça, devia parecer uma bênção. Seus dedos não apertaram, mas todo o meu corpo ficou rígido.

— A Assembleia aguardará alguns instantes — anunciou ele. — Há uma questão que desejo esclarecer.

Os sacerdotes se curvaram. Algumas pessoas aplaudiram.

— Hermes.

— Meu senhor?

— Mantenha a cerimônia suspensa até meu retorno.

Então Zeus olhou para mim.

— Venha.

Eu ainda podia ver minha mãe. Ela tentou caminhar, mas Nélios continuou segurando seu braço. Desta vez, ele olhou diretamente para mim. Não havia conselho em seu rosto, muito menos tranquilidade. Apenas uma ordem muda para que eu prestasse atenção em tudo.

Foi o que tentei fazer.

Zeus entrou no templo, e eu o segui.

As grandes portas se fecharam atrás de nós. Os aplausos da praça se tornaram um rumor abafado, depois desapareceram enquanto atravessávamos os corredores.

Eu conhecia aquele templo. Minha mãe me levara até ali em dias de oração, e eu passara boa parte dessas visitas contando rachaduras no teto para não dormir durante os sermões. Naquela noite, porém, os corredores pareciam outros. As estátuas de Atena observavam nossa passagem, as lamparinas se curvavam quando Zeus se aproximava e meus passos produziam ecos pequenos demais ao lado dos dele.

Chegamos a uma câmara afastada, cercada por colunas talhadas com corujas e ramos de oliveira. Zeus entrou. Esperei no limiar até ele falar.

— Entre.

Obedeci.

As portas se encontraram atrás de mim. O sorriso de Zeus desapareceu antes que o bronze terminasse de fechar.

— Idade?

— Dez.

Seus olhos se estreitaram.

— Dom?

— Nenhum.

— Medição de Centelha?

— Zero.

Zeus não se moveu.

— Repita.

— Deu zero, senhor.

— Não existe zero.

Eu não sabia como responder sem parecer que estava discutindo com o rei dos deuses. Também não sabia como responder concordando, porque eu tinha visto o número.

— Foi o que apareceu no artefato.

A palavra artefato continuou ecoando depois que me calei. Zeus não sorriu.

— Sua classificação.

— Último.

— E ainda assim estava na Assembleia.

— Minha mãe queria assistir à escolha.

Ele se aproximou. Meu corpo pediu que eu recuasse, mas a porta estava atrás de mim e não parecia provável que ela decidisse ajudar.

— Fique imóvel.

Zeus ergueu a mão diante do meu rosto.

O ar ao redor de seus dedos vibrou. Alguma coisa atravessou minha pele sem produzir calor ou dor. Passou atrás dos meus olhos, desceu pela garganta e alcançou lugares que eu não sabia que podiam ser tocados. Minha visão escureceu nas bordas. Tentei me afastar, mas minhas pernas haviam esquecido como.

Então Zeus recolheu a mão.

Não foi um gesto calmo. Ele a puxou como alguém que tocara uma lâmina esperando encontrar água.

O alarme surgiu primeiro. Dessa vez, não havia multidão para obrigá-lo a escondê-lo. Logo depois veio a raiva.

— Quem fez isso?

— Fez o quê?

A voz de Zeus continuou baixa, mas o trovão dentro dela sacudiu o pó das colunas.

— Não minta para mim.

— Eu não estou mentindo.

— Quem colocou isso em você?

— Ninguém.

Zeus segurou meu braço.

A dor chegou tão depressa que perdi o ar antes de conseguir gritar. Seus dedos fechavam quase todo o espaço entre meu ombro e o cotovelo.

— Você não sabe o que carrega?

Balancei a cabeça.

— Não.

Ele apertou mais. Uma das corujas talhadas na coluna atrás de mim se partiu ao meio. A rachadura correu pela pedra com um estalo seco.

— Impossível.

A palavra pareceu dirigida a ele mesmo.

Eu puxei o pouco ar que conseguia.

— O artefato disse que eu não tenho nada.

Não era coragem. Era a única defesa que eu possuía, e nem sequer era uma defesa muito boa.

— O artefato mede aquilo que foi criado para reconhecer.

Guardei a frase, embora não a entendesse.

— Então o que eu tenho?

Por um instante, Zeus pareceu prestes a responder. Seus olhos percorreram meu rosto como se a resposta pudesse estar escrita ali.

Pela primeira vez, pensei que talvez ele também não soubesse a resposta. A ideia me assustou mais do que qualquer coisa que pudesse dizer.

Zeus parecia saber o bastante para me temer. Eu não entendia como isso era possível, mas tinha visto sua mão recuar de mim.

— Isso não deveria existir — disse ele.

— O quê?

Seus dedos tornaram a apertar meu braço.

— Você.

As portas da câmara se abriram.

As chamas das lamparinas, que até então se curvavam na direção de Zeus, ficaram retas, sem oscilar. A pressão sobre meu peito não desapareceu, mas encontrou resistência, como uma onda batendo contra uma muralha.

Atena entrou.

Eu conhecia aquele rosto desde antes de aprender a ler. Estava nas moedas, nos escudos, acima das portas dos tribunais e nas paredes das salas de aula. Nenhum ateniense precisava perguntar quem era. Ainda assim, vê-la atravessar a câmara foi como descobrir que todas as imagens tinham mostrado apenas a parte que cabia nelas.

Ela vestia uma túnica escura sob placas de bronze. Não usava elmo. Seus olhos passaram pela mão de Zeus fechada em meu braço, pela marca que surgia sob seus dedos e pela coruja partida na coluna.

Então ela se colocou entre nós.

— Solte o menino.

Atena não elevou a voz. Não precisava. Cada sílaba parecia ter sido colocada no ponto exato da sala onde seria impossível ignorá-la.

Zeus não obedeceu.

— Afaste-se.

— Você está dentro do meu templo — respondeu ela. — Ferindo uma criança da minha cidade.

— Você não sabe o que ele é.

— Nem você.

A pressão entre os dois cresceu. O bronze da armadura de Atena refletiu a luz branca que escapava da pele de Zeus, mas ela não recuou.

— Pai — disse, mais uma vez. — Solte-o.

Os dedos se abriram.

Cambaleei para trás. Atena avançou meio passo e permaneceu entre nós. Não me tocou nem perguntou se eu estava bem. Mesmo assim, pela primeira vez desde que entrara naquela sala, consegui encher os pulmões.

Hermes apareceu no limiar. Seu sorriso havia desaparecido por completo.

— A praça inteira espera — disse ele.

Zeus não desviou os olhos de mim.

— Que espere.

Atena examinou a rachadura na coluna.

— A cidade viu você chamá-lo como se o tivesse escolhido entre milhares. Viu você pôr a mão sobre ele e conduzi-lo ao meu templo como sinal de favor.

— Isso pode ser corrigido.

— Não sem transformar sua bênção em ameaça diante de toda Atenas.

Por um instante, só ouvi minha própria respiração. Hermes olhou para as marcas em meu braço e depois para Zeus.

— O anúncio já encontrou seu significado lá fora — disse ele. — Seria prudente escolhermos o fim antes que os mortais escolham por nós.

Zeus lançou-lhe um olhar que teria feito qualquer pessoa sensata esquecer o restante da frase. Hermes apenas inclinou a cabeça.

— Longe dele — ordenou Zeus.

Atena olhou para mim.

— Fique aqui.

Os três se afastaram para o outro lado da câmara. Zeus ergueu a mão, e o ar ondulou ao redor deles. O som sumiu quase por inteiro, mas a fúria em sua postura era pesada demais para caber no próprio feitiço.

Eu ainda via suas bocas se moverem. Atena falava pouco, mas, cada vez que o fazia, a expressão de Zeus se fechava. Hermes usava as mãos como quem tentava organizar peças que não deviam ter caído no chão.

Conforme discutiam, a barreira estremecia como água agitada, deixando escapar fiapos de vozes.

— ...milhares de testemunhas...

Depois:

— ...dentro da minha pólis...

Zeus respondeu. Não ouvi as palavras, mas uma nova fissura surgiu no chão, parando antes dos pés de Atena.

Hermes falou por mais tempo. As palavras Grande Agón e tradição chegaram até mim. Atena respondeu, e ouvi apenas:

— ...mantê-lo à vista...

Zeus apontou em minha direção.

Não gostei.

Hermes mostrou as duas mãos abertas e, em seguida, ergueu apenas três dedos. Mesmo sem ouvir, consegui somar. Atena disse alguma coisa. Zeus virou o rosto para ela, e sua voz atravessou a barreira com nitidez suficiente para fazer meu estômago apertar.

— Ele não é um campeão.

Atena não recuou.

— Será quando voltarmos à praça.

O silêncio engoliu o restante.

Olhei para meu braço. Cinco marcas avermelhadas começavam a aparecer na pele. Minha mãe perceberia. Nélios também. Pensei nos dois esperando do lado de fora e no modo como a mão do velho havia impedido minha mãe de seguir Zeus.

Não aqui.

Ele sabia que alguma coisa estava errada. Eu queria que tivesse explicado qual parte.

Os três deuses enfim se calaram. A barreira se desfez, devolvendo de uma vez o crepitar das lamparinas e o som distante da multidão.

Zeus veio até mim.

O rosto sereno havia retornado, mas agora eu sabia que podia desaparecer antes que uma porta terminasse de fechar.

— Não confunda o que ouvirá lá fora com proteção — disse ele. O trovão de sua voz tornou a frase quase suave e ainda assim fez meus dentes vibrarem. — A partir de agora, eu saberei onde você está.

Não encontrei resposta que parecesse segura.

Zeus passou por mim. As portas se abriram antes que ele as alcançasse. Um clarão atravessou o corredor, seguido por um trovão tão forte que as lamparinas se apagaram.

A presença dele se afastou.

Não retornou à Assembleia. Partiu de Atenas. Eu soube porque o peso abandonou a câmara, o ar voltou a caber nos meus pulmões e, ao longe, o último trovão rolou para além das muralhas.

Mesmo assim, continuei no mesmo lugar.

Atena se aproximou. Sua presença não esmagava como a de Zeus. Fazia outra coisa: dava a impressão de que cada movimento meu seria percebido, lembrado e comparado a alguma resposta correta que eu desconhecia.

— Thaniel.

— S-senhora.

— Você realmente não sabe o que existe em você?

— Não.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos. Não ergueu a mão nem tentou entrar em mim como Zeus fizera.

— Acredito que não saiba.

Não era o mesmo que dizer que acreditava em mim.

Hermes aproximou-se e observou meu braço.

— Sua mãe estará esperando.

— O que vocês decidiram?

Atena voltou-se para as portas.

— Minha cidade ouvirá de mim.

Foi tudo.

Seguimos pelo corredor. Quanto mais nos aproximávamos da entrada, mais alto ficava o rumor da praça. Não era conversa. Parecia o barulho de milhares de pessoas tentando adivinhar ao mesmo tempo por que o rei dos deuses havia levado um menino para dentro do templo.

As portas se abriram.

Atenas esperava encontrar Zeus.

Encontrou sua deusa.

O sumo sacerdote deixou o bastão cair. O som do bronze contra a pedra atravessou a praça antes que ele se lançasse de joelhos.

— Palas Atena!

Os demais sacerdotes repetiram o nome. Alguns ergueram os braços; outros encostaram o rosto no chão. Um deles chorava tanto que não conseguia terminar nenhum dos títulos que tentava recitar. A reação correu pelas escadarias e alcançou a multidão. Pessoas se ajoelharam, gritaram, riram e chamaram Atena de Guardiã, Estrategista e Patrona da Cidade.

Minha mãe também caiu de joelhos. Seus olhos, porém, continuaram em mim.

Eu não conhecia ninguém que tivesse visto Atena tão de perto. Havia relatos antigos, cerimônias e aparições pelos Espelhos de Íris, mas quase todos em Atenas passavam a vida inteira diante de estátuas. Naquela noite, Hermes caminhara entre nós, Zeus descera sobre o templo e agora a própria patrona surgia diante da cidade.

Três deuses numa única Assembleia.

As pessoas ao meu redor ainda não sabiam que o acontecimento histórico começara porque um deles encontrara alguma coisa em mim e tentara esmagá-la com os dedos.

Atena desceu um degrau.

Sua presença era diferente. Zeus fazia a cidade parecer pequena. Diante de Atena, cada coluna, escudo e pedra da praça parecia ocupar o lugar que ela havia determinado. Até os gritos foram diminuindo, não porque faltasse ar, mas porque ninguém queria produzir o som errado sob aquele olhar.

— Filhos de Atenas — disse ela.

Sua voz não retumbou. Chegou limpa a todos os cantos da praça, como se cada pessoa a ouvisse a poucos passos de distância.

O silêncio se tornou completo.

Hermes me conduziu até a plataforma. Passei pelos sacerdotes prostrados e pelos membros do Conselho que choravam sem esconder o rosto. Os doze escolhidos abriram espaço para mim. Helena fitou meu braço antes que eu puxasse a manga sobre as marcas.

— O que aconteceu? — sussurrou.

Balancei a cabeça. Era a resposta mais verdadeira que eu tinha.

Procurei minha mãe. Ela tentou se levantar, mas os soldados mantiveram livre a área diante da plataforma. Nélios ficou ao lado dela. Olhou primeiro para mim, depois para meu braço coberto e, por fim, para Atena. Seu rosto não mudou. Com ele, isso quase sempre significava que havia mudado demais.

Atena esperou até que toda a praça estivesse voltada para ela.

— Esta noite, minha cidade apresentou doze campeões ao Grande Agón. Zeus veio testemunhar seus Dons e reconhecer a força daqueles que carregarão o nome de Atenas.

Os escolhidos baixaram a cabeça. Helena continuou me observando.

— Contudo, diante de todos vocês, o rei dos deuses reconheceu outro entre os filhos desta pólis. Alguém que as provas e os instrumentos da seleção não foram capazes de reconhecer.

Meu estômago afundou.

Atena estendeu uma das mãos em minha direção.

— Thaniel de Atenas.

Ouvir meu nome na voz de Zeus parecera uma acusação. Na dela, pareceu uma decisão tomada muito antes que alguém lembrasse de me perguntar.

— As leis do Grande Agón nasceram da vontade dos deuses — continuou Atena. — Pela mesma vontade, podem ser ampliadas.

O primeiro murmúrio atravessou a praça.

Eu entendi um instante antes de Atena anunciar. Não tudo. Apenas o suficiente para deixar de sentir as pontas dos dedos.

— Nesta edição, Atenas não enviará doze campeões.

Ela fez uma pausa. Milhares de pessoas prenderam o ar comigo.

— Enviará treze.

A praça explodiu.

O som me atingiu como outra onda: gritos, aplausos, choro e preces. Os sacerdotes voltaram a recitar os títulos de Atena. Alguns cidadãos se ajoelharam pela terceira vez naquela noite. Outros abraçaram desconhecidos. Meu nome surgiu em um canto da multidão, foi repetido em outro e logo estava em toda parte.

— Thaniel!

Eu não conseguia me mover.

Hermes tomou meu pulso. Seus dedos tocaram exatamente uma das marcas deixadas por Zeus, mas seu sorriso não vacilou. Ele ergueu meu braço, e a manga desceu o bastante para expor as manchas vermelhas por um instante.

— Pela determinação de Zeus e sob o testemunho de Atena — declarou —, seja reconhecido Thaniel de Atenas, o primeiro Décimo Terceiro!

Os gritos ficaram ainda mais altos.

O título nasceu naquela praça antes que eu entendesse o que ele faria comigo.

Olhei para os doze campeões ao meu lado. Nenhum sorria. Alguns pareciam confusos; outros, ofendidos. Um rapaz me observava como se eu tivesse roubado uma coisa que ele passara a vida inteira tentando conquistar. Helena estava pálida.

Então procurei minha mãe.

Demorei a encontrá-la entre braços erguidos e pessoas chorando. Vi Nélios primeiro, plantado no mesmo lugar enquanto todos ao redor celebravam. Olhou para Hermes, para Atena e, por fim, para mim. Não restava nele nenhum traço do comerciante que naquela manhã me aconselhara a fracassar com competência.

Minha mãe estava ao seu lado. Uma mulher segurava seus ombros, e um homem próximo gritava alguma coisa sobre honra. Melissa não parecia ouvir.

Ela só me olhava.

Eu conhecia aquele rosto. Era o mesmo que aparecia quando alguém mencionava meu avô. O rosto de quem já sentia falta de uma pessoa que ainda estava ali.

Naquela manhã, minha mãe me abraçara porque eu terminara em último lugar. Naquela noite, Atenas inteira comemorava porque isso não havia sido suficiente.

Hermes ainda mantinha meu braço erguido. Milhares gritavam meu nome e chamavam de bênção a decisão que Zeus tomara depois de me arrastar para dentro do templo, descobrir alguma coisa que não compreendia e avisar que continuaria me observando.

Eu tinha dez anos. Não possuía Dom, não tinha Centelha detectável e terminara as preliminares em último. Mesmo assim, pela primeira vez na história do Grande Agón, havia treze escolhidos onde deveriam existir doze.

Minha mãe não aplaudiu.

Nélios também não.

Foi assim que percebi que, entre todas as pessoas naquela praça, talvez fôssemos os únicos que tinham entendido corretamente.

Aquilo não era uma bênção.

Era uma sentença.