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O Décimo Terceiro · Os Espólios de Hera — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver.

Os Espólios de Hera

Na enfermaria do Estádio, descobriram contusões nas minhas costelas, um corte no braço que precisava de pontos e terra em lugares que eu nem sabia que podiam guardar terra. Um sacerdote de Apolo passou uma esfera de luz pelo meu peito. Meus ossos apareceram sob a pele. Fechei os olhos até ele terminar.

Nélios esperou os curadores saírem. Pôs pão e caldo ao lado da cama, depois puxou um banco. Minha espada estava com ele, limpa e dentro da bainha.

— Conte a parte em que perdeu o Feixe.

Falei da raiz que arrebentou a correia. Lico segurou a mochila e se ofereceu para refazer o nó. Vi o brilho junto ao meu ombro e agradeci. Só descobri a pedra quando a coloquei no Altar.

— Tocou no Feixe depois que ele amarrou a bolsa?

— Vi que estava lá.

— Viu uma luz. A luz pesa alguma coisa?

Empurrei a tigela. Os efésios estavam em outra ala; eu nem sabia em qual cama tinham posto Lico. Queria chegar até ele antes que inventasse uma explicação. Não conseguia esquecer a machadinha erguida entre nós, depois de tudo o que dividimos no Campo.

— Ele me ajudou a não cair nos espinhos — falei. — Depois me deixou com uma pedra. Como alguém faz as duas coisas?

Nélios afastou o caldo da borda.

— Não posso responder por ele. Posso mandar você conferir a própria bolsa da próxima vez.

Aquilo pareceu pequeno demais. Eu queria que o velho estivesse tão furioso quanto eu. Queria que Lico devolvesse o Feixe, embora já não servisse para nada. Até minha vontade de dar um soco nele chegava atrasada.

— Estou com raiva de mim também.

— Então use alguma parte dela para aprender. O resto vai continuar aí depois que comer.

Puxou a tigela de volta. Tomei algumas colheradas antes de perguntar:

— Você não vai dizer que não devia ter descido à ravina?

— Você deixou um caminho seguro por três homens feridos. Sabe o risco que correu. Prefiro ensinar o que pode melhorar quando precisar escolher de novo.

Ele recolheu uma tira solta da bainha e começou a apertá-la.

— Escolhas têm consequências, garoto. Os grupos se ajudam enquanto conseguem ganhar alguma coisa juntos. Conforme as saídas diminuem, cada um tenta guardar a sua. Um dia você pode precisar fazer algo de que não vai se orgulhar.

O nó ficou pronto, mas Nélios continuou com a espada nas mãos.

— Não quero vê-lo morrer. E não quero voltar para sua mãe sem o filho dela.

Olhei para ele. O velho apontou para o caldo.

— Termine.

*

Helena chegou quando Nélios saiu para falar com os curadores. Tinha um braço na tipoia e alguma coisa escondida sob o manto. Sentou-se na ponta do banco, examinou minhas faixas e desviou os olhos quando percebeu que eu a observava.

— Você foi um tolo, Thaniel.

Eu não esperava uma felicitação, mas aquilo também não ajudava.

— Tinha o Feixe, o guia e um grupo ao redor — continuou. — Abandonou sua melhor chance de sobreviver para salvar três rivais. Um deles tomou o que era seu.

— Não quis deixar que morressem.

Helena baixou a voz.

— Eu sei. Mas não confie em alguém só porque o ajudou uma vez. Você saiu vivo por muito pouco.

Ela alisou o manto sobre os joelhos. Achei que esperasse alguma resposta minha; antes que eu encontrasse uma, tirou debaixo do tecido uma pequena coroa de espigas de ouro.

— Os outros onze e eu fomos o primeiro grupo a chegar ao Altar. Eu atravessei antes de todos. Esta é a Coroa da Primeira Colheita.

— Com o braço assim?

— O galho caiu perto da chegada. Ainda consegui usá-lo. Erguer a coroa para o estádio foi uma ideia pior.

Ela tornou a guardá-la.

— E a recompensa? Só ganhou isso?

— Também recebi uma vantagem para as próximas provas.

Esperei. Helena ergueu uma sobrancelha.

— Não vou revelar minhas vantagens a um possível rival.

— Mas somos da mesma pólis.

— E seguimos juntos porque era mais seguro. No começo, quase todos fazem isso. Dei algumas ordens, os outros concordaram, e chegamos. Não significa que vamos querer as mesmas coisas até o fim. No fim das contas, cada um vai tentar se salvar.

Olhei para a porta, pensando em Lico na outra ala.

— Então por que veio aqui?

Helena demorou a responder. Puxou a tigela para mais perto de mim, tomando cuidado com o braço ferido.

— Soube que não conseguia ficar de pé.

— Já consigo.

— Não precisa demonstrar.

Levantou-se e ajeitou a tipoia com a mão livre.

— Descanse, Thaniel.

Falou aquilo olhando para o banco. Depois saiu. Fiquei com a impressão de que a visita não terminou como ela pretendia, mas eu também não sabia como deveria terminar.

*

Jason apareceu mais tarde, mancando, com Cassandra atrás dele. Começou contando como os espinheiros separaram o grupo. Esperei que terminasse e falei de Lico. Jason parou de sorrir quando mencionei a pedra; ao chegar à machadinha, ele estava com a boca entreaberta.

— Nos Espelhos, disseram que você deu o Feixe a ele — falou. — Porque estava ferido e não conseguiria continuar procurando sozinho.

— Ele conseguiu levantar a arma quando fui atrás dele.

— Ajudamos aquele sujeito por dois dias. Ele podia ter falado conosco.

Jason apertou os dedos contra a borda do banco. Pela primeira vez, pareceu ter tanta vontade de encontrar Lico quanto eu.

— O Grande Agón é assim — disse Cassandra. — Lico sabia que deixaria você sem saída. Foi o que escolheu fazer.

Olhei para ela. Cassandra sustentou meu olhar.

— Você viu a raiz na ravina e encontrou dois Feixes que os outros não perceberam. Foi um bom olhar. Não o desperdice agora pensando só nele.

Ela foi até a porta para chamar um curador; a faixa de Jason começava a manchar. O irmão inclinou-se um pouco para mim.

— Acho que, no fundo, ela ficou grata por você me devolver inteiro.

Cassandra virou a cabeça.

— Essa perna está pingando no chão. Vamos.

Jason me deu um sorriso pequeno antes de obedecer.

Quando fiquei sozinho, um auxiliar me ajudou a chegar à varanda coberta da ala. Os Espelhos de Íris sobre o pátio repetiam os melhores momentos da Ceifa. Se é que dá para chamar assim. Pessoas ainda aplaudiam, como se as plantas pudessem ouvir.

Mostraram os doze atenienses seguindo o guia e desviando de uma árvore que tombava. Helena puxou dois companheiros para longe; um galho atingiu seu braço. A imagem seguinte já era sua passagem pelo Altar. Uma sacerdotisa colocou a coroa sobre seus cabelos, e o arauto anunciou Helena de Atenas como a primeira a concluir a prova.

Esparta veio depois. Marchavam em pares, trocando posições sem deixar ninguém para trás. Ajax derrubou um competidor de Hermes que tentou tomar um Feixe. Outro recuou; ele foi atrás, tirou-lhe a arma e o deixou no chão. Os espartanos passaram juntos. Foram o segundo grupo a terminar, todos os doze vivos.

O público gritou o nome de Ajax. Eu procurei os homens caídos quando a cena mudou, mas o Espelho já mostrava outra coisa.

Meu rosto apareceu. Na ravina, cortaram a parte em que Jason precisou me salvar. O golpe na raiz pareceu fácil. Na última corrida, os tropeços duraram tão pouco que eu quase acreditei saber o que estava fazendo. Ouvir meu nome celebrado era bom. Lembrar do que faltava estragava um pouco aquilo.

Então vi Lico atrás da minha mochila. Ele amarrou a correia; a imagem saltou para nós nos aproximando do Altar. Depois o Feixe já estava nas mãos dele.

O narrador explicou que, mesmo exausto, aparentemente eu preferi voltar ao Campo a abandonar um companheiro ferido. Lico depositou a oferenda, e a plateia aplaudiu minha generosidade.

Apertei o banco até o braço doer. Tiraram a pedra, a machadinha e as raízes que impediram que eu o alcançasse. Lico ficou com meu Feixe. Eu fiquei com a obrigação de parecer contente por isso.

Minha mãe podia estar vendo aquela mesma cena. Talvez estivesse orgulhosa. Talvez fosse isso que eu devesse querer. Naquele momento, queria que ela estivesse ali para eu poder contar tudo.

Pedi ao auxiliar material para escrever. Quando voltei à cama, fiquei algum tempo olhando o papel. Era fácil escrever que sentia saudade. O difícil vinha depois.

Pensei em dizer que não tive medo e que voltaria para casa. Minha mãe precisava dormir; talvez acreditasse se lesse aquilo com minha letra. Mas eu me lembrava das oito pessoas diante do Altar. Elas também podiam ter prometido voltar.

Escrevi que estavam cuidando dos meus ferimentos, que Nélios continuava comigo e que sentia falta dela. Quase acrescentei que a comida era boa. Parecia pouco, depois de tudo.

Quando o velho voltou, pedi que enviasse a carta assim que pudesse. Ele leu apenas o nome de Melissa no lado de fora e guardou o papel entre as próprias coisas.

Na manhã seguinte, fomos ao rito pelos doze mortos. Um sacerdote acendeu pequenas figuras de cera conforme dizia os nomes. Reconheci o arqueiro de Delfos. Perto da lamparina dele, uma mulher chorava enquanto uma menina se agarrava ao seu manto.

No Campo, eu só queria chegar ao Feixe antes dele. Diante daquela menina, fiquei contente por ninguém me obrigar a dizer alguma coisa.

Lico estava entre os efésios. Baixou a cabeça quando passei. Pensei na plateia aplaudindo o que ele fez e tive vontade de arrancá-lo dali para que me ouvisse. Continuei andando, segurando a espiga comum que cada sobrevivente precisava depositar.

No segundo dia depois da Ceifa, os curadores permitiram que Nélios retomasse meu treino, desde que ninguém me golpeasse. Ainda havia manchas roxas nas costelas, mas já conseguia respirar fundo. Uma curadora apertou meu braço, examinou os pontos e comentou que eu estava me recuperando depressa.

Achei que o repouso e os cuidados dos sacerdotes serviam para alguma coisa. Nélios também encontrou utilidade na proibição de golpes: encheu a pista de estacas e me fez mudar de direção, parar e cair sem apoiar o ombro machucado.

Minhas pernas pareciam um pouco mais leves. O corpo acelerava antes que eu acertasse o lugar dos pés. Na primeira tentativa, abracei uma coluna para não cair. Dois dias depois, passei por ela sem encostar.

Talvez eu estivesse, enfim, me acostumando às pernas compridas. Isso não impedia Nélios de mudar as estacas sempre que eu memorizava o caminho.

No oitavo dia, cobrei a promessa sobre a espada negra. Ao tirá-la da bainha, notei que já não puxava tanto meu braço para baixo. Ajustei a mão no cabo. Os exercícios começavam a funcionar.

Nélios disse que seu pai era ferreiro, assim como o pai do pai dele. Aquela foi a primeira espada que Nélios conseguiu forjar sozinho quando trabalhava com o pai na juventude.

— Então é por isso que pesa tanto.

— Pesa o que deve pesar. Sua mão é que chega atrasada.

Tomou a arma e fez dois cortes seguidos, deixando a lâmina continuar o movimento enquanto seus pés mudavam de posição. Quando me devolveu a espada, tentei imitar. Meu pulso se adiantou aos pés, e a ponta bateu na terra.

— Quem lhe ensinou a fazer isso? — perguntei.

— Forjar? — disse ele, já sem paciência. — Eu já disse.

— Não. Me refiro a esses movimentos. Quem te ensinou a lutar?

Nélios limpou o barro e apontou para o início da pista.

— Você cobrou a história da lâmina. Não a de quem a segurou. Agora tente novamente sem arar o chão.

Voltei às estacas. No fim da segunda semana, ainda não movia a espada como ele, mas ao menos sabia onde estava meu erro.

Na noite anterior à segunda prova, os cento e trinta e três sobreviventes se reuniram no Pavilhão das Celebrações. Os mestres ficaram do lado de fora. Sentei com Atenas. Helena exibia a coroa, ainda orgulhosa; à mesa de Éfeso, Lico escolheu um lugar longe de Jason e Cassandra.

Uma ave sobrevoou as mesas e pousou no púlpito. A silhueta se alongou num brilho dourado, dando lugar a Hera. Ajoelhamo-nos. Quando a deusa nos permitiu levantar, abriu os braços e sorriu.

— Sejam bem-vindos, campeões. Esta mesa os recebe de volta, e o Olimpo celebra aqueles que a terra devolveu. Honraram suas cidades e trouxeram esperança aos lares que aguardam por vocês. Comam, descansem e recebam nossa bênção.

Alguns abaixaram a cabeça, comovidos. Procurei o sorriso nos olhos dela e não o encontrei.

— Ao nascer do sol, terão a honra de enfrentar meu julgamento. As regras lhes serão dadas na arena. Que a coragem não os abandone, que seus nomes engrandeçam suas famílias e que a sorte os acompanhe na segunda prova do Grande Agón.

Hera levantou uma das mãos sobre as mesas. Logo depois, seu lugar no púlpito estava vazio.

As conversas voltaram depressa. Hera era deusa dos juramentos, das famílias e dos reinos; cada mesa encontrou uma maneira diferente de temer essas coisas. Eu queria ouvir o palpite de Nélios, mas ele não podia entrar.

Na Ceifa, ao menos eu sabia que precisava encontrar um Feixe. Diante do prato que já não queria terminar, senti saudade das plantas.

*

Na manhã seguinte, descobri que Hera considerava a liberdade de escolha uma forma eficiente de crueldade.

Os cento e trinta e três sobreviventes entraram no Estádio dos Doze ao nascer do sol. Não havia sementes espalhadas pelo piso, sacerdotes formando círculos separados ou qualquer sinal de que o Campo nos engoliria de imediato. Apenas uma extensão de pedra branca, doze portas monumentais dispostas em arco e, acima delas, uma estrutura dourada semelhante à cauda aberta de um pavão.

Sessenta penas terminavam em olhos de pedra ainda escuros. Acima deles havia um único olho azul, muito maior, cercado por doze faixas douradas.

O público ocupava as arquibancadas desde antes da aurora. Quando surgimos, o som desceu sobre a arena como uma onda. Parte dos gritos trazia nomes conhecidos; outra parte se contentava com pólis, patronos e ameaças afetuosas sobre esmagar adversários. Ouvi meu nome mais vezes do que gostaria de admitir e reconheci também o título que os Espelhos haviam escolhido para mim.

Décimo Terceiro.

Parecia mais importante do que Thaniel. Também parecia pertencer a outra pessoa.

Nélios estava na área reservada aos mestres. Não fez qualquer gesto quando nossos olhos se encontraram, mas olhou para a posição da espada negra em minha cintura e depois para meus pés. Ajustei a bainha um pouco para trás. Ele inclinou a cabeça, satisfeito.

Era sua versão de um abraço antes de uma possível morte.

No centro da arena, o sacerdote de Hera esperava diante de um altar baixo. Vestia branco, com faixas azuis cruzadas sobre o peito. Ao seu lado havia uma urna de bronze, estreita o bastante para que ninguém enxergasse o que guardava.

Atrás dele, doze portas ocupavam a parede do estádio. Cada uma trazia um símbolo talhado na pedra. Distingui uma coroa, um ramo carregado de frutos e uma espécie de bacia. Os outros desenhos se confundiam àquela distância. Acima das portas, um olho de pavão observava a arena, cercado por doze faixas douradas.

— Campeões — chamou o sacerdote.

As conversas cessaram. Eu me lembrava do sorriso de Hera no pavilhão, da maneira como tinha falado das famílias que esperavam nosso retorno. Sob o sol da arena, aquela lembrança me pareceu menos acolhedora.

— A Rainha teve doze objetos tomados de seus domínios. Hoje vocês os trarão de volta. Formem duplas. Cada dupla retirará um selo da urna e atravessará a porta que trouxer o mesmo símbolo. O que encontrarem deverá ser depositado neste altar.

Uma mulher levantou a mão.

— E se duas duplas receberem o mesmo símbolo?

— Cada uma seguirá por seu próprio caminho — respondeu o sacerdote. — Não encontrarão os campeões que entraram antes.

Olhei outra vez para as portas. Elas não nos diziam o que havia do outro lado. O sacerdote também não parecia disposto a contar.

— Quando a última faixa ao redor do olho se apagar, as portas se fecharão — continuou ele.

Alguém perguntou o que aconteceria com quem ainda estivesse lá dentro. O sacerdote passou os dedos pela borda da urna.

— Não terá concluído a prova.

Eu já conhecia o bastante do Agón para não pedir que ele explicasse melhor.

— Quem preferir seguir sozinho também poderá fazê-lo — acrescentou.

Preferir. O sacerdote tinha uma maneira generosa de dizer certas coisas.

— E a recompensa? — perguntou uma mulher à frente dos coríntios.

O sacerdote ergueu os olhos para as arquibancadas, onde os Espelhos de Íris devolviam sua imagem ampliada.

— Caberá a quem for digno aos olhos do herói.

Esperei o restante. Não veio. Quem era o herói, o que considerava digno e qual recompensa receberíamos pareciam assuntos que Hera guardara para si.

Os pares começaram a se formar. Companheiros de pólis já tinham combinado. Outros negociaram depressa, oferecendo seus Dons como quem trocava ferramentas num mercado. Vi uma mulher mostrar que conseguia fechar cortes com as mãos; dois homens começaram a discutir qual deles tinha mais a oferecer a ela.

Ajax chamou um rapaz alto, de ombros largos. O rapaz verificou a correia do próprio escudo e foi com ele até a urna. Tiraram um selo marcado com uma coroa. Nenhum dos dois pareceu saber se aquilo era bom ou ruim.

Helena estava com o ateniense que nos guiara durante a Ceifa. Quando me encontrou entre as pessoas sem par, sua expressão mudou por um instante. O companheiro disse algo ao ouvido dela, e os dois se afastaram. Helena olhou para trás uma vez. Desviei o rosto antes que percebesse que eu estava olhando.

Ela tinha me avisado que chegaríamos a um momento em que cada um procuraria sua melhor chance. Ainda assim, doeu um pouco vê-la cumprir a previsão.

Jason ficou perto de Cassandra. Ele me avistou, levantou a mão como se fosse chamar e então olhou para a irmã. Cassandra segurava o arco contra o corpo. Talvez nem tivesse percebido que eu estava sozinho. Talvez tivesse percebido. Depois da enfermaria, nenhuma das duas possibilidades me agradou.

Lico passou diante de mim com uma efésia cuja armadura estava remendada no ombro. Ela me olhou. Ele, não. Fiquei observando a parte de trás da cabeça dele até uma dupla atravessar meu caminho.

Quando voltei a procurar alguém, restavam poucas pessoas.

Um homem de Dodona percebeu minha espada, depois meu rosto, e procurou outra direção. O mesmo aconteceu com uma campeã de Pafos. Não precisava ouvir o que pensavam. Minha Centelha valia zero aos olhos do artefato; na Ceifa, os Espelhos tinham mostrado que eu cedia meu Feixe a Lico, e eu quase morrera por pessoas que nem eram da minha pólis. Parecia uma combinação ruim para quem queria voltar vivo.

Nélios teria dito para eu olhar o que essas pessoas podiam fazer, não para a maneira como me olhavam. Mas ele estava atrás das barreiras, longe demais para me mandar parar de perder tempo.

As últimas duas pessoas sem par se escolheram. Por um momento, fiquei sem entender por que ninguém mais se movia.

Depois vi o espaço vazio ao meu redor.

No templo de Atena, tinham me chamado por último. Na Ceifa, eu fora o último a alcançar o Altar Verde. Agora cento e trinta e duas pessoas tinham encontrado alguém antes de mim. Eu devia ser bom em sobrar.

Um murmúrio subiu das arquibancadas. Nos Espelhos, minha figura apareceu sozinha diante das doze portas. Não era possível me esconder entre os outros quando meu rosto tinha o tamanho de uma parede.

O sacerdote conferiu os pares.

— Um campeão seguirá sem companhia.

Ele não pronunciou meu nome. Não precisava.

Encontrei Jason do outro lado da arena. Sua mão ainda estava meio erguida. Cassandra falou com ele, e ambos foram até a urna. Desviei os olhos antes que Jason pudesse fazer qualquer expressão de pena.

As duplas começaram a retirar os selos. Ajax e seu companheiro atravessaram a porta da coroa. A pedra se fechou atrás deles e, pouco depois, tornou a se abrir para receber outro par que tirara o mesmo sinal. Jason e Cassandra receberam a bacia. Helena e seu companheiro seguiram para a porta do ramo.

Quando chegou minha vez, o sacerdote inclinou a urna em minha direção. Enfiei a mão e toquei vários selos lisos. Peguei o primeiro que consegui segurar.

Havia uma coroa gravada nele.

Olhei para a porta por onde Ajax passara. Aquele desenho não me dizia o que Hera tinha perdido ali, muito menos onde eu deveria procurar. Quis perguntar, mas o sacerdote já estendia a mão para o selo.

— Fique com ele — disse, quando tentei devolvê-lo. — É assim que encontrará a saída.

A pedra da porta era fria sob meus dedos. Encostei a mão na coroa talhada, e ela recuou, revelando um caminho de terra que subia entre rochas.

Entrei.

A porta se fechou às minhas costas. O barulho do estádio desapareceu de uma vez. Virei-me e toquei a pedra, mas ela não se moveu. Do outro lado, milhares de pessoas assistiam à prova. Dali, eu não conseguia ouvir nenhuma.

Estava no fundo de um vale estreito. Havia pedras dos dois lados e uma montanha à frente. O vento descia por ela, trazendo poeira e o farfalhar de algum capim que eu não podia ver. O caminho de terra que começava na porta atravessava o vale e seguia pela encosta. Mais acima, virava uma faixa estreita entre as rochas. Não encontrei outra passagem.

A montanha não parecia muito alta. Isso teria me animado se o caminho não fosse tão íngreme. Havia pedras soltas nos trechos mais baixos e, acima delas, partes em que eu teria de usar as mãos. Perto do topo, uma linha de capim seco se movia ao vento. Imaginei que o objeto de Hera pudesse estar lá em cima. Era a única coisa que eu conseguia imaginar.

Comecei a subir. No pomar perto de casa, eu gostava de escalar as árvores para alcançar os frutos que cresciam fora do alcance de todo mundo. Procurei uma saliência na pedra como procuraria um galho. Ela cedeu sob meus dedos e caiu, batendo várias vezes na encosta antes de parar.

Fiquei olhando para baixo. Se eu escorregasse de uma árvore no pomar, podia ralar os joelhos e ouvir minha mãe reclamar. Ali havia uma queda comprida demais para que ela pudesse reclamar de qualquer coisa depois.

Passei a testar cada apoio antes de confiar meu peso. Isso tornou a subida lenta. Num trecho mais íngreme, encontrei uma corda grossa presa a uma argola enferrujada. Puxei-a. Uma fibra se partiu, e deixei a corda onde estava. Subi agarrado à pedra, com o peito encostado na encosta até alcançar um lugar onde conseguia ficar de pé.

Mais adiante, encontrei a ponta solta da corda entre duas rochas. Era curta demais para me ajudar a subir, mas comprida o bastante para que eu a enrolasse na cintura. Nélios dizia que carregar uma coisa útil custava menos do que precisar dela depois. Eu não sabia para que serviria uma corda velha. Levei-a mesmo assim.

Quando parei para respirar, vi alguém numa elevação distante.

Era um homem grande. O vento movia alguma coisa sobre seus ombros, talvez couro. Tinha a pele escura e estava imóvel, voltado para mim. Ergui a mão.

— Você sabe o que tem lá em cima?

Uma nuvem cobriu o sol. Pisquei por causa da mudança de luz e a elevação ficou vazia.

Não havia caminho para ele descer tão depressa.

Passei os minutos seguintes olhando mais para os lados do que para os pés. Isso me fez escorregar duas vezes. Na segunda, uma lasca de rocha abriu a pele da minha palma. Apertei a mão contra a túnica e continuei.

Depois de cerca de meia hora, o terreno deixou de subir.

No alto havia um campo maior do que a montanha prometia. O capim seco me alcançava o peito em alguns pontos e passava da minha cabeça em outros. O vento o deitava em ondas largas, todas na mesma direção. Rochas escuras saíam da vegetação como costas de animais imóveis. Perto da extremidade oposta, árvores tortas cercavam a abertura de uma caverna.

Procurei um altar. Não encontrei.

Também não vi o objeto de Hera.

O campo parecia vazio. Caminhei pela parte onde o capim tinha sido pisado, tentando descobrir se aquele rastro era humano. Não havia pegadas nítidas. Um cheiro quente e forte, diferente da terra seca, vinha e ia com o vento.

Eu já tinha atravessado quase metade do espaço aberto quando os pelos dos meus braços se eriçaram.

Meu corpo se virou antes de eu decidir fazê-lo.

O capim à esquerda se abriu. Uma massa dourada saltou de dentro dele.

Atirei-me para o lado. Uma pata passou tão perto do meu rosto que senti o ar deslocado pelas garras. O peso do animal atingiu o chão onde eu estivera e me derrubou mesmo sem me tocar. Rolei, bati o ombro numa pedra e procurei a espada às cegas.

O leão era maior que qualquer leão que eu conhecia pelas pinturas. Seus ombros chegavam perto da minha cabeça. A juba escura descia até o peito, misturando-se aos tons do capim; parado entre as hastes, ele desapareceria outra vez. Os olhos permaneciam fixos em mim.

Então vi algo sobre a cabeça dele.

Um círculo pálido tremia acima da juba. Sumia quando o animal movia a cabeça e reaparecia quando ficava imóvel. Parecia uma coroa feita de fumaça iluminada.

Não tive tempo de pensar nela. O leão avançou.

Puxei a espada negra da bainha e golpeei de lado. A lâmina acertou o ombro da fera com força suficiente para fazer meu pulso doer. Não abriu um único corte. Será que a espada tinha enferrujado? Nélios vivia mandando que eu cuidasse dela, e eu ia descobrir que ele tinha razão justo diante de um leão? Olhei depressa para o fio. Não vi ferrugem. O leão desviou a cabeça e saltou de novo.

Corri.

O capim batia no meu rosto. Atrás de mim, ouvi a vegetação se partir, depois nada. Olhei por cima do ombro e vi apenas hastes balançando ao vento.

A ausência de barulho me assustou mais.

Mudei de direção ao alcançar duas rochas próximas. Queria usar uma delas para subir. Antes que chegasse, o leão irrompeu do capim à minha frente. Ele não tinha corrido atrás de mim em linha reta. Cortara meu caminho.

Fui ao chão para evitar a boca aberta. Uma garra rasgou a parte de trás da minha túnica e alcançou a pele. A dor veio um instante depois, comprida e quente. Enfiei-me no vão entre as rochas, de lado, e o leão bateu contra a abertura.

Pedras pequenas choveram sobre mim.

Ele recuou. Achei que desistira de alcançar meu corpo e comecei a me arrastar para a outra saída. Uma pata entrou no vão e tateou o espaço onde minha perna estivera. A unha riscou a pedra com um som que me fez prender a respiração.

Esperei. A pata saiu.

Saí do outro lado o mais silenciosamente que consegui. Não vi o leão. O capim oscilava adiante, numa faixa larga demais para que eu soubesse onde ele estava.

Havia um homem perto da caverna.

Dessa vez distingui a pele morena, os braços largos e tiras de couro cruzadas sobre o peito. Ele olhava para mim. Podia estar a uma centena de passos ou mais; o campo não ajudava a medir. Abri a boca para pedir socorro.

O capim se moveu às minhas costas.

Quando voltei a procurar o homem, já não estava lá.

Passei a avançar de uma rocha a outra. Às vezes ouvia o leão. Às vezes ouvia apenas minhas passadas e tinha certeza de que ele se aproximava sem fazer ruído. O vento mudava, levando o cheiro forte de um lado para o outro. Eu não sabia se o animal me seguia pelo som, pelo cheiro ou simplesmente porque conhecia aquele campo melhor que eu.

Encontrei ossos presos entre as raízes de uma árvore seca. Alguns pertenciam a animais. Reconheci uma fivela de sandália entre os outros e deixei de examinar.

O leão surgiu à minha direita. Subi na árvore com a espada presa à cintura, quase perdendo a bota quando uma pata atingiu o tronco. A madeira inteira gemeu. Eu estava a pouca altura do chão e já podia ver a árvore ceder sob os próximos golpes.

Saltei para uma pedra atrás dela. Aterrissei mal, com a perna dobrada, e um estalo de dor subiu pelo joelho. O leão derrubou o tronco. A árvore caiu onde eu estivera.

Não adiantava encontrar um lugar para esperar. Ele me tiraria de cada um.

Corri em direção à caverna. Uma das entradas era larga; a outra parecia uma fenda entre duas paredes de pedra. Se a fera me seguisse pela abertura menor, talvez demorasse para atravessá-la. Eu precisava de alguns segundos para respirar e escolher outro caminho.

Antes de chegar, o capim se levantou à minha frente.

O leão saltou de uma moita baixa e me obrigou a recuar para junto de uma rocha. Não havia espaço para passar à esquerda. À direita, o terreno caía. Ergui a espada entre nós. O animal a ignorou e se lançou contra minha cabeça.

A boca se fechou sobre a lâmina. Ouvi os dentes baterem no ferro. O leão pressionou, empurrando a arma contra meu peito. A rocha atrás de mim impedia qualquer recuo. Seu hálito era quente, com cheiro de carne velha.

Soltei uma das mãos do cabo. Não pensei no golpe antes de dar.

Acertei a lateral da boca com o punho fechado. A cabeça do leão virou de lado. O impacto subiu pelo meu braço até o ombro; algo branco saltou da mandíbula, bateu na rocha e sumiu no capim.

O leão deu dois passos para trás, com as patas escorregando na terra. Ficou imóvel por um instante, olhando para mim com a boca entreaberta. Então sacudiu a juba e rugiu. Foi quando vi a falha de um lado da boca: uma das presas tinha sumido. A coisa branca que caíra no capim era um dente.

Eu também fiquei parado. Tinha acabado de dar um soco num leão daquele tamanho, e fora ele quem recuara. Os meus dedos ainda se moviam. Um deles sangrava, mas ainda obedecia. Talvez a fera tivesse vindo direto contra meu golpe. Não tive tempo de pensar melhor: o leão já baixava o corpo para saltar outra vez.

A coroa ainda tremia acima da cabeça dele.

Hera. Doze portas. Um leão que a espada não feria.

O homem de couro que aparecia e desaparecia.

Lembrei de uma história contada tantas vezes que eu guardara mais as imagens do que as palavras. Um herói diante de um leão que as armas não conseguiam matar. Seu primeiro Trabalho.

— Herácles — falei, sem saber se chamava o homem ou tentava convencer a mim mesmo.

O leão rosnou, como se reconhecesse o nome, e avançou outra vez. Saltei para fora de seu caminho e alcancei a fenda. Ela era estreita perto do chão e alargava acima dos meus ombros. Passei de lado. Atrás de mim, as garras bateram na entrada.

Herácles tinha matado o Leão de Nemeia apertando-lhe o pescoço até que deixasse de respirar. Eu lembrava dessa parte. Nas pinturas, parecia ter levado menos tempo do que se gasta para contar a história.

Olhei para meus braços. O leão forçava a cabeça pela fenda, quebrando pequenas lascas da pedra.

Eu não conseguiria fazer aquilo com as mãos.

A corda estava enrolada na minha cintura.

Puxei-a. A fibra tinha aguentado minha subida quando uma parte ainda estava presa ao rochedo. Talvez aguentasse mais um pouco. A parede da fenda era atravessada por uma pedra saliente, firme o bastante para eu apoiar um pé. Acima dela, a abertura terminava em duas rochas inclinadas uma contra a outra.

Era um lugar ruim para o leão passar. Também era o único lugar onde eu podia alcançá-lo sem que o corpo inteiro da fera me alcançasse primeiro.

Ele retirou a cabeça e sumiu.

Fiquei escutando. Seu hálito desaparecera. Não havia outra saída próxima, a não ser a entrada larga da caverna.

Por um momento pensei em fugir por dentro dela. Então ouvi passos pesados movendo-se para aquela entrada. O leão conhecia os dois caminhos.

Dei a volta por fora das rochas e subi até a parte alta da fenda, usando os pés e a mão boa. Amarrei uma ponta da corda em torno da pedra saliente. Fiz um laço com a outra e deixei-o pendendo no estreitamento. Não era uma armadilha boa. A maior parte da corda estava gasta e eu nunca tinha capturado nada maior que uma galinha.

O leão entrou na caverna pela abertura larga.

De onde eu estava, via um pedaço da escuridão e a passagem estreita adiante. Se ele escolhesse sair pelo mesmo lado, eu teria montado tudo por nada. Se me farejasse antes de atravessar, a armadilha também acabaria antes de começar.

Encontrei uma pedra solta e atirei-a no interior da caverna. Ela bateu longe, à minha esquerda.

O leão respondeu com um rosnado.

Atirei outra, mais perto da fenda. Depois enfiei metade do corpo no vão, deixando que me visse.

Os olhos dele brilharam na sombra.

— Eu também acho uma ideia ruim — murmurei.

Recolhi-me.

Ele veio.

A cabeça passou pela abertura. O laço escorregou sobre a juba e quase caiu antes que eu puxasse. A corda desceu para a parte mais estreita do pescoço, junto à mandíbula. Prendi o outro extremo entre as mãos e me joguei para trás.

O leão avançou mais um passo e encontrou as rochas com os ombros. A fenda segurou parte do corpo dele. A corda esticou. Senti cada fibra se apertar contra minha palma ferida.

Não foi suficiente.

O leão sacudiu a cabeça. Eu perdi o apoio de um pé e bati contra a pedra. A corda afrouxou; ele conseguiu puxar ar. Uma pata surgiu abaixo de mim e alcançou minha bota.

Atirei o peso do corpo para trás. A unha arrancou uma tira do couro.

Precisava apertar mais. Passei a corda em torno da guarda da espada negra e girei o cabo, como Nélios fazia para torcer um pano molhado quando achava que ninguém estava vendo. O laço diminuiu. Uma fibra arrebentou com um estalo, depois outra. Prendi o punho da espada contra a saliência de pedra para impedir que voltasse.

O leão se debateu.

Seu corpo não atravessava a fenda, mas a pedra também não parecia capaz de contê-lo por muito tempo. As rochas rangeram. A coroa espectral oscilava acima da juba, entrando e saindo do meu campo de visão. Uma pata bateu na parede e lançou poeira nos meus olhos.

Pensei em Herácles usando os próprios braços. Não consegui admirar a força dele naquele momento. Só me perguntei quanto tempo tinha levado.

Segurei a espada com as duas mãos e apoiei os pés onde a pedra não estava se partindo. O leão puxou. Meus braços quase acompanharam o movimento. A corda cedeu um pouco, e o rugido interrompido da fera passou pela abertura.

— Não — falei.

Eu não sabia se falava com ele ou comigo.

Mudei a posição dos pés, como Nélios repetia no treino. Deixei o peso cair para trás em vez de tentar vencer a fera com os braços. A espada girou mais um pouco dentro da corda. O laço apertou.

O leão golpeou a pedra uma última vez. Depois uma segunda, mais fraca.

Não soltei.

O capim lá fora continuava a se mover ao vento. Uma parte da rocha machucava minhas costas. Meu sangue tornara a corda escorregadia. Esperei que o animal retomasse o movimento, certo de que bastaria um descuido para ele sair da fenda.

Quando suas patas deixaram de arranhar a pedra, continuei segurando.

Não soube por quanto tempo.

Por fim, a pressão do outro lado desapareceu. A corda afrouxou de repente, e eu caí sentado. O corpo do leão se desfez diante da entrada da caverna, primeiro nas bordas da juba, depois nas patas e nos dentes. Não virou cinza nem sangue. Sumiu como uma imagem que alguém retirasse de um Espelho.

A coroa desceu devagar e pousou sobre a pedra.

Ainda parecia feita de luz, mas minha mão encontrou peso quando a peguei. Era pequena demais para caber na cabeça da deusa e tinha a superfície lisa de algo que jamais fora usado. Uma representação. Era aquilo que Hera queria de volta.

Saí da fenda carregando-a junto ao peito. As pernas me sustentaram por teimosia. Do outro lado do campo, onde antes eu só vira capim, havia um altar branco entre duas árvores secas.

Atravessei o campo esperando outra investida. Não ouvi nenhuma. O vento voltou a ser apenas vento.

Coloquei a coroa sobre o altar.

Ela se dissolveu em fios de luz. Uma marca azul subiu pela borda do altar até formar o olho de Hera. No instante em que o desenho se fechou, o vento parou.

Uma haste de capim seco ficou suspensa diante do meu rosto. Esperei que a luz me levasse à arena, mas continuei ali. Até a poeira sobre o altar parecia imóvel.

Olhei para a fenda do outro lado do campo. Minha espada continuava presa entre as pedras.

— Ela voltará com você — disse uma voz atrás de mim. — Não precisa subir lá outra vez.

O homem que eu vira na montanha saiu da sombra das árvores. De perto era maior do que eu imaginara, embora não andasse como alguém interessado em mostrar o próprio tamanho. Tinha a pele morena, braços marcados por cicatrizes e roupas de couro gastas pelo uso. Não trazia a pele de leão que aparecia nas estátuas.

O cheiro chegou junto com ele: suor, couro aquecido e alguma coisa selvagem que me lembrou o campo. Senti sua Centelha antes de conseguir pensar em como uma pessoa podia carregar tanto poder. Dei um passo para trás.

— Você é Herácles.

Ele assentiu e olhou para o campo. O capim se agitava onde a fera estivera. Pensei nos ossos entre as raízes e na sandália abandonada.

— Era de verdade? — perguntei.

— O bastante para matar você.

— Mas desapareceu.

— Os caminhos de Hera repetem coisas que ela prefere não esquecer. Não precisa ser o mesmo animal para que suas garras sejam reais.

Isso não me fez sentir melhor.

Passei a mão pelo corte nas costas. Queria perguntar por que ele estivera na montanha me observando, mas me lembrei da pele que minha espada não conseguira cortar.

— Eu não teria saído da caverna sem a corda.

— Eu também não teria usado os braços se tivesse encontrado uma — respondeu ele.

Não parecia estar brincando.

— Nas pinturas, você sempre faz tudo sozinho — falei.

— Entrei sozinho na primeira vez, como você. Depois tive companheiros em outros Trabalhos. Alguns eram meus amigos. As pinturas costumam deixá-los de fora.

Eu havia passado a manhã querendo que alguém entrasse comigo. Não sabia por que me incomodava tanto descobrir que as imagens de Herácles escondiam quem estivera ao lado dele.

— Por que mentir? Os deuses gostam mais de um herói sozinho?

— Gostam de uma história que caiba numa estátua.

Depois da resposta, instintivamente olhei para a espada ainda presa na pedra. A imagem de um homem enorme estrangulando um leão era incrível o suficiente para caber em qualquer parede ou tapeçaria. Já um garoto preso a uma corda velha, chorando de dor nos dedos enquanto a rocha fazia metade do trabalho, talvez fosse mais difícil de vender.

— E a coroa? — perguntei. — O leão roubou mesmo uma coroa de Hera na sua vez?

— Quando estive aqui, não havia coroa.

Ele levou um momento antes de continuar.

— Havia um povo no sopé da montanha. Durante anos, o leão caçou seus rebanhos e, depois, começou a descer atrás das pessoas. Quando cheguei, algumas casas estavam fechadas havia tanto tempo que ninguém esperava mais vê-las abrir.

Pensei na sandália abandonada entre o capim. Não sabia se pertencera a alguém daquele povo ou se Hera também a tinha posto ali para a prova.

— Você salvou todos?

— Os que restavam.

Herácles disse aquilo olhando para a encosta, não para mim.

— Mais tarde, chamaram o que aconteceu aqui de meu primeiro Trabalho. Um desafio digno de um filho dos deuses. É uma história melhor do que dizer que Hera me mandou a um lugar de onde esperava que eu não voltasse. Para as pessoas que viviam aqui, nada disso era uma prova.

— Os deuses tentaram matar você?

— Doze vezes. Na versão oficial, pelo menos — disse o homem, sem emoção.

A revelação era surpreendente.

— Por quê? — perguntei, sem conseguir conter a surpresa.

— Hera tinha seus motivos. Os outros tinham motivos para deixá-la tentar.

Ele não parecia procurar minha concordância. Estava dizendo uma coisa de que se cansara havia muito tempo.

Olhei para o altar vazio. Hera tinha colocado uma coroa na cabeça do leão e nos enviado para buscá-la. Em nenhum momento o sacerdote falara das pessoas no vilarejo ou das mentiras contadas por trás das histórias.

Não escondi minha indignação.

— Então por que continua servindo aos deuses?

Herácles demorou a responder. Quando tornou a me olhar, já não havia nem o pouco de humor que eu ouvira em sua voz.

— Há dívidas cujas correntes são mais resistentes que o couro daquele leão.

Eu quis perguntar a quem ele devia tanto. Antes que pudesse, seu olhar desceu até minha mão ferida. Ele observou meus dedos, depois meu rosto, com uma atenção que me fez querer esconder a mão.

— O leão recuou quando você o atingiu — disse.

— Acho que ele veio contra o meu punho.

— É como chamou o golpe? Você esmurrou uma fera com o triplo do seu tamanho.

Herácles se aproximou um passo. A presença de sua Centelha pareceu ocupar até o ar que eu precisava para respirar, mas ele não olhava para a própria força.

— Há uma Centelha crescendo dentro de você. Consigo senti-la, embora não saiba o que é. É antiga, rapaz. Antiga o bastante para que nem os deuses sejam capazes de reconhecer o que estão vendo.

Olhei para minha mão ferida. Até pouco tempo, ela não teria feito um leão daquele tamanho recuar.

— Mas eu não tinha poder nenhum. O artefato marcou zero. Como uma coisa dessas aparece de repente?

— Nem sempre aparece de repente. Eu já era forte quando Hera me enviou à primeira provação. Quando enfrentei Cérbero, era muito mais. Ninguém colocou aquela força em mim entre um combate e outro. Ela cresceu. Alguns poderes ganham força com o tempo; outros se firmam ou alcançam mais longe do que antes.

Lembrei da mão de Zeus em meu braço.

— Ele perguntou quem tinha colocado isso em mim.

— Zeus estava errado. O que está crescendo em você já era seu.

A frase que Zeus dissera no templo voltou à minha cabeça: O artefato mede aquilo que foi criado para reconhecer. Ele tinha sentido a Centelha e afastado a mão como se tocasse uma lâmina. Talvez não soubesse reconhecê-la. Herácles também não sabia, mas não parecia querer arrancar de mim uma resposta.

— Zeus sabe que há alguma coisa — disse Herácles. — Isso basta para que você tenha cuidado com ele e com os outros deuses. Não deixe que o obriguem a mostrar o que ainda não entende.

Olhei para o olho de Hera no altar.

— Os deuses não vão saber que você me contou isso? E os Espelhos de Íris?

Herácles apontou para a haste de capim parada no ar.

— Você depositou a coroa. Antes que o instante seguinte aconteça, estamos conversando na sua mente. Lá fora, ainda não passou um segundo.

Olhei da haste para ele. Eu sentia o cheiro do couro de suas roupas e a força esmagadora de sua Centelha. Nada parecia uma lembrança ou um sonho.

— Então os Espelhos...

— Verão você devolver a coroa e voltar à arena. Não há conversa para mostrarem. Mas nosso tempo aqui está acabando.

Herácles abriu a mão. O dente estava em sua palma. Eu o deixara caído no capim e não o vira buscá-lo. Reconheci a ponta lascada e a mancha de sangue perto da raiz.

— A coroa era de Hera — disse ele. — Isto você arrancou do leão. Fica com você.

O dente diminuiu entre seus dedos até ficar menor que meu polegar. Sua superfície ganhou o brilho discreto de pedra polida, e um fio escuro se formou ao redor dele. Herácles depositou o colar na minha mão boa.

— Ele também está só na minha cabeça?

— Não. Vai voltar com você. Guarde-o; será útil.

— Como?

A haste de capim tornou a cair. A luz azul do altar me alcançou antes que Herácles respondesse.

O barulho da multidão me atingiu de uma vez. Caí de joelhos diante do sacerdote, com a corda enrolada na cintura, a espada presa à bainha e o colar fechado na mão boa. Os curadores vieram correndo; um deles viu minhas costas e fez uma expressão que preferi não examinar.

Procurei Herácles entre as doze portas. Não estava lá.

O sacerdote anunciou meu retorno. Nos Espelhos de Íris, o leão saltava de dentro do capim numa cena já pronta para parecer corajosa. Mostraram meu golpe contra a boca, a fuga para a caverna e a coroa caindo sobre a pedra. Depois, eu já aparecia na arena. Para quem assistia, nada tinha acontecido entre uma coisa e outra.

Não mostraram o homem junto ao altar.

Nélios estava atrás da barreira dos mestres. Quando me viu de pé, fez um gesto para que eu deixasse os curadores terminarem o trabalho. Obedeci. Dessa distância, ele não podia mandar em mim, mas sabia fazer parecer que podia.

Havia poucos campeões na área dos classificados quando os curadores me deixaram sentar. A maioria das portas continuava aberta, recebendo de volta gente coberta de terra, água ou sangue. Escolhi um banco de onde podia vê-las sem precisar me levantar.

Helena saiu da porta do ramo algum tempo depois. Trazia um arranhão na testa e folhas presas à roupa. Procurou os outros atenienses, encontrou meu rosto entre os primeiros classificados e diminuiu o passo. Olhou para a porta da coroa, depois para mim, como se conferisse se eu realmente tinha voltado antes dela. Só então reparou na faixa que cobria minhas costas. Sua expressão mudou, mas ela a disfarçou ao tirar uma folha da manga.

Jason e Cassandra apareceram com os tornozelos sujos de lodo. Jason abriu um sorriso assim que me viu e ergueu a mão acima das cabeças dos campeões à sua frente. Cassandra acompanhou o gesto com os olhos. Examinou minhas faixas, viu que eu estava sentado por conta própria e fez um aceno curto antes de seguir o irmão.

Ajax voltou mais tarde, ao lado do companheiro. Os dois tinham poeira até nos cabelos. Pararam perto dos bancos, e um dos Espelhos de Íris tornou a mostrar o momento em que o leão me encurralara contra a rocha. Vi minha espada presa entre os dentes da fera, meu punho alcançar sua boca e a cabeça enorme virar com o golpe. O Espelho passou depressa pelo instante em que fiquei imóvel, assustado com o que acabara de fazer.

Ajax acompanhou a cena inteira. Depois me encarou como se aquele soco fosse uma insolência que eu lhe devia explicar. Escondi a mão ferida sob a outra. Eu também não sabia explicar.

A imagem mudou para a prova dele. Ajax e o companheiro haviam atraído o leão até uma faixa estreita de pedra, perto da queda do outro lado da montanha. O companheiro esperava em terreno firme. Ajax recuou com o escudo erguido, deixando a fera avançar até parecer que não tinha mais para onde fugir. No último instante, abaixou-se e rolou para o lado. O leão saltou sobre ele. As patas encontraram pedras soltas, e seu peso levou parte da borda junto. Vi as garras rasparem a rocha antes de a fera desaparecer na queda.

Quando os Espelhos voltaram a Ajax, ele recolhia a coroa surgida entre as pedras da beirada. O companheiro segurou seu braço enquanto ele se afastava dali. Os dois tinham saído vivos, embora nenhum dos dois parecesse ter vencido com facilidade.

Ao cair da tarde, a última faixa dourada ao redor do olho de Hera se apagou. As portas se fecharam, inclusive para quem ainda não tinha voltado. O sacerdote anunciou que cento e quinze campeões continuariam no Agón. Dezoito dos que tinham entrado naquela manhã não estavam entre nós. Da porta da coroa, apenas Ajax, seu companheiro e eu havíamos retornado.

O sacerdote pediu silêncio. Dois auxiliares trouxeram um suporte coberto por um tecido branco e o colocaram diante do altar. Quando ele retirou o tecido, vi a pele de um leão. Tinha marcas antigas, peso de coisa verdadeira e a cabeça vazia da fera. Aquilo não se parecia com a manifestação que desaparecera na caverna.

Herácles não surgiu para recebê-la. O sacerdote anunciou que o herói observara os caminhos e escolhera o campeão digno de seu reconhecimento. Alguns competidores nem tinham chegado a vê-lo durante a prova; todos conheceriam sua decisão.

Ajax foi chamado.

O espartano caminhou até o altar sem olhar para os Espelhos. O sacerdote ergueu a pele verdadeira do Leão de Nemeia e a colocou sobre seus ombros como uma capa. A cabeça do animal caiu atrás de sua nuca. Ajax ajustou o couro sobre a armadura e permaneceu sério enquanto as arquibancadas o aplaudiam.

Eu me lembrava de como minha espada escorregara pela pelagem do leão. Aquela capa poderia deter golpes que a minha armadura não suportaria. Por um momento, fiquei olhando para ela.

Então toquei o dente escondido sob minha túnica.

No Espelho, eu depositava a coroa e reaparecia na arena. Não havia espaço para Herácles entre uma cena e outra. Apertei o colar na mão. Ele continuava ali.