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O Décimo Terceiro · A Grande Ceifa — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver.

A Grande Ceifa

Voltei do banquete e encontrei meu quarto exatamente como o deixara: não existindo.

Minha cama improvisada continuava no chão da sala comum, espremida entre um banco de pinho e a passagem para o corredor. Doze quartos para doze campeões haviam funcionado perfeitamente até Zeus decidir acrescentar uma anomalia à aritmética sagrada.

Helena passou por mim enquanto eu ajeitava o manto grosso de Melissa para servir de travesseiro.

— Tente não morrer antes da prova — disse ela, com a frieza habitual. — Ficaria ruim para Atenas.

— Vou dormir com cuidado.

Ela quase esboçou um sorriso antes de fechar a porta do próprio quarto. Deitei pensando na voz ressonante de Apolo, no foco gélido de Zeus e na advertência de Deméter. Vocês foram cultivados por famílias, cidades e mestres. No escuro, aquela frase soava como uma ameaça agrícola premeditada.

Na manhã seguinte, Nélios me acordou com a ponta da bota contra as minhas costelas.

— De pé, garoto.

— Delicado como um coice de mula.

Ele trouxe o desjejum num cesto de vime, ignorou a miséria do meu colchão no chão e esperou que eu engolisse a primeira porção de queijo e pão antes de me interrogar:

— O que você sabe sobre Deméter?

— Colheita, fertilidade, estações, trigo.

— E?

— A filha dela foi sequestrada por Hades.

— Útil se a prova envolver disputas matrimoniais no submundo. Tente outra vez.

Lembrei do cheiro de terra fértil e chuva que a acompanhara até o salão e da forma como a sua voz fizera a abundância e o abandono parecerem faces da mesma lâmina.

— Fome — respondi. — Ela é quem retira o que faz crescer.

Nélios assentiu, satisfeito.

— Abundância e escassez. Todos gostam de celebrar a primeira. Quando uma regra parecer simples amanhã, descubra quem paga pela falta.

— Você sabe qual será a prova?

— Não. Cada edição tem regras diferentes.

— Reconfortante...

Antes que eu começasse a me lamentar, ele revistou a minha mochila de lona. Conferiu a ração seca, o odre de água, a corda de cânhamo e o manto. Acrescentou tiras de linho limpo e um par de luvas de couro fino.

— Espera que eu encontre trigo armado?

— Espero que você encontre algo que corte, fure, queime, afogue ou minta. Os deuses têm imaginação, mas respeitam os fundamentos.

Após a refeição, ele me levou para o campo de treino da retaguarda. Não permitiu corridas longas nem golpes desgastantes. Praticamos quedas amortecidas, rotações de quadril e estocadas curtas com a espada de madeira contra feixes de junco ressecado. Meu novo corpo obedecia com maior prontidão, mas ainda persistia um hiato sutil entre a decisão visual e a resposta motora, como se tendões e músculos exigissem que cada ordem fosse traduzida em voz alta.

Nélios bateu com a vara no meu pulso quando a guarda desceu um palmo. Recuperei a postura, rodei o calcanhar e cobri o flanco.

— Já consigo fazer isso sem pensar.

— Consegue pensar depressa. É diferente.

Ele baixou a arma e me encarou:

— A magia lhe deu alcance, massa e uma capacidade de absorção que ainda não compreendemos por completo. Mas o treino transforma uma resposta raciocinada num reflexo mecânico. Você teve poucos dias. Quase todos passados marchando na poeira de uma estrada.

— Então continuo fraco.

— Comparado a quem?

Olhei para o outro extremo do campo de terra batida. Ajax treinava contra três lanceiros espartanos simultaneamente. O escudo de bronze de um dos adversários já apresentava uma fenda profunda causada pelo impacto seco da sua maça.

— A ele.

— Quase todos os homens neste vale continuam fracos comparados a ele. Essa comparação é tola e inútil.

Nélios desferiu um toque rápido contra a minha canela.

— Você não precisa ser o mais forte amanhã. Precisa reconhecer aquilo que consegue fazer, aquilo que não consegue e a linha exata entre as duas coisas antes que alguém a demonstre com uma lâmina de ferro.

— Soa menos inspirador quando você explica dessa maneira.

— A inspiração morre nos primeiros dez metros de combate. O autoconhecimento mantém você vivo.

Ao nosso redor, os outros treinavam. Uma competidora de Kyllene lançou quatro facas em direções diferentes; todas mudaram de caminho no ar e acertaram o mesmo alvo. Um rapaz de Corinto usou água para encontrar uma costura frouxa na mochila. Ninguém parou para olhar. Ali, um Dom servia tanto para atingir alguém quanto para conferir bagagem.

Perto das árvores, Jason treinava vendado. Três companheiros tentavam cercá-lo, mas ele virava a cabeça antes que chegassem perto. Jason se distraiu para me cumprimentar; Cassandra aproveitou e atingiu o ombro dele com uma flecha de treino.

— Eu estava ouvindo os três — reclamou ele.

— E agora está ouvindo quatro — respondeu Cassandra.

Jason me lançou um sorriso. Eu ainda precisava olhar para os pés para não errar uma volta; ele sabia onde eu estava sem abrir os olhos. Apertei a espada de madeira e voltei ao meu treino.

Um competidor de Kyllene se aproximou com passos macios e me examinou com uma curiosidade descarada:

— Disseram que o Décimo Terceiro era um menino de dez anos.

— A informação estava correta quando saiu de Atenas — retruquei.

— É algum Dom de metamorfose oculta?

Nélios se interpôs antes que eu formulasse outra resposta:

— O segredo de um competidor não é mercadoria para a praça de Hermes. Circule, rapaz.

O jovem sorriu com desdém e se afastou.

Perto do meio-dia, Helena convocou os treze atenienses ao redor de uma mesa de pedra lisa. Não havia mapas desenhados, o que representava fielmente o vazio das nossas informações. Ninguém a elegera capitã, mas a postura dela deixava claro que qualquer autoridade ali pertencia à sua iniciativa.

— Não conhecemos o terreno, a duração nem o objetivo da prova — começou ela, a voz firme. — Sabemos apenas que Deméter valoriza ciclos, recursos e penalidades. Até compreendermos a mecânica da arena, permanecemos em formação cerrada.

Um dos veteranos de Atenas cruzou os braços sobre a couraça.

— E quem nomeou você nossa capitã? — perguntou ele, o tom carregado de desafio. — Ninguém aqui votou em liderança alguma.

Helena não alterou a voz, tampouco tentou parecer ofendida.

— Ninguém me nomeou. Você é livre para marchar sozinho assim que os portões se abrirem — respondeu ela, com uma frieza muito prática. — Mas se entrarmos no Campo de Deméter atirando cada um para um lado, seremos caçados um a um por equipes que treinam juntas desde a infância. Se você quer sobreviver à primeira prova e ir longe neste Agón, a nossa única vantagem real agora é agir como um bloco.

Antes que o veterano pudesse retrucar, outro guerreiro ateniense assentiu, dando um passo à frente.

— Ela tem razão — interveio ele, baixando o tom de voz. — Ouvi secretamente os escolhidos de Kyllene esta manhã. Os guerreiros de Hermes fizeram um pacto para atravessarem a primeira prova unidos. E se a pólis da trapaça decidiu jogar em grupo, é certo que Esparta, Éfeso e as outras farão o mesmo. Seremos massacrados se nos separarmos.

Helena retomou a palavra, selando o argumento:

— Nosso primeiro dever é continuarmos respirando. Mas faremos isso trazendo honra a Atena. A nossa pólis vai chegar o mais longe possível, com o máximo de sobreviventes possível. Para isso, a formação será cerrada. E todos nós começamos juntos.

O veterano estreitou os olhos, e o seu olhar recaiu pesadamente sobre mim, transbordando desconfiança.

— Todos nós? — indagou ele.

— Treze — rebateu Helena, sem vacilar. — Se alguém quiser contestar o decreto de Zeus, recomendo que apresente a queixa pessoalmente quando o rei dos deuses descer à arena.

O silêncio do guerreiro encerrou o assunto.

Helena apontou para um rapaz magro, de feições pálidas e voz baixa, cujo Dom residia na percepção geométrica de rotas e orientação espacial.

— Se o território tiver um centro, uma fronteira ou um ponto de fuga, ele encontrará a linha antes dos outros — determinou ela. — Ninguém se afasta do grupo. Ninguém corre atrás de miragens douradas. E ninguém tenta bancar o herói solitário.

Ela olhou diretamente nos meus olhos na última frase. Não me dei ao trabalho de responder.

Passamos a tarde especulando sobre o que uma deusa da agricultura poderia exigir de combatentes armados. Ao anoitecer, não sabíamos mais do que pela manhã. Nélios me encontrou na sala comum enquanto eu conferia os nós da minha mochila pela quarta vez; retirou duas maçãs secas e um cantil excedente que eu havia empacotado e exigiu que eu recitasse as regras fundamentais.

— As regras ainda não foram dadas — reclamei.

— Diga as que nunca mudam.

Pensei nos exercícios do depósito e nos ensinamentos da descida da serra:

— Observar antes de mover. Não desperdiçar energia. Proteger os pés e a água. Saber sempre por onde entrei.

— E?

— Não lutar se puder evitar.

— E?

Respirei fundo, sabendo a resposta que ele queria ouvir:

— Sair vivo é a única vitória que importa.

Nélios assentiu com dureza:

— Amanhã haverá dezenas de milhares de pessoas no estádio e nações inteiras assistindo pelos Espelhos de Íris. Alguns vão querer ver o Décimo Terceiro morrer gloriosamente para justificar a lenda. Não lhes dê a sua vida apenas porque estão olhando.

— Você acha que eu faria uma idiotice dessas?

— Acho que todos os homens fazem coisas estúpidas quando acreditam que serão lembrados com música.

Ele virou as costas e se retirou para a ala dos mestres. Deitei-me sobre a lona dura do catre e adormeci depressa. O medo acumulado cobrara o seu preço; a certa altura, até o terror cansa.

Na manhã da primeira prova, Olímpia despertou muito antes do sol, e Nélios pôs fim às suas mentiras de estrada.

Ele me esperava no pátio dos fundos do pavilhão, com o volume comprido repousado sobre um banco de pedra. O linho escuro que o envolvia continuava impregnado da poeira da serra de Élis.

— O instrumento cartográfico? — perguntei.

— Não.

— A ferramenta agrícola?

Nélios desfez os nós de couro cru sem proferir uma palavra. Afastou o tecido grosso e revelou uma bainha de couro negro e gasto, com besouros de bronze escurecido e uma empunhadura longa forrada a tiras de cabedal. Puxou a lâmina: o ferro era fosco, negro como carvão de forja, desprovido de gemas, filigranas ou inscrições votivas aos deuses.

— Você atravessou o mar e o Peloponeso com uma espada nas costas e jurou que era um instrumento cartográfico — comentei, fitando o metal.

— Ninguém leva para a batalha um instrumento cartográfico, garoto.

Ele a estendeu com o punho voltado para mim.

— Segure.

O meu pulso cedeu ligeiramente ao receber o peso. A arma não era aberrante, mas o seu centro de equilíbrio inclinava-se para o terço frontal da lâmina, exigindo uma firmeza deliberada nos músculos do antebraço para que a ponta não caísse.

Nélios examinou a posição dos meus dedos, a tensão dos meus ombros e o meu olhar, como se procurasse uma reação que se recusava a nomear. Nada ocorreu, salvo a queimação habitual dos meus tendões se adaptando à carga.

— Pesa mais do que a madeira.

— É uma lâmina de combate verdadeiro. Madeira serve para corrigir passos; ferro serve para quem precisa abrir caminho.

— Então estou pronto?

— Não. Mas estará, se não morrer hoje.

Assumi uma guarda média. O meu instinto pedia agilidade, esquivas curtas e recuos; a lâmina negra exigia que cada investida fosse executada com a gravidade de uma decisão irreversível.

— De onde veio esta arma?

Ele prendeu os tirantes da bainha no meu cinto com dois nós cegos.

— Sobreviva a esta colheita e eu conto.

— Isso é chantagem barata.

— É um incentivo.

Tentei embainhá-la às pressas e o fio de corte quase rasgou a minha coxa. Nélios travou o meu punho com força:

— O corte não descansa só porque você guarda o ferro. Controle primeiro. Velocidade depois.

Deslizei o aço negro para dentro do couro. A espada assentou contra o meu quadril esquerdo — fria, silenciosa e pesada, sem emitir qualquer brilho ou calor.

Trombetas de prata soaram nos quatro cantos do vale. Fogueiras de resina foram acesas ao longo das colunatas, e centenas de sacerdotes armados escoltaram as doze delegações para o Estádio dos Doze. As galerias, os terraços de mármore e as próprias encostas do monte Crónion estavam apinhadas de dezenas de milhares de espectadores.

Foi nesse trajeto que percebi a confusão do público.

— Onde está o menino? — ouvi um comerciante perguntar no parapeito.

— É aquele com a túnica azul de Atenas.

— Aquele homem alto?

— Zeus o transformou!

— Eu vi as transmissões em Corinto, foi um milagre dos Doze!

Passei de cabeça erguida, sem desmentir ninguém. Um vendedor ambulante nas escadarias continuava comercializando pequenas estatuetas de madeira tosca que me retratavam como uma criança miúda de dez anos ajoelhada sob o raio de Zeus.

Nas paredes da entrada, os Espelhos de Íris exibiam a marcha das comitivas. A imagem do meu rosto adulto surgiu no cristal líquido, sendo imediatamente substituída pela gravação antiga da Assembleia na Acrópole. A propaganda olímpica alternava entre as duas com evidente orgulho técnico.

— Ao menos escolheram o meu melhor ângulo — murmurei.

— Você nem sequer sabe qual é — rebateu Nélios, seco.

Os mestres foram travados diante da grande arcada interior. Sacerdotes de mantos alvos revistaram as nossas bolsas à procura de artefatos proibidos. Um deles puxou dois dedos da lâmina negra, olhou para o ferro opaco sem demonstrar qualquer interesse e empurrou-a de volta para a bainha.

Nélios puxou a correia da minha mochila, garantindo que não se soltaria na corrida.

— Observe. Respire. Saia vivo.

— Esse é todo o conselho?

— É o único que interessa.

Ele apertou o meu ombro e recuou para a sombra dos arcos. Helena ergueu o braço, convocando os atenienses, e nós cruzamos o limiar de pedra.

O estádio parecia maior por dentro. As arquibancadas subiam até eu já não distinguir rostos. Espelhos de Íris flutuavam acima da arena e mostravam, enormes, as mãos e os olhos dos campeões que entravam.

Ficamos em círculo sobre a areia. Contei treze atenienses ao meu redor. Do outro lado estavam os cento e trinta e dois escolhidos das demais pólis. Encontrei Ajax entre os espartanos; Jason me cumprimentou de longe. Cassandra já olhava para o centro, com o arco junto aos pés.

Os tronos dos deuses estavam vazios. Depois do banquete, fiquei aliviado por não sentir outra vez o peso de todos eles sobre meus ombros. A arena inteira, contudo, havia sido construída para o que decidissem fazer conosco.

Uma sacerdotisa idosa, vestida em túnicas de linho verde e branco, desceu até o centro da circunferência. Trazia feixes de trigo ressequido entrelaçados nos cabelos brancos, uma foice curta de gume cego numa das mãos e um cesto largo de vime na outra. Pousou a ferramenta na areia e esperou até que o estádio calasse o seu rugido.

— Campeões do Grande Agón — proclamou ela, e o eco da sua voz amplificou-se através dos Espelhos suspensos. — O primeiro julgamento pertence a Deméter, Senhora dos Grãos, Senhora das Quatro Estações, aquela que sustenta o mundo e recolhe o tributo de toda a colheita.

Ela ergueu a foice:

— Esta é A Grande Ceifa.

No céu límpido, cento e trinta e três símbolos luminosos desenharam-se em círculos concêntricos. Eram silhuetas de espigas de trigo, apagadas e translúcidas.

— No Campo de Deméter repousam cento e trinta e três Feixes sagrados. Cada competidor que pretenda escapar à ceifa deverá localizar um Feixe, conduzi-lo ao Altar Verde e depositá-lo no fogo da deusa. Quando a oferenda for consumada, a sua salvação estará selada. O campeão será retirado do Campo e regressará à segurança desta arena.

A mulher fez uma pausa calculada para que a matemática penetrasse na mente de todos.

Cento e quarenta e cinco competidores. Cento e trinta e três saídas. Doze mortes certas.

— Os Feixes não podem ser desfeitos por armas comuns. Podem, contudo, ser transportados, perdidos, roubados ou recolhidos dos cadáveres daqueles que falharem em defendê-los. As marcas no firmamento responderão no instante exato em que cada Feixe for arrancado da sua raiz original. Atentem bem: as espigas contam recursos encontrados, não vidas resgatadas.

Murmúrios gelados correram a circunferência.

— Quando a centésima trigésima terceira marca se acender no céu, nenhum Feixe intocado restará no solo. A partir desse instante, quem estiver de mãos vazias terá de arrancar o seu sustento das mãos de outro competidor. A Ceifa só termina quando todas as oferendas forem consagradas no Altar.

A sacerdotisa ergueu o cesto de vime e virou-o sobre a areia.

Milhares de sementes escuras rolaram pelo solo com um som sussurrado, quase imperceptível. Durante um segundo, houve apenas o silêncio da multidão.

Então o chão sob as minhas botas pulsou.

A terra fendeu-se com um estalo de trovoada subterrânea. Fendas profundas rasgaram a arena em todas as direções, expelindo lodaçais e tufos densos de capim bravo. O solo de areia afundou e elevou-se em colinas súbitas de terra negra. Trigo de três metros de altura rompeu a pedra; carvalhos colossais brotaram diante dos nossos olhos, alargando os troncos até taparem a luz do sol.

O círculo desfez-se sem que ninguém se movesse.

O fosso esticava-se em quilômetros mágicos. As outras delegações foram arrastadas para longe por ondas de terra e folhagem. Vi Jason desaparecer atrás de um desfiladeiro recém-aberto, enquanto Cassandra puxava a corda do arco à medida que o solo se afastava; Ajax ergueu a voz num brado que a distância abafou de imediato.

Quando o cataclismo vegetal cessou, as arquibancadas do estádio haviam desaparecido no horizonte. Estávamos sozinhos: os treze atenienses cercados por uma floresta densa que cheirava a seiva amarga e terra podre.

Um sino grave ecoou do topo do céu.

A prova havia começado.

Um dos nossos tentou disparar em corrida pelo bosque aberto. Helena agarrou-lhe a correia da armadura com uma mão de ferro:

— Em formação!

O rapaz de orientação agachou-se, cravou a palma na terra úmida e fechou os olhos. Seus lábios tremeram ligeiramente:

— O Altar... o ponto de maior peso está a noroeste. Pelo menos é para lá que a corrente puxa.

— É o nosso rumo — determinou Helena. — Ninguém se afasta. Em marcha!

Avançamos entre campos de trigo selvagem e matagais densos. Fiquei na retaguarda da coluna. Minhas passadas compridas permitiam-me manter o ritmo dos veteranos, mas a espada negra amarrada ao quadril batia com um peso morto que alterava o meu centro de gravidade a cada desnível. Tive de encurtar a passada e dobrar mais os joelhos para não me desequilibrar nas raízes.

Na primeira hora, a arena parecia um bosque comum. Havia canais de água límpida, aves cruzando a copa das árvores e arbustos carregados de frutos silvestres.

Ainda no começo da marcha, a primeira espiga luminosa acendeu-se no céu, preenchendo-se com um brilho dourado e puro. Logo depois, outra. Mais três quase em simultâneo. Algures naquele vasto labirinto, outros campeões já encontravam seus salvocondutos.

Dois atenienses recuperaram Feixes ocultos na estrutura de um moinho abandonado; outro arrancou uma espiga do topo de um espantalho coberto por trepadeiras espinhosas.

Contudo, enquanto marchávamos, comecei a notar detalhes incomuns no terreno.

As flores brancas à beira da vereda fechavam as pétalas com um estalido seco logo após a passagem da coluna. Raízes que pareciam imóveis quando eu as pisava torciam-se lentamente nas nossas pegadas. Uma videira carregada de bagas roxas inclinou-se na direção do braço de um soldado ferido e encolheu-se quando ele acelerou o passo. O canto dos pássaros cessou por completo.

— O mato está reagindo a nós — sussurrei para Helena.

Ela olhou para trás sem diminuir o ritmo:

— Como assim?

Apontei para um arbusto cujos ramos rastejavam devagar sobre a lama:

— Não é o vento. Elas procuram calor e movimento.

Helena fitou os caules retorcidos durante um segundo.

— Mantenha os olhos abertos — murmurou ela, sem me censurar.

Minutos depois, alcançamos um canal de irrigação entupido de lodo aos pés de um pomar em ruínas. A coluna contornou uma comporta de madeira apodrecida e preparou-se para subir a encosta seguinte.

Eu ia segui-los quando um reflexo na água chamou a minha atenção.

Havia uma réstia dourada pulsando sob o barro, por baixo da margem escavada. O sol estava alto nas nossas costas; a luz na água não vinha de cima.

— Esperem — pedi.

Helena travou a marcha com impaciência evidente:

— O que você viu agora?

Desci o talude escorregadio. A lama cedeu sob o peso das minhas botas e apoiei a mão livre numa raiz para não deslizar de cara no lodaçal. Afastei folhas mortas e avistei o brilho morno sob a base de uma figueira brava.

— Há um Feixe aqui.

Um dos campeões espiou do alto:

— É apenas o reflexo do sol na poça.

— O sol não brilha debaixo da terra — repliquei.

Desembainhei a espada negra. Naquele espaço exíguo entre raízes e barro, o comprimento do ferro tornou-se um estorvo: a lâmina bateu num tronco ao primeiro movimento. Ajustei o aperto, usei apenas a ponta com cortes curtos e limpei o emaranhado de espinhos. Embainhei a arma, enfiei o ombro por baixo da margem e me arrastei até a fresta. A lama cobriu meu peito e um espinho rasgou meu antebraço, mas não recuei.

Num nicho de terra escura e fofa, repousava o Feixe. Era um punhado de espigas de trigo dourado, atadas por fios verdes e vivos, emitindo uma luz quente e orgânica.

Agarrei a base e puxei com as duas mãos.

Os filamentos vegetais resistiram por um instante, como se a própria terra puxasse de volta, antes de cederem de repente. Caí de costas no canal, segurando o Feixe contra o peito.

No céu cinzento, a vigésima sétima espiga acendeu-se num clarão dourado.

O trigo era morno ao toque. A luz dourada atravessava a lama que cobria os meus dedos.

— Thaniel! — chamou Helena da margem. — Vai ficar aí contemplando a sua sorte o dia todo?

Subi o barranco e exibi o Feixe. Os atenienses me encararam com um espanto que as palavras não conseguiam disfarçar: o rapaz que pontuara zero e ficara em último nas preliminares garantira o seu salvoconduto antes de quase toda a cidade.

— Prenda-o à mochila — ordenou Helena, retomando o comando. — Cubra a luz com o manto. Não queremos atrair atenções.

Usei a correia que Nélios preparara para atar firmemente a base do Feixe à armação da sacola e puxei o linho cinzento por cima. A claridade ainda escapava pelas dobras, mas os meus braços ficaram livres.

Por um momento, senti uma onda de alívio ingênuo. Tinha o meu passaporte para fora daquele lugar. Estava integrado no meu grupo, seguindo o guia com Dom de orientação em direção ao Altar Verde. Cheguei a pensar que a prova se resumiria a caminhar até o fim.

O Campo tratou de desmentir essa ilusão nas horas seguintes.

À medida que o contador subia — trinta e quatro, quarenta e dois, cinquenta —, a floresta tornou-se hostil. As veredas abertas estreitaram-se em corredores de silvas. Espinheiros grossos erguiam-se onde o nosso guia indicava passagem desimpedida. Quando a quinquagésima terceira marca brilhou no alto, as árvores ao nosso redor estremeceram sem brisa alguma. Um bloco compacto de raízes negras rompeu o caminho atrás da coluna, selando a nossa rota de fuga.

— A floresta está fechando as portas — comentei.

Ninguém ousou me contradizer.

Pouco depois, o primeiro grito cortou a folhagem.

Foi um som rouco, abafado pela distância, seguido pelo estalo nítido de madeira quebrando e pelo sibilar agudo de espinhos contra armadura.

Helena ergueu o punho e mandou parar. Avançamos com cautela até a crista de uma ravina funda coberta por samambaias gigantescas.

Lá embaixo, três guerreiros vestidos com os mantos cinzentos e verdes de Éfeso lutavam desesperadamente pela vida.

A vegetação daquela ravina não era passiva. Pétalas espessas e carnosas fechavam-se como armadilhas dentadas; cipós farpados chicoteavam o ar, prendendo braços e gargantas; raízes compridas emergiam da terra com a força de aríetes para derrubar quem tentasse recuar. Todas as plantas daquela cratera pulsavam em uníssono através de uma rede de veios esbranquiçados que corriam sob o musgo.

Um dos homens de Éfeso, corpulento e de ombros maciços, desferia golpes furiosos com uma machadinha de cabo curto, decepando cipós que jorravam seiva corrosiva. Ao lado dele, um companheiro mais esguio multiplicava a própria silhueta em dezenas de cópias ilusórias através das árvores; mas as raízes ignoravam os fantasmas desprovidos de calor e continuavam a rastejar em direção à sua carne verdadeira.

O terceiro combatente era Jason.

Mas eu quase não o reconheci. Uma metamorfose brutal, que ele escondera completamente nos treinos da Vila, tomara conta de sua estrutura: garras curtas e negras rompiam a ponta dos seus dedos, a musculatura do tronco inchara a ponto de estalar as fivelas de couro e pelos espessos e escuros subiam pelas têmporas e antebraços. Ele usava um olfato e uma audição bestiais para avisar os companheiros de onde os cipós brotariam da terra, mas a quantidade de tentáculos vegetais sobrecarregava até mesmo os seus instintos de predador.

Um cipó nodoso enrolou-se na cintura de Jason, arrastando-o de costas para a boca escancarada de uma flor colossal armada com espinhos curvos voltados para dentro. Ele cravou a faca de caça na terra para resistir, mas o solo úmido cedia à tração.

— Mantenham o passo — ordenou Helena.

— Vão morrer se não ajudarmos — disse um dos nossos.

— E talvez nós também, se descermos. Temos Feixes e precisamos chegar ao Altar.

Olhei para Jason. Ele havia parado para conversar comigo quando todos me mediam como uma arma defeituosa. Eu o conhecia havia pouco, mas sabia seu nome. Ouvi-lo gritar enquanto a planta o arrastava tornou impossível fingir que eu não tinha visto.

Nélios diria para eu continuar. Helena já tinha dito. Eu sabia que descer podia tirar de mim a única chance de voltar para casa. Mesmo assim, dei um passo encosta abaixo. Quando tentei parar, já estava correndo.

— Thaniel! Volte!

Achei que bastaria cortar o cipó e subir de novo. Antes de alcançar Jason, uma raiz grossa me atingiu nas costas e me lançou contra uma árvore.

O impacto contra a árvore tirou meu ar. Levantei antes de recuperá-lo por inteiro e puxei a espada negra. Atirei a lâmina contra o cipó que segurava Jason; a ponta entrou na casca e parou.

— Perto da raiz! — gritou ele.

Firmei os pés na lama e golpeei mais abaixo. O cipó cedeu. Jason rolou para longe da flor no instante em que ela se fechou sobre a ponta do manto dele.

— Podia ter vindo um pouco antes — disse, ofegante.

— Também achei.

Outra vinha agarrou meu tornozelo. Caí, larguei a espada e fui arrastado. Jason saltou sobre o caule e o cortou antes que eu alcançasse as pétalas. Recuperei a arma enquanto ele me puxava de pé.

Os dois companheiros de Éfeso ainda lutavam. O homem da machadinha abria caminho, e o mais magro criava imagens de si mesmo entre as árvores. As flores ignoravam todas. Cada vez que cortávamos um cipó, outro surgia.

Recuei até uma rocha. Vi então que uma raiz clara, escondida sob a lama, inchava sempre que uma das flores tentava morder. Aconteceu de novo quando a planta avançou sobre Jason. Não eram ataques separados; a força passava pelo mesmo lugar.

— A raiz clara! — gritei. — Cortem quando as flores fecharem!

— Tem certeza? — perguntou Jason.

— Não!

Ele arrancou um pedaço ensanguentado do manto e o atirou para a maior flor. As pétalas se fecharam. A raiz saltou da terra.

O homem da machadinha golpeou primeiro. O outro enfiou a lança na abertura. Jason a segurou com as garras enquanto eu trazia a espada para baixo com as duas mãos. A raiz partiu, e os cipós ao redor perderam a força. Alguns ainda se mexiam, mas já não conseguiam nos prender.

Jason apontou para baixo de um carvalho caído. Uma massa de raízes se contraía ali, tentando se esconder na terra. Os três chegaram antes de mim e cravaram as armas nela. Quando o último golpe entrou, as flores tombaram e as vinhas pararam de se mover.

Permanecemos imóveis durante longos segundos, ofegantes, à espera de um novo ataque.

Nada se moveu.

Passei as costas da mão pela lateral da minha mochila: a correia apertada por Nélios aguentara o tranco e o Feixe de Deméter permanecia intacto sob o manto.

O guerreiro da machadinha tinha os braços cobertos de lacerações. O ilusionista mancava da perna esquerda. Jason limpava o sangue que escorria da testa para os olhos, enquanto as suas feições bestiais retornavam lentamente à forma humana.

Jason apoiou as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego, e soltou uma risada exausta:

— Eu diria que tínhamos a situação controlada, mas a criatura apresentaria uma queixa formal.

— A criatura estava prestes a digerir vocês — respondi, guardando a espada negra na bainha.

Ele se endireitou e segurou o meu antebraço com firmeza. O olhar de predador desaparecera, substituído por uma seriedade límpida:

— Você voltou por nós, Thaniel. Podia ter seguido com Atenas.

Apontou para os dois companheiros feridos que se aproximavam:

— Estes são Dámon e Lico.

Dámon, o homem da machadinha, bateu com o punho no peito numa saudação militar austera:

— Devo-lhe a pele, ateniense.

Lico, o rapaz magro que criava as miragens, murmurou um agradecimento apressado. Os seus olhos, contudo, desceram para a fresta do meu manto, onde o reflexo dourado do vigésimo sétimo Feixe continuava emitindo sua luz morna. O olhar dele não era de alívio; era o cálculo faminto de quem via uma porta aberta e sabia que não tinha a chave.

Lembrei do aviso de Nélios: não confunda educação com segurança.

— Cassandra estava com vocês? — perguntei a Jason, quebrando o silêncio.

Ele perdeu o sorriso:

— No início. Quando o contador atingiu a marca de quarenta, uma barreira de silvas se ergueu e separou-a de nós. Tentamos contornar, mas o terreno começou a se mover. Ela sabe caçar melhor do que qualquer um que conheço. Vai encontrar o caminho.

Olhou para a minha mochila e depois para os céus:

— Nós três ainda não temos nenhum Feixe.

Não havia ameaça na sua voz. Apenas o peso da realidade do Agón pousado sobre as nossas cabeças.

Subimos a encosta de volta ao ponto onde eu havia abandonado a coluna.

O caminho de antes deixara de existir.

Duas faias gigantescas haviam cruzado os troncos sobre a vereda, e uma sebe intransponível de raízes espinhosas com três metros de altura bloqueava qualquer passagem para noroeste. Tentamos pelo flanco direito, mas nos deparamos com um pântano de lodo negro que não constava na paisagem de manhã. À esquerda, a floresta cerrara fileiras com espinheiros que se contorciam lentamente no ar.

— O altar fica além daquela barreira — apontei.

Jason inspecionou as pegadas na terra. As marcas das botas atenienses terminavam abruptamente diante das raízes entrelaçadas, como se o solo as tivesse engolido.

— Estamos isolados — concluiu ele, a voz sombria.

O sol começava a descer atrás das copas distantes. As sombras estendiam-se compridas pelos campos, e uma neblina fria subia dos pântanos. Algures no coração da mata, um bramido pesado e distante fez as folhas vibrarem. Não era a voz de um competidor.

Olhei para os três caçadores de Éfeso ao meu lado. Dámon apertava um trapo ensopado de sangue contra a coxa ferida. Jason apoiava o peso na perna boa. E Lico mantinha os olhos fixos na luz que escapava da minha mochila.

Eu encontrara um Feixe e tinha doze atenienses entre mim e o Altar. Deixara a proteção do grupo para ajudar três homens de outra pólis. Não sabia se Helena conseguiria reunir feixes com os demais depois daquela ravina, nem se eu voltaria a vê-los.

Agora estávamos perdidos. Jason, Dámon e Lico continuavam sem Feixe. E a noite na floresta de Deméter começava a cair.

No céu, outra espiga se acendeu com um estalo de luz dourada.

E sob as nossas botas, a terra voltou a respirar.

*

A primeira coisa que fizemos como grupo foi correr. As raízes se moviam sob nossos pés, e ninguém quis esperar para descobrir o que aconteceria quando chegassem à superfície.

Jason seguia à frente. Os pelos escuros da transformação ainda cobriam seus braços, e ele virava a cabeça para sons que eu só ouvia alguns passos depois. Ele encontrou uma passagem estreita entre o pântano e os espinheiros. Dámon abriu caminho com a machadinha; Lico vinha atrás de mim, vigiando o chão. A terra não nos perseguiu depressa. Tinha a noite inteira.

Quando já não ouvimos o lodo borbulhar, encontramos um celeiro abandonado. Metade do telhado havia caído, mas o piso de cima estava seco. Subimos por uma escada com dois degraus quebrados e cobrimos o alçapão com tábuas. Uma planta capaz de atravessar pedra não seria impedida por aquilo. Pelo menos faria barulho antes de nos alcançar.

Dámon se sentou junto à parede, com a machadinha sobre os joelhos. Tinha os braços cortados pela luta na ravina e mantinha um trapo ensanguentado contra a coxa. Lico tentou enfaixar a perna esquerda. Suas mãos tremiam tanto que o nó não fechava. Jason se agachou ao lado dele e tomou a faixa.

— As imagens que você fez lá embaixo eram seu Dom? — perguntei a Lico.

— Pessoas, objetos, luzes. O que eu consigo imaginar. — Ele observou Jason apertar o curativo. — Não têm peso nem calor. As plantas perceberam antes de vocês.

Depois olhou para mim, demorando-se no meu rosto.

— Você parecia menor nos Espelhos.

— Eu era menor na semana passada.

Dámon soltou um som que talvez fosse uma risada. Durou pouco. Estávamos todos cansados demais para continuar fingindo que o celeiro era seguro.

Dividimos pão, queijo e os figos que restavam. Nélios tirara comida da minha mochila antes da prova. Mesmo ali, com fome, era irritante descobrir que ele tivera

razão: sem espaço para o odre e as faixas, eu provavelmente teria deixado um dos dois para trás.

Jason cuidou dos ferimentos antes de comer. Limpou o braço de Dámon, refez a atadura de Lico e pressionou meu ombro esquerdo. Quase mordi a mão dele.

— Não parece estar quebrado — concluiu.

— Podia ter perguntado antes de testar.

— Podia ter me dito que doía.

— Você descobriu sozinho.

Ele sorriu e amarrou uma faixa no meu braço. Ao terminar, tentou se levantar sem apoiar o peso na perna direita. Não conseguiu esconder a careta.

— Agora a sua — falei.

— É só um corte.

— Também foi o que pensei sobre meu ombro.

Limpei a ferida como Nélios me ensinara. Jason não reclamou, embora eu não soubesse ser delicado. Enquanto trabalhávamos, Dámon riscou no pó do assoalho o caminho que julgava levar ao Altar Verde. Lico apontou para outra direção. Eu tinha uma terceira. Se escolhêssemos o meio entre as três, acabaríamos andando em círculo dentro do celeiro.

Pelas frestas do telhado, vi o contador no céu. Setenta e quatro espigas acesas. Ainda havia cinquenta e nove Feixes escondidos no Campo, o que pareceu bastante até eu pensar nas pessoas que os procuravam.

— Você já tem o seu — disse Dámon. — Pode seguir sozinho.

Ele não falou como quem queria se livrar de mim. Parecia achar que me devia aquela saída.

— Não sei onde fica o Altar.

— Sozinho você anda mais rápido.

— Também me perco mais rápido.

Ou alguém me encontraria mais rápido. Não disse isso. Lico estava sentado à nossa frente, sem Feixe, e eu ainda me lembrava do modo como olhara para a luz sob meu

manto na ravina.

Organizamos turnos de vigília. Dámon ficou com o primeiro; eu, com o segundo. Jason insistiu em assumir o terceiro apesar da perna, e Lico recebeu o último. Não chegamos tão longe.

Eu acabara de substituir Dámon quando folhas rasparam a parede. Vinhas grossas surgiam pelas frestas, tateando o piso. Puxei a espada negra e cortei a primeira, quase acertando uma viga ao sacá-la naquele espaço apertado. A arma continuava pesada e fria. Se escondia alguma coisa, escolhia momentos ruins para mostrar.

Uma ponta se enrolou na bota de Dámon. Ele acordou golpeando. Lico fez quatro imagens nossas saltarem pela janela; as vinhas passaram por elas e vieram direto para nós.

— Eu disse que engano gente melhor do que plantas — murmurou ele.

Saímos pela lateral do celeiro antes que as tábuas sobre o alçapão começassem a se mover. Pelo resto da noite, caminhávamos até as pernas falharem e parávamos até a mata se aproximar. Lico escondeu a luz do meu Feixe sob a imagem de um pano escuro. O trigo continuava morno ao toque, mas já não brilhava através do manto.

— Seu Dom é bem útil — falei.

— Todo artista espera ouvir exatamente isso.

Ao amanhecer, chegamos a um campo de cevada que eu não lembrava de ter visto na noite anterior. As hastes alcançavam meu peito e se inclinavam na mesma direção. Jason se agachou. Os pelos voltaram a crescer em seus braços enquanto farejava a terra.

— Alguma coisa pesada passou aqui — disse. — Mas os rastros acabam no meio do campo.

Dámon queria contorná-lo. Lico achava que estávamos diante de outra armadilha. Observei a cevada enquanto eles discutiam. Alguns grupos de hastes se viravam para dentro, contra o movimento das demais. De longe, formavam círculos ao redor de um ponto que eu não conseguia ver.

— Há alguma coisa no centro.

— É o que a armadilha quer que você pense — disse Lico.

— Talvez.

Jason encontrou uma faixa de terra pisada entre as plantas. As hastes quebradas ali

ainda não tinham se erguido. Seguimos seus passos. Dámon pôs a bota um pouco fora do caminho, e a cevada se enrolou em sua canela. Ele cortou os caules antes que outros o alcançassem. Depois disso, ninguém se afastou da trilha.

No centro havia uma pedra de moinho caída. Um brilho escapava pelo buraco. Jason se ajoelhou e puxou o Feixe escondido entre as raízes. A septuagésima nona espiga se acendeu no céu.

Ele segurou o trigo sem dizer nada. Eu fingi examinar o campo. Dámon e Lico fizeram o mesmo.

— Parece menor na mão — disse Jason por fim.

— Os problemas costumam fazer o contrário.

Jason riu e amarrou o Feixe junto ao peito.

— Você viu o padrão. Eu achei o caminho.

— Dámon descobriu onde não devíamos pisar.

— Fico feliz por ter ajudado — disse ele, ainda arrancando cevada da bota.

Saímos antes que a plantação fechasse a passagem. Jason encontrou água e algumas raízes que jurou serem comestíveis. Tinham gosto de terra. Como não havia outra coisa para comer, tive de aceitar sua palavra.

Comecei a perceber um hábito do Campo. Sempre que uma nova marca se acendia no céu, as folhas se fechavam primeiro. As raízes vinham depois. Era um intervalo pequeno, mas, se nos movêssemos logo após o brilho, ganhávamos alguns passos antes que o chão reagisse. Não contei a ninguém como se fosse uma regra. Eu já tinha visto Deméter mudar de ideia depressa demais.

Jason escolhia por onde passar. Eu observava o momento de avançar. Dámon cortava o que não podíamos evitar, e Lico escondia nossos Feixes quando ouvíamos outros competidores. Por algumas horas, conseguimos agir juntos sem dar ordens uns aos outros.

O contador chegou a noventa e três antes do meio-dia. Conforme subia, o Campo ficava mais perigoso. Flores se abriam com cores bonitas e deixavam ver ossos pequenos entre as pétalas. Um pomar fechou os galhos atrás de nós. O trigo ondulava ao vento, mas eu já não gostava de vê-lo se mexer.

Tentamos encontrar o Altar três vezes. Um bosque nos devolveu ao ponto de partida; um canal de água correu para o lado oposto quando voltamos a ele. Na terceira tentativa, encontramos nossas próprias pegadas, embora tivéssemos caminhado sem virar.

Lico chutou uma pedra.

— Esse lugar está zombando da gente.

— Para isso, precisaria ter senso de humor — disse Dámon.

— Ele colocou cento e quarenta e cinco pessoas numa fazenda que come gente.

— Não disse que seria um bom senso de humor.

Eu teria respondido, mas vi um brilho no pomar à direita. Lico percebeu meu rosto mudar e correu antes que Jason o mandasse esperar. O brilho vinha de uma macieira curvada sobre um poço. Entre os espinhos havia apenas uma fita dourada, arrancada do envoltório de um Feixe. Alguém chegara antes.

No céu, a centésima primeira espiga já estava acesa.

Lico ficou com a fita na mão, respirando depressa.

— Ainda há trinta e dois no Campo — disse Jason.

— Para quantas pessoas sem nenhum? Quarenta? Cinquenta?

— Então continuamos.

Lico guardou a fita. Mais tarde, deu a Jason o último figo que trazia, sem dizer que era o último. Na descida de um barranco, pôs a lança diante de mim quando o chão se abriu sob minha bota. Se ele não tivesse feito isso, eu teria caído entre espinhos grandes o bastante para atravessar uma perna.

— Isso nos deixa quites pela ravina? — perguntou ao me puxar de volta.

— Com certeza.

Ao cair da tarde, todos mancávamos. A fome fazia parte de cada decisão. Quando a mata ficava quieta, sentávamos antes de perceber que havíamos parado. O Feixe de Dámon apareceu quando o contador marcava cento e onze.

Estava preso sob uma carroça tombada, num vinhedo. As vinhas se voltavam para qualquer coisa quente. Uma delas ignorou a imagem que Lico criou e foi atrás de Jason.

Ele jogou uma pedra aquecida pelo sol para longe; três caules a seguiram.

— Podemos queimar o vinhedo — sugeriu Dámon.

Não tínhamos como fazer fogo bastante. Mesmo se tivéssemos, incendiar a plantação de Deméter parecia uma maneira trabalhosa de pedir que ela nos notasse.

Molhamos os mantos com parte da nossa água e avançamos por uma vala. O tecido frio nos deu tempo para chegar à carroça. Cortei apenas as vinhas que desciam perto demais. A espada negra continuava comprida demais para aquele espaço e indiferente à minha vontade de descobrir para que Nélios a carregara até Olímpia.

Dámon se apoiou sob o eixo. Jason ficou de guarda, e Lico entrou por baixo das tábuas.

— Está preso nas raízes — avisou. — Preciso de mais espaço.

Dámon ergueu a carroça o quanto pôde. Usei a espada como apoio sob uma das rodas; a madeira rangeu, mas subiu mais um pouco. Jason cortou as vinhas que se aproximavam de nossas pernas.

Então um caule se enrolou no eixo. A carroça começou a cair. Lico saiu debaixo dela e lançou o Feixe. Dámon soltou o peso, rolou pela lama e apanhou o trigo antes que tocasse o chão. A centésima décima segunda marca se acendeu, e todas as vinhas do pomar se moveram ao mesmo tempo.

Corremos até Jason cair de joelhos e anunciar que, se outra planta fosse comê-lo, preferia uma que não produzisse uvas. Dámon apertava o Feixe contra o peito. Lico tinha arranhões no rosto e sorria.

— Você entrou debaixo da carroça — disse Dámon. — Podia ter ficado com ele.

— Você a segurou enquanto eu estava lá.

— Foi você quem o encontrou.

— Na próxima, tiramos par ou ímpar — disse Lico.

Os três olharam para mim.

— Procurem outro juiz — falei. — Eu sempre perco.

Jason riu até a perna ferida doer.

Na segunda noite, cento e vinte e seis marcas brilhavam no céu. Faltavam sete.

Encontramos as paredes de uma casa sem telhado e nos abrigamos do vento. Lico fez aparecer uma quarta parede e cobriu a luz dos nossos três Feixes. A ilusão não enganaria as raízes, mas talvez impedisse outros competidores de nos ver.

Dividimos as últimas raízes que Jason encontrara. Dámon ofereceu parte da sua a Lico. Ele recusou uma vez e aceitou quando Dámon insistiu. Nenhum de nós disse que só Lico continuava sem Feixe.

Jason ficou de vigia. Acordei com a mão dele sobre minha boca. Ouvi dois homens do outro lado da parede falsa. Um jurava ter visto três luzes; o outro dizia que eram duas. Esperamos, imóveis, até os passos se afastarem.

— A ilusão continua enquanto você dorme? — perguntei a Lico.

Ele abriu os olhos.

— Não estou dormindo.

Não dormiu no restante da noite. Talvez nenhum de nós tenha dormido. Entre um ruído e outro, Jason me perguntou por que eu deixara os atenienses na ravina.

— Você estava sendo arrastado para dentro de uma flor.

— Percebi essa parte.

— Então sabe por quê.

— Sei o que aconteceu. Quero saber por que decidiu voltar.

Pensei em Helena mandando que continuássemos. Ela tentara manter treze pessoas vivas. Eu teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela? Não sabia. Também não sabia o que diria à minha mãe se voltasse para casa depois de ouvir Jason gritar e não fazer nada.

— Eu ia pensar em vocês depois — respondi. — Se seguisse com Atenas, teria tempo para isso.

Jason apoiou a cabeça na parede.

— Então voltou para não se lembrar de nós morrendo.

— Quando você fala assim, parece egoísmo.

— Ainda bem que foi egoísta.

Não encontrei resposta. Dessa vez, ele não insistiu.

Partimos antes do amanhecer. A floresta atacava mesmo quando não a tocávamos. Cipós cruzavam as trilhas; flores soltavam um pó amarelo quando sentiam passos; espinhos saíam de troncos que um instante antes pareciam lisos. O contador subiu devagar. Cento e vinte e sete. Cento e vinte e oito.

Seguimos um riacho até ele desaparecer sob pedras. Jason encontrou musgo arrancado de uma árvore e marcas recentes de botas no chão. Outros competidores haviam passado por ali, muitos, todos na mesma direção. Desta vez escolhemos confiar nas pegadas.

Subimos uma encosta e a mata se abriu. O Altar Verde estava do outro lado do vale.

Colunas claras se erguiam entre raízes enormes. A luz verde que víramos de longe vinha do centro de uma plataforma. Ao redor dela, uma coroa de cento e trinta e três grãos talhados na pedra se acendia aos poucos. Enquanto olhávamos, uma mulher saiu da floresta, entregou um Feixe e desapareceu numa coluna de luz. Outro grão brilhou.

Dois homens que a perseguiam pararam no primeiro degrau. Nenhuma raiz atravessava aquela linha. Era a zona segura.

— É de verdade — disse Jason.

— Ainda dá tempo de descobrir que é uma ilusão muito bem feita — respondeu Lico.

Ele tentou sorrir, mas seus olhos estavam no contador. Cinco Feixes continuavam escondidos no Campo. Nós trazíamos três.

Descemos pela encosta. Jason sugeriu procurar nas margens antes de entrar no Altar. Lico balançou a cabeça.

— Entreguem os de vocês. Eu procuro o meu.

— Não vamos nos separar agora — disse Jason.

— Se ficarem comigo, podem perder tudo.

— Então procura andando mais depressa.

Lico não respondeu. Continuou conosco.

Na última descida, uma raiz surgiu entre meus pés. Desviei, mas outra agarrou a mochila e me puxou para trás. A correia se rompeu. O Feixe bateu contra meu ombro, e sua luz apareceu por baixo do manto.

Lico agarrou a bolsa antes que a planta a levasse. Dámon cortou a raiz; Jason me puxou para uma faixa de pedras. Caímos juntos enquanto a terra se fechava onde eu estivera.

— O Feixe — falei.

— Está aqui — respondeu Lico.

Ele se ajoelhou atrás de mim. Senti suas mãos na correia e vi o brilho junto ao meu ombro. Lico tirou uma tira do próprio cinto, refez o nó e bateu duas vezes na mochila.

— Agora aguenta.

— Obrigado.

Ele me ajudou a levantar. Alcançamos os degraus pouco depois. O cheiro de pão quente veio do Altar, e percebi o quanto estava faminto. Fazia quase dois dias que comíamos pedaços de comida entre uma corrida e outra.

Jason tirou o Feixe do peito. Antes de subir, segurou meu antebraço.

— Eu não teria chegado sem você.

— Eu também não teria chegado sem você.

— Isso facilita a parte dos agradecimentos.

Ele depositou o trigo na pedra. Raízes finas o envolveram, e uma voz de mulher atravessou o vale.

— Centésima décima nona colheita.

Jason desapareceu na luz. Ouvir o número me fez olhar outra vez para o céu: cinco Feixes ainda estavam na terra, mas outros nove haviam sido encontrados e ainda não tinham chegado ao Altar. Alguns podiam estar nas mãos de pessoas tão perto da saída quanto nós.

Dámon entregou a machadinha a Lico.

— Use esta. Sua lança está quebrada.

Lico segurou o cabo com as duas mãos.

— Vejo você do outro lado.

Dámon entregou o próprio Feixe.

— Centésima vigésima colheita.

Restamos Lico e eu. Tirei a mochila. O trigo ainda brilhava sob o pano preso pela tira do cinto dele. Soltei o nó e subi os degraus. Pela primeira vez desde a ravina, meu corpo começou a acreditar que eu sairia vivo.

Pus o Feixe sobre a pedra.

As raízes não se moveram.

Esperei. A voz também não veio. Toquei as espigas, e meus dedos atravessaram a luz. Ela se desfez, deixando uma pedra comum no Altar.

Virei-me.

Lico estava no limite da zona segura. Um Feixe verdadeiro ardia sob seu manto.

Lembrei-me das mãos dele trabalhando atrás da minha mochila e do brilho que eu enxergara sem tocar. Ele amarrara uma pedra com a aparência do meu Feixe. O meu estava com ele.

Desci um degrau. Lico ergueu a machadinha que Dámon lhe dera. Sua mão tremia, mas ele não a baixou.

— Eu não encontrei o meu — disse.

— Nós íamos procurar com você.

— Eu sei.

Queria que negasse, que dissesse que eu havia entendido errado. Ele olhou para a pedra no Altar e depois para mim. Não ofereceu nenhuma das duas coisas.

— Não quero morrer, Thaniel.

— Eu também não.

Lico recuou para os degraus. Corri até ele, mas raízes se ergueram entre nós. Bati na madeira e tentei passar por cima. Do outro lado, Lico depositou o Feixe.

— Centésima vigésima primeira colheita.

Ele desapareceu. Continuei segurando a raiz que nos separara, mesmo depois que ela começou a afundar no chão.

Pensei no figo que dera a Jason e na lança que me impedira de cair. Nada disso tinha

sido fingimento. Lico quis que chegássemos juntos até o último momento em que precisou escolher. Escolheu a si mesmo.

A centésima vigésima nona marca acendeu-se no céu. Quatro Feixes ainda estavam escondidos. Fiquei com raiva de Lico, de mim e da pedra sobre o Altar. Nenhuma dessas coisas me daria outro Feixe.

Desci para a mata.

O caminho que nos trouxera havia mudado. Seguir pegadas não serviria; as raízes as cobriam tão logo alguém passava. Ouvi um rio no fundo do vale. Se ficasse perto dele, ao menos saberia por onde voltar.

Procurei entre folhas, troncos e pedras. A centésima trigésima marca fez flores brancas crescerem nas margens. Quando a seguinte se acendeu, elas se abriram e soltaram um cheiro que me deixou tonto. Molhei o manto, cobri a boca e atravessei a água. Perdi a margem que pretendia usar como guia, mas ficar nela significava cair entre as flores.

Duas vezes corri atrás de luzes falsas. Na primeira era o sol sobre o rio. Na segunda, insetos reunidos num tronco. Meu estômago vazio começava a convencer meus olhos de coisas que não estavam ali.

Cento e trinta e dois.

Uma marca permaneceu escura. Esperei que se acendesse enquanto avançava. Ela continuou apagada.

O rio fez uma curva entre pedras altas. E então vi o brilho no topo de um pinheiro, preso a uma armação de raízes entre os galhos. Aquele era o último Feixe. Dessa vez não havia flores com dentes nem cipós à espera. A árvore bastava.

Deixei a mochila no chão e prendi a bainha da espada às costas. Subi. Meus braços agora alcançavam galhos que teriam ficado acima da minha cabeça em Atenas, mas alcance não me ensinava a escolher madeira firme. Um apoio apodreceu sob minha bota; agarrei o tronco e raspei o rosto na casca para não cair.

O rio encolheu lá embaixo. Parei de olhar para ele. Quando os braços começaram a tremer, lembrei que Nélios me mandava usar as pernas antes de gastar toda a força das mãos. Subi mais devagar.

O Feixe estava a poucos galhos. Estendi o braço. As pontas do trigo tocaram meus

dedos.

Uma flecha atingiu o galho.

A madeira se partiu. O Feixe caiu com o ninho de raízes, rodando entre os ramos. Tentei agarrá-lo e alcancei apenas agulhas de pinheiro.

— Não!

A última marca no céu continuou apagada. A flecha derrubara o suporte, mas ninguém arrancara o Feixe dele.

Cinco competidores nas cores de Apolo corriam pela margem. Um arqueiro chegou primeiro ao galho caído. Pôs a bota sobre a madeira e puxou o trigo das raízes.

A centésima trigésima terceira espiga se acendeu.

Não restava nenhum Feixe escondido. Todos estavam com alguém. Desci da árvore sem pensar muito em onde pisava. Quando toquei o chão, os cinco já se afastavam.

Corri atrás deles.

O brilho escapava sob o manto do arqueiro. Eu o perdia quando as árvores se fechavam, mas o grupo quebrava galhos e espantava pássaros à sua passagem. Tinha um corpo capaz de correr mais depressa do que o meu antigo; ainda não sabia usá-lo por muito tempo sem me desequilibrar. Os homens de Apolo abriram distância. Continuei seguindo os sinais que deixavam.

Quando o Altar apareceu entre as árvores, ouvi metal bater em metal. Mais seis grãos da coroa de pedra haviam se acendido desde que eu deixara o vale. Os cinco haviam chegado a uma praça de ruínas diante dos degraus. Sete competidores de Kyllene os esperavam escondidos entre as paredes caídas. Nenhum dos sete trazia Feixe à vista. Tinham deixado outros fazerem a busca e escolheram o lugar onde todos precisariam passar. Uma competidora sozinha se abrigava junto a um poço seco, esperando a chance de entrar na luta.

Escondi-me atrás de um muro baixo. Eu não chegaria ao arqueiro atravessando aquela luta. Um homem de Kyllene fazia a própria imagem aparecer um passo ao lado do corpo. Outro sumia numa sombra e surgia atrás de alguém. Depois de Lico, eu sabia que meus olhos podiam escolher a pessoa errada. Fiquei onde estava.

Um competidor de Apolo rompeu o cerco e alcançou o primeiro degrau.

— Centésima vigésima oitava colheita.

Outro passou pela esquerda. Uma faca abriu sua bolsa, mas ele agarrou o Feixe antes que tocasse o chão e se lançou para a zona segura.

— Centésima vigésima nona colheita.

Um homem de Kyllene tomou o trigo de um dos rivais e recebeu uma flecha na perna. Ainda conseguiu rastejar até os degraus. Uma companheira o puxou pela couraça; ele depositou o Feixe e desapareceu, deixando-a do lado de fora.

— Centésima trigésima colheita.

O arqueiro recuou até uma figueira. Tinha o Feixe que tirara do pinheiro preso às costas e outro no cinto. Uma mulher de Kyllene agarrou o segundo. Ele a golpeou com o arco; outro competidor cortou a correia que atravessava seu peito. Os dois Feixes caíram em lados opostos.

O arqueiro recuperou o que eu havia seguido desde o rio. A mulher rolou com o outro até os degraus.

— Centésima trigésima primeira colheita.

Restavam dois.

O arqueiro tentou correr, mas alguém atingiu seu joelho. Caiu e estendeu a mão para o arco. Uma bota prendeu seu pulso. O Feixe escapou das suas mãos e parou entre as raízes da figueira.

Outro competidor de Apolo atravessou a luta com um Feixe apertado contra o peito.

— Centésima trigésima segunda colheita.

O último grão da coroa de pedra continuou escuro. Por um instante, todos pareceram ouvir a voz da deusa desaparecer. Contei oito pessoas ainda fora da zona segura, além de mim. O Feixe estava sob a árvore.

Corri.

Pulei o muro. Outra mão chegou ao trigo no mesmo instante que a minha. Puxei com as duas e dei uma cabeçada em quem tentava segurá-lo. Nélios nunca me ensinara aquilo. Talvez devesse ter ensinado.

Levantei com o Feixe contra o peito. Alguém agarrou meu manto; soltei o fecho e deixei o tecido em sua mão. Uma lâmina passou perto demais do meu rosto. Não saquei a espada. Eu precisava chegar aos degraus, não vencer uma luta contra todo mundo que também queria viver.

Uma mulher veio pela direita. Mudei de direção junto à figueira, e ela bateu no tronco. Sua faca abriu meu braço. Tropecei numa raiz, rolei sem soltar o trigo e me levantei.

Os degraus estavam a vinte passos. Alguém agarrou minha bota. Chutei para me soltar sem olhar para trás. Uma flecha passou diante do meu nariz; a seguinte acertou a bainha e puxou meu quadril para o lado. Abri o cinto, mas uma das tiras ficou presa ao pulso. A espada bateu nas pedras enquanto eu corria.

Um homem de Kyllene me alcançou. Vi seu ombro girar antes de ele abrir os braços para me agarrar. Baixei-me, segurei seu pulso e usei a corrida dele para lançá-lo contra outro perseguidor. Fiz o movimento antes de pensar em cada parte. Nélios me derrubara daquele jeito vezes suficientes para o meu corpo, enfim, aprender.

Faltavam poucos passos. Uma mão se fechou na minha mochila. Livrei os braços das alças e deixei-a para trás. Continuei com o Feixe apertado contra o peito e a espada arrastando pela correia.

Meu pé alcançou o primeiro degrau.

As mãos atrás de mim pararam. Dentro da zona segura, nem as raízes avançavam. Subi cambaleando. Eu me lembrava da pedra que Lico deixara em meu lugar e tinha medo de olhar para o trigo que carregava. Se também fosse uma ilusão, não teria forças para procurar outra saída.

Pus o Feixe sobre o Altar.

As raízes o envolveram. O último grão da coroa se acendeu.

— Centésima trigésima terceira colheita.

A luz tomou o vale. Quando desapareceu, havia pedra sob meus joelhos, cheiro de óleo e o grito de milhares de pessoas. Eu estava de volta ao Estádio dos Doze.

Nos Espelhos de Íris acima da arena, vi minha corrida repetida: a queda, a cabeçada, a flecha, os últimos passos. Da arquibancada, devia parecer que eu soubera o que fazer. Eu me lembrava apenas de ter corrido antes que alguém me tirasse o Feixe.

Tentei levantar. Minhas pernas não obedeceram.

O maior dos Espelhos deixou meu rosto e mostrou o Altar Verde. Oito competidores ainda estavam diante dele, sem nada nas mãos. Fazendo a conta, percebi que outros quatro tinham morrido no Campo antes de eu chegar à saída. Eu não sabia seus nomes.

A voz da sacerdotisa atravessou o estádio.

— Cento e trinta e três foram colhidos para a vida. Os demais pertencem agora à terra. A Grande Ceifa está concluída.

No Espelho, a floresta se fechou sobre os oito. Por um instante, a multidão ficou em silêncio. Depois recomeçou a gritar.

Procurei Jason entre os salvos. Ele estava perto da enfermaria, com a perna enfaixada. Cassandra permanecia ao seu lado. Quando me viu, Jason soltou o ar e ergueu o punho. Tentei responder. Meu braço subiu só até a metade.

Curadores atravessaram a arena. Antes que chegassem, Nélios passou pela barreira dos mestres. Não correu até mim, mas respirava forte quando se ajoelhou. Seus olhos foram do meu rosto à espada que eu arrastara até ali. Pôs dois dedos no meu pescoço para sentir o pulso.

— Você demorou — disse.

— O caminho mudou.

— Percebi.

Ele apertou meu ombro uma vez. Sua mão permaneceu ali.

— Eu sabia que você sairia.

Olhei para ele.

— Está mentindo.

— Estou.

Nélios passou meu braço por cima dos ombros e me ajudou a levantar. Não me mandou corrigir os pés, guardar a espada ou aprender alguma lição com o que acontecera. Fiquei grato por isso.

O estádio gritava meu nome como se eu tivesse vencido. Talvez tivesse. Ainda não

conseguia sentir.

Nas preliminares de Atenas, terminei em último. Minha mãe acreditou que aquele lugar me manteria fora do Agón. Na primeira prova, fui o último outra vez.

Desta vez, eu era o último a sair vivo.