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O Décimo Terceiro · A Caçada Noturna — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver

A Caçada Noturna

Contei a Nélios sobre Herácles quando voltamos ao pavilhão. Ele me fez repetir a parte da Centelha, depois a parte em que o capim parara no ar. Só então lhe mostrei o colar.

— Achei que o Dom dele fosse a força — falei. — Como entrou na minha cabeça e fez isto aparecer na minha mão?

Nélios examinou o dente sem tirá-lo de mim.

— Alguns dizem que Herácles ascendeu a uma divindade menor. Nunca vi prova suficiente para afirmar isso, mas também não tenho uma explicação melhor para o que aconteceu com você.

— Como Dionísio?

— Dionísio é um dos Doze, garoto. Está acima das divindades menores. Se o que dizem sobre Herácles é verdade, ele estaria mais próximo de Íris, éstia ou Selene.

Olhei para o dente. A palavra menor não combinava com a presença que eu sentira junto ao altar.

— Você acredita no que ele disse sobre mim?

Nélios demorou um pouco antes de responder.

— Acredito que ele conseguiu falar com você sem que os Espelhos vissem. Isso já é motivo para prestar atenção no aviso. Agora guarde o colar por baixo da túnica. E não repita essa conversa com ninguém.

Passei o fio pela cabeça. O dente ficou encostado ao meu peito, pequeno demais para parecer a presa que eu vira cair no capim. Nélios esperou que eu o escondesse antes de puxar uma cadeira para a mesa.

— O Espelho mostrou você apertando a corda. Não mostrou como colocou o laço no pescoço do leão.

Contei de novo a parte da caverna. Desenhei com o dedo sobre a madeira a entrada larga, a fenda por onde eu passara e a pedra saliente em que prendera uma das pontas. Nélios não me interrompeu até eu explicar como tinha girado a espada dentro da corda.

— Pensou rápido — disse. — A rocha segurou o laço enquanto você o apertava. Sozinho, não teria conseguido manter aquela fera presa pelo pescoço.

Esperei que apontasse tudo o que poderia ter dado errado. Havia bastante coisa.

— Dei sorte de a corda não arrebentar.

— Deu. Uma parte já tinha cedido na subida, e você a usou mesmo assim.

— Era a única que encontrei.

— É por isso que vai levar uma sua na próxima vez, se permitirem que entre com ela.

Nélios inclinou a cabeça, examinando a faixa na minha mão.

— Não quero uma mochila cheia de coisas que o façam correr mais devagar como a que perdeu na Grande Ceifa. Uma pequena. Água, corda boa, tecido para um ferimento. Vamos pesar tudo antes.

Imaginei a corda nova enquanto a velha se partia na minha lembrança. Gostaria de tê-la encontrado antes do leão.

— Correr mais devagar teria me matado — falei.

— Por isso fiz você mudar de direção até ficar com raiva de mim. Vi a fera cortar seu caminho nos Espelhos. Você percebeu a tempo e conseguiu chegar às rochas. Seus pés fizeram a parte que sua espada não podia fazer.

Eu ainda sentia o peso do animal batendo contra a pedra atrás de mim. Não tivera a impressão de me mover bem; só tentara não estar onde ele pisaria em seguida.

Nélios pegou minha mão boa e abriu os dedos com cuidado.

— A rocha e a espada ajudam a explicar a corda. Não explicam tudo. Você segurou o puxão daquela fera por tempo demais. E o soco...

Ele olhou para os nós dos meus dedos, escondidos sob a outra faixa.

— Herácles pode ter razão — concluiu. — Alguma coisa respondeu quando você precisou dela.

Eu tinha esperado por aquela frase desde que voltara à arena. Ouvi-la não tornou a coisa dentro de mim mais fácil de entender.

— Podemos descobrir o que foi?

— Quando sua mão permitir. Hoje você mal consegue segurar uma tigela.

Na manhã seguinte, uma curadora confirmou a opinião dele. Os dedos estavam inchados, e a pele das minhas costas ardia sempre que a túnica se movia. Ela me proibiu de erguer peso até conseguir fechar a mão sem dor. Nélios não discutiu. Passou parte do dia procurando uma bolsa que não batesse

nas minhas pernas quando eu corresse.

Encontrou uma pequena e me fez experimentá-la vazia. Depois pôs um cantil dentro, uma tira de linho e uma corda nova, enrolada de modo que eu pudesse tirá-la sem espalhar o resto pelo chão. Tirou o cantil, trocou-o por outro menor e me mandou correr pelo pátio. Na terceira volta, a bolsa começou a escorregar do meu ombro. Nélios encurtou a correia e tornou a me mandar correr.

— Parece muito trabalho para carregar três coisas — reclamei.

— O leão quase comeu você enquanto procurava uma saída. Quero saber se consegue pegar a corda sem olhar.

Não consegui na primeira tentativa. Na segunda, puxei junto o linho. Nélios ajustou os objetos dentro da bolsa e me fez tentar outra vez. Quando finalmente tirei só a corda, ele pareceu satisfeito por menos de um instante.

— Agora faça andando.

A curadora liberou minha mão alguns dias depois, com a condição de que eu parasse se os dedos voltassem a inchar. Nélios levou-me a um canto do pátio onde havia sacos de areia usados para segurar os suportes das arquibancadas. Escolheu três, marcou-os com carvão e os dispôs em fila. Eu tinha a espada na cintura, mas ele mandou que a deixasse encostada à parede.

Ergui o primeiro sem dificuldade. O segundo exigiu as duas mãos e um jeito melhor de dobrar os joelhos. No terceiro, consegui soltá-lo do chão apenas por um momento antes que escorregasse de volta.

Nélios fez uma marca numa tábua.

— Outra vez?

— Depois de descansar a mão.

Ele não pareceu desapontado. Eu, sim.

Repetimos o teste na manhã seguinte. O terceiro saco continuou pesado demais. Nélios me levou até uma pedra grande, perto do muro, e pediu que a levantasse. Primeiro tentei encontrar um lugar para enfiar os dedos. Depois empurrei com o ombro. A pedra virou um pouco sobre a terra e voltou à posição anterior.

— Se eu tivesse a corda, conseguiria movê-la — falei.

— Provavelmente. Estou tentando descobrir o que você faz sem ela.

Aquilo me pareceu injusto. Na montanha, usar a corda fora a única ideia boa que eu tivera.

Nélios percebeu minha expressão.

— Na prova, use até a própria parede se servir. Aqui preciso saber quanto da força veio verdadeiramente de você.

Voltamos à pedra mais duas vezes. Consegui fazê-la rolar quando ele deixou que eu a empurrasse com os pés bem apoiados. Não consegui erguê-la. Nélios anotou os resultados na mesma tábua, sem me dizer se correspondiam ao que esperava.

Por fim, amarrou a corda nova a uma carga suspensa. Pediu que eu a mantivesse erguida enquanto ele soltava parte do peso aos poucos. Aguentei por algum tempo. Quando acrescentou mais um saco, a corda começou a escapar entre meus dedos. Larguei antes de abrir a ferida da mão outra vez.

O peso caiu com um baque que fez dois auxiliares olharem para nós. Nélios verificou meus dedos e encerrou o treino.

— Então não usei a Centelha — falei.

— Hoje não — ele fez uma pausa antes de continuar. — Mas talvez você não estivesse em uma situação em que precisasse dela.

— E no leão?

Ele guardou a tábua sob o braço.

— No leão você estava ferido, encurralado e tentando continuar vivo. Aqui sabe que posso baixar os sacos se pedir.

Olhei para a carga caída. Não queria que ele me pendurasse no lugar dela, mas também não gostava da ideia de só conseguir usar aquela força quando estivesse prestes a morrer.

— Vai tentar me assustar?

— Não. Se eu começar a feri-lo para medir seu Dom, ficamos sem campeão antes da terceira prova.

Nélios disse aquilo enquanto desatava a corda, como se fosse apenas mais uma conta que não fechava. Ainda assim, demorou para tornar a me entregar a tábua.

Nos dias seguintes, ele continuou os testes com pesos que eu já conseguia erguer. Mudava o número de repetições, a maneira de segurar, o tempo durante o qual precisava manter a carga suspensa. Às vezes eu melhorava. Às vezes chegava cansado e fazia menos do que no dia anterior. Nenhum saco saltou do chão; nenhuma pedra se moveu porque eu tinha desejado muito.

Minha mão sarou o bastante para voltar à espada. Nélios retomou os treinos de direção e parada brusca, agora com a bolsa atravessada no peito. Tive de aprender a cair sem deixar o cantil bater nas costelas. Ele me fez sacar a corda depois de correr, depois com os olhos fechados, depois enquanto segurava a espada na outra mão.

Na noite em que anunciaram nossa convocação para a terceira prova, a bolsa já não me atrapalhava tanto. Nélios conferiu seus nós e devolveu-a. A corda nova pesava pouco. Eu a sentia ali a cada passo.

Ele fechou a tábua de anotações e a guardou entre as próprias coisas. Não tinha descoberto como fazer minha Centelha aparecer. Eu tampouco. Mas sabia quanto tempo aguentava uma carga nas mãos antes de precisar soltá-la e conseguia alcançar a corda sem perder de vista o que estava à minha frente.

À entrada do salão, Nélios parou onde os mestres eram obrigados a ficar. Antes que eu seguisse os outros campeões, puxou de leve a correia da bolsa.

— Se ela impedir você de correr, largue-a.

— Você passou dias me ensinando a usá-la.

— Passei dias tentando evitar que precise escolher. Se precisar, escolha mais leveza

Ajeitei a correia no ombro e entrei. O anúncio da terceira prova ainda não tinha começado.

A lebre tentou escapar do meu braço pela terceira vez quando ouvi um galho se partir atrás de mim. Parei entre duas árvores, apertando o animal contra a túnica com cuidado para não machucá-lo. Ela tinha o pelo da mesma cor das folhas no chão e poderia desaparecer ali sem dificuldade. Eu, com uma espada batendo na perna e uma mochila presa aos ombros, tinha menos chances.

Aquilo era a prova de Ártemis. No sorteio, recebi a marca dos guardiões e uma lebre que parecia disposta a me abandonar antes que alguém precisasse matá-la.

Parte dos campeões devia proteger os animais; os demais, caçá-los. Os guardiões precisavam entregar uma caça viva no altar da deusa, enquanto os caçadores deviam levar uma abatida. Todos os animais da prova traziam a mesma marca: uma pequena lua prateada, quase escondida entre os pelos ou as penas.

O sacerdote explicou que podíamos tomar a caça de outro competidor. Depois nos mandou para dentro da floresta, cada um por uma entrada, sem dizer onde ficava o altar. A faixa luminosa na pulseira do sorteio mostrava quanto tempo nos restava. Quando se apagasse, quem ainda estivesse ali

perderia.

Eu gostaria que ele tivesse explicado o caminho com o mesmo cuidado que explicou como poderíamos nos matar.

O ruído atrás de mim não se repetiu. Esperei um pouco, olhando entre os troncos, até perceber um esquilo descendo por um deles. Soltei o ar e afrouxei o braço. A lebre aproveitou para me arranhar.

— Estou tentando ajudar — murmurei.

Ela mexeu o nariz, sem parecer convencida.

Usei parte do linho que Nélios colocou na mochila para acomodá-la junto ao peito. Assim consegui andar com uma das mãos livre, embora precisasse parar de vez em quando para impedir que ela saltasse. A mochila tinha água, corda e outras coisas úteis. Nenhuma delas me dizia o que fazer com uma lebre que não queria ser protegida.

A floresta crescia sobre um terreno cheio de desníveis. Havia raízes grossas atravessando o caminho, pedras cobertas de musgo e trechos em que os galhos se juntavam tão baixo que eu precisava passar curvado. Encontrei pegadas na terra úmida, algumas recentes, mas não sabia se segui-las me levaria ao altar ou a alguém procurando exatamente o que eu carregava.

Um grito veio da minha esquerda. Foi curto, seguido pelo bater de asas de alguma coisa que fugiu das árvores.

Mudei de direção.

Já tinha perdido uma parte da luz na pulseira quando alcancei uma passagem entre duas encostas. O chão ali estava seco, e uma trilha estreita seguia adiante. Parecia um caminho usado com frequência. A lebre finalmente sossegou, encolhida no linho, e eu avancei depressa antes que ela mudasse de ideia.

Uma pedra rolou pela encosta.

Olhei para cima a tempo de ver Ajax descendo entre os arbustos. A pele do leão cobria seus ombros, e a cabeça vazia da fera balançava atrás de sua nuca. Por um instante, lembrei do capim seco da montanha e apertei a lebre contra o peito. Ela se mexeu dentro do linho.

Ajax acompanhou o movimento com os olhos. Na pulseira dele, a marca dos caçadores brilhou entre as folhas.

Recuei até a trilha se alargar junto a uma pedra. Atrás de mim, o caminho voltava a ficar estreito; à esquerda, uma queda curta terminava num amontoado de rochas. Não conseguiria correr por ali com a lebre nos braços e a lança dele nas minhas costas.

— Saia da frente — disse Ajax.

Passei a lebre para o braço esquerdo e saquei a espada. A ponta tremeu um pouco quando a ergui, mas consegui mantê-la entre nós.

— Procure outra.

Ele avançou.

A lança veio na direção do meu peito. Bati nela com a espada e desviei para o lado da encosta, como Nélios me ensinara. A ponta passou pela minha túnica sem tocar. Antes que Ajax recolhesse a arma, tentei alcançar seu braço, mas ele girou a haste e prendeu minha lâmina contra a pedra.

Puxei com as duas mãos por instinto. A lebre quase caiu.

Ajax percebeu.

Afastei-me antes da próxima investida e me abaixei junto a uma abertura entre as raízes. Deixei o animal sobre o linho e voltei a me pôr na frente dele. A lebre encolheu as patas debaixo do corpo, tentando desaparecer naquele espaço pequeno.

Agora eu podia segurar a espada direito.

Ajax me deu tempo de levantá-la. Aquilo me irritou mais do que se tivesse atacado enquanto eu estava abaixado.

A segunda investida veio mais baixa. Desviei a ponta e avancei atrás dela, tentando chegar perto o bastante para que ele não pudesse usar toda a lança. Minha espada alcançou seu ombro.

O golpe deslizou pela pele do leão, não causou dano nenhum.

Ajax virou o corpo, e a haste apareceu entre nós outra vez. Tive de recuar para não receber a ponta no rosto. Eu sabia que aquele couro não podia ser cortado. Tinha aprendido isso com o próprio leão e, mesmo assim, acabara de gastar um golpe nele.

Procurei as pernas.

Fingi erguer a espada e mudei de direção no meio do movimento. Ajax deu um passo para trás. Minha lâmina passou diante de seu joelho, perto o bastante para que eu achasse que conseguiria na próxima tentativa.

Atrás de mim, as folhas se mexeram.

A lebre saiu das raízes e disparou pela trilha.

Ajax olhou para ela. Eu também.

Girei para alcançá-la, mas a lança passou ao meu lado antes que eu desse o segundo passo. A ponta atingiu o animal junto à encosta. Suas patas rasparam as folhas por um instante, procurando um apoio que já não servia para nada.

— Não!

Ajax retirou a lança.

Fui para cima dele.

Minha espada bateu na haste com tanta força que a madeira vibrou. Ele cedeu meio passo, e eu avancei junto, golpeando outra vez antes que pudesse afastar a ponta. Acertei a capa. Tentei por baixo dela. Ajax mudou a posição dos pés, recolheu a lança e aparou minha lâmina perto do próprio corpo.

Eu não conseguia passar.

A cada vez que encontrava uma abertura, ele já estava fechando. Quando tentava chegar perto, a haste me barrava; quando recuava, a ponta voltava a me procurar. Comecei a respirar pela boca. Ajax continuava com os lábios fechados.

A lebre estava caída atrás dele.

Eu a carregara por boa parte da floresta. Tinha parado para ela beber, ajeitado o linho para não apertar suas patas, escolhido os lugares por onde passar. Agora uma das orelhas estava dobrada debaixo da cabeça, e eu não conseguia sequer chegar até ela.

Apertei o punho da espada e tentei de novo.

Dessa vez, esperei a lança avançar. Saí da frente, empurrei a haste com a lâmina e dei um passo comprido para dentro do alcance dele. Por um instante, fiquei perto o bastante para ver o suor junto à sua testa.

Ergui a espada.

Ajax soltou uma das mãos da lança e agarrou meu pulso.

Tentei puxá-lo. Ele acompanhou o movimento, passou para o meu lado e torceu meu braço para trás. Meu corpo girou sem que meus pés conseguissem acompanhar. Ainda tentei me soltar, certo de que bastava fazer mais força.

Alguma coisa cedeu dentro do meu ombro.

A dor veio inteira.

Gritei antes de entender o que acontecera. A espada caiu, meus joelhos dobraram e Ajax me soltou.

Fiquei no chão com o braço numa posição que não parecia pertencer a mim. Quando tentei trazê-lo para perto do corpo, a dor subiu pelo pescoço e me fez prender a respiração.

Ele tinha quebrado meu braço.

O pensamento ficou batendo na minha cabeça enquanto eu procurava um jeito de respirar que doesse menos.

A espada estava sobre as folhas, perto do meu joelho. Estendi os dedos para ela. O braço não acompanhou. Uma nova pontada me fez encolher e apertar a terra com a mão esquerda.

Ajax encostou a ponta da lança no chão, ao lado da lâmina.

Olhei para cima.

Ele poderia ter acabado com aquilo antes. Poderia acabar agora. Eu ainda queria feri-lo, mas não conseguia levantar o braço, muito menos a espada. Até a vontade de me pôr de pé parecia pequena demais diante da dor.

— Se eu fosse você, não perderia mais tempo aqui — disse.

Abaixou-se, pegou a lebre pelas patas traseiras e passou por mim. A pele do leão roçou os arbustos. Esperei que ele voltasse, que dissesse mais alguma coisa ou resolvesse que era melhor me matar também.

Seus passos continuaram descendo.

Fiquei escutando até não conseguir distingui-los do movimento das folhas.

Só então recolhi a espada com a mão esquerda. Levantei devagar, apoiando as costas na pedra, e consegui guardá-la depois de errar a entrada da bainha duas vezes. Meu braço direito doía mesmo parado. Eu o segurava por baixo do cotovelo, com medo de que seu próprio peso piorasse o que Ajax fizera.

O linho continuava entre as raízes.

Demorei para pegá-lo. Precisei me abaixar de lado e parar no meio, esperando a dor diminuir. Quando finalmente trouxe o tecido para junto do corpo, havia sangue numa das pontas.

Eu voltara da montanha antes de quase todos. Dera um soco num leão. Nos treinos, Nélios me fizera levantar pesos que antes eu nem conseguia tirar do chão.

Nada daquilo impedira Ajax.

Passei o linho por baixo do braço machucado e mantive as pontas presas na mão boa. A lebre já não

estava ali para eu proteger. Ainda assim, continuei olhando para o lugar onde a deixara, como se tivesse esquecido alguma coisa entre as raízes.

Depois segui pela trilha.

Eu não sabia como conseguiria terminar a prova daquele jeito. Mas Ajax já tinha levado tempo demais de mim.

Durante algum tempo, caminhei olhando para o braço preso no linho. Cada passo fazia o ombro doer, e eu tentava mantê-lo tão quieto que quase tropecei numa raiz. Parei antes de cair e precisei esperar a dor diminuir para levantar a cabeça.

A faixa de luz na pulseira estava menor.

Enquanto eu ficava ali pensando em Ajax, o tempo continuava acabando. Precisava encontrar outro guardião, tomar sua caça e chegar ao altar. As regras pareciam fáceis quando o sacerdote as explicava.

Segui na direção do barulho de água.

O riacho corria entre pedras baixas, sob galhos que quase se tocavam acima dele. Na outra margem, uma raposa pequena farejava as raízes de uma árvore. Uma corda presa ao tronco limitava seus movimentos; sempre que ela tentava alcançar alguma coisa mais distante, precisava voltar. Havia uma bolsa aberta perto dali e uma tigela com água.

Parei atrás de uma árvore.

Esperei que o dono aparecesse. Procurei entre os arbustos, nas pedras da margem, no caminho por onde devia ter chegado. Não vi ninguém. A raposa se sentou e começou a lamber uma pata.

Talvez ele tivesse ido procurar o altar. Talvez estivesse apenas bebendo água mais adiante.

Eu preferia qualquer uma dessas possibilidades à ideia de que estivesse me vendo.

Atravessei pelas pedras, escolhendo onde pisar antes de mover os pés. Ajeitei as pontas do linho sob o cinto para liberar a mão esquerda. O braço continuou apoiado, embora eu precisasse andar um pouco inclinado para não deixá-lo pesar.

A raposa ergueu a cabeça quando me aproximei. Suas orelhas se voltaram para mim, e ela recuou até a corda esticar.

— Calma — murmurei.

Eu também gostaria de conseguir fazer aquilo.

Abaixei-me junto ao tronco, mantendo os olhos na margem. O nó tinha duas voltas apertadas. Tentei soltá-lo com os dedos da mão boa, mas a corda estava úmida e não cedia. Minha espada poderia cortá-la; o problema seria sacar, cortar e recolher a arma antes de pegar a raposa.

Olhei outra vez para a bolsa.

O dono podia voltar a qualquer momento. Se eu saísse logo, talvez nem precisasse enfrentá-lo. Levaria a raposa viva, entregaria no altar e terminaria a prova. Repeti isso enquanto puxava uma das voltas do nó.

A lâmina atingiu o tronco junto à minha cabeça.

Larguei a corda e me abaixei. O movimento puxou meu braço, e a dor me fez soltar um som que tentei engolir tarde demais.

Do outro lado do riacho, um homem se levantou entre as pedras. Eu olhara para aquele lugar. Ainda assim, não o tinha visto.

Ele já segurava outra lâmina.

— Tire a mão daí.

Recuei, sem conseguir desviar os olhos da arma. A raposa se encolheu contra as raízes.

O homem pisou na água.

Corri.

Tive de segurar o braço com a mão esquerda para impedir que balançasse. Não podia usar a espada, não podia me apoiar se tropeçasse e mal conseguia respirar sem sentir o ombro. Escolhi uma passagem entre duas árvores porque era estreita demais para ele me alcançar de uma vez.

Ouvi água espirrando atrás de mim, depois passos sobre as folhas.

Mudei de direção. Passei por um arbusto, contornei uma pedra e procurei chão firme. Os treinos de Nélios voltaram à minha cabeça, mas eu nunca treinava segurando um braço quebrado. Cada curva precisava ser menor, cada passo mais cuidadoso, justamente quando queria correr o mais depressa possível.

Os passos continuaram por algum tempo.

Só parei quando encontrei uma pedra grande cercada por vegetação. Fiquei abaixado atrás dela, com o braço apoiado nas pernas, tentando escutar por cima da minha própria respiração.

O homem passou perto o bastante para eu ouvir um galho se partir.

Prendi o ar.

Ele ficou ali por alguns instantes. Depois os passos se afastaram na direção do riacho. Esperei mais, com medo de que estivesse tentando me fazer sair, mas não voltei a ouvi-lo.

Aos poucos, consegui respirar sem tanto barulho.

Olhei para minha mão esquerda. Ainda havia sangue da lebre junto às unhas. Eu passara os dedos por aquela corda com o sangue dela na mão.

Não ia matar a raposa. Queria levá-la inteira, cuidar dela até o altar. Tentei me agarrar a isso, mas continuei vendo a tigela de água junto à árvore.

O homem também precisava daquele animal.

Imaginei-o voltando ao tronco e encontrando apenas a corda vazia. Procurando entre as raízes, como eu procurara a lebre depois que Ajax saiu. Ele talvez tivesse mais chance de conseguir outra caça, com os dois braços bons e aquelas lâminas. Eu não sabia. Só sabia que estava prestes a deixar o problema com ele para poder sair dali.

A pulseira perdeu mais um pouco de luz.

Quis cobri-la com a mão. Não adiantaria, mas estava cansado de olhar.

Não queria tentar tomar outro animal. Também não conseguia ficar sentado esperando a prova acabar. Levantei com cuidado e segui por um trecho pedregoso, onde meus pés deixariam menos marcas.

A água da mochila já estava pela metade. Bebi um pouco, guardei o resto e procurei alguma coisa na floresta que pudesse me dizer para onde ir.

Talvez fosse melhor encontrar o altar primeiro. Até ali, eu corria atrás de uma caça sem sequer saber para onde teria de levá-la.

Era pouco, mas ao menos eu conseguiria começar andando.

Foi então que percebi as sombras.

O sol ainda iluminava as folhas mais altas, mas uma claridade branca atravessava os troncos perto do chão. Algumas árvores tinham duas sombras, uma escura e comprida, outra mais fraca, apontando para o lado errado.

Olhei para cima. Entre os galhos, o céu continuava claro.

Dei alguns passos para a direita. A luz branca ficou mais forte.

Segui por ali, desviando dos arbustos, até encontrar pedras pequenas cobertas por aquele brilho. Apareciam em intervalos, quase escondidas sob o musgo. A mochila pendia do ombro esquerdo, e eu tentava andar sem sacudir o braço preso no linho.

O dente do colar batia de leve contra meu peito por baixo da túnica. Eu quase esquecera que o carregava, até sentir sua ponta encostar na pele quando me inclinei para passar entre os galhos.

Parei junto a uma árvore quando a dor voltou a aumentar.

Não podia continuar daquele jeito. Qualquer movimento puxava alguma coisa dentro do ombro, e eu precisava usar a mão esquerda para quase tudo. A direita ainda mexia. Abri e fechei os dedos, devagar, depois tentei mover o braço.

A dor me fez parar, mas dessa vez prestei atenção nela.

Lembrei de um dos treinos em que Nélios me ensinara a cair. Eu quis apoiar o braço estendido no chão, e ele interrompeu o exercício para explicar o que podia acontecer. Falou de ossos quebrados e de articulações que saíam do lugar. Mandou que eu olhasse para o próprio ombro enquanto mostrava a diferença.

Naquele dia, achei que ele estava arranjando mais uma razão para me fazer repetir a queda.

Agora puxei a abertura da túnica com a mão boa e examinei o lado machucado. O ombro parecia errado. A dor vinha dali, do lugar em que Ajax torcera meu braço, e aumentava quando eu tentava erguê-lo.

Talvez eu tivesse pensado num osso quebrado depressa demais.

Fiquei olhando para a árvore.

Nélios também dissera que eu devia procurar alguém que soubesse o que estava fazendo. Olhei ao redor, embora já soubesse que não havia ninguém. Os campeões que encontrara até ali estavam mais interessados na própria sobrevivência.

Encostei o lado ferido no tronco e fiz força.

A dor me dobrou os joelhos. Parei, respirando pela boca, com a testa apoiada na casca. Por um instante achei que piorara tudo. Então senti alguma coisa se mover dentro do ombro.

Afastei-me devagar.

O braço ficou numa posição menos estranha. A dor continuava forte, mas já não parecia que seu próprio peso o arrancaria de mim. Consegui trazê-lo um pouco para a frente. Mexi o cotovelo, estendi a mão e parei quando tentei levantar mais.

Era o ombro. Ajax o tirara do lugar.

Eu não sabia se conseguira colocá-lo direito, mas ao menos podia usar um pouco o braço. Ajeitei o linho para sustentá-lo e deixei a mão direita livre, perto da cintura.

Depois voltei a seguir as pedras.

O caminho passava entre duas árvores e descia para uma parte mais silenciosa da floresta. Não ouvi outra luta nem passos me acompanhando. Depois dos últimos galhos, encontrei uma clareira e um lago.

A água estava tão parada que as folhas se refletiam inteiras na margem. Sobre ela brilhava uma lua redonda, embora ainda houvesse luz do dia entre as árvores que eu acabara de atravessar. Fiquei olhando, tentando descobrir onde terminava uma claridade e começava a outra.

Uma mulher estava sentada junto ao lago.

Tinha uma ave prateada nas mãos e acariciava sua cabeça com a ponta de um dedo. Os cabelos negros caíam lisos sobre os ombros, atravessados por mechas claras. Sua túnica prateada se espalhava sobre a pedra, recebendo a mesma luz que brilhava na água. Havia lágrimas em seus olhos, embora nenhuma escorresse pelo rosto.

Havia alguma coisa familiar naquele rosto. Tentei lembrar de onde a conhecia, mas a ave se mexeu em suas mãos, e minha atenção voltou para a asa caída.

— Você está bem? — perguntei.

Ela ergueu a cabeça. Só quando me aproximei senti a Centelha.

Parei tão depressa que a mochila escorregou um pouco. Aquela força não me pesava sobre o corpo como a de Herácles, mas ainda era grande demais. Senti os pelos da nuca se arrepiarem e fiquei sem saber se devia continuar andando.

A mulher acompanhou meu olhar até o braço apoiado no linho.

— Venha sentar — disse, indicando um lugar ao lado dela. — Há espaço aqui.

A ave se mexeu em suas mãos. Uma das asas pendia afastada do corpo, e ela a protegeu dos movimentos do pequeno com os dedos.

— Encontrei este pequenino debaixo de uma árvore. Tentou voar algumas vezes, mas não conseguiu.

Aproximei-me da pedra e tirei a mochila. Usei a mão direita para ajudar, sem levantar muito o

braço. O ombro reclamou, e precisei terminar o movimento mais devagar.

A mulher esperou, mantendo a ave quieta.

Não havia sangue nas penas. O pássaro respirava depressa e procurava uma posição para a asa, sem conseguir acomodá-la.

Olhei para o meu braço, depois para ele.

— Posso ver?

Lembrei de um pássaro que minha mãe encontrara perto do pomar. A asa ficava afastada do corpo daquele mesmo jeito. Eu segurara uma lamparina enquanto ela o ajudava e quase a deixara cair quando ele me bicou.

Toquei nas penas com a mão esquerda. A ave virou a cabeça para meus dedos.

— Acho que a asa saiu do lugar.

A mulher se inclinou um pouco.

— Consegue ajudá-lo?

— Minha mãe já fez isso. Posso tentar.

Apoiei o cotovelo direito junto à coxa e pus a mão por baixo da ave. Não precisava erguê-la; só impedir que escorregasse enquanto a mulher a segurava.

— Segure o corpo dele — pedi. — Sem apertar.

Só depois percebi que estava dando ordens a alguém cuja Centelha me fizera parar no meio do caminho. Ela, porém, apenas ajeitou as mãos como eu pedira.

Examinei a asa com os dedos da mão esquerda, tentando lembrar os movimentos da minha mãe. O pequeno se agitou, e minha primeira vontade foi afastar a mão. Não queria causar nele uma dor parecida com a que sentira junto à árvore.

Esperei que ficasse mais quieto.

A mulher acariciou sua cabeça. O pássaro parou de tentar fugir, embora continuasse olhando para os meus dedos como se pensasse em bicá-los.

Ele fez isso assim que toquei na asa outra vez.

Recolhi a mão por um instante.

— Também fez isso com a minha mãe — falei.

A mulher sorriu, mas continuou segurando-o com cuidado.

Tentei de novo. Houve um pequeno estalo sob meus dedos, e a asa voltou para junto do corpo. A ave ficou quieta.

Soltei o ar. Nem percebera que o estava prendendo.

A mulher colocou o pássaro sobre a pedra. Ele deu dois passos, inclinou a cabeça e abriu as asas.

Quando saltou, estendi a mão esquerda por baixo dele. O pequeno passou acima dos meus dedos, fez uma volta torta e pousou outra vez.

O rosto da mulher mudou tão depressa que sorri antes de perceber.

A ave tentou de novo.

Dessa vez, alcançou um galho sobre o lago. Ficou ali por um instante, sacudiu as penas e voltou para nós.

— Olhe só — disse ela.

O pássaro pousou no meu ombro esquerdo. Suas patas se prenderam à túnica, perto do pescoço, e fiquei quieto para não assustá-lo.

— Já encontrou onde descansar — continuou a mulher. — E agora tem um herói.

Olhei para ela.

— Só coloquei a asa no lugar.

— Para ele, foi poder voar outra vez.

O pequeno saiu do meu ombro e deu uma volta sobre nossas cabeças. Suas penas recebiam o luar como se fossem feitas de pedacinhos dele.

Fiquei acompanhando seu voo até lembrar da pulseira.

A luz diminuíra bastante.

— Estou procurando o altar de Ártemis — falei. — Achei que esse caminho fosse até lá.

Mostrei a passagem entre as árvores.

— As sombras estavam estranhas. Havia claridade atrás de algumas pedras, mas as folhas que deviam fazer sombra ficavam do outro lado. Fui seguindo para ver de onde vinha.

A mulher olhou para o lago.

— Você seguiu o luar que deixei entre as árvores.

— Foi você que fez aquilo?

Ela assentiu.

Voltei os olhos para a lua, depois para seus cabelos. As mechas claras brilhavam entre os fios negros. Quando ela virou o rosto para mim outra vez, consegui lembrar.

O banquete.

Ela estava sentada numa das laterais do salão, entre as divindades menores. Usava prata e azul-pálido e permanecia quieta enquanto os outros conversavam. Lembrei da taça em que não tocava e de ficar olhando para ela até as cornetas anunciarem a entrada dos Doze.

Era a mesma mulher.

Naquela noite, eu não soubera seu nome. Agora estava perto o bastante para ver suas íris, claras como a lua sobre o lago. Ela trouxera aquela luz para dentro da floresta. Eu a seguira até ali.

Meu estômago pareceu afundar.

— Selene?

Ela inclinou a cabeça.

Levantei depressa demais e senti uma pontada no ombro.

— Senhora Selene.

Não sabia se devia me ajoelhar. Tentei me curvar e quase deixei a mochila cair da pedra. Ela a segurou pela alça antes que alcançasse o chão.

— Não precisa se dobrar assim — disse. — Venha. Sente outra vez.

Obedeci, com o rosto quente.

Eu chamara uma deusa de você. Pegara na ave que ela segurava e ainda lhe dissera como devia usar as mãos.

— Eu não sabia — falei. — Achei que a senhora...

Não consegui terminar. A lembrança do rosto de Zeus no templo apareceu antes de qualquer desculpa que eu pudesse inventar.

Selene deixou a mochila ao meu lado.

— Você viu que eu estava preocupada e veio ajudar.

— Mas mandei a senhora segurar o pássaro.

Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto.

— E fiquei contente por saber o que fazer.

Eu continuava olhando para as próprias botas.

— Vim a convite de Ártemis — acrescentou. — Estou aqui como sua convidada, não em nome do Olimpo. Não precisa ter medo de mim.

Ergui a cabeça. Ela falava sem pressa, como se houvesse tempo para esperar que eu acreditasse.

— Nunca gostei muito desses títulos — disse. — Mas pode usá-los, se isso o deixa mais à vontade.

Assenti, embora não estivesse à vontade de jeito nenhum. Não sabia onde pôr as mãos nem como olhar para uma deusa sem parecer que estava encarando. Sua pele era muito clara sob o luar, e eu nunca vira olhos como aqueles.

O pássaro pousou entre nós.

Selene ofereceu um dedo. Ele subiu, ficou ali por um instante e voou para o meu ombro outra vez.

— Vai acabar arrancando minha orelha — murmurei, quando senti seu bico junto ao cabelo.

Ela riu baixo.

Eu quis olhar de novo para seu rosto e quase esqueci o que precisava perguntar.

A pulseira me lembrou.

— Senhora Selene, o altar fica longe?

Seu olhar passou pela marca do sorteio e parou no linho manchado que sustentava meu braço.

— Você veio até aqui ferido.

Abaixei os olhos para a faixa.

— Um outro competidor matou minha lebre. Tentei impedir, mas não consegui. Ele torceu meu braço, e o ombro saiu do lugar.

Mexi a mão direita, mantendo o cotovelo perto do corpo.

— Pensei que estivesse quebrado. Consegui melhorar um pouco, encostando numa árvore, mas ainda dói.

Selene ficou séria. Eu parei de mexer o braço.

— Agora tenho de pegar a caça de outra pessoa — continuei. — Tentei, perto de um riacho, mas o homem me viu antes de eu soltar a corda.

Ela acompanhou meu olhar até a pulseira.

— Você precisa levar uma caça viva ao altar.

— Foi o que disseram.

— E disseram que ela precisava pertencer a outro campeão?

Abri a boca, mas demorei a responder.

Lembrei do sacerdote explicando as duas marcas. Os caçadores deviam entregar os animais abatidos. Nós precisávamos levá-los vivos. Também podíamos tomar a caça dos outros.

Ele não dissera que aquela era a única maneira.

Olhei para o pássaro.

Selene aproximou a mão do meu ombro esquerdo. A ave se virou para ela, e seus dedos afastaram algumas penas junto à asa que eu ajudara.

Havia uma pequena lua prateada ali.

Eu tocara naquele lugar sem perceber a marca.

— Ele também é da prova?

— Pertence a este bosque.

Estendi a mão esquerda. O pássaro saltou para meus dedos e ficou olhando para mim.

— Posso levá-lo?

Selene observou o pequeno antes de responder.

— Parece que ele quer acompanhar você.

Ergui a mão, oferecendo espaço para que partisse.

— Pode ir. Sua asa está boa agora.

A ave voou até um galho baixo, sacudiu as penas e voltou antes que eu abaixasse o braço.

Selene sorriu.

— Ele entendeu. Só não quer partir ainda.

Passei o polegar perto de sua cabeça, tomando cuidado com o bico.

Eu tinha encontrado uma caça sem precisar deixar alguém olhando para uma corda vazia. Mesmo com o pássaro na mão, demorei para acreditar que conseguiria terminar a prova.

Selene olhou para as árvores além do lago.

— Você encontrou este bosque porque reparou em coisas que os outros deixariam passar. Continue usando esse olhar.

Acompanhei seus olhos, mas ela não apontou uma trilha nem indicou por onde eu devia seguir.

— Na luz e nas sombras?

— Foi assim que chegou até mim — respondeu. — Sei que resta pouco tempo. Ainda assim, olhe antes de correr.

Baixei os olhos para a pulseira. A faixa estava estreita demais, e minha vontade era escolher qualquer passagem que parecesse levar para longe do lago.

Lembrei das sombras que me fizeram parar antes de encontrar o bosque. Se tivesse continuado andando sem prestar atenção, passaria por elas.

Ergui a cabeça e examinei as árvores outra vez.

Queria perguntar mais alguma coisa. Se ela vinha sempre àquele lugar, se o pássaro viveria ali depois da prova, se a lua continuava no lago quando ninguém estava olhando. Selene acompanhou meu olhar até a luz que diminuía.

— Vá. Não lhe resta muito mais tempo.

Coloquei a mochila no ombro esquerdo e me levantei com cuidado. A ave voou para um galho à frente.

Agradeci outra vez. Depois de alguns passos, virei para olhar.

O luar atravessava a túnica de Selene. Seus cabelos e a água pareciam se misturar naquela claridade, e por um instante não consegui distinguir onde ela estava.

— Cuide dele, herói.

A luz se desfez devagar.

Quando enxerguei a pedra outra vez, estava vazia.

Fiquei parado até o pássaro passar perto do meu rosto e pousar adiante. Só então voltei ao caminho.

A floresta pareceu mais escura depois do lago. Encontrei as primeiras pedras claras sob as folhas e segui entre elas, com a ave alternando entre os galhos e meu ombro esquerdo.

Ela voava bem, mas o brilho das penas me preocupava. Eu passara boa parte da prova tentando esconder uma lebre da cor da terra. Agora tinha um pássaro prateado pousado perto da cabeça.

Um assobio veio de algum lugar adiante.

Parei atrás de um tronco caído e estendi a mão esquerda. A ave desceu até meus dedos. Aproximei-a do peito, escondendo o brilho na dobra da túnica. Consegui usar a mão direita para segurar o tecido, desde que mantivesse o braço baixo.

Dois campeões cruzaram a trilha pouco depois. O primeiro tinha um arco; o segundo, uma lança curta. Caminhavam afastados, olhando para o chão.

O pequeno se mexeu junto ao meu peito. Soltei um pouco a dobra para que ele se acomodasse.

O homem do arco passou perto o bastante para eu ver sangue seco em sua manga. Parou, examinou a terra e voltou o rosto para o tronco.

Eu sentia o coração batendo debaixo do pássaro.

Tentei respirar mais devagar. Uma dor funda continuava no ombro, e eu já não sabia se piorava por causa da posição ou porque estava apertando o tecido com força demais.

O outro campeão chamou o arqueiro.

Esperei os dois desaparecerem antes de sair.

Perdera mais tempo. A ave subiu para um galho, e eu procurei a próxima pedra clara. Pareciam cada vez mais distantes umas das outras.

O córrego surgiu no fundo de uma descida. A água corria entre pedras lisas, algumas cobertas por limo. Escolhi a passagem mais estreita, mas precisei parar na margem.

Podia mexer o braço, porém não confiava nele para sustentar meu peso. Se escorregasse, teria de encontrar apoio com a esquerda.

O pássaro atravessou voando e me esperou sobre uma pedra.

Pisei primeiro num trecho seco, depois em outro. A água entrou na bota quando precisei apoiar o pé entre duas rochas. Continuei, com a mão esquerda estendida para alcançar um galho.

A mochila ficou presa.

Parei antes que a alça me puxasse para trás. Um ramo quebrado se enganchara numa das tiras.

Tentei soltar a bolsa. A mão direita alcançou a alça, mas o movimento necessário para puxá-la fez o ombro doer outra vez.

A pulseira continuava apagando.

Por um instante pensei na água, na corda e nas coisas que Nélios colocara ali. Depois lembrei do que ele me dissera antes da prova.

Se precisasse escolher, devia escolher leveza.

Deixei a alça escorregar do ombro e segui sem a mochila.

A água gelada alcançou a outra bota. Cheguei à margem mantendo o braço direito perto do corpo e só olhei para trás quando pisei em terra firme.

Passei a mão pelo peito e encontrei o dente sob a túnica. Ao menos o presente de Herácles continuava comigo. Soltei o tecido e procurei o pássaro na outra margem.

A ave me esperava. Quando passei por ela, levantou voo e seguiu na mesma direção.

Vi o altar entre as árvores pouco depois.

Era uma construção baixa, de pedra clara, cercada por colunas gastas. Havia animais vivos perto dela: um cervo pequeno, duas aves num galho e alguma coisa de pelo escuro que desapareceu atrás de uma raiz.

Comecei a correr.

O ombro reclamou de cada passo. Apertei o braço contra o corpo e tentei não deixar a mão balançar.

Uma flecha atingiu o chão à minha frente.

Parei e recuei para trás de uma árvore.

O caçador estava junto a uma das colunas. Já pegava outra flecha. Olhei para o pássaro, que voava acima da trilha.

— Aqui — chamei, mostrando a mão esquerda por um instante.

Ele desceu para um galho do meu lado.

A segunda flecha passou pelo lugar em que estivera.

Levei a mão direita ao punho da espada. Consegui segurá-lo, mas o ombro doeu quando comecei a puxar. Eu talvez conseguisse sacar a arma. Erguê-la, aparar um golpe e lutar com aquele homem seriam

outra coisa.

Ouvi o caçador se mover. Devia estar esperando ali, escolhendo os animais dos campeões que conseguiam chegar.

Olhei para a pulseira.

A luz parecia um fio.

Espiar pela direita fez a ponta da flecha acompanhar meu rosto. Recolhi a cabeça antes do disparo. A árvore recebeu o golpe com um som seco, e saí pelo outro lado enquanto ele procurava outra flecha.

Corri na direção do altar.

O pássaro levantou voo junto comigo.

O caçador largou o arco e avançou com uma faca. Vi sua mão se estender e mudei de direção antes de alcançar uma raiz. Seus dedos prenderam apenas a borda da túnica. O tecido rasgou, e continuei, com a pontada no ombro me fazendo prender a respiração.

A ave chegou primeiro.

Pousou na pedra e abriu as asas.

Alcancei o altar com a mão esquerda estendida. A marca do sorteio aqueceu assim que toquei a borda. O pequeno veio até meus dedos, e a lua sob suas penas brilhou.

— Fica aqui — falei, tentando respirar. — Aqui você está...

O bosque desapareceu antes que eu terminasse.

Voltei à arena com a mão esquerda estendida e o braço direito apertado junto ao corpo.

Um arauto gritava a contagem.

— Três!

Olhei para a pulseira.

— Dois!

Procurei um lugar para me sentar. A faixa de luz se apagou antes que eu alcançasse o banco, e o último toque soou sobre a arena.

Dois campeões apareceram quase juntos.

Depois ninguém mais voltou.

Sentei com cuidado e voltei a acomodar o braço no linho. A corrida fizera a dor aumentar. Ainda parecia sentir as patas pequenas apertando meus dedos, embora a mão estivesse vazia.

Cassandra estava entre os classificados havia algum tempo. Tinha folhas presas às tranças e uma faixa de terra atravessando o rosto. Enquanto os arautos nos contavam, os Espelhos mostraram partes de sua passagem pela floresta: o corpo baixo entre os arbustos, a espera junto a uma trilha, o arco erguido sem pressa antes do disparo.

Ela encontrara a caça, abatera o animal e alcançara o altar antes dos demais.

Eu mal conseguia acreditar que chegara a tempo.

Ajax também estava ali, com a pele do leão sobre os ombros. Quando um Espelho mostrou a lebre que ele levara, desviei os olhos.

O linho manchado continuava sustentando meu braço. Eu não precisava olhar para os Espelhos para lembrar.

O sacerdote começou a ler os nomes dos que não voltaram.

Contei até vinte. A lista continuou.

Alguns campeões abaixaram a cabeça. Outros procuravam pessoas entre os bancos, olhando mais de uma vez para os mesmos lugares. Acompanhei um rapaz que se levantou para enxergar melhor. Ele acabou sentando sem chamar ninguém.

Depois vieram os aplausos.

O nome de Cassandra foi anunciado, e um arauto trouxe o presente de Ártemis. Era um arco longo de madeira clara, com desenhos acompanhando a curva e detalhes prateados junto à empunhadura. Mesmo de onde eu estava, conseguia ver como fora trabalhado.

Cassandra o recebeu com as duas mãos. Passou o polegar pela madeira, examinou a corda e só então se voltou para as arquibancadas.

Jason bateu palmas acima da cabeça, sorrindo para ela.

Fiquei olhando o arco até sentir o braço pesar outra vez. Ajeitei o linho e esperei que nos deixassem sair.

Nélios me encontrou na entrada do pavilhão.

Seus olhos foram primeiro para a faixa suja, depois para o meu rosto.

— Venha sentar.

Tentei começar a contar o que acontecera, mas ele já me conduzia até um banco. Abaixou-se à minha frente e afastou o tecido da túnica para examinar meu ombro.

— Ajax tirou meu braço do lugar — falei. — Achei que estivesse quebrado.

Nélios examinou a posição dele e tocou perto do ombro. A dor me fez recuar.

— Eu tentei colocar de volta — acrescentei. — Empurrei contra uma árvore. Melhorou. Consegui mexer um pouco depois.

Ele ergueu os olhos para mim.

— Melhorou a posição. Ainda não está bem encaixado.

Olhei para o braço.

— Pensei que doesse porque...

— Vai doer mesmo depois. Mas isto aqui ainda precisa ser corrigido. Fique quieto.

Segurei a beira do banco com a mão esquerda. Nélios esperou que eu parasse de me encolher e terminou o que eu tentara fazer junto à árvore.

A dor me arrancou um grito. Apertei os olhos, sentindo a mão dele me firmar enquanto alguma coisa se acomodava dentro do ombro.

Por alguns instantes, só consegui respirar.

O braço ainda doía, mas aquela pressão estranha diminuiu. Eu não percebera quanto ela continuava ali até deixar de senti-la.

Nélios manteve minha mão apoiada.

— Não levante para testar. Já fez experiências suficientes por hoje.

Eu estava prestes a fazer isso.

Ele trouxe uma faixa limpa e ajeitou o braço para que ficasse sustentado. Depois procurou outros ferimentos. Não havia cortes novos nem sangue meu na túnica. Até o que manchava o linho era da lebre.

Dessa vez, meu ombro parecia ter guardado toda a dor para si.

— Perdi a mochila — falei.

Nélios ergueu os olhos.

— Onde?

— Ficou presa num galho, no córrego. Não dava tempo de soltar.

Ele examinou minhas botas molhadas antes de voltar à faixa.

— Depois me diga o que ficou dentro. Agora deixe esse braço quieto.

Abaixou-se e soltou as botas para que eu não precisasse me dobrar atrás delas. Quando tirou a segunda, fechei os dedos dos pés, contente por finalmente poder senti-los secos.

Fiquei olhando para a mão direita, apoiada no colo.

O pássaro abrira as asas logo depois que eu o ajudara. Eu tentara fazer a mesma coisa e quase estragara tudo outra vez.

Pelo menos ele conseguira voar.

Mais tarde, consegui me deitar com o braço acomodado sobre o tecido dobrado que Nélios deixara ao meu lado. Ainda precisava escolher com cuidado cada movimento, e não encontrava uma posição boa para dormir.

Pensei que lembraria de Ajax assim que fechasse os olhos. Da lebre junto à encosta ou da flecha atingindo a árvore perto do meu rosto.

Lembrei do lago.

Da ave subindo até o galho. De Selene levando a mão à boca quando percebeu que ela conseguia voar.

Também lembrei do sorriso dela quando o pássaro levantou voo e da risada baixa quando ele resolveu bicar minha orelha.

Ela não dissera meu nome nenhuma vez. Ainda assim, sua voz continuava na minha cabeça.

Cuide dele, herói.

Abri os olhos e olhei para o teto do pavilhão.

Quis ter ficado um pouco mais.