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O Décimo Terceiro · O Caminho dos Arautos — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em um mundo erguido sobre ruínas e governado pelos Doze, o Grande Agón transforma campeões em lendas e suas mortes em espetáculo. Thaniel jamais deveria estar entre os escolhidos. Como o décimo terceiro campeão de sua pólis, ele chega a Olímpia carregando mais perguntas do que recursos para sobreviver. Diante de rivais preparados, provas impiedosas e deuses que esperam obediência, até permanecer vivo parece uma audácia. Enquanto os Espelhos de Íris celebram feitos gloriosos, Thaniel descobre uma competição feita de medo, traições e escolhas que ninguém mostra ao público. Cada prova lhe cobra algo, e salvar outra pessoa pode custar sua melhor chance de voltar para casa. Para atravessar o Agón, ele precisará aprender em quem confiar e decidir quanto de si está disposto a perder para sobreviver

O Caminho dos Arautos

O primeiro sino ainda vibrava sobre a cidade quando comecei a correr.

Passei a última semana tentando acertar Nélios com uma espada. Ele passou a mesma semana me mostrando por que eu ainda não devia esperar conseguir. No começo, corrigia meus pés com a ponta de um bastão. Depois, começou a bater na minha arma sempre que eu terminava um golpe numa posição da qual não sabia sair.

— Volte para a guarda — dizia. — Antes que alguém faça você voltar pelo chão.

Meu ombro já permitia aqueles movimentos. Nélios, porém, não me deixava esquecer o que acontecera com Ajax. Quando eu avançava demais ou abandonava a defesa para tentar um golpe mais forte, ele me obrigava a repetir tudo.

Eu também lembrava, mesmo quando ele ficava quieto.

Ajax podia ter me matado. Escolhera ir embora.

Não queria depender outra vez de alguém fazendo essa escolha.

Agora carregava a espada negra na cintura e uma mensagem lacrada numa bolsa pequena, presa ao cinto. A última eu sabia usar: precisava levá-la até uma torre. A primeira ainda exigia bastante atenção.

Hermes chamou a prova de Caminho dos Arautos.

Cada campeão recebeu uma mensagem com o próprio nome marcado no selo. Devíamos entregá-la intacta aos sacerdotes na torre antes do último sino. Quem conseguisse continuaria no Agón. Os doze primeiros também receberiam presentes do deus.

Ele nos mostrou a torre antes de começar.

Era alta, de pedra clara, com um sino pendurado entre duas colunas no topo. Eu conseguia vê-la acima dos telhados. A distância pareceu pequena até olhar para o que havia entre nós.

A cidade subia em terraços. Escadarias terminavam sob arcos, ruas estreitas passavam entre casas abandonadas e pontes ligavam construções separadas por espaços fundos demais. Em alguns lugares, havia apenas paredes, tábuas e cordas atravessando o vazio.

Hermes observou os campeões estudando aquilo.

— As ruas estão à disposição de vocês — anunciou. — O conteúdo das mensagens, não. Preservem os lacres.

Um sacerdote explicou que tomar a mensagem de outro campeão não permitiria entregá-la em seu lugar. Eu não sabia por que alguém faria isso, até pensar nos doze presentes.

Bastava impedir outra pessoa de chegar.

O sino tocou, e as portas se abriram.

Entrei pela rua principal, mantendo a mão perto da bolsa. Dois campeões de Kyllene passaram por mim antes da primeira esquina. Um saltou sobre uma banca caída; o outro subiu numa mureta e seguiu por cima dela, sem diminuir o passo.

Tentei acompanhá-los. Desisti quando vi a distância aumentar.

A rua terminava numa escadaria estreita. Um grupo se apertou na entrada, e alguém caiu quando tentaram passar por cima dele. Eu já ia me juntar à confusão quando vi uma abertura entre duas casas.

Havia degraus menores ali, quase escondidos por uma pilha de vasos quebrados.

Subi por eles.

A passagem me levou a um pátio acima da escadaria. Saí na frente de três campeões que ainda tentavam vencer os últimos degraus. Um homem esbarrou no meu ombro ao passar, mas consegui me afastar antes que prendesse minha roupa.

Nélios me fizera repetir aquele movimento tantas vezes que eu o reconheci depois de executar.

Continuei.

A torre desaparecia atrás dos telhados e surgia outra vez quando eu alcançava um lugar mais alto. Procurei manter sua posição na cabeça. Algumas paredes exibiam setas brancas e o desenho do bastão de Hermes, com as duas serpentes. Segui uma delas até um mercado vazio.

As bancas estavam cobertas de poeira. Bandeiras pendiam de fios entre os telhados, embora não houvesse vento suficiente para mexer todas. Ouvi armas se chocando numa passagem à direita e escolhi a esquerda.

Dois campeões seguiam naquela direção. Havia outra seta na parede, apontando para um arco aberto no fim da rua.

Corri atrás deles.

O primeiro chegou ao arco e parou. O segundo quase o atropelou.

Quando alcancei os dois, entendi por quê.

O arco continuava visível, com uma rua iluminada do outro lado. Mas o rapaz à minha frente estava com as mãos espalmadas numa parede.

Encostei os dedos ao lado dos dele.

Pedra.

A rua que eu via não existia.

Olhei para cima.

Lico estava numa galeria, apoiado no parapeito. Seu cabelo ruivo aparecia entre duas colunas. Ele me viu tocar a parede e tirou a mão que mantinha erguida junto ao corpo.

O arco desapareceu.

— Lico!

Ele olhou para mim. Não pareceu surpreso.

Um dos campeões procurou a escada que levava à galeria. Lico se afastou antes que o homem a encontrasse. Eu ainda o vi seguir por uma passagem acima de nós, na direção da torre.

Deixara três pessoas numa rua sem saída enquanto ganhava distância.

Eu queria subir atrás dele. Queria agarrar sua túnica e fazê-lo olhar para mim enquanto perguntava se aquilo também era necessário para sobreviver.

Apertei a mão no punho da espada.

O segundo sino tocou.

Voltei pela rua, passando pelas setas que agora já não me pareciam uma boa ajuda. O mercado oferecia outra saída, mais baixa, entre dois depósitos. Pela abertura, enxerguei uma ponte que levava a um terraço próximo da torre.

Era estreita, mas parecia inteira.

Aproximei-me com cuidado. Não havia ninguém atravessando naquele momento. Vi uma parede baixa na lateral, pilares sob a passagem e o chão claro seguindo até o outro lado.

Pisei.

A superfície afundou um pouco sob minha bota.

Olhei para baixo. A pedra continuava ali, mas ouvi madeira rangendo.

Dei um passo para trás.

O chão se moveu antes que eu conseguisse voltar.

A borda da passagem se afastou da rua. Agarrei alguma coisa ao meu lado e senti uma corrente, embora meus olhos ainda mostrassem a parede baixa de pedra.

Então a ponte desapareceu.

Eu estava num tablado suspenso por quatro correntes.

Havia um espaço largo entre o ponto de onde saíra e o terraço adiante. A plataforma se deslocava sobre ele, balançando conforme eu tentava encontrar onde apoiar os pés. As correntes subiam até uma estrutura de vigas, onde rodas grandes giravam devagar.

Na galeria acima da entrada, Lico me observava.

Eu o reconheci antes que virasse o rosto.

— Desfaz isso!

Minha voz saiu alta, mas ele já não mantinha a miragem. A plataforma era o que restava debaixo dos meus pés.

Lico passou por trás de uma coluna e desapareceu.

Uma mulher chegou à borda da rua, preparando-se para saltar.

— Não! — gritei.

Ela parou a tempo de ver o espaço entre nós. Recuou, procurando outra passagem.

Eu não tinha mais como fazer isso.

O tablado inclinou. Apertei a corrente e firmei as botas entre duas pranchas. O colar de Herácles bateu no meu peito por baixo da túnica.

Só então vi o homem na outra extremidade.

Estava junto à corrente mais distante, parcialmente escondido pelo suporte de madeira. Tinha uma espada curta na mão direita e um escudo pequeno no braço esquerdo. Duas serpentes de bronze prendiam sua túnica perto do pescoço.

Um campeão de Hermes.

Ele olhou para minha bolsa.

— Deixe a mensagem no chão.

Afastei a mão da corrente e saquei a espada.

O tablado balançou com a mudança de peso. A ponta da minha arma desceu mais do que eu pretendia, e precisei corrigir a posição.

O homem percebeu.

Avançou antes que eu conseguisse firmar a guarda.

Aparei o primeiro golpe. O choque empurrou minha lâmina para o lado, e ele veio por baixo dela. Recuei, sentindo a borda da plataforma junto ao calcanhar.

Ergui a espada outra vez.

O escudo bateu nela.

Quase perdi o punho. Segurei com as duas mãos e consegui afastar a lâmina que vinha na direção do meu rosto. O homem recuou um passo, mas já voltava a se aproximar.

Tentei alcançar seu braço.

Meu golpe passou longe.

A plataforma desceu daquele lado, puxada pelo peso dele. Eu pisara como se o chão fosse continuar no mesmo lugar. Precisei me inclinar para não cair, deixando a espada baixa.

A ponta da arma dele rasgou minha manga.

Senti o corte no antebraço e recolhi o braço depressa. O homem avançou atrás, obrigando-me a contornar uma das correntes.

Ela ficou entre nós.

Ele parou por um instante.

Eu respirava pela boca. O sangue começava a escorrer até meu pulso, mas ainda conseguia segurar a espada. A bolsa permanecia presa ao cinto.

Olhei para o terraço adiante.

Estávamos chegando perto.

Se alcançasse a borda certa, talvez pudesse saltar e continuar correndo.

O homem acompanhou meu olhar.

Moveu-se para aquele lado.

— Eu só preciso passar — falei.

Ele ergueu o escudo e veio de novo.

Não houve espaço para dizer mais nada.

Sua espada tocou a minha perto do punho. O golpe seguinte veio na direção do meu peito. Desviei para o lado e bati nas tábuas com um pé antes de o outro encontrar apoio.

Meu ombro reclamou quando tentei levantar a arma.

A plataforma balançou. O homem abriu as pernas para se firmar e esperou que eu voltasse para o alcance dele.

Eu fiz isso.

Tentei um golpe mais forte, usando as duas mãos. Acertei o escudo. Ele suportou o impacto, deixou minha lâmina deslizar e avançou enquanto eu ainda a trazia de volta.

Era exatamente o que Nélios me fazia repetir.

Só que o homem não interrompeu o movimento para mandar que eu tentasse outra vez.

Abaixei-me. Sua espada passou acima da minha cabeça, e bati com a minha no braço do escudo. Ele se afastou o suficiente para que eu conseguisse levantar.

A plataforma já estava perto do terraço.

Dei dois passos rápidos para a borda.

O homem chegou antes de mim e cortou o caminho com a espada.

Voltei para junto da corrente. O terraço passou ao nosso lado, próximo o bastante para parecer alcançável e distante demais para que eu arriscasse um salto com aquele homem atrás de mim.

As rodas acima de nós continuaram girando.

O tablado começou a voltar.

Eu ficaria ali mais tempo.

O campeão de Hermes mexeu a espada, soltando o pulso. Havia suor junto à sua testa. Um cordão azul envolvia o braço abaixo do escudo, com dois nós pequenos perto da fivela.

Não parecia cansado como eu.

Tentei esquecer a borda e olhar para ele.

Nélios me fazia prestar atenção aos pés, ao ombro que começava a avançar, à posição da arma antes de um ataque. Eu tentava observar tudo ao mesmo tempo e quase sempre perdia alguma coisa.

Agora tinha também o chão.

O homem avançou com o pé esquerdo. Aquele lado do tablado baixou.

Afastei-me antes que a espada viesse.

Ele mudou a direção do golpe, mas já não me encontrou no mesmo lugar. Sua lâmina bateu na corrente, produzindo um som alto que me fez fechar os dentes.

Passei por trás dela e tentei alcançar o outro lado.

Ele me seguiu.

Não precisava lutar melhor do que eu por muito tempo. Bastava me manter ali até que eu errasse outra vez.

Minha mão começou a escorregar no punho da espada.

Apertei mais.

O homem ergueu o escudo e me empurrou para perto da borda. Tentei bater na arma dele, mas ele a recolheu. Sua ponta voltou na direção da minha barriga.

Mudei de posição antes do golpe.

Senti a corrente roçar minhas costas.

Não havia mais onde recuar.

O homem veio para cima de mim, com a espada preparada para atravessar o espaço que eu ocupava.

Vi seu pé avançar.

A plataforma inclinou.

Dessa vez, acompanhei o movimento em vez de tentar me firmar contra ele. Saí para o lado da corrente e avancei, mantendo a espada perto do corpo.

A lâmina dele passou pela minha túnica.

Eu empurrei a minha à frente, por baixo do escudo.

Senti a ponta encontrar resistência.

Continuei o movimento.

O homem parou perto demais de mim. Seu rosto mudou, e a mão que segurava a espada procurou meu ombro.

Afastei-me, puxando a arma.

Ele deu um passo curto, como se ainda pretendesse me seguir. Depois seu joelho bateu nas tábuas.

Fiquei com a espada erguida.

O escudo tocou o chão. O homem se apoiou nele por um instante, mas seu braço dobrou e o corpo caiu de lado.

Esperei.

A plataforma continuou se movendo. Uma ponta do cordão azul balançava junto à mão dele.

Olhei para a lâmina negra. Havia sangue nela. Mais do que eu vira sair do corte no meu braço.

Baixei a arma devagar e me aproximei.

O homem estava com os olhos abertos, sem vida.

Abaixei-me, mantendo distância suficiente para recuar se ele tentasse me atingir. Sua espada ficara perto da mão, mas os dedos já não procuravam o punho.

— Ei.

Minha voz saiu diferente.

Toquei seu ombro.

Ele não se mexeu.

O terceiro sino soou sobre a cidade.

Ergui a cabeça. Ainda precisava entregar a mensagem.

Olhei de novo para o homem.

Por alguns instantes, não consegui lembrar o que devia fazer primeiro. A plataforma estava voltando para a entrada. Minha bolsa continuava presa ao cinto. A torre aparecia acima dos telhados, e eu tinha de chegar até ela.

Guardei a espada, errando a boca da bainha.

Tentei outra vez.

Quando o tablado se aproximou da rua, segurei uma corrente e esperei. Eu podia voltar por ali e

procurar outro caminho, mas aquilo levaria tempo. O terraço próximo da torre ficava do outro lado.

Permaneci na plataforma.

Ela começou mais uma travessia.

Fiquei sentado junto à corrente, com a mão sobre a bolsa. Evitei olhar para a outra extremidade, mas via o homem sempre que a madeira inclinava.

Ele não desapareceu.

Quando alcançamos o terraço, levantei e saltei.

Pousei mal, precisei apoiar a mão no chão e continuei antes de olhar para trás.

A rua acima estava vazia.

Corri por ela até encontrar uma escadaria. A torre aparecia no alto, com as portas abertas. Havia campeões subindo por outras passagens. Não sabia quantos tinham chegado nem quanto tempo restava.

Meu braço ardia.

A mão direita continuava fechando mesmo quando eu tentava soltá-la.

Subi os degraus, usando o corrimão apenas nas partes mais íngremes. Um rapaz vinha por uma passagem lateral. Vi que alcançaríamos o mesmo arco e aumentei o passo.

Consegui passar antes dele.

Mais acima, duas pessoas disputavam espaço numa escada quebrada. Procurei um apoio na lateral, subi sobre uma mureta baixa e desci do outro lado. Uma pedra se moveu sob minha bota, mas recuperei o equilíbrio antes de cair.

A bolsa bateu na minha perna.

Agarrei-a.

Não podia perder a mensagem agora.

As portas da torre estavam perto. Um sacerdote esperava atrás de uma mesa, recolhendo os rolos lacrados. Diante dele, uma campeã tirava a mensagem de dentro da roupa.

Alcancei a mesa logo depois que ela a entregou.

Puxei a minha bolsa, mas os dedos demoraram a desfazer a tira.

O sacerdote estendeu a mão.

Coloquei o rolo sobre a palma dele.

Ele examinou o selo e o nome.

— Thaniel de Atenas.

As paredes desapareceram.

Voltei à arena ainda segurando a bolsa aberta.

Um arauto ergueu a voz:

— Décimo segundo!

Olhei para ele.

Esperava ouvir outra coisa depois. Uma correção, talvez.

O homem já anotava meu nome.

Havia onze campeões na área dos classificados.

Entrei pelo corredor entre os bancos e sentei. Minha mão deixara sangue na bolsa. Passei o polegar pela mancha e só consegui espalhá-la mais.

Outra pessoa apareceu na arena pouco depois.

Depois outra.

Eu já não precisava esperar o último toque para saber se conseguiria voltar.

Helena estava perto da frente, entre os primeiros classificados. Tinha poeira no cabelo curto e uma das mangas rasgada. Quando me viu, olhou para meu braço.

Eu baixei os olhos antes que ela viesse perguntar alguma coisa.

Ajax estava alguns bancos adiante.

Lico também.

O rapaz ajeitava a própria bolsa, conversando com um campeão que eu não conhecia. Eu o observei até ele perceber.

Seu olhar passou pela minha manga cortada.

Depois voltou para o homem ao lado.

Ele continuou a conversa.

Apertei a bolsa entre os joelhos. Queria levantar. Queria fazê-lo parar de falar e olhar para mim.

Um guarda passou pelo corredor.

Fiquei sentado.

Nos Espelhos, os caminhos da cidade continuavam ocupados. Vi pessoas correndo, uma ponte cheia de campeões e um homem tentando recolher sua mensagem de dentro de um canal.

Procurei a plataforma.

Não apareceu.

O último sino soou algum tempo depois. Mais campeões voltaram antes que a luz se apagasse por completo. Os arautos conferiram os nomes, e os sacerdotes nos mantiveram nos bancos enquanto terminavam a contagem.

Quando começaram a anunciar os que não retornaram, tentei prestar atenção.

Ouvi um nome de Kyllene.

— Míron.

O arauto continuou.

Eu fiquei olhando para ele.

Míron.

O homem tinha um nome. Eu o ouvira depois de ver seus olhos pararem de acompanhar meus movimentos.

Os Espelhos mostraram nossa luta pouco depois.

A imagem começou comigo junto à corrente. Míron avançou, eu saí para o lado e o golpe o alcançou. O Espelho acompanhou meu rosto por um instante antes de mostrar a torre.

As arquibancadas aplaudiram.

Abaixei a cabeça. O povo aplaudia uma morte como quem aplaudia um bardo cantar.

Hermes apareceu diante dos premiados quando os sacerdotes terminaram a leitura. Parecia tão à vontade quanto no banquete, com o manto curto sobre os ombros e os cabelos escuros afastados do rosto.

Chamou os doze pela ordem de chegada.

Helena foi a primeira.

Recebeu uma caixa pequena, trabalhada em ouro e madeira clara. Hermes abriu a tampa antes de

entregá-la, e alguma coisa dentro refletiu a luz sobre os dedos dela. Helena agradeceu e se voltou para as arquibancadas, que aplaudiram ainda mais.

Outros nomes vieram depois.

Vi um manto sendo desdobrado, um bracelete com uma pedra brilhante e uma arma que os sacerdotes carregavam sobre um suporte. As pessoas se levantavam para enxergar melhor cada presente.

Lico recebeu o dele antes de mim.

Passou pelo corredor sem procurar meu rosto.

Continuei olhando até ele voltar ao banco.

— Thaniel de Atenas.

Levantei.

O braço ainda doía, mas eu conseguia movê-lo. Fui até Hermes, tentando manter a mão cortada longe da túnica para não deixar mais manchas.

Ele segurava duas peças pequenas de bronze.

Eram duas tornozeleiras, estreitas, com uma fivela simples e um desenho de penas gravado perto da borda. Não tinha pedra nem brilho parecido com o dos outros presentes.

Hermes as colocou na minha mão.

— O Passo do Mensageiro — disse. — Um pouco de leveza para seus movimentos.

Olhei para o conjunto.

— Obrigado, senhor.

Ele indicou minha perna, e um sacerdote se aproximou para ajustar as tornozeleiras acima das botas. O bronze era frio. As tiras ficaram firmes sem apertar.

As arquibancadas aplaudiram, mas já havia gente olhando para o Espelho que repetia a chegada de Helena.

Mais tarde, Nélios me encontrou na saída da arena.

Olhou para meu braço, depois para a bolsa manchada. Segurou meu pulso e examinou o corte.

— Isto precisa ser limpo.

Assenti.

Ele me conduziu até o pavilhão. Eu ouvi algumas pessoas chamando meu nome pelo caminho, mas não soube dizer quem eram.

Quando entramos, Nélios colocou uma bacia sobre a mesa e mandou que eu sentasse. Tirou a bolsa da minha mão, molhou um pano e começou a limpar o sangue do antebraço.

Fiquei olhando a água mudar de cor.

— Lico fez uma ponte parecer outra coisa — falei. — Eu entrei e não dava mais para voltar. Tinha um homem lá.

Nélios continuou limpando o corte.

— Ele queria a mensagem. Eu tentei passar, mas ele veio atrás de mim.

Minha voz começou a falhar.

O velho deixou o pano na borda da bacia.

— Conte devagar.

Olhei para a espada na minha cintura.

— Eu matei ele.

Nélios permaneceu perto de mim.

Eu tentei contar o restante: a corrente, a plataforma baixando, a espada vindo na minha direção. As coisas saíam fora da ordem. Voltei duas vezes ao momento em que Míron se levantou junto ao suporte de madeira.

Nélios esperou.

— Esperei ele levantar depois — falei.

Foi aí que não consegui continuar.

O velho apoiou a mão no meu ombro esquerdo. Ficou ali até eu conseguir respirar sem prender o ar no meio.

Eu queria perguntar se havia outra coisa que pudesse ter feito. Mas, quando tentava lembrar, via a espada vindo e a borda da plataforma atrás de mim.

Nélios pegou outro pano.

— Vamos terminar de limpar isso — disse.

Olhei para a porta.

Pensei na minha mãe diante de um Espelho, procurando meu rosto entre os campeões. Não sabia o que ela vira. Também não sabia o que poderia escrever para ela agora.

A tornozeleira continuava presa acima da bota.

Eu terminara entre os doze.

Nélios estendeu a mão para receber a espada antes de cuidar do meu braço. Tirei-a da bainha e segurei pelo punho, mantendo a ponta afastada dele.

Meus dedos não abriram de imediato.

O velho não puxou.

Manteve a mão diante de mim até eu conseguir entregar.

Nélios terminou a faixa, deixou água ao alcance do catre e me fez comer um pedaço de pão. Eu mastigava sem vontade. Quando deitei, ainda sentia o movimento da plataforma, embora a cama permanecesse parada.

Demorei a fechar os olhos.

No sonho, as tábuas se inclinavam debaixo dos meus pés.

Eu sabia o que aconteceria. Reconhecia a corrente junto às minhas costas, o escudo pequeno e o cordão azul preso ao braço de Míron. Queria sair dali antes que ele avançasse, mas meus pés continuavam procurando os mesmos lugares.

A espada veio.

Eu desviei.

Minha lâmina encontrou resistência, e senti o corpo dele perto do meu. Tentei interromper o movimento, só que já estava puxando a arma.

Míron caiu sobre as tábuas.

O escudo fez barulho. Depois vieram as palmas.

Olhei para cima, procurando as arquibancadas. Não conseguia vê-las entre as vigas, mas ouvia as pessoas aplaudindo. Algumas gritavam meu nome.

Abaixei-me junto dele. A ponta solta do cordão azul balançava com a plataforma.

Quis chamar alguém.

As palmas ficaram mais altas.

Eu procurava minha mãe no meio daquele barulho, sem conseguir lembrar em que direção devia olhar. Se ela estivesse ali, talvez soubesse o que fazer. Tentei levantar a cabeça outra vez, mas minha mão continuava presa ao ombro de Míron.

Acordei puxando o ar.

A manta estava apertada entre meus dedos. Soltei-a devagar e passei a mão pelo rosto. O pavilhão estava escuro, com apenas uma lamparina acesa perto da mesa.

Nélios se moveu no banco.

Ainda estava ali, como se tivesse previsto que eu iria precisar dele. Tinha tirado as botas e deixado a cabeça apoiada na parede. Endireitou-se com uma careta antes de se aproximar.

— Beba um pouco.

Peguei o copo. Precisei segurá-lo com as duas mãos.

O velho puxou o banco para perto do catre e sentou. Esperei que perguntasse com o que eu sonhara, mas ele ficou olhando enquanto eu bebia.

— A plataforma — sussurrei.

Nélios assentiu.

— Toda vez que fecho os olhos, parece que ainda estou lá.

Ele recebeu o copo quando terminei e o colocou no chão, perto da cama.

Fiquei examinando meus dedos. Estavam limpos. Nélios tirara o sangue até debaixo das unhas, mas eu continuava me lembrando de como o punho da espada escorregava.

— As pessoas… elas aplaudiram.

O velho apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Eu ouvi.

— Quando mostraram o golpe. Parecia que eu tinha feito uma coisa boa.

Minha voz falhou na última palavra. Esperei conseguir respirar antes de continuar.

— Eu fiquei contente por sair de lá. Queria entregar a mensagem. Mas, depois que ele caiu, eu não...

Olhei para a lamparina.

— Não queria que batessem palmas.

Nélios passou a mão pelo rosto.

— Íris mostrou o golpe e sua chegada. Depois vieram os presentes. Foi assim que anunciaram sua vitória.

A lamparina estalou, e ouvi alguém se virar numa cama mais adiante.

Puxei a manta sobre as pernas.

— Pensei na minha mãe quando cheguei. Que ela devia estar me procurando nos Espelhos. Se viu que voltei, deve ter ficado feliz.

Nélios assentiu outra vez.

— Mas a mãe dele também podia estar olhando.

Falei mais baixo. Até aquele momento, eu só pensara nela de um jeito confuso, como se fosse outra Melissa numa casa que eu não conhecia.

— Talvez estivesse esperando ele voltar. Guardando as coisas dele.

Olhei para a mochila nova junto ao catre. Minha mãe guardava coisas minhas que eu nem lembrava mais de ter usado.

— Eu não sei se ele tinha mãe — acrescentei. — Não sei nada dele. Nem sabia o nome.

Nélios puxou a manta que começava a escorregar da cama e a deixou sobre minhas pernas.

— Você fez o necessário, Thaniel.

— Talvez eu conseguisse passar. Se tivesse esperado…

— Você tentou sair. Ele fechou o caminho e continuou atacando.

Fiquei olhando para a faixa no meu braço. Eu lembrava de tudo aquilo, mas ainda procurava um momento em que pudesse ter feito alguma coisa diferente.

O velho apoiou as mãos nos joelhos.

— Já lhe disse como o Grande Agón funciona. Naquela plataforma, era você ou ele. Também avisei que faria coisas de que se arrependeria para continuar vivo.

Sua voz perdeu um pouco da firmeza. Nélios olhou para além do catre, na direção da porta, embora não houvesse ninguém ali.

— O Agón é uma guerra, garoto. Quando alguém vem para matar você, não pode parar para pensar na mãe dele, nos filhos ou em quem ficou esperando em casa. Essas pessoas podem existir. Talvez estejam sofrendo agora. Mas levar todas elas para a frente da espada só vai fazer você hesitar.

Apertei a borda da manta.

— Eu não consigo parar de pensar.

— Agora, eu sei. Estou falando da próxima vez. Um instante pode bastar para que seja sua mãe quem receba a notícia.

Ergui os olhos para ele.

Nélios continuava olhando para a porta. Passou o polegar pelos nós dos dedos antes de voltar o rosto para mim.

— Pode respeitar o homem que caiu. Pode sentir pesar. Mas a melhor maneira que conheço de honrar um adversário que morreu pelas suas mãos é permanecer vivo. Faça valer a vida pela qual acabou de lutar.

Tentei pensar nisso.

Se eu demorasse um pouco mais naquela plataforma, talvez Míron chegasse à torre e eu ficasse sobre as tábuas. Minha mãe ouviria meu nome na lista. Eu conseguia entender essa parte.

Ainda assim, continuava vendo o cordão azul junto à mão dele.

Olhei para as mãos de Nélios.

— Você já matou alguém?

Ele baixou os olhos para elas.

— Já.

Esperei que contasse alguma coisa, mas o velho ficou quieto. Pela primeira vez naquela noite, pareceu que também estava longe do pavilhão.

— Com o tempo, dói menos? — perguntei.

Nélios demorou a responder.

— Depende de você. De como vai viver depois disso. O tempo, sozinho, não faz esse trabalho.

Fiquei passando o polegar pela costura da manta. Queria encontrar alguma coisa que tornasse a lembrança mais fácil de suportar.

— Você acha que o Míron sofreu?

O velho soltou o ar pelo nariz e esfregou o rosto. Quando respondeu, sua voz já tinha recuperado um pouco da impaciência.

— O golpe foi certeiro, Thaniel. Limpo. Pelo que vi, acabou depressa. Se sentiu dor, não deve ter durado muito.

Assenti devagar. Nélios apoiou uma das mãos no catre para se levantar.

— E com você? Como foi?

Ele parou, ainda inclinado.

— Tirar a vida de alguém — expliquei.

O velho tornou a se sentar. Durante alguns instantes, ficou olhando para as próprias mãos.

— Na primeira vez, mal consegui guardar a espada. Minha mão tremia tanto que não acertava a bainha.

Olhei para os dedos grossos dele. Era difícil imaginá-los sem conseguir fazer alguma coisa.

— Você ficou pensando no homem depois?

— Fiquei.

— Ainda lembra dele?

Nélios passou a mão pela barba antes de responder.

— Lembro. Já faz muito tempo, mas lembro.

Eu queria saber quanto. Também queria perguntar se ele ainda sonhava com aquilo, mas havia outra coisa me incomodando.

— Ele estava tentando matar você?

O velho ergueu os olhos.

— Estava. Eu sobrevivi e ele morreu. Depois precisei continuar andando.

— E das outras vezes?

Nélios soltou o ar devagar. A mão que repousava sobre o joelho se fechou.

— Das outras vezes também houve coisas que eu preferia esquecer.

— Foram muitas?

Ele se endireitou no banco.

— Já basta. Você sabe como chatear alguém.

Baixei os olhos para a manta.

— Só estou perguntando.

— Eu sei. Você termina uma pergunta e já está preparando a próxima. — Esfregou o rosto, cansado. — Não quero passar a noite lembrando de cada homem que matei, garoto.

Eu não tinha pensado que minhas perguntas faziam aquilo.

— Desculpa.

Nélios ficou quieto por um momento. Depois puxou a manta sobre minhas pernas, prendendo a ponta que insistia em cair.

— Deite. Já tivemos uma noite comprida demais.

Obedeci, embora ainda não estivesse com sono. Ele aproximou o copo de água do catre e tornou a se acomodar no banco.

Esfreguei o rosto com a mão boa.

— Queria falar com a minha mãe.

Nélios olhou para a mesa.

— Posso mandar outra carta?

Ele se levantou, calçou uma das botas e procurou alguma coisa na bolsa.

— Pode. Eu arranjo quem leve.

Trouxe papel, tinta e uma pena. Colocou tudo sobre a mesa e afastou a lamparina para abrir espaço. Quando sentei, empurrou um tecido dobrado para debaixo do meu antebraço.

— Apoie isso. Você está levantando o ombro outra vez.

Ajeitei o braço.

Fiquei algum tempo com a pena parada. Queria dizer que estava bem, porque sabia que ela procuraria essa parte primeiro. Escrevi as palavras e parei olhando para elas.

Acabei riscando.

Nélios voltou ao banco. Eu ouvia seus movimentos enquanto tentava começar de novo.

Mãe,

Terminei a prova de Hermes. Fiquei em décimo segundo e ganhei duas tornozeleiras. Ainda não sei usar direito, mas acho que vão me ajudar.

Machucaram meu braço um pouco. Nélios já limpou e fez uma faixa. Posso mexer a mão, então não precisa ficar pensando que foi como da outra vez.

Hoje eu tirei a vida de um rapaz. Ele se chamava Míron. Estava tentando me atingir e eu não consegui passar por ele. Eu sei que corria perigo, mas continuo lembrando do rosto dele depois que caiu.

As pessoas aplaudiram quando mostraram nos Espelhos. Eu só queria que a prova acabasse e fiquei pensando em você. Depois pensei que talvez a mãe dele também estivesse esperando por ele.

Não sei contar isso melhor. Dormi um pouco e sonhei com a luta.

Nélios ficou aqui comigo. Agora estou escrevendo e ele ainda está perto.

Estou com muita saudade. Se puder, me escreva contando como você está. Pode contar coisas pequenas também, mesmo as que achar que não são importantes. Quero saber como foi seu dia.

Queria abraçar você agora.

Com saudade,

Thaniel.