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Rostos que o vento levou · O silêncio da névoa — Beatriz Costa

Por Beatriz Costa

A névoa bate forte na janela da frente e o som dos festivais na capital ainda ecoa de longe, mas aqui na beirada da estrada de terra o silêncio é pesado. O meu marido foi fechar o portão cinco minutos atrás e até agora não voltou. A porta ficou destrancada, o lampião ficou aceso e a janta já esfriou na mesa... Tem algo andando lá fora, na neblina, sem fazer barulho nenhum. Se alguém achar isso aqui amanhã... por favor, não venha atrás da gente.

O silêncio da névoa

Quem viaja pelas estradas que ligam as grandes cidades à periferia de Arkmenys aprende bem rápido a contar os rostos que vê pelo caminho — e a notar quando eles somem.

Passei pelas províncias do norte na semana passada. Nas praças centrais, e tudo parecia em ordem, sob o brilho constante das luzes dos festivais e o som dos aplausos artificiais. Mas, nas estradas de terra, cinzentas e longe das capitais, o cenário muda. Há carruagens sem brasão, carretas cobertas por lonas pesadas e figuras encapuzadas que viajam sob o manto dessa névoa.

Conversei com um estalajadeiro na divisa da província; ele me garantiu que havia famílias inteiras desaparecendo de suas casas nas bordas das florestas durante a madrugada. Não deixavam pegadas, não deixavam cartas, nem mesmo sinais de luta. Apenas as portas destrancadas e o eco do vento. O governo diz que são migrações voluntárias em busca de algum progresso, revolução ou melhora de vida. Mas os pertences continuam lá, intocados, como se as pessoas tivessem sido apagadas num piscar de olhos.

Se você notar que os vizinhos começam a se entreter nas ruas e que a névoa parece avançar mais rápido do que deveria, não espere até o amanhecer. Há algo caçando escondido nas sombras de Arkmenys, e eles não estão atrás de escravos... estão atrás de corpos perfeitos para alimentar algo.