Prólogo
Durante séculos, os humanos acreditaram que eram os donos do mundo.
Estavam errados.
Não inteiramente, claro. Humanos raramente estão inteiramente errados, e esse é justamente o problema. Eles acertam um pedaço pequeno da verdade, constroem uma igreja, uma ciência, uma guerra ou um aplicativo em cima dele e depois chamam todo o resto de superstição.
Antes de as cidades brilharem como constelações artificiais, antes de as câmeras tentarem filmar tudo e de os homens inventarem nomes científicos para monstros que preferiam continuar sem nome, o mundo já era dividido.
Havia o mundo que os humanos podiam tocar.
E havia o outro.
Aquele que respirava atrás das paredes e se escondia nas florestas antigas, nas catacumbas, nas cortes, nos portos e nos becos onde a luz dos postes nunca parecia chegar direito. Um mundo de dentes, pactos, sangue e coisas que aprenderam cedo demais a vestir um rosto humano.
Vampiros governavam castelos.
Não como nas histórias baratas, com capas dramáticas e olhares entediados diante de janelas góticas. Bom, às vezes também assim. Vampiros sempre tiveram péssimo gosto para teatro.
Mas governavam de verdade. Sentavam-se ao lado de reis, financiavam guerras, escolhiam herdeiros, compravam bispos, seduziam rainhas e transformavam famílias inteiras em gado elegante. Eram antigos, ricos, pacientes e convencidos de que seu sangue valia mais do que o de qualquer outra criatura.
Bruxos vendiam verdades em troca de sangue.
Alguns chamavam aquilo de magia; outros, de ciência antiga. Havia também os que chamavam de pecado, geralmente enquanto pagavam por ela em segredo. Bruxos sempre foram bons em sobreviver porque sabiam algo que o restante de nós demorou demais para aprender: conhecimento é uma lâmina. Quem segura pelo cabo manda; quem segura pelo fio sangra.
E os lobos?
Nós éramos armas.
Monstros de guerra, guardas de calabouço, caçadores acorrentados. Feras libertadas quando algum senhor de pele fria precisava que uma vila desaparecesse do mapa e deixasse para trás apenas pegadas grandes demais para qualquer explicação decente.
Os puro-sangues eram temidos; os licantropos, desprezados. Todos nós, porém, éramos úteis.
Naquela época, ser útil era apenas outro modo de dizer que alguém havia encontrado uma coleira do tamanho certo para o seu pescoço.
Então vieram as guerras.
Duas delas.
A primeira foi uma carnificina sem bandeira limpa. Raça contra raça, clã contra clã. Bruxos contra vampiros, vampiros contra feras, feras contra qualquer coisa que sangrasse do jeito errado. Ninguém lutava pela paz. Paz é a mentira que os vencedores contam depois que terminam de empilhar os corpos.
A segunda foi pior.
Foi quando as criaturas bestiais decidiram que já haviam rosnado de joelhos por tempo suficiente. Lobos, ursos e coisas com chifres, garras e nomes que os humanos esqueceram por misericórdia voltaram-se contra a antiga supremacia vampírica.
Os vampiros chamaram aquilo de rebelião.
Os lobos chamaram de libertação.
Os mortos, imagino, não chamaram de nada.
Essas guerras quase rasgaram o Véu.
O Véu é a razão pela qual você vê um massacre e se lembra de um acidente. A razão pela qual uma criatura atravessa a rua sob a chuva e sua mente decide que era apenas um cachorro grande, um homem bêbado ou uma sombra estranha no canto do olho.
Ele protege os humanos da verdade e, sendo bem honesto, também protege a verdade dos humanos. Afinal, eles possuem uma habilidade admirável para encontrar algo que não compreendem e imediatamente pensar: “Como posso vender isso, matá-lo, rezar para ele ou transformá-lo em arma?”
Durante as guerras, porém, o Véu começou a falhar.
Mortais viram demais. Cidades inteiras sonharam com as mesmas bestas. Reis enlouqueceram, exércitos marcharam contra inimigos que os próprios soldados já não conseguiam descrever e crianças nasceram lembrando-se de mortes que não eram delas. O mundo ficou fino, como pele esticada sobre osso.
E, quando o mundo fica fino, coisas antigas começam a empurrar do outro lado.
Foi então que as forças que regem este universo intervieram.
Não me peça nomes. Cada raça tem os seus, e cada religião inventou uma máscara diferente para elas. Tempo, Vida, Morte, Realidade, Destino, Instinto. O tecido invisível que mantém tudo funcionando sem que a existência desabe como uma tenda podre numa noite de tempestade.
Essas forças não salvaram o mundo por bondade. Bondade é uma palavra muito humana.
Elas corrigiram um desequilíbrio.
Separaram o que precisava ser separado, costuraram o que havia sido rasgado e reforçaram o Véu. Depois impuseram a lei mais antiga do nosso mundo:
O sobrenatural deve permanecer oculto.
Desde então, fingimos obedecer.
Os vampiros perderam seus tronos, mas não a ambição. Casas antigas caíram; outras trocaram brasões por conselhos administrativos. Castelos viraram sedes corporativas, masmorras se transformaram em laboratórios e correntes deram lugar a contratos.
Os bruxos se dividiram em círculos, ordens, linhagens e pequenos grupos arrogantes demais para admitir que continuavam improvisando diante do abismo.
Os lobos se espalharam. Alguns mantiveram os clãs; outros formaram gangues, facções, famílias e matilhas urbanas. Aprendemos a usar jaquetas, carros, documentos falsos e advogados.
Evolução, aparentemente.
Mas monstros antigos não desaparecem. Eles compram empresas, elegem aliados, fundam famílias, mudam de nome e esperam.
Essa é a parte que os humanos nunca compreendem sobre criaturas imortais: com tempo suficiente, a paciência deixa de ser virtude e se transforma em estratégia militar.
Eu devia saber.
Passei boa parte da minha vida tentando esquecer um deles.
Não me lembro de tudo. Ainda não decidi se isso é uma bênção ou uma piada de mau gosto. Tenho fragmentos.
Pedra fria. Correntes. Vozes antigas. Sangue em taças.
Uma mão pálida segurando meu queixo como se eu fosse um animal caro em exposição.
Também me lembro da floresta, embora nunca por inteiro. O cheiro da terra molhada, o gosto metálico na boca, o prazer vergonhoso da caçada. A sensação de correr com quatro patas e nenhum pensamento humano atrapalhando.
Às vezes, meu corpo se lembra antes da minha cabeça.
Isso nunca é um bom sinal.
Houve uma época em que os humanos me deram um nome.
Não o meu nome verdadeiro. Esse quase ninguém conhece. Às vezes, nem eu.
Deram um nome ao que viram nas florestas, ao que restou dos corpos e ao medo que precisavam transformar em história para conseguir dormir depois. Humanos fazem isso: batizam o horror e fingem que, se uma coisa possui nome, também pode ser compreendida.
Fofo.
Errado, claro, mas fofo.
Esse nome ainda aparece em livros velhos, arquivos empoeirados e conversas de gente que considera charmoso estudar tragédias depois que o sangue já secou.
Mas essa é outra história e, sinceramente, não está entre as minhas favoritas.
Agora seria a parte em que eu deveria dizer que tudo começou com uma profecia, uma lua vermelha ou alguma criatura velha sussurrando meu destino numa língua morta.
Seria bonito.
Também seria mentira.
Histórias nunca começam onde apontamos. Elas começam antes: em guerras antigas, famílias quebradas, meninas que não deveriam ter sido encontradas, irmãos que mentem por amor, vampiros com complexo de divindade e lobos que confundem liberdade com fugir de tudo que ainda importa.
Mas, se você precisa de um começo mais simples, tudo bem.
Começou com assassinatos.
Com corpos que não deveriam existir.
Com um chefe de polícia bom demais para continuar vivo.
Com uma garota que eu não deveria ter conhecido.
E comigo, como sempre, chegando tarde demais para evitar o estrago.
Foi aí que tudo começou.
Não.
Mentira.
Foi aí que tudo deu merda.