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Ruptura · Minha Manhã Acaba Mal — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Por trás da rotina das cidades existe um mundo que os humanos foram ensinados a não enxergar. Vampiros, bruxas, Garous, licantropos e outras criaturas caminham entre eles, protegidos pelo Véu, uma força antiga capaz de distorcer percepções, suavizar memórias e transformar o impossível em algo que a mente aceite. Durante séculos, esse equilíbrio manteve o sobrenatural escondido. Agora, porém, alguma coisa começa a falhar. Viktor Hayes Sinclair conhece esse mundo melhor do que gostaria. Garou, sobrevivente de um passado brutal e acostumado a manter a fera sob controle, ele se vê arrastado para uma investigação que começa com a morte do pai de Alyssa e logo revela sinais de experimentos, desaparecimentos e uma conspiração que atravessa as fronteiras entre o humano e o sobrenatural. Quanto mais avança, mais Viktor percebe que alguém está deixando rastros que parecem escolhidos especialmente para ele. Alyssa, porém, não pretende permanecer à margem. Determinada a descobrir o que realmente aconteceu com o pai, ela começa a questionar as mentiras que cercaram sua vida e as pessoas que insistem em decidir quais verdades ela deveria conhecer. À medida que os dois se aproximam de respostas que deveriam permanecer enterradas, também se aproximam um do outro. E, enquanto o Véu começa a apresentar suas primeiras rachaduras, Viktor precisa decidir até onde irá para protegê-la sem libertar justamente aquilo que passou séculos tentando manter preso.

Minha Manhã Acaba Mal

Naquela manhã, Blackwood Ridge estava coberta por uma névoa baixa, dessas que fazem as árvores parecerem mais antigas do que realmente são. Galhos nus riscavam o céu pálido, o chão úmido respirava folhas mortas e terra escura, e o lago, alguns quilômetros além da minha casa, permanecia imóvel como se alguém tivesse esquecido de desenhá-lo direito.

Eu gostava dali. Não havia vizinhos curiosos, gente correndo com fones de ouvido caros e expressão de sofrimento voluntário, crianças barulhentas, cachorros domesticados, casais tirando fotografias ou idosos alimentando patos.

Havia árvores, pedra, silêncio e frio.

Nenhum perigo.

Além de mim.

Comecei a correr pela trilha ainda em forma humana. A rotina importava, não por disciplina nem por qualquer dessas ideologias baratas que sabichões transformam em livros depois de descobrir que acordar cedo não é uma personalidade. Ela importava porque mantinha certas coisas no lugar.

A raiva, por exemplo. A fome. O excesso de energia. A vontade ocasional de arrancar a garganta de alguém apenas porque ele respirou alto demais perto de mim.

Coisas normais. Todo mundo tem seus pequenos problemas.

O meu era apenas um pouco mais peludo.

Eu estava sem camisa apesar do frio, usando calça de moletom e tênis próprios para trilha. Minha pele já se encontrava úmida de suor quando alcancei o trecho em que a mata se fechava ao redor do caminho.

Aquele território era meu. Legalmente, financeiramente e, caso alguém insistisse muito, de todas as outras maneiras que realmente importavam.

Parei entre duas árvores antigas, perto de uma pedra achatada onde costumava deixar as roupas. Não havia cheiro humano recente, sons deslocados ou batimentos cardíacos perdidos entre os troncos. Apenas esquilos, aves pequenas, um cervo a algumas centenas de metros e a água fria do lago respirando em silêncio mais adiante.

Tirei os tênis e a calça, deixei tudo sobre a pedra e permiti que a transformação começasse.

Ela nunca pedia licença.

O primeiro sinal foi o calor subindo pela nuca. A pele apertou, a coluna se curvou e os ossos se lembraram de que eram menos fixos do que pareciam. O espírito Garou se moveu dentro de mim, lento e satisfeito, como um animal enorme despertando no fundo de uma caverna.

Muita gente entende isso errado.

Não existe um “lobo dentro de mim”, como se meu corpo fosse uma casa alugada por uma criatura mal-humorada e peluda. Também não somos duas consciências dividindo o mesmo espaço e disputando o controle. O espírito lupino é parte da minha alma. Ele é meu instinto, minha fome, minha violência e uma porção considerável das coisas que prefiro não discutir.

Eu sou a fera, e a fera é parte de mim. Isso não significa que desejamos sempre as mesmas coisas.

Naquela manhã, porém, estávamos igualmente inquietos.

Sonhos faziam isso comigo.

Não sonhos agradáveis, com praias, gente sorrindo e aquela paz idiota vendida em propagandas de plano de saúde. Os meus costumavam chegar em fragmentos, sem ordem ou início definido. Os velhos elementos ainda estavam lá: pedra, correntes, sangue e uma mão pálida segurando meu rosto com cuidado demais.

Naquela noite, porém, havia algo diferente.

Uma floresta. Barracas rasgadas. Corpos espalhados ao redor de uma fogueira quase apagada. Uma garota me observando entre as árvores, os cabelos grudados à testa e os olhos arregalados de terror, súplica ou acusação.

Talvez os três.

A lembrança sempre se partia antes que eu conseguisse enxergar seu rosto.

Acordei antes do amanhecer com os dedos cravados no colchão e gosto de sangue na boca.

Então fui correr.

Era o que fazia quando minha cabeça ficava barulhenta. Corria até o corpo calar a mente, a raiva se transformar em movimento e o mundo voltar a parecer simples.

A mudança terminou com um estalo baixo de ossos, pele e fôlego.

Doía.

Eu gostava.

O mundo cresceu ao meu redor e, ao mesmo tempo, tornou-se menor. O chão se aproximou, os cheiros se abriram em camadas e a mata deixou de ser cenário para se transformar em informação.

Terra molhada, casca quebrada, musgo e água parada. Pelo de cervo. Sangue antigo de algum animal pequeno morto durante a madrugada. Fungos escondidos sob folhas apodrecidas. Metal distante, provavelmente uma cerca. Óleo de motor tão longe que nenhum humano seria capaz de percebê-lo.

Meu corpo caiu naturalmente sobre quatro patas.

Na forma de lobo, eu era grande demais para ser confundido de perto com um animal comum, mas não absurdo o suficiente para alguém gritar “lobisomem” antes de começar a questionar a própria sanidade. À distância e em movimento, seria apenas um vulto escuro entre as árvores.

Um borrão.

O Véu cuidaria do restante. Transformaria o impossível em improvável e daria ao observador uma explicação confortável o bastante para continuar vivendo. Ainda assim, eu preferia não depender dele. O Véu já falhara perto de mim antes.

Disparei pela mata.

A primeira arrancada era sempre a melhor. Meu corpo se esticou, as garras cortaram a terra úmida e o ar frio entrou pelos pulmões, puro e agressivo. Árvores passaram dos dois lados enquanto galhos finos se partiam contra meu pelo tarde demais para diminuir minha velocidade.

No início, não havia pensamento. Apenas movimento e aquele tipo de liberdade que humanos passam a vida tentando falsificar com dinheiro, sexo, religião, drogas e carros caros.

Eu não os julgava.

Mentira.

Julgava, sim.

Alcancei o lago em poucos minutos. A superfície escura refletia o nascer do sol, e uma camada fina de gelo cobria as margens. Desci a encosta de pedras, saltei sobre um tronco caído e senti o corpo responder com uma precisão que a forma humana jamais conseguia reproduzir.

Como homem, eu era forte, ágil e rápido o bastante para incomodar. Alto o suficiente para chamar atenção, musculoso o bastante para atrair olhares que geralmente ignorava e resistente o bastante para sobreviver a coisas que transformariam um humano comum em estampa de camiseta.

Como lobo, eu era correto.

Não bonito. Não elegante.

Correto.

Cada músculo existia por uma razão. Cada sentido, reflexo e dente cumpria uma função. Nada sobrava, e nada precisava fingir ser outra coisa. A fera não discutia consigo mesma diante do espelho, não se preocupava com ligações, acionistas, relatórios ou irmãos mais velhos com mania de comando.

Ela queria correr.

Então corremos.

Segui pela margem norte do lago e entrei novamente na mata. Subi uma elevação coberta de raízes, atravessei um vale estreito e espantei um grupo de cervos. Poderia ter alcançado qualquer um deles.

Não quis.

Controle não é ausência de desejo. É permitir que o desejo mostre os dentes e, ainda assim, obrigá-lo a se recolher.

Na maior parte das vezes, eu conseguia.

O sonho retornou em flashes durante a corrida. Sangue sobre uma superfície clara. Neve, talvez. Ou pedra. Uma garganta aberta. Uma risada baixa. Meu próprio rosnado, profundo o bastante para parecer surgir do chão.

E a garota.

O rosto aparecia rápido demais para que eu pudesse reconhecê-lo. Jovem. Pálida. Cabelos molhados por chuva ou suor. Olhos arregalados e sem vida.

O problema dos mortos é que eles costumam ser péssimos conversadores. Permanecem dentro da memória, repetindo o mesmo drama até você desejar arrancar a própria cabeça apenas para fazê-los parar.

Acelerei.

A raiva veio junto, ardendo sob a pele. O espírito Garou a recebeu com prazer. Não a raiva espalhafatosa que leva homens a socar mesas e se sentirem poderosos porque gritaram com um garçom. A nossa era mais antiga, mais silenciosa e muito mais difícil de deter.

Ela pediu passagem.

Eu permiti.

Corri até a mata se transformar em risco, o frio deixar de tocar minha pele e os sonhos perderem a forma. Até a lembrança das correntes ficar para trás, presa em algum galho invisível.

Durante algum tempo, fui apenas patas, pulmões, dentes e vento.

Sem nome. Sem passado.

Nenhum monstro.

Essa era a mentira mais gentil que eu contava a mim mesmo todas as manhãs.

Quando o sol já havia subido o suficiente para desfazer a névoa entre as árvores, retornei ao ponto de partida. A transformação de volta foi mais lenta. Sempre era. Os ossos recuaram, a pele se fechou e a respiração perdeu profundidade enquanto meus sentidos diminuíam até caberem novamente num corpo humano.

Fiquei de pé sobre as folhas úmidas, nu, coberto de terra e com um humor ligeiramente menos assassino.

Progresso.

Vesti-me sem pressa. O suor esfriava sobre minha pele, mas eu apreciava a sensação. Havia algo honesto no frio. Ele não fingia se importar com quem você era.

Minha casa ficava a alguns quilômetros dali, escondida atrás de mata particular, uma estrada privada e um portão capaz de desencorajar qualquer pessoa sensata.

Pessoas insensatas eram outro assunto.

Quando alcancei a clareira, o casarão surgiu entre as árvores. Pedra escura, madeira pesada e janelas altas compunham o tipo de fachada que fazia entregadores conferirem o endereço e se perguntarem se alguém colecionava cadáveres no porão.

Eu não colecionava cadáveres.

Davam muito trabalho.

Atravessei a porta principal. Por dentro, a casa abandonava quase por completo a aparência de mausoléu gótico. Concreto polido, aço escuro, madeira, vidro e iluminação baixa ocupavam os espaços amplos. A automação discreta havia custado mais do que algumas propriedades inteiras.

Eu gostava do contraste.

Velho por fora. Funcional por dentro.

Como eu, caso se ignorasse a parte funcional.

Havia quartos demais para uma pessoa e corredores longos o bastante para fazer o silêncio adquirir peso. Passei pela academia, montada com equipamentos reforçados e cargas personalizadas, e segui pelo salão em direção à escada.

A biblioteca ocupava boa parte da ala lateral. Duas paredes inteiras eram cobertas por prateleiras e escadas deslizantes. História, filosofia, medicina, ocultismo, biologia, poesia, literatura e tratados antigos dividiam espaço com livros que alguns museus ficariam irritados em saber que estavam comigo.

Eu havia lido todos. Alguns mais de uma vez.

Não por romantismo intelectual. Apenas tivera tempo demais e paciência de menos com minha própria ignorância.

No salão vizinho estava o piano. Um meia-cauda preto, sempre limpo e afinado, embora ninguém além de mim o tocasse.

A música organizava o caos sem precisar acorrentá-lo.

Subi até a suíte, tomei banho e deixei a água quente cair sobre meus ombros por mais tempo do que o necessário. Quando terminei, encarei o próprio reflexo no espelho embaçado.

A mesma aparência de sempre: pele pálida, rosto marcado, nariz pontudo e olhos cinzentos com aquela expressão que fazia desconhecidos procurarem outra pessoa a quem pedir informações. Os cabelos pretos permaneciam volumosos e naturalmente desalinhados. Eu gostava deles assim.

Barbeado, aparentava estar no fim dos vinte anos. Era o que os outros viam.

A verdade exigia uma contagem um pouco mais complicada, mas ainda não queria assustar você.

Vesti uma calça escura e uma camiseta preta confortável antes de descer. Foi então que encontrei o celular sobre a bancada da cozinha.

Cinco ligações perdidas.

Natan.

Olhei para a tela como se ela tivesse me insultado pessoalmente. Tecnicamente, havia feito isso. Natan não telefonava cinco vezes por saudade. Não ligaria cinco vezes nem se estivesse pegando fogo; enviaria uma mensagem com instruções sobre onde eu deveria levar o extintor e depois reclamaria da demora.

Havia também três mensagens.

A primeira dizia:

Ligue para mim.

Dois minutos depois:

Agora.

A terceira continha apenas meu nome.

Viktor.

Essa era a pior.

Quando Natan utilizava meu nome sem acrescentar uma ordem ou insulto, alguma coisa estava errada.

Liguei. Ele atendeu antes do segundo toque.

— Sabe, existem pessoas que começam conversas com “bom dia” — falei, apoiando o quadril na bancada.

A voz de Natan veio baixa, limpa e sem paciência:

— Você viu minhas ligações.

— Tive um momento emocionante com elas. Quase chorei.

— Venha para a empresa.

— Não.

— Viktor.

— Natan.

— Não estou pedindo.

— Seu charme deixou isso evidente.

Houve uma pausa do outro lado.

Natan era bom em silêncios. O tipo de silêncio que fazia subordinados endireitarem a postura e mentirosos reconsiderarem a carreira. Ele nunca precisara levantar a voz para ocupar uma sala ou obrigar alguém a prestar atenção.

Comigo, o efeito era um pouco diferente.

— Se isso é sobre minha ausência nas reuniões — continuei —, minha resposta permanece a mesma. Vocês me trancam numa sala com doze pessoas explicando gráficos que poderiam ser resolvidos com três decisões óbvias e esperam que eu não pense em violência. É crueldade com todos os envolvidos.

— Não é sobre as reuniões.

A resposta me calou.

Não pela frase, mas pelo tom.

Natan podia mentir para conselhos inteiros, anciões, investidores, inimigos e, nos dias mais difíceis, para si mesmo. Comigo, porém, sempre existia uma falha. Um arranhão quase imperceptível na armadura.

Naquele momento, eu o ouvi.

— Então é sobre o quê?

— Não quero discutir isso por telefone.

Pronto. A frase universal de quem encontrara um cadáver, uma conspiração ou uma combinação particularmente irritante dos dois.

Passei a mão pelos cabelos ainda úmidos.

— Quanto de problema?

— Bastante.

— Bastante humano ou bastante nosso?

Natan hesitou.

Foi breve.

Suficiente.

— Nosso.

Claro.

Porque uma manhã iniciada com pesadelos, sangue imaginário e cinco ligações perdidas obviamente não poderia terminar com café e piano.

— Você sabe que odeio Manhattan.

— Você odeia tudo.

— Isso não é verdade. Gosto de você em dias específicos.

— Viktor.

— Estou indo.

Desliguei antes que ele tivesse a satisfação de me dar outra ordem.

Permaneci diante da bancada por alguns segundos, sentindo o silêncio da casa. Grande demais, quieta demais e cheia demais de quartos vazios. Algumas pessoas compravam propriedades assim para impressionar convidados. Eu a comprara porque espaço era útil quando não se gostava de gente.

E porque paredes grossas continham melhor certos sons.

Voltei ao andar superior e troquei a roupa confortável por uma calça preta de corte ajustado, botas escuras, camiseta grafite e um sobretudo de lã que terminava abaixo dos joelhos.

Não precisava do casaco. Garous não sentiam frio como humanos.

Gostava dele.

No espelho, o conjunto dizia “não fale comigo” com educação suficiente para evitar processos.

Peguei as chaves e segui até a garagem. Três carros me esperavam sob a iluminação baixa: um SUV blindado que Natan me dera depois de uma discussão sobre meu desconhecimento do conceito de segurança, um esportivo que chamava atenção demais e um clássico americano coberto por uma lona.

Ao lado deles estava a moto.

Azul-escura. Potente. Bonita de um jeito quase indecente.

Sorri pela primeira vez naquela manhã.

Até Manhattan seriam quase duas horas de carro caso o trânsito demonstrasse uma misericórdia que Nova York raramente possuía. A moto não mudaria a geografia, mas permitiria negociar melhor com os congestionamentos e fingir que eu tinha algum controle sobre o tempo perdido.

Além disso, poderia me desafiar um pouco.

Sim, eu sei. Séculos de existência, trauma suficiente para encher uma catedral e ainda gostava de acelerar como um idiota.

Todo mundo precisa de um hobby.

Coloquei o capacete, subi na moto e liguei o motor. O ronco preencheu a garagem como um animal despertando.

Antes de partir, pensei novamente no sonho. Na garota entre as árvores, no sangue e naquela culpa sem rosto, mas com dentes.

Apertei o guidão até os pensamentos recuarem.

Depois acelerei.

O portão abriu diante de mim, lento demais para o meu gosto, revelando a estrada privada que cortava a mata em direção ao sul. Joguei a moto para a frente e deixei o frio se chocar contra meu corpo.

Nova York me esperava, barulhenta, cara e cheia de gente ocupada demais para perceber o que acontecia debaixo de seu nariz.

Natan dissera que o problema pertencia ao nosso mundo.

Nossos problemas costumavam envolver garras, presas, segredos antigos ou advogados. Às vezes, tudo ao mesmo tempo.

Ainda pensei em voltar para dentro. Poderia ignorar as ligações, tocar piano, escolher um livro e continuar fingindo que o passado não sabia onde eu morava.

Mas ele sabia.

Naquela manhã, finalmente decidira bater à porta.