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Ruptura · Farejo Mentiras — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Por trás da rotina das cidades existe um mundo que os humanos foram ensinados a não enxergar. Vampiros, bruxas, Garous, licantropos e outras criaturas caminham entre eles, protegidos pelo Véu, uma força antiga capaz de distorcer percepções, suavizar memórias e transformar o impossível em algo que a mente aceite. Durante séculos, esse equilíbrio manteve o sobrenatural escondido. Agora, porém, alguma coisa começa a falhar. Viktor Hayes Sinclair conhece esse mundo melhor do que gostaria. Garou, sobrevivente de um passado brutal e acostumado a manter a fera sob controle, ele se vê arrastado para uma investigação que começa com a morte do pai de Alyssa e logo revela sinais de experimentos, desaparecimentos e uma conspiração que atravessa as fronteiras entre o humano e o sobrenatural. Quanto mais avança, mais Viktor percebe que alguém está deixando rastros que parecem escolhidos especialmente para ele. Alyssa, porém, não pretende permanecer à margem. Determinada a descobrir o que realmente aconteceu com o pai, ela começa a questionar as mentiras que cercaram sua vida e as pessoas que insistem em decidir quais verdades ela deveria conhecer. À medida que os dois se aproximam de respostas que deveriam permanecer enterradas, também se aproximam um do outro. E, enquanto o Véu começa a apresentar suas primeiras rachaduras, Viktor precisa decidir até onde irá para protegê-la sem libertar justamente aquilo que passou séculos tentando manter preso.

Farejo Mentiras

u não esperei Charles no prédio.

Isso talvez diga algo ruim sobre meu caráter, mas, em minha defesa, a maioria das coisas dizia algo ruim sobre meu caráter. Pelo menos aquela decisão teve utilidade prática.

Quando deixei a H.S. Tech, Manhattan continuava ocupada demais fingindo que o mundo girava ao redor dela. Gente apressada, carros demais, buzinas e cheiro de comida cara misturado com lixo quente e perfume de pessoas que usavam a palavra networking sem sentir vergonha.

Eu precisava sair da cidade.

Não por drama. Por higiene mental.

A moto resolveu isso com competência.

Segui para o norte enquanto o frio batia contra o capacete e o ronco do motor ocupava o espaço onde pensamentos ruins costumavam se instalar. Aos poucos, os prédios deram lugar a ruas mais largas, depois a casas e, por fim, a extensões de mata, pedra e acostamento.

O ar mudou antes da paisagem. Sempre mudava. Menos metal, gente e desespero engarrafado.

Eu conhecia bem o suficiente aquela região das Catskills. Havia matas ali que ainda pareciam se lembrar de um tempo anterior a placas, trilhas, sinal de celular e humanos com mochilas coloridas alegando que estavam se reconectando com a natureza.

A natureza não deseja conexão.

Prefere respeito, distância e, ocasionalmente, o sacrifício de algum idiota despreparado.

Estacionei perto de uma entrada estreita fora da rodovia, onde a trilha começava quase escondida entre árvores altas e arbustos úmidos. Não havia placas turísticas, estacionamento decente ou qualquer infraestrutura destinada a transformar mato em parque temático para gente com garrafa térmica.

Bom sinal.

A mata era fechada, composta por troncos antigos, pinheiros escuros e galhos ainda nus em algumas árvores. Folhas mortas cobriam o chão como pele velha. O vento atravessava as copas com um som baixo, e o céu carregava aquele tom de chumbo capaz de fazer qualquer paisagem parecer culpada de alguma coisa.

Desci da moto, retirei o capacete e respirei.

Terra úmida, madeira, musgo e animais pequenos. Óleo vindo da rodovia, borracha, um resíduo distante de fumaça e o cheiro antigo da fita plástica usada para isolar o perímetro.

A cena ficava alguns quilômetros mata adentro.

Eu poderia ter seguido sozinho. Na verdade, esse era meu plano quando deixei Manhattan: entrar, farejar, descobrir o que Natan queria e voltar antes que Charles terminasse de preencher qualquer formulário moral que policiais carregassem dentro do crânio.

Mas meu irmão pedira que eu o respeitasse.

Eu estava tentando ser menos Viktor.

Experiência horrível. Não recomendo.

Esperei.

Quarenta minutos depois, uma SUV preta apareceu na curva e reduziu junto à entrada. O veículo parou atrás da moto, levantando folhas e um pouco de poeira. Charles desceu usando o mesmo casaco escuro, agora acompanhado por uma expressão de pouca paciência e menos sono ainda.

Olhou para mim e depois para a moto.

— Pensei que sairíamos juntos.

— Também pensei em muitas coisas durante a vida. A maioria terminou em decepção.

Charles fechou a porta.

— Você saiu antes que eu voltasse.

— Queria deixar a cidade.

— E não considerou útil avisar?

— Você me encontrou.

Ele me encarou por alguns segundos, provavelmente medindo a distância entre o profissionalismo e a vontade de me acertar.

Gostei dele um pouco mais.

— Vamos — decidiu.

A trilha começava estreita, descendo por uma faixa de terra compactada entre os arbustos. Charles caminhava bem para um humano. Seus passos eram firmes, a respiração permanecia controlada e os olhos se moviam constantemente pela vegetação. Não tinha o corpo de um militar, mas o de alguém que passara décadas entrando em lugares ruins e saindo vivo por uma mistura de treinamento, teimosia e café.

Segui alguns metros à frente.

Não apenas por arrogância. A mata falava melhor comigo.

A rodovia ainda sussurrou atrás de nós durante algum tempo, mas logo se transformou num ruído distante sob o vento. Galhos estalavam ocasionalmente sob nossas botas. Em alguns trechos, a lama preservava rastros de animais; em outros, pedras lisas apareciam sob as folhas.

— Como encontraram os corpos? — perguntei.

Charles demorou um pouco para responder. Não por falta de informação, mas porque decidia quanto deveria compartilhar.

Humanos faziam isso o tempo inteiro, como se esconder pedaços da verdade impedisse que ela apodrecesse.

— Um guarda-florestal fazia a patrulha de rotina — contou. — Estava acompanhado por um cachorro. O animal sentiu alguma coisa fora da trilha e o puxou até lá.

— Cachorros possuem a inconveniente tendência de serem úteis.

— Encontraram primeiro o acampamento destruído. Depois, os corpos.

— O guarda-florestal está inteiro?

— Assustado, mas inteiro.

— Dependendo do que fez aquilo, teve sorte.

Charles não respondeu. Pessoas raramente gostavam quando a resposta honesta era pior do que a pergunta.

Continuamos subindo.

— E as famílias?

— As notificações ainda estão em andamento. Um dos mortos não tinha contato próximo registrado, e outro morava sozinho. As duas mulheres eram de fora do estado. Estamos rastreando vínculos e tentando determinar como o grupo se formou.

— Quatro pessoas desaparecem sem que ninguém perceba rapidamente.

— Às vezes acontece.

— Acontece com mais frequência quando são escolhidas por isso.

Charles permaneceu em silêncio.

Bom.

Também havia considerado a possibilidade.

A trilha subiu por uma encosta suave, e a mata se fechou ainda mais. As copas bloqueavam parte da luz, deixando o ar frio e úmido. Cheiros humanos antigos começaram a surgir: técnicos, policiais, botas, luvas de látex e suor nervoso. Tudo enfraquecido por dias de vento, chuva e animais curiosos.

— Como você e Natan se conheceram? — perguntei.

Charles soltou um som baixo, quase uma risada.

— Ele nunca contou?

— Natan não conta histórias. Ele emite versões autorizadas.

— Parece com ele.

Continuou andando por alguns segundos antes de responder:

— Eu sempre enxerguei coisas.

Olhei por cima do ombro.

— Coisas é uma categoria ampla.

— Sombras que não correspondiam a ninguém. Pessoas com olhos errados. Ferimentos que mudavam de lugar nos relatórios. Testemunhas que juravam ter visto algo impossível e, no dia seguinte, descreviam um cachorro, um bêbado ou um acidente.

— Você é resistente ao Véu.

— Foi o que Natan me explicou.

— Pessoas assim são raras.

— Ele também disse isso.

— Natan gosta de parecer informado. É uma doença.

Charles passou por baixo de um galho inclinado.

— Pouco depois de assumir como chefe de polícia, investiguei um assassinato dentro de uma casa trancada. A vítima estava em pedaços, e tudo parecia um ataque animal. O principal suspeito, porém, era um homem que ninguém conseguia descrever da mesma maneira. Para uma testemunha, era alto; para outra, baixo. Branco, negro, jovem, velho. As lembranças escorregavam enquanto as pessoas falavam.

— O Véu tentando limpar a sujeira.

— Na época, eu não sabia que aquilo tinha nome.

— Mesmo assim, foi atrás do suspeito.

— Era meu trabalho.

Quase sorri.

A frase explicava bastante sobre Charles. Também ajudava a compreender por que continuava vivo.

Pessoas que dizem “era meu trabalho” antes de enfrentar algo impossível costumam ser burras, corajosas ou quebradas. Às vezes, as três coisas.

A combinação produz indivíduos interessantes.

— Encontrei o homem num depósito abandonado — Charles continuou. — Fui prendê-lo. Ele sorriu e disse que eu não deveria estar ali.

— Charmoso.

— Depois se transformou.

— Garou ou licantropo?

— Garou. Foi o que Natan disse mais tarde.

— E meu irmão apareceu?

— Ele estava caçando o mesmo homem.

Naturalmente.

Natan tinha o hábito irritante de chegar aos problemas antes que o restante das pessoas percebesse que eram problemas.

— O sujeito me atacou. Eu atirei, mas não adiantou. Teria morrido se Natan não tivesse entrado.

— Ele salvou sua vida.

— Sim.

— E então explicou tudo?

— Partes. O suficiente para eu entender que minha cidade possuía mais camadas do que imaginava.

— O assassino pertencia aos Presas?

Charles me observou por um instante.

— Natan disse que era um nômade dos Presas Cinzentas.

Soltei o ar.

Para humanos, a palavra nômade podia soar bonita. Alguém sem raízes, viajando pelo mundo, livre e provavelmente com higiene duvidosa.

Para uma matilha, possuía outro peso.

Alguns nômades eram sobreviventes expulsos por política ou conflitos internos. Outros eram desertores, traidores e criminosos. Lobos sem território ou juramento. Alguns tinham quebrado leis que até eu considerava razoáveis, o que exigia certo talento.

Um nômade dos Presas Cinzentas era alguém que conhecia a casa por dentro antes de cuspir no tapete.

— Natan o matou? — perguntei.

— Quando ele tentou nos atacar outra vez.

— Então, sim.

Charles deu mais dois passos antes de falar:

— Você não perguntou por quê.

— Ele já havia assassinado uma pessoa, tentou matar você e atacou Natan. A lista está suficientemente preenchida.

— Confia muito no seu irmão.

— Não seja ofensivo.

Charles olhou para mim.

— Não confia?

— É mais complicado do que isso. Confiança é uma palavra grande demais. Eu conheço Natan.

Pensei por um instante.

— É pior.

Charles pareceu compreender.

A trilha tornou-se mais estreita. Fitas amarelas apareceram adiante, amarradas entre troncos e já afrouxadas pelo vento. O perímetro policial ainda estava montado, embora tivesse perdido a rigidez dos primeiros dias. Marcas de botas cobriam a lama, e pequenas estacas numeradas permaneciam próximas de pontos examinados pela equipe forense.

O cheiro chegou antes da imagem.

Sangue velho e carne aberta, embora os corpos já tivessem sido removidos. Produtos químicos utilizados pelos técnicos. Medo humano recente. Animais que se aproximaram depois: corvos, raposas, insetos e um coiote curioso.

Havia também pessoas demais pisando onde não deveriam.

Esse era o problema das cenas de crime. Depois do crime, chegavam os profissionais e começavam a assassinar os rastros.

Passei por baixo da fita. Charles fez o mesmo com um respeito quase ritualístico.

Policial.

O acampamento ocupava uma clareira irregular cercada por pinheiros e árvores de tronco fino. Quatro barracas rasgadas formavam um semicírculo próximo a uma fogueira apagada. Mochilas abertas, roupas, utensílios e uma lanterna quebrada estavam espalhados pelo chão. Uma garrafa térmica amassada permanecia junto a uma pedra.

À primeira vista, parecia caos.

O problema era justamente esse.

Caos verdadeiro raramente se dedica tanto a parecer caótico.

Ajoelhei-me diante de uma das barracas. O tecido apresentava cortes longos e violentos, mas o ângulo estava errado. Tinham sido feitos sem a resistência de alguém do outro lado. Na entrada, a terra não guardava sinais profundos de luta, dedos arrastados ou uma sequência desesperada de pegadas saindo dali.

Levantei e caminhei até a fogueira.

As cinzas indicavam pouco uso. A madeira havia queimado superficialmente, sem sustentar calor suficiente para um grupo durante a madrugada. Alguém a acendera, mas não cozinhara nem permanecera ali por muito tempo.

Charles me acompanhava em silêncio.

Ao menos aprendia rápido.

— O cheiro está prejudicado — falei.

— Pelos dias?

— Pelos dias, pelo vento, pela umidade, pelos animais, pela equipe forense e pelo universo em geral, que costuma ser hostil a investigações limpas.

Ele examinou a clareira.

— Ainda consegue separar alguma coisa?

— Consigo.

Fechei os olhos e respirei.

Meus sentidos humanos já eram superiores aos de quase qualquer criatura comum, mas havia diferença entre ouvir uma orquestra através de uma parede e entrar na sala onde ela tocava.

Permiti que o espírito Garou se aproximasse da superfície.

Não era uma transformação completa. Não precisava rasgar as roupas, assustar Charles mais do que o necessário ou ocupar metade da clareira.

Os músculos se expandiram primeiro sob a camiseta e o sobretudo aberto. A costura protestou nos ombros, os dedos se alongaram e as unhas se tornaram densas, curvas e escuras. Pelos surgiram nos antebraços, na nuca e junto à linha do maxilar. Os ossos do rosto mudaram pouco, mas o bastante para ampliar o olfato e abrir espaço para caninos que não deveriam aparecer num sorriso humano.

Meus olhos arderam com o aumento de foco.

O mundo se abriu.

Cheiros antes reduzidos a fios transformaram-se em cordas, compostas por camadas, intensidades e direções. O ar começou a contar histórias sobre tudo que passara por ali e, como toda testemunha útil, mentia um pouco por omissão.

Charles recuou meio passo.

Não muito. Apenas o suficiente para que eu percebesse a mudança em sua respiração.

— Continue respirando — pedi. Minha voz estava mais grave. — Se eu quisesse atacá-lo, não teria esperado até agora.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Foi o melhor que consegui.

Voltei à cena.

Havia quatro cheiros humanos principais ligados ao sangue. Fracos, quase apagados, mas presentes. O problema não era o que eu encontrava.

Era o que faltava.

Medo tem cheiro.

Não como uma palavra flutuando no ar, mas como química: adrenalina, suor ácido, respiração alterada e pequenas mudanças que a pele produz quando a boca ainda tenta mentir.

Havia muito medo naquela clareira.

Do guarda-florestal, dos técnicos e dos policiais. Talvez do cachorro. Choque, náusea e horror humano diante de corpos mutilados.

Das vítimas, quase nada.

Aquilo não acontecia quando quatro pessoas eram atacadas vivas.

Caminhei ao redor das barracas e me agachei num ponto onde o solo estava afundado. Um corpo havia sido arrastado por ali. Não durante uma luta. Depois.

Peso morto se comportava de maneira diferente.

— Eles não morreram aqui.

Charles permaneceu imóvel.

— Tem certeza?

— Absoluta é uma palavra de que não gosto. Mas sim.

Aproximei o rosto da terra e inspirei devagar.

Dois licantropos haviam trabalhado naquele ponto. Seus cheiros eram próximos, mas não idênticos. Havia neles sangue contaminado pela mordida, instinto deformado e uma mistura de homem e lobo produzida por violência, não por nascimento.

Um carregava tabaco barato, suor metálico e raiva antiga. O outro parecia mais jovem. Ansiedade surgia sob uma excitação intensa.

Não medo.

Prazer.

— Dois licantropos estiveram aqui — concluí. — Um deles era mais controlado. O outro estava nervoso, mas gostava do que fazia.

Charles não anotou. Não precisava. Vi a informação se fixar em seus olhos.

— Havia mais alguém?

— Sim.

Segui até o limite da clareira, próximo de uma árvore cuja casca fora arrancada.

O terceiro cheiro estava ali.

Mais limpo do que o de um licantropo. Mais antigo. Próximo de um Garou, embora alguma coisa se sobrepusesse à natureza original, como verniz aplicado sobre madeira apodrecida.

Aquilo me incomodou.

Ajoelhei-me e toquei a casca destruída. A marca demonstrava força considerável e garras grandes, mas também controle suficiente para ferir o tronco sem destroçá-lo.

— Um terceiro metamorfo — falei.

— Licantropo?

— Não.

— Garou?

— Talvez.

Charles se aproximou um pouco.

— Como assim, talvez?

— O cheiro se aproxima de um Garou, mas existe outra coisa misturada. Algo químico. Aplicado ou introduzido.

— Consegue identificar?

— Não.

Passei os dedos pela madeira.

— É como se alguém tivesse desmontado uma coisa natural, acrescentado peças que não pertenciam a ela e montado novamente.

Charles não gostou da descrição.

Bom.

Não havia sido feita para confortá-lo.

Voltei ao centro do acampamento. Agora o padrão era evidente. As barracas tinham sido cortadas depois. As mochilas estavam abertas de forma teatral, e os objetos haviam sido espalhados sem o pisoteamento correspondente a uma luta. Uma caneca caída não deixara marca de líquido no chão. Uma bota permanecia longe demais do par, mas não havia rastro de alguém que a tivesse perdido correndo.

Pertences pessoais cuidadosamente posicionados para representar desordem.

— A cena foi montada.

Charles observou a clareira como se ela tivesse acabado de mudar de forma.

— O acampamento inteiro?

— Sim.

— Depois das mortes?

— Depois.

— E as mutilações?

— Foram feitas aqui, quando as vítimas já estavam mortas.

Charles respirou fundo pelo nariz.

Péssima ideia num lugar como aquele, mas humanos insistiam em usar os sentidos errados para confirmar coisas que preferiam negar.

— Queriam ocultar a causa real das mortes — concluiu.

— Ou direcionar sua investigação para outra coisa.

— Um ataque de licantropos.

— Exatamente.

Charles examinou os rastros próximos às barracas.

— Se pretendiam simular um ataque, por que deixar o cheiro dos próprios licantropos?

— Porque não estavam tentando enganar alguém como eu.

— Estavam tentando enganar a polícia.

— E você.

A frase permaneceu desagradável entre nós.

Charles a recebeu sem se ofender.

— Isso reforça a ideia de uma provocação contra Natan ou os Presas — acrescentei.

— De onde trouxeram os corpos?

— Ainda não sei. Mas não utilizaram a trilha.

Segui para o lado oposto da clareira. Galhos quebrados em altura baixa marcavam uma passagem irregular pelo mato. A terra tinha sido comprimida por peso, e havia cheiro de lona plástica, gasolina, borracha e sangue transportado dentro de alguma coisa fechada.

— Os corpos vieram por aqui, carregados ou cobertos. Os dois licantropos fizeram a maior parte do trabalho.

— E o terceiro?

— Supervisionou. O cheiro aparece nos pontos de onde se podia observar toda a clareira, mas ele quase não tocou em nada.

— Alguém no comando?

— Talvez. Ou alguém importante demais para carregar corpos.

Charles passou a mão pela mandíbula.

— Quatro pessoas mortas em outro lugar, trazidas até aqui e mutiladas para simular um ataque. Depois, alguém construiu um acampamento falso ao redor delas.

— Parabéns. Você acabou de destruir a versão simples do caso.

— Nunca gostei de versões simples.

Olhei para ele.

— Todo policial gosta da versão simples. Alguns apenas aprendem a desconfiar dela antes que seja tarde.

Dessa vez, Charles sorriu de verdade.

Pouco.

Um avanço.

Deixei a transformação recuar. Os pelos desapareceram, os caninos diminuíram e os músculos retornaram ao tamanho humano. O mundo voltou a fechar algumas de suas portas.

Ajeitei a gola do sobretudo.

— Vamos até a rodovia.

Charles olhou para a clareira.

— Consegue seguir o rastro?

— Agora, sim.

— O que mudou?

— Memorizei os cheiros.

Não retornamos pela trilha. Segui através da mata pelo caminho utilizado para transportar os cadáveres. Charles acompanhou alguns passos atrás, menos silencioso do que provavelmente gostaria, mas sem reclamar.

Dava para perceber que queria fazer perguntas.

Não fez.

Isso também era raro.

O rastro avançava de maneira irregular, mas continuava perceptível. Sangue velho sob lona, borracha e suor de licantropo. A terceira presença aparecia e desaparecia, como se o metamorfo soubesse evitar contato com o ambiente.

Esperto.

Irritante.

Depois de alguns quilômetros, alcançamos uma área baixa próxima da rodovia, protegida por árvores e arbustos densos. O solo era mais macio, e marcas de pneus permaneciam parcialmente preservadas numa faixa de lama endurecida.

Charles se agachou diante delas.

— Correspondem ao tamanho da van.

— E ao tipo de pneu.

— Consegue confirmar pelo cheiro?

Ajoelhei-me e toquei a terra.

— Pelo cheiro, pelas marcas e pelo fato de não ser cego.

Ele ignorou.

Diesel, escapamento sujo e óleo queimado. O motor trabalhava com uma mistura irregular, lançando combustível demais pelo sistema. Havia ainda uma nota ácida e metálica presa ao solo.

— A van está com defeito no motor — falei.

— Que tipo?

— Combustão irregular. Talvez falha na injeção ou vazamento no sistema de combustível. O escapamento deve produzir fumaça escura quando o motorista acelera.

Charles me observou.

— Você entende de motores?

— Tenho mais de trezentos anos. Em algum momento, a pessoa acumula hobbies.

Ele ficou imóvel.

— Você acabou de dizer que tem mais de trezentos anos?

— Não.

— Disse, sim.

— Deve ter ouvido errado. Idade avançada faz isso.

— A minha idade avançada?

— Não vamos transformar isso numa competição.

Charles passou alguns segundos tentando encaixar séculos num rosto de vinte e poucos anos.

Nunca funcionava.

A mente humana gostava de gavetas. Eu era uma faca jogada dentro do armário.

— A van saiu da estrada aqui — ele disse por fim. — Mas pode ter seguido em qualquer direção depois.

— O resíduo mais recente está do lado norte.

Charles retirou o celular e abriu um mapa com as câmeras e os horários registrados.

— Ela foi vista pela última vez nesta interseção — indicou. — Depois disso, existem três acessos rurais sem monitoramento.

— Então verificamos os três.

Voltamos aos veículos.

Minha moto parecia pronta para partir sem preencher relatório. A SUV de Charles parecia grande, limpa e policial demais para aquela entrada.

— Vamos separados — ele disse antes que eu pudesse sugerir qualquer coisa.

— Dois veículos chamam mais atenção.

— Não vou abandonar uma viatura no acostamento nem subir na sua moto sem capacete.

— Uma decisão surpreendentemente sensata.

— Você vai à frente e verifica os acessos. Eu acompanho a distância. Se encontrar alguma coisa, pare.

— Consegue acompanhar?

Charles abriu a porta da SUV.

— Não transforme isso em desafio.

— Sem promessas.

Seguimos para o norte.

Mantive a velocidade baixa o suficiente para examinar as margens da estrada e permitir que Charles permanecesse próximo. O cheiro da van não formava uma trilha contínua sobre o asfalto; carros, vento e combustível fragmentavam qualquer rastro. Ainda assim, surgia em pontos específicos: perto de curvas onde o motorista reduzira, em trechos de subida nos quais o motor defeituoso trabalhara mais e junto às entradas onde os pneus haviam tocado a terra.

No primeiro acesso, não encontrei nada.

No segundo, apenas marcas antigas de caminhonetes e tratores.

Perto do terceiro, os faróis de Charles piscaram duas vezes atrás de mim.

Reduzi e retornei alguns metros. Ele havia parado diante de uma entrada estreita à direita, quase escondida entre arbustos. Desceu e se ajoelhou junto às marcas na terra úmida.

Parei a moto e fui até ele.

— Mesmo desenho dos pneus — Charles disse.

Aproximei-me do chão.

Diesel sujo. Óleo queimado. Licantropo.

— É a van.

Charles olhou para a estrada de terra que desaparecia entre as árvores.

— Então ela entrou aqui.

— Pelo menos uma vez.

Seguimos pelo acesso em baixa velocidade, cada um em seu veículo. O caminho era ruim, cheio de pedras, sulcos e poças antigas. Árvores se fechavam dos dois lados, e a luz da tarde começava a se inclinar, criando sombras longas entre os troncos.

Depois de alguns minutos, a mata se abriu para uma propriedade pequena.

Uma fazenda, caso alguém estivesse sendo generoso.

A casa principal tinha dois andares, paredes de madeira descascada e uma varanda que cedia num dos lados. Mais atrás havia um celeiro grande, fechado por tábuas remendadas e portas largas. À esquerda, porém, existia um galpão metálico novo demais para o restante da propriedade.

Fechamentos reforçados. Estrutura recente. Nenhuma janela visível.

Não pertencia à fazenda.

Pertencia a alguém que usava uma fazenda como desculpa.

Uma cerca de arame delimitava o campo baixo. Um trator enferrujado permanecia junto a uma árvore morta. Não havia animais, vozes ou sinais de atividade comum.

Mas havia cheiro.

A van. Licantropos. Produtos químicos.

E aquela terceira presença.

Meu espírito Garou ficou em silêncio. Não por medo.

Por atenção.

Escondi a moto atrás de uma curva coberta por vegetação. Charles estacionou a SUV alguns metros atrás, fora do campo de visão da propriedade. Quando se aproximou, já trazia a arma numa das mãos e o celular na outra.

Enviou nossa localização antes de guardar o aparelho.

— Se eu não responder dentro de vinte minutos, uma equipe vem até a entrada — explicou.

— Equipe humana?

— Uma equipe que sabe obedecer quando mando esperar.

Melhor do que nada.

— Esconderijo? — perguntou.

— Ou um convite.

— Acha que fomos seguidos?

— Não.

— Então convite para quem?

— Para qualquer idiota competente o bastante para chegar até aqui.

Charles examinou a fazenda.

— Está nos incluindo nessa categoria?

— Estou tentando ser gentil.

Ele verificou a arma.

— Há alguém lá dentro?

Fechei os olhos e escutei.

Nenhuma voz ou movimento evidente. A casa não escondia respiração humana. O celeiro bloqueava parte dos sons, e o galpão metálico era isolado demais para permitir uma leitura segura.

— Há cheiro recente, mas não ouço ninguém na casa. O celeiro e o galpão são outra questão.

— Quantos?

— Ainda não sei.

Charles observou o campo e tornou a pegar o celular.

— Podemos esperar a equipe.

— E dizer o quê? Que seguimos o cheiro de uma van porque um Garou achou o escapamento memorável?

— Eu omitiria alguns detalhes.

— Se alguém ainda estiver lá, terá vinte minutos para desaparecer.

Ele sabia.

A tensão no maxilar respondeu antes da boca.

O sol se aproximava das árvores, lançando sombras compridas sobre o campo. Era o tipo de luz em que humanos enxergavam pior e coisas desagradáveis começavam a se sentir mais confortáveis.

— Fique aqui — pedi.

Charles me encarou.

— Não.

— Isso pode terminar mal.

— É meu caso, minha jurisdição e minhas vítimas.

— Também pode ser seu funeral.

— Se for necessário.

Não gostei da resposta.

Não porque fosse teatral ou idiota, mas justamente porque não era. Charles não tentava parecer heroico ou me impressionar. Apenas se recusava a permanecer para trás enquanto havia corpos, respostas ou culpados adiante.

Pessoas assim eram perigosas.

Principalmente para si mesmas.

— Fique atrás de mim.

— Não recebo ordens suas.

— Considere uma recomendação médica.

Ele quase sorriu.

— Você não é médico.

— Outra excelente razão para obedecer.

Avançamos a pé pela lateral da propriedade, usando o mato para evitar a estrada principal. O chão estava úmido e cedia sob as botas. Mantive os sentidos abertos e o corpo preparado para mudar.

Charles se movia com cuidado, desviando de galhos secos e mantendo a arma baixa, mas pronta.

Encontramos um trecho caído da cerca e atravessamos.

Dentro do perímetro, os cheiros ganharam força. Diesel, sangue, licantropos e a presença daquele metamorfo estranho. Sob tudo isso havia uma nota química, fria e agressiva, que não pertencia a uma fazenda abandonada.

Parei.

Charles parou atrás de mim.

— O que foi? — sussurrou.

Observei primeiro o celeiro e depois o galpão metálico.

Aquilo não combinava com corpos abandonados numa montanha. Não combinava com uma gangue improvisada ou com licantropos tentando parecer predadores.

Havia método naquele lugar.

E método, naquele contexto, era uma palavra educada para laboratório.

— Um problema maior — murmurei.

Charles apertou a arma.

— Como sabe?

Sorri sem humor.

— Porque meu irmão quase sempre está certo quando decide estragar meu dia.

Seguimos em silêncio, atravessando o campo morto na direção da fazenda.

Pela primeira vez desde que deixara Manhattan, compreendi que os corpos nas Catskills não eram o crime.

Eram apenas a placa na porta.