Natan Estraga Meu Dia
Cheguei a Manhattan em tempo recorde.
Não recomendo.
Nova York era uma cidade impressionante. Também era barulhenta, cara, superlotada e convencida demais da própria importância. Ou seja, humana até o último tijolo.
A moto cortou a West Side Highway enquanto o vento frio golpeava meu sobretudo e o capacete. O céu permanecia pálido, uma lâmina cinzenta acima dos prédios. À minha esquerda, o Hudson seguia escuro e indiferente, o que fazia dele uma das presenças mais agradáveis da ilha.
Hudson Yards surgiu adiante, todo vidro, aço e ambição vertical. Arranha-céus futuristas erguidos para abrigar pessoas que chamavam ganância de estratégia e ansiedade de produtividade.
A sede da Hayes Sinclair Technologies ficava ali. H.S. Tech, se você fosse jornalista, investidor ou simplesmente tivesse preguiça de pronunciar o nome inteiro.
As palavras brilhavam em letras discretas na fachada de uma torre de vidro escuro, próximas à entrada privativa. Nada exagerado. Apenas o suficiente para lembrar a qualquer visitante que, se ele precisava perguntar quanto o prédio custava, provavelmente não deveria estar ali.
Hayes Sinclair.
Era nosso sobrenome, embora nenhum de nós tivesse nascido com ele. Documentos são criaturas obedientes quando você possui dinheiro suficiente.
Natan o escolhera porque soava sólido, respeitável e internacional. Eu dizia que parecia o nome de uma família que envenenaria parentes durante o jantar e chamaria aquilo de sucessão patrimonial.
Ele nunca discordou. Dizia que era justamente por isso que funcionava.
O sistema reconheceu a placa da moto e liberou o portão da garagem privativa. Câmeras acompanharam minha entrada, enquanto sensores e leitores registravam cada movimento. A torre inteira era uma fortaleza disfarçada de empreendimento corporativo.
Pareceria paranoia para qualquer pessoa que não conhecesse o mundo sobrenatural.
Estacionei na vaga reservada, entre carros de luxo pertencentes a executivos convencidos de que potência compensava ausência de personalidade. Quando desliguei o motor, o ronco morreu aos poucos e devolveu à garagem seu silêncio caro e artificial.
Retirei o capacete e senti o cheiro do edifício antes mesmo de alcançar o elevador.
Produto de limpeza, metal, borracha aquecida e café. Perfume caro. Ansiedade humana. Ambição suficiente para contaminar o sistema de ventilação. Dois seguranças armados no piso superior, um deles comendo alguma coisa apimentada demais para aquela hora da manhã.
Entrei no elevador privativo. O painel reconheceu minha presença e iniciou a subida sem exigir contato. Uma das pequenas vantagens de ajudar a financiar um império tecnológico era não precisar conversar com recepcionistas sorridentes antes das dez.
A cidade diminuiu através do vidro inteligente. Carros se transformaram em insetos brilhantes e pessoas viraram pontos em movimento. Por alguns segundos, Manhattan pareceu quase tolerável.
Quase.
As portas se abriram no andar executivo, revelando carpete escuro, paredes de madeira nobre e divisórias de vidro fumê. Alguns funcionários fingiram não olhar para mim.
Fizeram bem.
A maioria já havia compreendido que eu não era uma experiência profissional enriquecedora.
Atravessei o corredor sem diminuir o passo. A assistente de Natan ergueu os olhos da tela.
— Senhor Viktor, ele está esperando.
— Ele sempre está.
Ela teve o bom senso de não responder.
As portas do escritório eram grandes, discretas e pesadas. Abri sem bater.
O ambiente era exatamente o que se esperaria de Natan: amplo, austero, impecável e irritantemente bem organizado. Uma parede inteira de vidro mostrava Manhattan lá embaixo, lembrando a qualquer pessoa sentada diante da mesa que poder era, em grande parte, uma questão de altura e vista panorâmica.
Natan estava sentado na cadeira de CEO como se tivesse nascido nela. Usava terno escuro, a postura permanecia reta e a expressão, neutra. Para qualquer outra pessoa, pareceria calmo.
Para mim, parecia uma bomba educada.
A tensão estava no maxilar, no peso discreto dos ombros e no dedo indicador mantido imóvel perto demais da borda da mesa. Natan podia controlar uma sala inteira com uma sobrancelha, mas, comigo, ainda deixava pequenas rachaduras.
Eu conhecia todas.
No canto do escritório havia um homem que não esperava encontrar.
Parecia ter pouco mais de cinquenta anos. Rosto cansado, barba por fazer e olhos verdes atentos demais para alguém que ainda não havia dito uma palavra. Vestia um casaco escuro simples sobre uma camisa social sem gravata e mantinha a postura de quem passara a vida entrando em lugares onde todos mentiam antes mesmo de abrir a boca.
Policial.
Não por um distintivo. Ele não usava nenhum visível.
Pelo cheiro.
Café ruim, couro gasto, metal de arma e papel velho. Havia também aquele cansaço particular de quem já vira corpos suficientes para parar de acreditar em coincidências.
Eu o conhecia, mais ou menos. Tinha visto seu rosto anos antes, durante alguma reunião organizada por Natan com pessoas úteis e perigosas o bastante para serem mantidas por perto. Provavelmente entrei, reclamei de alguma coisa, ignorei metade dos presentes e fui embora antes que alguém pedisse minha opinião.
Um comportamento saudável.
— Viktor — Natan disse.
— Natan.
Olhei para o homem no canto.
— E trouxe companhia.
— Charles Blake — Natan apresentou. — Vocês se conheceram alguns anos atrás.
Charles me observou.
— Eu me lembro.
— Meus pêsames.
Ele não sorriu.
Ponto para ele.
— Charles é chefe de polícia — Natan continuou.
— Claro que é.
Retirei o sobretudo, coloquei-o sobre o encosto de uma das cadeiras e me sentei sem ser convidado.
— Então, qual é o incêndio?
Natan apoiou as mãos sobre a mesa.
— Quatro corpos mutilados foram encontrados nas Montanhas Catskill.
Esperei.
— Dois homens e duas mulheres — acrescentou. — Faziam parte de um grupo de trilha.
Continuei em silêncio.
Natan estreitou os olhos.
— Não vai dizer nada?
— Estou tentando descobrir em qual parte isso deveria me interessar.
Charles se afastou da estante. Movia-se devagar, ainda avaliando se eu era desagradável por estratégia ou vocação.
— Foram encontrados a cerca de cinco quilômetros de uma rota secundária — explicou. — Fora da área em que deveriam estar.
— Pessoas se perdem em montanhas. Animais comem pessoas. Às vezes, pessoas comem pessoas. A variedade do mundo é admirável.
— Eles não foram comidos.
Aquilo ajudou.
Olhei para Natan. Ele fez um gesto curto, e Charles retirou uma pasta de dentro do casaco.
Não um tablet ou uma apresentação com gráficos coloridos. Uma pasta física.
Gostei dele um pouco mais.
Charles colocou algumas fotografias sobre a mesa. Não as toquei imediatamente. Fotografias de cenas de crime não carregavam cheiro suficiente para contar a verdade; eram apenas fantasmas bidimensionais.
Ainda assim, meus olhos trabalharam antes do nariz.
Corpos abertos. Pele rasgada, músculos arrancados e ossos expostos em padrões irregulares. Gargantas destruídas. Um tórax quase dividido ao meio. As marcas de mordida eram grandes demais para um lobo comum, mas limpas demais em alguns pontos para pertencerem a um urso faminto.
Havia violência em excesso e consumo de menos.
Raiva, não fome.
Inclinei-me sobre as imagens.
— Quando?
— Há dois dias — Charles respondeu. — A estimativa coloca as mortes entre duas e quatro da manhã.
— Um horário ruim para fazer piquenique.
Ele apontou para uma das fotografias.
— Essas mordidas não correspondem a nenhum animal local. O padrão de pressão está errado, assim como a distância entre os caninos. Partes dos corpos foram arrancadas, mas quase nada foi consumido.
— Não foi uma caçada.
— Não — Charles concordou.
Observei novamente a disposição dos ferimentos. A brutalidade era evidente demais, quase performática.
— Foi uma mensagem.
A conclusão saiu antes que eu decidisse compartilhá-la.
Natan percebeu. Charles também.
Ótimo. Agora eu estava participando.
— É o que penso — Charles disse. — Venho investigando movimentações estranhas há alguns meses. Uma facção nova começou a operar na região. Licantropos, principalmente, mas há relatos de outros metamorfos circulando com eles.
— A facção tem nome?
— Nenhum que seja usado de maneira consistente. Eles preferem símbolos. Marcam lugares com tinta, sangue e arranhões. Alguns informantes chamam de bando; outros, de gangue. Ainda não sei quem lidera.
— Licantropos adoram símbolos. Dá a ilusão de tradição sem o inconveniente de possuir história.
Natan me lançou um olhar.
Ignorei.
Charles continuou:
— As câmeras das rotas próximas registraram poucos veículos naquela madrugada. Dois carros de moradores, um caminhão de manutenção e uma van sem identificação. A van passou perto demais da área e dentro da janela estimada das mortes.
— Placa?
— Roubada.
— Naturalmente.
— Ela desapareceu das câmeras depois de deixar a estrada principal.
Natan se recostou na cadeira.
— Quero que revisite a cena.
Soltei uma risada curta.
— Não.
— Viktor.
— Essa palavra continua significando a mesma coisa. O idioma mudou pouco desde a última vez que verifiquei.
— Você ainda não ouviu tudo.
— Ouvi sobre corpos nas montanhas, uma facção desconhecida, uma van suspeita e um chefe de polícia que parece dormir quatro horas por noite desde o governo Bush. É lamentável, mas ainda não é meu problema.
Charles cruzou os braços. Natan ficou imóvel.
Esse era um mau sinal.
Quando Natan parava de se mover, geralmente estava escolhendo se tentaria me convencer como irmão ou como líder. Eu odiava as duas versões, embora a segunda costumasse utilizar frases mais longas.
— Precisamos da sua percepção — disse.
— Você tem farejadores.
— Não como você.
— Fiquei comovido.
Natan não reagiu à provocação.
— Você consegue distinguir quantos atacantes estiveram presentes, de onde vieram e em que momento cada vítima foi ferida. Pode identificar perseguição, hesitação, medo, sangue derramado em lugares diferentes e qualquer presença sobrenatural que a equipe de Charles não conseguiria reconhecer.
Ele fez uma pausa curta.
— Também conhece a região.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
As Catskills eram extensas, mas eu já percorrera áreas próximas à cena. Muita mata, trânsito escasso, trilhas ruins e humanos distraídos. Um lugar útil quando se precisava liberar pressão sem assustar vizinhos ou se transformar numa lenda local.
— Conhecer a região não me torna voluntário.
— Não estou pedindo voluntariado.
— Está me dando uma ordem?
— Estou tentando impedir que isso se transforme num problema maior.
— Devia colocar essa frase no brasão da família. Ficaria bonita em latim.
Charles olhou para Natan.
— Ele é sempre assim?
— Hoje está colaborativo — meu irmão respondeu.
Sorri.
Charles não.
Empurrei as fotografias de volta pela mesa.
— Mesmo que seja uma gangue de licantropos, quatro trilheiros mortos não fazem sentido. Uma facção nova deveria querer território, dinheiro, influência ou recursos. Isso é barulho demais para benefício de menos.
Natan não respondeu.
Charles pegou outra fotografia.
— Um dos corpos foi identificado ontem à noite.
Não era uma imagem da cena. Mostrava um documento corporativo antigo, com o rosto de um homem de óculos, cabelos ralos e a expressão de quem provavelmente usava palavras longas em reuniões para esconder ideias curtas.
— Daniel Mercer — Charles disse. — Cientista. Trabalhou na Hayes Sinclair Technologies.
Olhei para Natan.
Dessa vez, sem humor.
Ele sustentou meu olhar.
— Em qual setor?
— Pesquisa aplicada.
— Isso não significa nada. A empresa inteira usa “pesquisa aplicada” para fazer acionistas baterem palmas.
— Biointerfaces, sistemas preditivos e modelagem neural.
Minha paciência, que já não era grande, tornou-se microscópica.
— Por que um antigo cientista nosso estava morto numa trilha das Catskills?
— Essa é uma das perguntas — Natan respondeu.
— Qual é a outra?
Ele abriu uma gaveta, retirou um tablet e o deslizou pela mesa.
A tela exibia relatórios internos de segurança. Credenciais antigas haviam sido utilizadas como chave inicial para acessar o sistema. A partir delas, alguém escalara permissões através de serviços e rotas terceirizadas que não deveriam se cruzar. Os arquivos tinham sido copiados em blocos pequenos demais para acionar os alarmes mais comuns, mas numerosos demais para serem irrelevantes.
— Quando isso começou?
— Há cerca de seis semanas.
— E você descobriu apenas agora?
O olhar de Natan endureceu.
— Quem fez isso conhecia nossa arquitetura.
Vindo dele, aquilo equivalia a admitir que alguém entrara em sua casa, bebera seu vinho e reorganizara os móveis sem ser percebido.
— Que dados foram levados?
— Projetos experimentais, informações de sensores biológicos, modelos de resposta neural e pesquisas antigas que deveriam permanecer arquivadas.
— Antigas quanto?
— O suficiente.
Olhei para ele.
— Natan.
Seu maxilar se contraiu.
— Alguns arquivos possuem relação indireta com nossos sistemas de monitoramento fisiológico.
A tradução não era difícil. Nas mãos erradas, aquela tecnologia poderia ajudar alguém a rastrear, estudar ou interferir em organismos sobrenaturais.
Maravilhoso.
O dia melhorava com a delicadeza de uma fratura exposta.
— Mercer ainda possuía acesso? — perguntei.
— Não diretamente. Suas credenciais foram desativadas quando deixou a empresa, mas alguém utilizou partes do registro antigo para construir a primeira entrada.
— Então ele participou ou foi usado.
— Ainda não sabemos.
Charles apontou para as fotografias.
— Se a facção está envolvida, talvez a montanha tenha sido usada como local de descarte. Também pode ter sido um teste ou uma demonstração.
— Uma provocação — Natan acrescentou.
Observei novamente os cadáveres.
Agora carregavam outro peso.
Licantropos, metamorfos, dados roubados da H.S. Tech, um cientista morto e uma van com placa falsa. Tudo cheirava a armadilha, mas armadilhas ainda precisavam ser compreendidas antes de serem quebradas.
Infelizmente.
— Isso envolve os Presas Cinzentas — Natan disse.
— Tudo envolve os Presas Cinzentas quando você olha com seriedade suficiente.
— Viktor.
— Eu sei.
E sabia.
Uma facção roubando dados da nossa empresa e abandonando um antigo pesquisador morto em território próximo não era apenas crime. Se licantropos estavam envolvidos, também era um gesto político.
Uma maneira de dizer que a liderança dos Presas podia ser alcançada.
Ou testada.
Eu odiava admitir, mas Natan tinha razão. Acontecia de vez em quando. Era uma doença crônica dele.
— Está bem.
Charles ergueu uma sobrancelha. Natan, irritantemente, não demonstrou surpresa.
— Está bem? — repetiu.
— Não me faça dizer duas vezes. Envelhece todos nós.
— Você vai?
— Vou examinar a cena, farejar a montanha e descobrir o que seus relatórios não conseguem mostrar. Depois volto para minha casa e finjo que esta conversa nunca aconteceu.
Charles começou a recolher as fotografias.
— Preciso providenciar autorizações e organizar o deslocamento. Volto em menos de uma hora. Saímos ainda hoje.
— De carro?
— Sim.
— Trágico.
— Pode ir de moto, se preferir.
— E perder a oportunidade de ouvir um chefe de polícia evitando perguntas sobrenaturais durante toda a viagem? Jamais.
Pela primeira vez, Charles quase sorriu.
Talvez houvesse esperança para ele.
Guardou a pasta e fez um aceno breve para Natan. Antes de alcançar a porta, voltou a olhar para mim.
— Disseram que você era difícil.
— Mentiram. Sou um encanto nas condições adequadas.
— Quais condições?
— Sedado, provavelmente.
Charles saiu, fechando a porta atrás de si.
Levantei-me e peguei o sobretudo.
— Uma conversa produtiva — comentei. — Horrível, mas produtiva.
Já estava próximo da porta quando Natan apareceu ao meu lado, rápido o bastante para lembrar que o terno era apenas decoração.
Sua mão se fechou ao redor do meu braço.
Não com força.
Não precisava.
Parei e olhei primeiro para os dedos. Depois, para ele.
— Escolha bem a próxima frase.
Natan não me soltou. Seu rosto permanecia controlado, mas a preocupação que havia percebido desde que entrara continuava ali.
Mais antiga do que quatro cadáveres numa montanha.
— Preciso perguntar uma coisa.
— Você sempre precisa.
— Tem permanecido sob controle?
A pergunta ficou entre nós.
Limpa.
Cruel.
Durante um instante, fingi não entender. Era mais fácil do que admitir o contrário.
Aquilo não era sobre Charles, Mercer ou os dados roubados. Era sobre o que eu podia me tornar quando a parte humana da minha consciência apagava as luzes.
— Está perguntando se fui eu?
Natan sustentou meu olhar.
— Estou perguntando se teve algum apagão.
— Não é assim que parece.
— Viktor.
Puxei o braço. Ele me soltou.
A irritação veio quente e rápida. O espírito Garou reagiu dentro de mim, não com fúria, mas com atenção. Natan percebeu. Claro que percebeu.
Ele sempre percebia.
— Estou limpo — respondi.
A palavra saiu mais baixa do que eu pretendia.
Limpo.
Como se eu fosse uma cena de crime mal lavada.
— Há muito tempo — continuei. — Não perdi horas, não acordei coberto de sangue e não encontrei trilheiros mastigados no quintal. Pode relaxar.
— Tem certeza?
Pensei no sonho. Na garota entre as árvores e no gosto metálico em minha boca quando despertei.
Sonhos não eram apagões.
A diferença importava.
— Tive pesadelos — admiti. — Não perdi tempo. Lembro onde dormi, quando acordei e por onde corri. Não fui eu.
Natan fechou os olhos durante um instante. Quando tornou a abri-los, já havia recuperado o pouco controle que deixara escapar.
— Eu precisava perguntar.
— Não. Você quis perguntar.
— Existe diferença?
— Existe. Você apenas a ignora quando convém.
Ele recebeu a acusação sem responder.
Isso me irritou mais do que uma discussão teria irritado. Natan podia ser insuportável quando argumentava, mas era pior quando aceitava o golpe e permanecia em silêncio.
— Charles é um bom homem — disse por fim. — E um aliado antigo.
— Meus parabéns para ele.
— Respeite-o.
— Eu respeito várias pessoas.
— Nomeie três.
Pensei durante alguns segundos.
— Não gosto desse jogo.
— Só estou pedindo que tente ser menos Viktor.
Quase ri.
— Você sabe que isso é pedir demais.
— Estou pedindo mesmo assim.
Olhei para a porta por onde Charles saíra. Chefe de polícia. Humano que conhecia o sobrenatural e ajudava Natan havia tempo suficiente para receber aquela defesa. Um homem com cheiro de cansaço e coragem discreta.
Pessoas assim costumavam morrer cedo.
Não era pessimismo.
Era estatística.
— Vou tentar.
Natan me encarou, provavelmente avaliando quanto aquela promessa valia.
— É o máximo que vai conseguir de mim — acrescentei.
— Eu sei.
Vesti o sobretudo e alcancei a porta. Antes de sair, parei com a mão sobre a maçaneta.
— Aqueles corpos não foram deixados por algo que estivesse caçando.
— Eu sei.
— Não. Você suspeita.
Abri a porta.
— Eu vou saber quando sentir o cheiro.
Saí antes que Natan encontrasse outra maneira de transformar preocupação em ordem.
Do outro lado do corredor, Manhattan brilhava através das paredes de vidro. A cidade continuava viva, arrogante e ignorante, como se quatro corpos nas Catskills, dados roubados e uma facção de licantropos fossem apenas notas de rodapé num relatório ruim.
Talvez ainda fossem.
Mas tragédias grandes costumam começar assim: com uma nota de rodapé, uma ligação perdida e alguém dizendo que precisa da sua ajuda.
Ou com seu irmão perguntando, da maneira mais educada possível, se você voltou a ser um monstro.