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Sofia a escolhida · Capítulo 1 - A princesa que preferia ficar em silêncio — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Navarra e Iléa. Dois reinos distintos. Duas maneiras de enxergar o mundo. E uma jovem princesa que jamais imaginou que seu destino a levaria para tão longe de casa. A princesa Sofia de Navarra nunca foi o tipo de moça que sonhava em ser o centro das atenções. Aos quinze anos, tímida, delicada e dona de um coração que guarda muito mais do que revela, ela prefere a tranquilidade dos corredores do castelo, a companhia de suas amigas e os pequenos momentos

Capítulo 1 - A princesa que preferia ficar em silêncio

O ar do Salão das Tapeçarias parecia congelar a cada passo de minha mãe.

Eu estava encolhida no canapé de veludo verde, com as pontas dos dedos frias pressionadas contra as costuras do meu vestido. Minha respiração era rasa, contida, quase imperceptível. Sempre aprendi que, no reino de Navarra, o silêncio era a única armadura capaz de evitar que a Rainha Clarissa encontrasse uma nova falha em minha postura.

A quietude parecia um refúgio, mas na verdade era uma prisão dolorosa. Minha voz travava na garganta sempre que uma dúzia de olhos se voltava para mim nos banquetes. O rubor queimava minhas bochechas com tanta força que eu sentia vontade de me dissolver no chão de pedra do castelo.

— Levante o queixo, Sofia — a voz de minha mãe cortou o ar como lâmina afiada.

A Rainha Clarissa não caminhava; ela governava o espaço ao seu redor. Seus trajes austeros de veludo escuro e a postura implacável lembravam a determinação fria das rainhas que preferem o poder à afeição. Ela trazia nas mãos um pergaminho espesso, selado com cera vermelha reluzente.

— Uma princesa de Navarra não se encolhe como uma serva assustada na presença de sua soberana — continuou ela, parando a poucos passos de mim. Seu olhar astuto e calculista escaneava cada detalhe do meu rosto. — Recebemos uma missiva oficial do Castelo de Illéa.

Meu coração deu um salto violento contra as costelas.

— Illéa...? — minha voz saiu fraca, quase um sussurro inaudível.

Clarissa ergueu a sobrancelha perfeitamente delineada, demonstrando impaciência.

— Fale com clareza, menina! Quantas vezes terei que repetir que a hesitação é a fraqueza dos tolos? — Ela rompeu o selo de cera com a ponta de uma pena afiada, estalando o pergaminho no ar. — O Príncipe Herdeiro de Illéa convocou a Seleção. Moças de todas as províncias e casas nobres foram chamadas para disputar a coroa e a mão do príncipe.

Senti o chão fugir sob meus pés. Minha mente desenhou imediatamente o cenário aterrorizante: um castelo majestoso repleto de nobres, dezenas de garotas confiantes e elegantes, bailes lotados sob o olhar atento de toda a corte, e eu... exposta ao julgamento de um reino inteiro.

— Mãe, por favor... — as palavras saíram tropeçando da minha boca, carregadas de um desespero sufocado. — A senhora sabe que eu não... eu não consigo lidar com recepções, com multidões. Eu congelo. Deixe que minha irmã vá, ou qualquer outra...

Clarissa aproximou-se passo a passo, a barra de sua saia pesada roçando o pavimento de pedra. Ela segurou meu queixo com dedos firmes e gelados, obrigando-me a encará-la.

— Você acha que o destino deste reino se importa com a sua timidez, Sofia? — perguntou ela, com uma calma gélida e estratégica. — Navarra precisa de alianças fortes. Você não vai a Illéa para encontrar um romance de contos de fadas. Você vai porque é seu dever como minha filha e princesa. Você preencherá a inscrição com esta pena e selará sua participação.

— Eu não pertenço a esse mundo de disputas e holofotes — murmurei, sentindo lágrimas quentes queimarem nos cantos dos meus olhos, ameaçando transbordar. — Eu prefiro ficar aqui... no meu silêncio.

— O silêncio não constrói impérios, Sofia. O silêncio destrói heranças — respondeu Clarissa, soltando meu queixo e colocando sobre a mesa de madeira entalhada o pergaminho, o tintero de cerâmica e a pena de ganso. — Se você falhar em causar uma boa impressão, a vergonha recairá sobre o meu nome. Você aprenderá a erguer a cabeça, sorrir e articular cada palavra, mesmo que sinta que vai sufocar.

Ela virou-se de costas, suas saias farfalhando contra a pedra fria enquanto caminhava em direção à porta de carvalho. Antes de sair, olhou-me por cima do ombro com uma determinação inabalável:

— O mensageiro parte ao anoitecer com os documentos assinados em tinta preta. Não me decepcione.

A porta se fechou com um som pesado que ecoou por todo o salão.

Fiquei sozinha. O silêncio da sala voltou a me envolver, mas já não trazia paz. Aproximei-me devagar da mesa, vendo meu próprio reflexo vacilante na mancha de tinta negra do tinteiro. Peguei a pena com os dedos trêmulos e olhei para as linhas em branco do pergaminho formal de Illéa.

A Seleção estava prestes a começar, e eu era uma garota que mal conseguia falar em público, prestes a ser lançada no palco poderoso da grande capital

As passadas pesadas das botas do Rei Ricardo ressoaram pelo corredor de pedra antes mesmo que a pesada porta de carvalho do gabinete se abrisse. Ele trazia nos olhos a fadiga dos conselhos de guerra, mas a tensão velada naquele salão fez seu semblante escurecer no instante em que viu Sofia encolhida diante da mesa, a pena trêmula suspensa sobre o pergaminho formal de Illéa.

— Clarissa, pare de pressionar a menina — ordenou o rei, sua voz grave cortando a atmosfera sufocante do recinto.

A Rainha Clarissa nem sequer se sobressaltou. Girou suavemente sobre os calcanhares, a saia de veludo escuro farfalhando com a elegância fria de quem jamais perde o controle.

— Ricardo... Não interfira naquilo que não compreende — respondeu ela, com um sorriso mínimo e afiado nos lábios. — O mensageiro de Illéa parte com o cair da noite. Sofia precisa assinar o termo de aceitação da Seleção e compreender a gravidade do dever que carrega.

— O que eu compreendo — rebateu Ricardo, caminhando até a mesa e cruzando os braços —, é que vejo minha filha pálida como um fantasma, tremendo diante de um pedaço de papel enquanto você a encurrala como se ela estivesse diante de um tribunal inimigo.

— Não é encurralá-la, é prepará-la! — retrucou Clarissa, elevando o tom apenas o suficiente para que cada palavra soar como uma ordem de batalha. — Você olha para ela e vê uma criança assustada que precisa de abrigo. Eu olho para ela e vejo a futura soberana de uma aliança crucial para Navarra! Se ela congelar diante de nós, o que fará quando estiver diante da família real de Illéa e de trinta e quatro outras garotas dispostas a destruí-la politicamente?

Sofia encolheu os ombros, tentando desesperadamente passar despercebida entre as duas figuras imponentes. Suas mãos apertavam o veludo da saia com tanta força que as articulações dos dedos estavam brancas.

Ricardo percebeu o tremor da filha. Ele deu dois passos, colocando-se suavemente entre Clarissa e a jovem princesa.

— Ela tem apenas dezessete anos, Clarissa. A timidez dela não é um crime de lesa-majestade. É a natureza dela.

— A natureza é um luxo que os reis não podem se dar ao luxo de cultivar! — declarou Clarissa, contornando o marido com olhar calculista, fixando os olhos castanhos e frios sobre Sofia. — A acha tímida? Eu a acho negligente com o próprio futuro. A fraqueza da voz dela será a ruína do nosso nome se permitirmos que ela chegue a Illéa sussurrando como uma camponesa envergonhada. Ela precisa aprender a engolir o medo e impor presença.

— Pressioná-la até que ela mal consiga respirar não vai lhe dar coragem, só vai quebrá-la antes mesmo de cruzar a fronteira! — contestou o rei, encarando a esposa com firmeza. — Eu concordei com a inscrição na Seleção porque reconheço a importância estratégica da aliança. Mas não permitirei que você a transforme em uma peça de xadrez sem alma antes do tempo.

— Alma? — Clarissa soltou uma risada curta e sem alento, balançando a cabeça com desdém soberbo. — Alma não protege nossas fronteiras das ambições do sul, Ricardo. Alianças casamenteiras protegem. E se a nossa filha precisa sentir o peso da minha mão hoje para não sucumbir às cobras da corte de Illéa amanhã, que assim seja. Meu rigor é a única proteção real que ela tem neste mundo.

— Há uma diferença entre rigor e crueldade moral, Clarissa — disse Ricardo, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. Ele se voltou para a filha e pousou a mão grande e quente sobre o ombro trêmulo de Sofia. — Respire, minha filha. Ninguém vai forçá-la a assinar isso sob ameaças nesta sala.

Sofia ergueu os olhos marejados para o pai. O nó em sua garganta era tão denso que a impedia de articular uma única palavra de agradecimento, mas o alívio momentâneo brilhou em seu olhar.

Clarissa cruzou as mãos à frente do corpo, mantendo a postura impecável da nobreza de Mégara.

— Deixe que ela se refugie nas suas asas se quiser, Ricardo. Mas o pergaminho precisa ser assinado hoje. O selo real de Navarra deve ir junto à assinatura dela. Se você tirar a autoridade das minhas palavras agora, estará ensinando a Sofia que ela pode se esconder atrás do seu peito toda vez que o mundo exigir maturidade dela.

— Eu não estou ensinando-a a se esconder — respondeu o rei, olhando nos olhos da rainha com determinação inabalável. — Estou lembrando a você de que um soberano sem empatia pelos seus não passa de um tirano. Sofia assinará a convocação porque é o dever dela. Mas fará isso com a cabeça erguida por escolha, não porque foi esmagada pela sua ambição.

Clarissa sustentou o olhar do marido por longos segundos de um silêncio tenso. Por fim, deu um passo atrás, ajeitando as mangas rendadas com extrema serenidade.

— Pois bem. Deixo o restante do diálogo em suas mãos, meu senhor. Veremos se a sua doçura preparará a garota para a tempestade que a espera em Illéa.

Com uma leve mesura fria, a Rainha Clarissa virou-se e deixou o gabinete, o eco de seus passos afastando-se devagar pelo corredor, deixando para trás o peso sufocante de sua presença.