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Sofia a escolhida · Capítulo 2 - Minha menininha a caminho de Ilea — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Navarra e Iléa. Dois reinos distintos. Duas maneiras de enxergar o mundo. E uma jovem princesa que jamais imaginou que seu destino a levaria para tão longe de casa. A princesa Sofia de Navarra nunca foi o tipo de moça que sonhava em ser o centro das atenções. Aos quinze anos, tímida, delicada e dona de um coração que guarda muito mais do que revela, ela prefere a tranquilidade dos corredores do castelo, a companhia de suas amigas e os pequenos momentos

Capítulo 2 - Minha menininha a caminho de Ilea

O balanço monotonamente ritmado da carruagem real parecia compassado com os batimentos do peito de Sofia. Do lado de fora das janelas ovais de vidro lapidado, as paisagens verdes e distantes desfilavam como sombras em um teto de teatro de marionetes. Dentro do cabine, contudo, o ar guardava o aroma denso e reconfortante de lavanda, pó de arroz e o cheiro nostálgico de pano antigo — o perfume inconfundível de Elia.

Sofia ajustou as dobras pesadas de seu vestido de veludo azul-noturno. Bordados em fio de prata reluziam sob a réstia de sol que atravessava as cortinas de seda, parecendo pequenas serpentes cintilantes presas ao corselete esticado. Ela era a imagem perfeita de uma princesa soberana, esculpida para o dever; mas, sob os espartilhos rígidos, sentia-se frágil como porcelana.

Em frente a ela, sentada ereta no estofado de capitonê escarlate, estava Elia.

A governanta vestia seu costumeiro terno de lã escura, de gola engomada e botões de madrepérola fechados até o queixo. Seus cabelos grisalhos, presos num coque impecável, não ostentavam um único fio fora do lugar. Ela fora a aia devotada da Rainha Clarissa e, nos últimos vinte anos, o porto seguro de Sofia. Suas mãos, marcadas pelas dobras do tempo e pelo toque suave que tantas vezes secou as lágrimas da jovem princesa, repousavam tranquilamente sobre o colo.

— Você está muito quieta, minha pequena estrela — disse Elia. Sua voz era uma névoa aveludada, capaz de acalmar tempestades internas. — Os seus pensamentos parecem correr mais depressa do que os cavalos de Illéa.

Sofia soltou um suspiro contido, deixando o corpo afundar ligeiramente contra as almofadas de cetim.

— Pergunto-me se estou viajando em direção ao meu futuro ou em direção a uma gaiola dourada, Elia. Illéa parece tão vasta... e tão terrivelmente fria nas histórias.

Elia sorriu, um sorriso pequeno e cheio de uma sabedoria antiga que vincava os cantos de seus olhos escuros. Ela se inclinou ligeiramente para a frente, diminuindo a distância entre os dois mundos que habitavam.

— Nenhuma gaiola pode prender algo que nasceu com asas, Sofia. A rainha Clarissa, sua mãe... Deus a tenha em bom lugar... costumava olhar para as estrelas da mesma forma que você olha para essa estrada agora. Com o mesmo receio velado. E, no entanto, ela caminhava pelos salões de mármore como se cada pedra de lá tivesse sido colocada apenas para sustentar seus passos.

— Mas eu não sou minha mãe — sussurrou Sofia, os olhos azuis brilhando com uma vulnerabilidade que jamais mostraria aos nobres de Illéa. — Ela possuía uma majestade natural, uma força que parecia inabalável. Eu sinto como se estivesse usando uma armadura que não me pertence. Se eles olharem muito de perto, verão apenas uma garotinha assustada.

— Deixe que olhem — retrucou Elia, sua voz subindo um tom com uma fidelidade ferrenha, quase feroz. — Deixe que olhem e tentem decifrar a profundidade dos seus olhos. O mundo confunde gentileza com fraqueza, minha criança, mas eu vi você crescer. Vi quando caiu das roseiras do jardim real e se levantou sem derramar uma única lágrima, limpadinha no avental, pronta para tentar de novo. Eu vi o aço que se esconde sob essa seda fina.

Sofia estendeu a mão, enluvada em renda branca, e envolveu as mãos calejadas de Elia. A quentura da velha aia a ancorou no presente.

— Você não vai me deixar, vai? Prometa-me, Elia. Prometa que quando as portas daquele palácio se fecharem e as cortinas da Seleção forem puxadas, você ainda estará lá.

— Ah, minha querida... — Elia cobriu a mão de Sofia com a sua, apertando-a com uma devoção que ultrapassava qualquer dever de servitude; era o amor de quem ajudou a tecer a própria alma da garota. — Eu fiz uma promessa à Rainha Clarissa no dia em que você deu o primeiro choro neste mundo. Prometi que cuidaria do seu coração, mesmo quando o reino exigisse a sua coroa. Eu limpei seus joelhos rados, entrancei seus cabelos para as suas primeiras festas e ensinei você a segurar o leque como uma arma. Acha mesmo que algum rei ou príncipe de Illéa teria autoridade para me afastar do seu lado?

Um pequeno riso escapou dos lábios de Sofia, dissipando momentaneamente a sombra pesada que pairava no interior da carruagem.

— Eles temeriam a sua ira mais do que a guarda real — gracejou a princesa.

— E deveriam — disse Elia, com um brilho divertido, embora perfeitamente sério, no olhar. — Illéa pode ter seus jogos, suas castas, suas regras e cortesãos de sorrisos afiados como navalhas. Mas eles não sabem do que uma filha de Clarissa é capaz quando tem a verdade ao seu lado. Você não vai lá para se moldar ao mundo deles, Sofia. Você vai para mostrar a eles como o seu mundo é feito.

A carruagem passou por uma solavanco suave ao cruzar a ponte de pedra que demarcava as fronteiras do domínio principal. Lá fora, ao longe, as agulhas prateadas do castelo de Illéa começavam a despontar entre a bruma do crepúsculo, reluzindo como dentes de um gigante adormecido.

Sofia olhou para a janela e depois voltou seus olhos para a mulher que fora sua mãe nas sombras e sua guia na luz.

— O que devo fazer quando a solidão apertar, Elia?

Elia ajeitou delicadamente uma mecha do cabelo escuro de Sofia que havia se soltado do toucado, prendendo-a atrás da orelha com um gesto maternal inestimável.

— Quando a noite cair e os sussurros dos corredores parecerem altos demais, você se lembrará de quem é. E se por um segundo se esquecer... basta olhar para a porta da sua câmara. Eu estarei lá. Sempre estarei lá.

Sofia assentiu, sentindo o nó em sua garganta se desfazer gradativamente. Ela se ergueu um pouco mais, ajustando os ombros, deixando que o veludo azul a envolvesse como um escudo renascido. A menininha que saíra de casa ainda existia dentro dela, mas, guiada pela fidelidade inabalável de Elia, a princesa de navarra estava pronta para desembarcar.