Capítulo 3: A Sombra de Granito e Mármore
A carruagem real desacelerou com um gemido abafado de ferro e madeira. Do lado de fora, o bater das cascos dos cavalos ecoava no pátio de paralelepípedos e Mármore do Palácio de Illéa, anunciando que a jornada chegara ao fim. Mas, para Sofia, parecia apenas o início de um pesadelo ricamente bordado.
As enormes portas duplas da carruagem foram abertas por lacaios vestidos em librés douradas impecáveis. O ar da capital entrou de golpe na cabine: não trazia a brisa suave de lavanda dos jardins de sua casa, mas sim um perfume pesado de flor de laranjeira, cera de vela e o aroma inconfundível de ambição contida.
Ao desembarcar, a luz do final da tarde atingiu o rosto de Sofia. Com apenas dezessete anos e uma timidez que parecia queimar sob a pele como uma pequena chama de vela, ela sentiu o peso de dezenas de olhares fixos em seus passos. A sua frente, o Castelo de Illéa erguia-se como uma fortaleza mágica e austera, com grandes vitrais que refletiam a luz dourada do crepúsculo e torres que pareciam arranhar o céu com frieza calculada.
Sofia balançou suavemente a saia do vestido de veludo, ajeitou as dobras com cuidado e deu pequenos toques delicados para tirar a poeira da viagem acumulada no tecido azul-noturno.
— Assim está melhor — murmura ela num sussurro tão baixo que quase se perdeu no vento.
Em seguida, engoliu em seco, uniu as mãos cobertas por rendas brancas e as colocou suavemente sobre o colo, mantendo uma postura ereta, exatamente como Elia e sua mãe haviam lhe ensinado. No entanto, por trás daquela impecável fachada real, seu coração batia como o asas de um pássaro enjaulado.
Ela ergueu o olhar e encarou o Grande Salão de Recepção. Ali reunidas, espalhadas pelo mármore reluzente como borboletas raras prontas para um duelo, estavam as 35 selecionadas.
Eram moças de todos os cantos do reino: trajes luxuosos, sorrisos perfeitamente ensaiados, olhares atentos que mediam cada concorrente da cabeça aos pés. Sofia sentiu um arrepio gélido percorrer-lhe a espinha. Cada uma daquelas garotas parecia pronta para disputar a coroa e o coração do príncipe com as garras afiadas, mascaradas sob leques rendados e joias cintilantes.
Contudo, antes que a ansiedade a sufocasse completamente, três figuras se destacaram do grupo e se aproximaram com passos leves e olhares sinceros.
A primeira a se adiantar tinha cabelos loiros como o sol da manhã e um sorriso tão caloroso que parecia desconhecer as sombras daquele palácio. Era Marlee.
— Você deve ser a Sofia! — disse Marlee, com uma espontaneidade que quebrou instantaneamente o gelo que cercava a jovem princesa. — Estávamos justamente nos perguntando de onde viria a moça da carruagem de veludo azul. Você está deslumbrante!
Logo atrás dela, com gestos mais suaves e uma serenidade acolhedora, veio Mary, acompanhada por Elize, cujos olhos brilhavam com uma curiosidade genuína.
— Não dê atenção aos olhares delas — disse Mary com um riso brando, indicando discretamente as outras competidoras que as observavam de longe. — Algumas aqui parecem achar que a Seleção é uma batalha de espadas, mas nós decidimos que não precisamos nos encarar como inimigas.
— É um prazer conhecer você, Sofia — completou Elize, estendendo a mão com delicadeza. — O palácio pode parecer assustador no começo, mas fica bem melhor quando a gente encontra alguém com quem conversar sem precisar medir cada palavra.
Sofia piscou, surpresa pela acolhida inesperada. O aperto em seu peito afrouxou um pouco. A timidez ainda tingia suas bochechas com um rubor suave, mas ao olhar para o sorriso sincero de Marlee, a doçura de Mary e a gentileza de Elize, ela percebeu algo precioso: em meio aos espinhos daquele palácio de intrigas, havia encontrado pequenas rosas dispostas a florescer ao seu lado.
Elia, que permanecia a poucos passos de distância como uma sombra protetora, trocou um olhar cúmplice com Sofia. O jogo em Illéa havia começado, mas a princesa de dezessete anos já não estava sozinha.