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Sofia a escolhida · Capitulo 1: O Preço de um Esboço — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Capitulo 1: O Preço de um Esboço

O cheiro de tinta de linhaça e pigmento de carvão misturado com o mofo do inverno era a única coisa que tornava o nosso pequeno quarto tolerável. No Reino de Navarra, onde o vento gelado dos Pirenéus varria as ruas de pedra sem piedade, as paredes de madeira da nossa casa de Casta Cinco pouco faziam para conter o frio do século XV.

Com os dedos manchados de chumbo e dormentes pelo gelo, dei o último toque na sombra do retrato de Clarissa, minha mãe. Ela estava sentada perto do fogão de ferro quase apagado, tentando remendar uma capa desgastada de meu pai.

— Sofia, minha filha, pare um pouco — pediu ela, a voz suave, mas marcada pelo cansaço dos anos de trabalho manual. — Suas mãos vão congelar se continuar a segurar esse pincel.

— Só mais um detalhe, mãe — respondi, sem erguer os olhos da tela de linho rústico. — Se eu conseguir vender este retrato na feira do mercado amanhã, teremos o suficiente para pagar o imposto sobre a lenha que a guarda real da Casta Um cobrou na semana passada.

Na nossa terra, as coisas eram simples e cruéis. O sistema de castas nos dividia de um a oito. A Casta Um vivia cercada por tapeçarias de seda, banquetes com especiarias vindas do Oriente e paredes de pedra maciça que guardavam a opulência da realeza. Nós, os Cincos — artistas, pintores e artesãos —, vivíamos da beleza que criávamos para os outros, enquanto lutávamos para colocar um pedaço de pão duro na mesa.

Antes que minha mãe pudesse responder, a porta de madeira rangeu pesadamente. Meu pai, Ricardo, entrou com os ombros curvados e o buço congelado. Ele trazia nos braços uma pequena braçada de galhos secos e uma folha de pergaminho selada com cera vermelha.

— A guarda esteve na praça central — disse ele, a voz grave e preocupada. Ele depositou a madeira no chão e olhou para mim com uma mistura de angústia e culpa. — É oficial.

Minha mãe soltou a agulha. Eu pousei o carvão sobre a pequena bancada de madeira.

A Seleção havia sido convocada.

Para conter as crescentes revoltas dos rebeldes do Norte e desviar a atenção do povo faminto do governo corrupto que dominava Navarra, o palácio anunciou o reality real: trinta e cinco jovens de todas as castas seriam levadas ao palácio para competir pelo coração do príncipe herdeiro.

— Todas as garotas entre dezesseis e vinte anos da nossa casta devem enviar a inscrição até o pôr do sol de amanhã — explicou meu pai, entregando o pergaminho sobre a mesa. — Cada família participante receberá uma compensação governamental... um subsídio semanal em ouro.

— Não — disse eu imediatamente, sentindo um nó se formar na garganta. — Eu não vou vender minha vida para servir de entretenimento para a nobreza da Casta Um. Não quero uma coroa, não quero o palácio e detesto tudo o que aquela realeza representa enquanto o povo morre de frio.

— Sofia... — minha mãe se aproximou, pegando minhas mãos sujas de tinta entre as suas, quentes e ásperas. — Nós não temos mais nada. O subsídio do governo pela sua inscrição pagaria nossas dívidas com os coletores da coroa até o final da primavera. Cobriria os custos dos remédios para o peito do seu pai. É apenas uma inscrição. As chances de você ser escolhida entre milhares são mínimas.

Olhei para o meu pai. Ele evitou meu olhar, visivelmente envergonhado por precisar da filha para manter a casa em pé. A arte era minha fuga, minha única liberdade em um reino sufocado por leis severas e privilégios feudais, mas a realidade da nossa mesa vazia falava mais alto.

— Tudo bem — suspirei, sentindo o peso da decisão recair sobre meus ombros. — Eu me inscrevo pelo dinheiro. Apenas pelo subsídio.

Enquanto minha mãe abraçava meu pai com um suspiro de alívio, meus pensamentos voaram longe daquele quarto frio. Não para o Príncipe de Navarra, cuja arrogância era famosa nas ruas da cidade, mas para muito mais longe, atravessando as fronteiras do reino até o vizinho Reino de Iléa.

Lembrei-me de Henry.

Henry era o príncipe herdeiro de Iléa, mas para mim, ele sempre seria o garoto que costumava fugir dos guardas na infância para me ver pintar no jardim secreto perto do rio da fronteira. Passávamos horas conversando sobre o mundo, sobre arte e sobre como as leis das castas eram injustas. Henry conhecia cada traço da minha alma. Minha mãe o amava como a um próprio filho; para Clarissa, Henry não era da realeza, era o menino de olhos gentis que trazia doces escondidos nas mangas para alegrar nossos dias difíceis.

Se havia um príncipe no mundo cujo coração valia algo, era o dele. Mas ele estava em Iléa, e eu estava presa no destino inevitável que Navarra preparava para mim.

Naquela noite, sob a luz fraca de uma vela de cera de abelha, peguei meu caderno de esboços mais valioso. Desenhei as feições de Henry de memória — o contorno suave do rosto, o sorriso sincero que só ele revelava para mim. Fechei o caderno e o guardei sob o colchão de palha.

Eu me inscreveria na Seleção. Aceitaria o ouro do governo corrupto para salvar minha família. Mas o meu coração e a minha arte permaneceriam onde sempre estiveram: intocáveis pela nobreza e muito longe das garras da coroa.