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Sofia a escolhida · Capítulo 2: O Eco dos Tambores de Ferro — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Capítulo 2: O Eco dos Tambores de Ferro

O som das trombetas de bronze não parecia vir apenas de fora dos portões rústicos da província de Navarra; parecia vibrar diretamente contra as costelas de Sofia, como se o próprio coração dela tivesse decidido bater no ritmo errado — descompassado, estrondoso e apavorado.

A pequena oficina de tintas e pincéis artesanais que dividia com os pais parecia subitamente pequena demais, sufocante. O cheiro de linho e óleo de linhaça, que antes trazia um conforto quase sagrado, agora misturava-se ao suor frio que brotava na nuca da jovem.

— Sofia... — A voz de sua mãe, frágil e trêmula, cortou o silêncio da penumbra.

Sofia virou-se devagar, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Seus pais estavam encostados na bancada de madeira gasta. Os olhos de seu pai, marcados pelo trabalho duro na lavoura feudal e pelas noites mal dormidas sob o julgo dos nobres, brilhavam com uma mistura perigosa de orgulho e terror silencioso. Para as castas mais baixas de Illéa, a Seleção não era um conto de fadas; era um decreto. Era a loteria cruel onde a coroa escolhia jovens de todas as províncias para disputar a atenção do príncipe herdeiro, arrancando-as de suas origens para um palácio de mármore dourado e grades invisíveis.

— Mãe, eu não posso... Eu não sei sorrir para a nobreza. Eu não sei usar vestidos de seda ou andar com elegância — a voz de Sofia saiu em um sussurro estrangulado, os olhos arregalados de pânico. — E se eu falhar com vocês? E se eu for um fiasco completo na frente do arauto?

O pai deu um passo à frente, as mãos calosas segurando os ombros franzinos da filha com uma firmeza gentil que desmentia o tremor em seus próprios lábios.

— Você não vai falhar, minha menina. Porque você tem a alma mais pura de toda Navarra. Mas escute-me bem: mantenha a cabeça baixa. Não deixe que vejam o fogo dos seus desenhos. Naquele palácio, a arte que você esconde nos cadernos de rascunho pode ser perigosa.

Lá fora, o estampido seco de botas marchando sobre a lama da praça principal indicava que a Guarda Real havia chegado. O arauto do reino, envolto em veludo azul-cobalto e bordados dourados que pareciam zombar da pobreza ao redor, subiu no palanque de madeira improvisado.

Sofia sentiu as lágrimas quentes ameaçarem transbordar. Ela olhou para o canto da mesa, onde um esboço inacabado de um pássaro em pleno voo repousava ao lado de um pincel desgastado. Era aquilo o que ela queria: ser livre, pintar o mundo com as cores que quisesse, longe de coroas e decretos reais.

Mas quando o arauto pigarreou e a voz grossa e autoritária ecoou pelo vale, anunciando o nome que mudaria o curso de sua existência para sempre — Sofia, da província de Navarra —, o mundo ao redor da jovem pareceu desabar.

Com as mãos trêmulas e o peito apertado pelo medo de desapontar os únicos pilares de sua vida, Sofia deu o primeiro passo em direção à porta aberta, deixando para trás o único refúgio seguro que conhecera.