Capítulo 11: O Peso da Seda e do Olhar
O ar da noite no Castelo de Ilhéa parecia carregar o peso de todas as rainhas que já haviam passado por ali. Escondida sob o arco de pedra de uma das sacadas laterais, eu apertava minhas mãos contra o parapeito, tentando acalmar o ritmo frenético do meu coração. O som da orquestra real escapava pelas frestas das enormes portas de vidro, misturando-se ao barulho das ondas que quebravam contra as falésias, muito abaixo de nós.
Eu olhei para o meu vestido. O tecido brilhava suavemente sob a luz do luar, mas, naquele momento, ele parecia pesado demais. Uma armadura bonita para esconder o fato de que eu queria desaparecer.
— Eu sabia que encontraríamos você aqui — uma voz doce e musical quebrou o silêncio.
Virei-me e vi Marlee se aproximando. Ela usava um vestido rosa-claro que combinava perfeitamente com seu sorriso caloroso. Logo atrás dela, Mary vinha com passos rápidos e discretos, as mãos unidas sobre o avental impecável de criada, com aqueles olhos atentos que nunca deixavam escapar nenhum detalhe do palácio.
— Eu não estou fugindo — menti, embora minha voz tenha saído um pouco trêmula. — Só precisava respirar. Aquele salão... há pessoas demais assistindo a cada passo que damos.
— Sofia, querida, você não pode passar o resto do baile real escondida entre as roseiras — Marlee disse, segurando minhas mãos. Seus dedos estavam quentes e reconfortantes. — Nós vimos o que aconteceu lá dentro.
— Não aconteceu nada — sussurrei, desviando o olhar.
— Exatamente! Esse é o problema — Mary interveio, dando um passo à frente com uma ousadia carinhosa que só ela tinha. — Eu estava organizando as bandejas de doces perto da ala leste, senhorita Sofia. O olhar do senhor Henry está fixo naquelas portas desde que você saiu. Ele mal consegue fingir que está ouvindo as damas da alta sociedade que tentam puxar assunto.
Senti minhas bochechas arderem. Henry. Só de pensar no nome dele, uma mistura de expectativa e puro pânico subia pelo meu peito.
— Ele é da realeza, Mary. Pertence a esse mundo de títulos, protocolos e castas — desabafei, sentindo o nó na minha garganta apertar. — Olhar para ele no meio daquela corte inteira... os conselheiros do rei estão apenas esperando que eu cometa um erro. Manter a distância é a única coisa que me protege. E protege a ele também.
Marlee apertou minhas mãos com um pouco mais de força, seus olhos brilhando com uma empatia profunda. Ela entendia, melhor do que ninguém, o risco de amar alguém além das regras do palácio.
— Esqueça os conselheiros por um instante, Sofi — Marlee pediu, a voz mansa, mas cheia de uma convicção genuína. — O silêncio que existia entre vocês nas últimas semanas não foi porque ele não se importava. Mas hoje à noite, sob aqueles lustres de cristal, ele não está procurando uma aliança perfeita ou o favor do rei. Ele está procurando você. Cada vez que a música para, os olhos dele escaneiam o salão. Você realmente vai deixá-lo esperando?
— E se eu voltar e tudo não passar de uma tolice da minha cabeça? — perguntei, expondo o medo que me corroía por dentro.
— Então você terá sua resposta — Mary disse com um sorriso encorajador, ajeitando delicadamente uma mecha do meu cabelo que havia se soltado do penteado. — Mas não saia deste castelo esta noite se perguntando o que teria acontecido se tivesse coragem. Nós vamos com você até o limite do corredor. O resto do caminho... cruzar aquele mármore e encontrar o olhar dele, isso é com a senhorita.
Olhando para o rosto confiante de Marlee e o apoio incondicional de Mary, senti um calor familiar substituir o gelo no meu estômago. Elas estavam certas. Eu não podia passar a vida inteira me escondendo nos cantos escuros do palácio.
Respirei fundo, endireitei os ombros e assenti.
Quando cruzamos o portal e reentramos no salão principal do Castelo de Ilhéa, a opulência quase me cegou. O brilho do ouro nas colunas, o reflexo dos imensos lustres e o sussurro constante das centenas de nobres conversando criavam uma atmosfera sufocante. Casais giravam graciosamente na pista ao som de uma valsa majestosa.
Marlee e Mary deram um passo para trás de forma discreta, misturando-se à lateral do salão. Eu estava sozinha agora.
Dei o primeiro passo em direção ao mármore polido. Caminhei lentamente pela borda do salão, mantendo a cabeça erguida, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. Meus olhos vasculhavam o mar de fardas coloridas, vestidos bufantes e tiaras cintilantes.
Por alguns segundos longos e agonizantes, o pânico ameaçou me paralisar de novo. Ele não está me vendo, pensei, o desespero batendo à porta.
Mas então, como se o próprio universo em Ilhéa resolvesse conspirar a meu favor, um grupo de diplomatas se moveu. Do outro lado do salão, perto dos degraus que levavam ao trono, Henry estava de pé. Ele parecia absolutamente impecável em seu terno de gala, a personificação perfeita do dever e do poder de Ilhéa. Sua expressão era rígida, a mesma máscara séria que ele usava para agradar a corte.
Até que algo mudou.
Como se sentisse a minha presença atravessar o barulho da orquestra, Henry parou de falar no meio de uma frase com um duque. Ele virou a cabeça devagar, os olhos correndo pelo salão até pararem exatamente em mim.
E, de repente, o mundo inteiro pareceu silenciar.
O peso das regras, os sussurros dos cortesãos e o julgamento dos conselheiros desapareceram em um piscar de olhos. Os olhos dele, antes frios e distantes, se iluminaram com uma intensidade cortante que fez meu coração errar uma batida. Henry não desviou o olhar nem por um milésimo de segundo. Com um aceno sutil, ele pediu licença aos homens ao seu redor e deu o primeiro passo firme em direção à pista de dança, caminhando reto na minha direção.
O jogo silencioso deles havia recomeçado, e, desta vez, eu não ia fugir.