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Sofia a escolhida · Capítulo 1: O Peso da Seda e da Omissão — tinta magica

Por tinta magica

No coração da Itália do século XV, o Reino de Navarra erguesse como um baluarte de diplomacia, ferro e casamentos de conveniência. No entanto, por trás dos salões suntuosos e dos mármores frios da Casa Real Navarriana, repousa um segredo silencioso: Sofia. Única herdeira dos soberanos Ricardo e Clarissa, Sofia deveria ser o reflexo da altivez e da astúcia que mantêm a dinastia de pé. Em vez disso, ela é uma presença invisível. Dominada por uma timidez sufocante e devorada por inseguranças, a jovem princesa cresceu sendo uma verdadeira estranha dentro do próprio reino. Para seus pais — governantes implacáveis que enxergam a vulnerabilidade como uma sentença de morte —, Sofia é a maior de todas as decepções: uma herdeira incapaz de empunhar a coroa. Mas quando as alianças do século XV começam a ruir e conspirações silenciosas se espalham pelos corredores da corte, o destino exige que Sofia saia das sombras. Ela não foi apenas nomeada a próxima na linha de sucessão; foi escolhida para ser a peça central de um jogo dinástico perigoso, onde cada olhar carrega uma promessa e cada palavra pode erguer ou destruir um império. Em um ambiente de realismo medieval cruel, onde a inocência é um luxo e a confiança é uma armadilha, a princesa mais insegura de Navarra precisará descobrir se a sua timidez é uma fraqueza a ser superada... ou o disfarce perfeito para sobreviver a uma corte pronta para devorá-la.

Capítulo 1: O Peso da Seda e da Omissão

Capítulo 1: O Peso da Seda e da Coroa

A poeira dançava no feixe de luz que cortava a sala de audiências privadas do Castelo de Valência. O cheiro de cera queimada, feltro úmido e alecrim seco impregnava o ar, denso o suficiente para que Sofia sentisse a garganta arranhar a cada respiração involuntária.

Diante do espelho de metal polido, as mãos de Clarissa trabalhavam com uma precisão cirúrgica e impagável. A Rainha não apenas vestia a filha; ela a moldava. Cada puxão nos cordões do corpete de veludo escuro parecia intencional, calculado para tirar o ar exato que permitiria a Sofia articular qualquer contestação.

— Fique ereta, Sofia — ordenou Clarissa, a voz baixa, rasgando o silêncio da sala sem precisar se alterar. O tom não era de raiva; era de um pragmatismo gélido, o tipo de firmeza utilizado por quem abate um animal para o banquete da noite. — Seus ombros caídos denunciam exatamente o que você é: uma menina que treme ao menor olhar da corte. Acha que o mundo lá fora perdoa a fraqueza?

— Mãe... o Duque de Valois tem mais do dobro da minha idade — murmurou Sofia, mantendo os olhos fixos no chão de pedra calcária, a voz mal passando de um sussurro trêmulo. As mãos escondidas nas dobras da saia suavam. — Ele olha para mim como se... como se estivesse avaliando um lote de terras ou uma cabeça de gado. Eu não posso aceitar esse cortejo.

Clarissa soltou os cordões do vestido com um estalo seco, aproximando-se do ouvido da filha. O perfume pesado de mirra e rosas esmagadas envolveu Sofia como uma mortalha.

— Você fala como se tivesse o luxo de ter vontade, minha filha — Clarissa murmurou, o polegar pressionando o queixo de Sofia para erguê-lo à força, obrigando a jovem a encarar o próprio reflexo. — Olhe para você. Olhe para essa postura covarde, para esses olhos baixos que desviam de qualquer um que fale um tom acima. Você mal consegue articular duas frases sem gaguejar diante dos vassalos. Acha mesmo que tem capacidade para escolher? Acha que algum homem jovem e ambicioso desejaria uma noiva que se esconde atrás das cortinas a cada banquete? O Duque aceita sua insignificância social em troca da nossa aliança. Se dependesse da sua presença e do seu charme... você morreria solteira neste castelo.

O golpe atingiu com a precisão de costume. Sofia engoliu em seco, sentindo as lágrimas queimarem o fundo dos olhos, mas prendeu a respiração para não dar à mãe o prazer de vê-la chorar. A timidez nunca fora tratada ali como um traço de personalidade, mas como uma falha moral, um defeito de fabricação que Clarissa fazia questão de sublinhar a cada amanhecer.

No canto mais escuro da sala, encostado à tapeçaria desgastada que retratava uma antiga batalha esquecida, Ricardo mantinha as mãos cruzadas atrás das costas. O Rei observava a cena com o olhar vago, a cabeça levemente inclinada. O peso do selo real em seu anel parecia a única coisa sólida nele.

— Clarissa... talvez não devêssemos pressioná-la tanto em relação a Valois esta manhã — interveio Ricardo, a voz murcha, destituída de qualquer autoridade real. Ele deu meio passo à frente, mas parou assim que o olhar da esposa cortou o ambiente. — A garota ainda é jovem. O Duque é brutal em suas negociações, e as fronteiras do norte estão...

— As fronteiras do norte estão desprotegidas porque o senhor hesita a cada decisão, Ricardo — cortou a Rainha, sem sequer se virar completamente para o marido, dirigindo-lhe apenas um perfil gélido. — Enquanto o rei se compadece da timidez da filha, o reino sangra ouro e recursos. Se não firmarmos essa união, a casa de Valois retirará o apoio à nossa frota até o outono. O senhor prefere proteger o melindre de uma garota acovardada ou salvar a sua própria coroa?

Ricardo fechou a boca. Ele deu um passo para trás, reacomodando-se na sombra da tapeçaria, o olhar fixo em um ponto qualquer no chão. Sofia buscou os olhos do pai por um fração de segundo, suplicando por um gesto, uma palavra firme, qualquer demonstração de sovereignty. Recebeu apenas o silêncio covarde e familiar de quem já havia se rendido há anos.

Uma batida firme na porta de carvalho pesado quebrou o impasse sufocante.

— Entre — ordenou Clarissa, recompondo o toucado com um movimento fluido.

O Conselheiro Mistral adentrou os aposentos. Seus passos eram silenciosos sobre a pedra, e ele trazia nas mãos uma haste de cera com o selo dourado da Casa Real de Iléa. Ele curvou-se profundamente, primeiro para o Rei, depois para a Rainha, ignorando a presença quase invisível de Sofia no centro do quarto.

— Majestades — começou Mistral, com a voz pausada e ritmada de quem calcula o peso de cada sílaba. — O mensageiro de Iléa acabou de cruzar os portões do sul. As notícias da Corte Central foram confirmadas.

— Fale de uma vez, Mistral. Não temos o dia todo para preâmbulos — disse Clarissa, ajustando os anéis nos dedos finos.

— O Rei Clarkson tornou pública a convocação — anunciou o conselheiro, erguendo o olhar astuto. — A Seleção para o Príncipe Henry começará no próximo mês. Ele tem exatamente a mesma idade de sua herdeira. Todas as províncias e reinos aliados foram convocados a enviar suas candidatas de sangue nobre.

Um silêncio denso tomou conta do recinto. Ricardo ergueu a cabeça, demonstrando um vislumbre de surpresa, enquanto Clarissa permaneceu imóvel, os olhos fixos na tapeçaria à sua frente enquanto sua mente articulava os cenários.

— Iléa... — murmurou a Rainha, a voz ganhando uma nuance diferente, mais afiada e ambiciosa. — Um príncipe soberano. Uma aliança que faria o Duque de Valois parecer um mero senhor feudal de terras estéreis.

— Exatamente, Majestade — continuou Mistral, aproximando-se um passo. — Se deixarmos claro nosso interesse e levarmos Sofia para a Seleção em Iléa, não apenas nos esquivamos da pressão imediata de Valois sem declarar afronta direta, como colocamos nossa casa no centro do poder continental.

Sofia sentiu o chão fugir debaixo de seus pés.

— Ir para Iléa? — a voz da jovem saiu falhada, quebrando o silêncio. Ela olhou para a mãe, depois para o conselheiro. — Mão... para uma competição pública? Diante de toda a nobreza de Iléa, sob os olhos de dezenas de damas? Eu... eu não saberei o que fazer. Eu não consigo nem mesmo...

Clarissa virou-se para a filha, e desta vez, um sorriso lento e frio surgiu em seus lábios. Não era um sorriso de carinho, mas o olhar de uma jogadora que acaba de ver uma peça insignificante ganhar um novo valor de mancebo no tabuleiro.

— Você fará exatamente o que lhe for ordenado, Sofia — disse a Rainha, aproximando-se e tocando a face da filha com as costas dos dedos frios. — Se a sua timidez serve para alguma coisa, que sirva para parecer modéstia e pureza aos olhos do Príncipe Henry. Você empacotará seus vestidos, aprenderá a sorrir quando mandarem e morderá a língua quando sentir vontade de se esconder. Você vai para Iléa.

— Ricardo? — Sofia olhou desesperadamente para o pai, a última réstia de esperança expressa no olhar.

O Rei pigarreou, ajeitou a gola da túnica pesada e desviou o olhar para a janela que dava para os pátios cinzentos do castelo.

— A decisão está tomada, minha filha — disse ele, a voz quase inaudível, sem coragem de encará-la. — É o melhor para o reino. E para você.

Sofia permaneceu ereta no centro do quarto, sentindo o tecido rígido do vestido sufocar seu peito. Ao longe, o som das cornetas no portão principal anunciava a chegada dos emissários de Iléa. O jogo havia começado, e ela era apenas a oferenda trazida pela própria família.