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Sofia a escolhida · Capítulo 2: O Rasgo na Seda de Navarra — tinta magica

Por tinta magica

No coração da Itália do século XV, o Reino de Navarra erguesse como um baluarte de diplomacia, ferro e casamentos de conveniência. No entanto, por trás dos salões suntuosos e dos mármores frios da Casa Real Navarriana, repousa um segredo silencioso: Sofia. Única herdeira dos soberanos Ricardo e Clarissa, Sofia deveria ser o reflexo da altivez e da astúcia que mantêm a dinastia de pé. Em vez disso, ela é uma presença invisível. Dominada por uma timidez sufocante e devorada por inseguranças, a jovem princesa cresceu sendo uma verdadeira estranha dentro do próprio reino. Para seus pais — governantes implacáveis que enxergam a vulnerabilidade como uma sentença de morte —, Sofia é a maior de todas as decepções: uma herdeira incapaz de empunhar a coroa. Mas quando as alianças do século XV começam a ruir e conspirações silenciosas se espalham pelos corredores da corte, o destino exige que Sofia saia das sombras. Ela não foi apenas nomeada a próxima na linha de sucessão; foi escolhida para ser a peça central de um jogo dinástico perigoso, onde cada olhar carrega uma promessa e cada palavra pode erguer ou destruir um império. Em um ambiente de realismo medieval cruel, onde a inocência é um luxo e a confiança é uma armadilha, a princesa mais insegura de Navarra precisará descobrir se a sua timidez é uma fraqueza a ser superada... ou o disfarce perfeito para sobreviver a uma corte pronta para devorá-la.

Capítulo 2: O Rasgo na Seda de Navarra

O trinco de ferro da porta do quarto estalou com um som seco e definitivo, ecoando como a tranca de uma cela. Sofia encostou a espinha contra a madeira fria e pesada por longos segundos, prendendo a respiração até que os passos de sua mãe e da comitiva desaparecessem completamente pelo corredor de pedra.

Quando o silêncio finalmente reinou, as forças da garota simplesmente ruíram.

Sofia caminhou a passos trôpegos até a cama de carvalho entalhado, cujos cortinados de veludo verde-escuro pareciam sufocá-la ainda mais. Ela se deixou cair sobre as cobertas pesadas, sem se importar com a armação rígida do vestido que a mãe a obrigara a vestir. O choro, contido a ferro e fogo diante dos reis, erupcionou em soluçantes golfadas de ar. Ela afundou o rosto no travesseiro para abafar os gemidos, sentindo a seda do vestido ficar úmida com as lágrimas quentes que escorriam sem freio.

Aos dezesseis anos, Sofia carregava no corpo a transição dolorosa entre a infância e o peso esmagador de uma coroa. Tinha traços delicados, pele pálida que parecia nunca ter visto o sol além das muralhas do castelo e olhos Grandes que costumavam guardar uma imaginação vibrante. Ela sonhava — ah, como sonhava. Em suas leituras secretas às cegas da mãe, imaginava mundos onde as palavras fluíam fáceis de sua boca, onde ela era ouvida, onde a coragem não era um artigo de luxo inacessível. Mas a realidade cotidiana sob o teto dos pais esmagara qualquer réstia de fé em sua própria força. Ela não tinha esperança em si mesma; para Sofia, sua timidez não era apenas uma característica, era uma maldição, uma deficiência incurável.

Um farfalhar de asas quebrou a penumbra do quarto.

Aros, seu falcão peregrino de estimação, saltou do celeiro interno próximo à janela e pousou suavemente ao lado da cabeça de Sofia na colcha. Com passos curtos e calculados, a ave aproximou-se do rosto banhado de lágrimas da jovem. Com extrema delicadeza, o falcão deu uma leve e carinhosa bicadinha na bochecha de Sofia, um toque sutil de bico que era o seu modo de dizer que estava ali.

Sofia ergueu levemente o rosto do travesseiro, os olhos vermelhos e os cílios colados pelas lágrimas. Ela estendeu dois dedos trêmulos e acariciou as penas macias do peito da ave.

— Olá, Aros... — disse ela em um sussurro rouco, a voz trêmula de cansaço. — Pelo menos você não exige que eu seja quem não consigo ser.

Aros emitiu um baixo piado gutural, roçando a cabeça contra a mão da dona.

Buscando um ponto de apoio para o olhar, Sofia girou o corpo na cama e encarou a parede principal do aposento. Ali, pendurada em toda a sua extensão, estava a majestosa tapeçaria da Casa de Navarra. Era uma peça encomendada no ano do seu nascimento, entretecida com fios de ouro, prata e lã tingida com a mais cara purpura. A obra retratava a dinastia completa: Ricardo com sua postura ereta de fachada, Clarissa ao seu lado, imponente e altiva como uma estátua inabalável, e a pequena Sofia, no centro.

Contudo, os olhos de Sofia não se fixaram na sumptuosidade da peça, mas sim no canto inferior, onde a figura que a representava fora atingida pelo tempo — ou pela fúria.

Havia um rasgo feio na seda, uma fenda puída e descosturada bem sobre as mãos e o peito da jovem Sofia na tapeçaria.

Sofia encarou aquele dano com o peito apertado. Na sua mente, aquele rasgo não era um acidente do tempo ou um descuido das servas. Era o símbolo perfeito de sua própria existência. Era a sua timidez, sua incapacidade de impor sua voz e sua insegurança paralisante que, como uma traça voraz, estava corroendo e destruindo a prestigiada Casa de Navarra por dentro.

Sua mãe repetira aquela verdade tantas vezes que Sofia a absorvera como uma doutrina incontestável: se Navarra caía aos pedaços, se dependia de casamentos forçados com velhos duques ou de humilhações públicas em competições estrangeiras como a Seleção em Iléa, a culpa era da fraqueza de sua herdeira. Uma princesa que tremia não podia sustentar um reino.

Aros deu mais um passo, como se tentasse cobrir o olhar da dona, mas Sofia continuou encarando a falha na tapeçaria. Lá fora, o vento uivava contra os painéis de vidro, trazendo consigo o prenúncio de uma viagem que ela sabia que não tinha forças para recusar.