Capítulo 2: O Rasgo na Seda de Navarra
O trinco de ferro da porta do quarto estalou com um som seco e definitivo, ecoando como a tranca de uma cela. Sofia encostou a espinha contra a madeira fria e pesada por longos segundos, prendendo a respiração até que os passos de sua mãe e da comitiva desaparecessem completamente pelo corredor de pedra.
Quando o silêncio finalmente reinou, as forças da garota simplesmente ruíram.
Sofia caminhou a passos trôpegos até a cama de carvalho entalhado, cujos cortinados de veludo verde-escuro pareciam sufocá-la ainda mais. Ela se deixou cair sobre as cobertas pesadas, sem se importar com a armação rígida do vestido que a mãe a obrigara a vestir. O choro, contido a ferro e fogo diante dos reis, erupcionou em soluçantes golfadas de ar. Ela afundou o rosto no travesseiro para abafar os gemidos, sentindo a seda do vestido ficar úmida com as lágrimas quentes que escorriam sem freio.
Aos dezesseis anos, Sofia carregava no corpo a transição dolorosa entre a infância e o peso esmagador de uma coroa. Tinha traços delicados, pele pálida que parecia nunca ter visto o sol além das muralhas do castelo e olhos Grandes que costumavam guardar uma imaginação vibrante. Ela sonhava — ah, como sonhava. Em suas leituras secretas às cegas da mãe, imaginava mundos onde as palavras fluíam fáceis de sua boca, onde ela era ouvida, onde a coragem não era um artigo de luxo inacessível. Mas a realidade cotidiana sob o teto dos pais esmagara qualquer réstia de fé em sua própria força. Ela não tinha esperança em si mesma; para Sofia, sua timidez não era apenas uma característica, era uma maldição, uma deficiência incurável.
Um farfalhar de asas quebrou a penumbra do quarto.
Aros, seu falcão peregrino de estimação, saltou do celeiro interno próximo à janela e pousou suavemente ao lado da cabeça de Sofia na colcha. Com passos curtos e calculados, a ave aproximou-se do rosto banhado de lágrimas da jovem. Com extrema delicadeza, o falcão deu uma leve e carinhosa bicadinha na bochecha de Sofia, um toque sutil de bico que era o seu modo de dizer que estava ali.
Sofia ergueu levemente o rosto do travesseiro, os olhos vermelhos e os cílios colados pelas lágrimas. Ela estendeu dois dedos trêmulos e acariciou as penas macias do peito da ave.
— Olá, Aros... — disse ela em um sussurro rouco, a voz trêmula de cansaço. — Pelo menos você não exige que eu seja quem não consigo ser.
Aros emitiu um baixo piado gutural, roçando a cabeça contra a mão da dona.
Buscando um ponto de apoio para o olhar, Sofia girou o corpo na cama e encarou a parede principal do aposento. Ali, pendurada em toda a sua extensão, estava a majestosa tapeçaria da Casa de Navarra. Era uma peça encomendada no ano do seu nascimento, entretecida com fios de ouro, prata e lã tingida com a mais cara purpura. A obra retratava a dinastia completa: Ricardo com sua postura ereta de fachada, Clarissa ao seu lado, imponente e altiva como uma estátua inabalável, e a pequena Sofia, no centro.
Contudo, os olhos de Sofia não se fixaram na sumptuosidade da peça, mas sim no canto inferior, onde a figura que a representava fora atingida pelo tempo — ou pela fúria.
Havia um rasgo feio na seda, uma fenda puída e descosturada bem sobre as mãos e o peito da jovem Sofia na tapeçaria.
Sofia encarou aquele dano com o peito apertado. Na sua mente, aquele rasgo não era um acidente do tempo ou um descuido das servas. Era o símbolo perfeito de sua própria existência. Era a sua timidez, sua incapacidade de impor sua voz e sua insegurança paralisante que, como uma traça voraz, estava corroendo e destruindo a prestigiada Casa de Navarra por dentro.
Sua mãe repetira aquela verdade tantas vezes que Sofia a absorvera como uma doutrina incontestável: se Navarra caía aos pedaços, se dependia de casamentos forçados com velhos duques ou de humilhações públicas em competições estrangeiras como a Seleção em Iléa, a culpa era da fraqueza de sua herdeira. Uma princesa que tremia não podia sustentar um reino.
Aros deu mais um passo, como se tentasse cobrir o olhar da dona, mas Sofia continuou encarando a falha na tapeçaria. Lá fora, o vento uivava contra os painéis de vidro, trazendo consigo o prenúncio de uma viagem que ela sabia que não tinha forças para recusar.