Capítulo 4: Os Bordados de Seda e as Línguas de Serpente
A carruagem real atravessou os portões de ferro trabalhado do Castelo de Illéa ao cair da tarde. O ar ali cheirava de forma diferente: não trazia a umidade salobra das serras de Navarra, mas o perfume doce e opressivo de jasmins floridos e terra molhada por fontes ornamentais.
Quando os guardas abriram a porta de madeira nobre, Sofia hesitou por um segundo. Ajeitou o pingente em forma de coração dourado sob as dobras do vestido azul e respirou fundo, tentando sufocar o nó que se apertava em sua garganta.
O Salão das Mulheres era um labirinto de luzes, espelhos de moldura dourada e risos cristalinos que ressoavam pelas paredes de mármore branco. Trinta e cinco garotas, vestidas com as mais finas sedas e tecidos de cores vibrantes, preenchiam o espaço como um bando de pássaros exóticos trancados em uma gaiola de ouro.
— Olha só quem chegou... — murmurou uma voz estridente a poucos passos de onde Sofia estava.
Uma jovem de cabelos loiros perfeitamente curvados e olhar afiado erguia o queixo, ajustando as luvas de cetim com um ar de desdém mal disfarçado.
— Deve ser a herdeira do sul — continuou a garota, rindo suavemente para as duas companheiras ao seu lado. — Ouvi dizer que no reino dela nem mesmo as rainhas sabem usar o garfo correto de sobremesa. Vejam a capa vermelha... um pouco dramática para quem acabou de descer da carruagem, não acham?
— Deixe a garota em paz, Celeste — interrompeu uma voz doce e calorosa logo atrás de Sofia.
Sofia virou-se rápido, assustada, e deu de cara com um sorriso radiante. A jovem tinha cabelos loiros emoldurando um rosto simpático e olhos azuis brilhantes que transmitiam uma acolhida sincera, uma raridade absoluta naquele ambiente.
— Não dê ouvidos a ela — disse a loira, dando um passo à frente e estendendo as mãos acolhedoras. — Sou Marlee. Marlee Tames. E você deve ser a Princesa Sofia, de Navarra.
— S-sim... Sofia — gaguejou a jovem, sentindo as bochechas queimarem instantaneamente sob a coroa de prata. — É um prazer, Marlee.
— Não se preocupe com o veneno da Celeste Newcome — disse outra voz, mais firme e serena, aproximando-se com elegância.
A jovem de postura irrepreensível e olhar refinado curvou-se levemente em comprimento. Ao seu lado, uma terceira garota, de feições gentis e expressão tranquila, acompanhava o movimento.
— Eu sou Elise — apresentou-se a primeira, mantendo a voz baixa e segura. — E esta é Mary. Nós estávamos observando você desde que entrou. Parecia um pouco perdida entre tantas saias e joias.
— Perdida é um eufemismo — confessou Sofia em um sussurro, abaixando os olhos para os próprios sapatos. — Eu nunca vi tantas pessoas juntas em um único salão. Em Navarra... as coisas são mais silenciosas.
— Aqui nada é silencioso, Sofia — disse Mary com um sorriso compreensivo, ajeitando a dobra da capa azul de Sofia. — As trinta e cinco garotas vieram em busca da mesma coisa: a atenção do Príncipe Henry. E a maioria fará qualquer coisa para chamar a atenção das câmeras e dos guardas.
— Especialmente a Celeste — acrescentou Marlee, inclinando-se um pouco para fofocar com entusiasmo infantil. — Falando no diabo... veja como ela se exibe para os lacaios só para garantir que o espelho reflita seu melhor ângulo. Ela passou as últimas duas horas falando sobre quantas joias o pai dela comprou para a Seleção e como o príncipe ficará 'hipnotizado' na primeira conversa.
Sofia olhou de relance na direção de Celeste Newcome, que agora desfrutava da atenção de um pequeno grupo de candidatas fúteis, gesticulando com exagero enquanto zombava do penteado de uma jovem da província do leste.
— É uma futilidade exaustiva — comentou Elise, cruzando as mãos à frente do corpo com graça nata. — Mas não deixe que a arrogância delas te assuste. Henry não é um tolo. Ele saberá diferenciar quem veio buscar um título e quem carrega algo de valor no peito.
Sofia levou a mão ao pingente dourado no pescoço, sentindo a voz travar por um instante ao lembrar das palavras duras de sua mãe e da resignação de seu pai no pátio de pedra.
— Eu não sei se tenho algo de valor a oferecer, Elise — murmurou Sofia, o tom carregado de uma honestidade dolorosa. — Minha mãe diz que minha timidez é minha maior fraqueza. Que em um lugar como este, eu seria engolida antes do primeiro banquete.
Marlee segurou delicadamente as mãos trêmulas de Sofia, olhando-a nos olhos com uma firmeza afetuosa.
— Sua mãe não está aqui em Iléa, Sofia. E a timidez não é um defeito, é apenas o seu jeito de observar o mundo antes de decidir onde pisar. Olhe ao redor... entre trinta e cinco meninas gritando por atenção, às vezes a que fica em silêncio é a única que realmente se faz ouvir.
Pela primeira vez desde que deixara o castelo de Navarra, um sorriso pequeno, mas verdadeiro, desabrochou nos lábios de Sofia. Ali, cercada por Marlee, Mary e Elise, o ar pesado do palácio pareceu um pouco mais leve de respirar.