capitulo 1 o baile de debutante
Existe um segredo sobre ter quinze anos em um castelo medieval que os livros de história nunca contam: é absolutamente aterrorizante.
Se eu fosse uma garota comum do século XV, provavelmente estaria comemorando meu aniversário com um bolo simples, cantando modinhas com as minhas amigas no jardim e sonhando acordada. Mas eu sou Sofia de Navarra. O que significa que os meus quinze anos não são apenas uma festa. São um evento de Estado.
— Princesa Sofia, pare de respirar tão fundo! Assim o vestido não vai fechar! — protestou a criada, puxando o laço das minhas costas com tanta força que senti meus pulmões pedirem arrego.
— Se eu não respirar, Gretel, você vai ter que me arrastar para o salão de baile em uma maca! — respondi, segurando na borda da penteadeira para não voar longe.
Olhei para o espelho de moldura dourada e encarei a garota do outro lado. Cabelos perfeitamente alinhados, joias brilhando e uma expressão de pura ansiedade. Eu parecia a estrela de um grande show de ópera… que esqueceu completamente a letra da música antes de subir ao palco.
Hoje era a noite do meu Grande Baile. O baile em que, segundo a tradição de Iléa e Navarra, eu deixava de ser menininha para me tornar oficialmente uma jovem dama pronta para a Seleção.
(Dramático? Totalmente. Mas bem-vindo ao meu mundo!)
De repente, a porta do meu quarto se abriu em um estrondo, revelando um furacão de vestidos coloridos.
— SOFIA! — gritaram três vozes em coro.
Era o meu esquadrão de resgate. Marlee entrou correndo com uma caixinha de doces escondida na manga do vestido; Kriss vinha logo atrás, ajustando um pergaminho com o cronograma do baile; e Celeste caminhava como se a passarela do palácio fosse só dela.
— Feliz aniversário, minha princesinha! — Marlee me deu um abraço tão apertado que quase terminou o serviço do meu espartilho. — Olha, eu consegui roubar esses tartaletes de morango da cozinha antes que os guardas vissem. Come rápida antes que sua mãe chegue!
— Marlee, você é um anjo! — murmurei, devorando o doce enquanto Kriss me olhava com horror.
— Cuidado com o batom, Sofia! — Kriss alertou, ajeitando uma mecha do meu cabelo. — O protocolo diz que o Rei Ricardo fará o discurso às oito em ponto, seguido pela sua entrada. O Príncipe Henry já chegou com a família real de Iléa. E, aliás… ele está simplesmente inacreditável naquele uniforme azul.
Senti meu coração dar uma cambalhota tripla.
— O Henry… já chegou? — gaguejei, sentindo minhas bochechas queimarem.
— Ah, lá vem ela, toda boba apaixonada! — Celeste provocou, jogando o cabelo por cima do ombro e se olhando no meu espelho. — Garota, você é a aniversariante! Hoje o show é seu! O Henry que lute para manter os olhos em você. Mas, por favor, tenta não tropeçar na bainha do vestido como fez no Baile da Primavera, tá? Aquele tombo quase virou música dos bardos.
— Ei! O piso estava encerado! — me defendi, mas não pude deixar de rir. Ter as três ali tornava aquele turbilhão de nervosismo um pouco mais suportável.
Porém, como na vida de uma princesa nem tudo é um número musical perfeito, a porta se abriu novamente. Mas dessa vez, o ar do quarto gelou.
Isolda e Ella surgiram no corredor, vestindo tons de verde-musgo que combinavam perfeitamente com a pontinha de veneno nas suas vozes. As duas irmãs do Henry me encararam de cima a baixo com sorrisinhos irônicos.
— Ora, ora… feliz aniversário, Sofia — disse Isolda, cruzando os braços. — Olhando de longe, até parece uma princesa de verdade. Pena que o vestido parece um pouco… exagero para alguém tão baixinha, não acha, Ella?
— Com certeza, mana — Ella concordou com uma risadinha fingida. — Espero que você consiga dançar com o nosso irmão sem pisotear os pés dele. Sabe como o Henry é gracioso, não seria legal estragar a noite dele com a sua falta de jeito.
Marlee deu um passo à frente com os punhos fechados, e Celeste encarou as duas com um olhar que poderia derreter pedra, mas eu respirei fundo. Lembrei de quem eu era.
— Obrigada pela preocupação, meninas — respondi, dando o meu sorriso mais "fofo e diplomático". — Se eu pisar no pé do Henry, prometo que peço desculpas. Mas acho que ele não vai se importar nem um pouco de me segurar firme.
Isolda fechou a cara na hora. As duas se viraram e saíram pisando duro pelo corredor.
— ISSO AÍ! Tomaram! — sussurrou Celeste, fazendo uma dancinha de vitória.
— Você foi ótima, So — Kriss sorriu, orgulhosa.
As trompetes reais ecoaram pelo castelo, fazendo o chão tremer levemente. O momento tinha chegado. As garotas me deram um último abraço encorajador e se direcionaram para o salão principal.
Fiquei sozinha diante das portas duplas do salão de baile. Minhas mãos congelaram. Por um segundo, a garota tímida e insegura que vivia escondida dentro de mim quis sair correndo para o jardim, tirar os sapatos desconfortáveis e se esconder no alto de uma árvore.