a entrada da debutante
As portas duplas de carvalho maciço, entalhadas com as armas brasas do Reino de Navarra, deviam pesar pelo menos meia tonelada. No entanto, naquele exato instante, elas pareceram deslizar com uma facilidade quase zombeteira, revelando o Grande Salão de Baile.
Lá fora, os músicos atacaram os primeiros acordes de Pompa e Circunstância, de Edward Elgar. Uma melodia grandiosa, solene, desenhada sob medida para fazer até o mais insensível dos camponeses suspirar de devoção pela dinastia real. Para mim, contudo, soar como o fundo musical do meu próprio julgamento parecia uma ironia divina.
Apertei a barra do vestido de cetim pesado, bordado com fios de ouro que pinicavam minha pele até o limite do suportável, e dei o primeiro passo sobre o mármore polido.
Se a intenção do cerimonialista era me fazer sentir como a joia mais preciosa da coroa, sinto informar que falharam miseravelmente. Eu me sentia mais como um pavão empalhado sendo exibido a uma plateia de abutres famintos por fofocas da corte.
À minha esquerda, no estrado elevado sob o dossel de veludo carmesim, minha mãe, a Rainha Clarissa, desmoronava em prantos dramáticos. Ela secava as lágrimas ruidosas no ombro rígido do Conselheiro Real, um homem cuja expressão habitual oscilava entre a indigestão grave e o desprezo velado. O pobre conselheiro permanecia teso como uma estátua de pedra, tentando equilibrar seu elmo Cerimonial enquanto a rainha ensopava seu gibão com o desespero maternal de quem vê a única filha completar a idade de ser negociada por um punhado de terras e três alianças militares.
Um pouco mais ao fundo, entre a criadagem postada ao longo das colunas de pedra, vi Elia, minha ama de leite. Minha boa e velha Elia não chorava por etiqueta; chorava de verdade, assoando o nariz ruidosamente em um avental de linho encardido, como se estivesse me assistindo marchar direto para a fogueira dos inquisidores.
E então, claro, havia o meu comitê de boas-vindas pessoal.
Erguidas na linha de frente dos nobres, trajando mangas bufantes e espartilhos tão apertados que me perguntava como ainda mantinham o oxigênio no cérebro, estavam minhas estimadas damas e fiéis companheiras.
— Sofia de Navarra! — o grito em coro ecoou pelo salão, desafinando no tom exato da empolgação desmedida.
Marlee, Kriss e Celeste Newcome pulavam sutilmente sob a armação de suas anáguas, abanando-se com leques de penas de pavão como se o calor de meados do século XV fosse uma provação pessoal enviada pelos céus. Seus rostos reluziam sob a luz das centenas de velas dos candelabros de ferro forjado. Elas pareciam prestes a invadir o corredor de veludo e me arrastar para uma dança antes mesmo que o arauto terminasse de anunciar meus longos, entediantes e intermináveis títulos.
Cruzei o salão sob o olhar atento do reino, mantendo a espinha reta e o sorriso perfeitamente treinado que a etiqueta me exigia. Por dentro, porém, eu só conseguia contar quantos passos ainda me restavam até que essa grandiosa encenação finalmente terminasse.
O salão principal brilhava sob o cintilar de imponentes lustres de cristal. Garçons vestindo trajes impecáveis circulavam entre a elite social, mas toda a atenção da noite estava concentrada na figura que conversava serenamente com os donos da casa: o Príncipe Henry de Illéa, filho do Rei Clarkson e convidado de honra da família. A presença da realeza illeana transformava a festa de debutante de Sofia em um evento lendário.
Após as saudações iniciais, o mestre de cerimônias anunciou o momento mais aguardado da noite. As luzes suavemente se abrandaram, refletindo nos detalhes elegantes do vestido de Sofia.
Henry deu um passo à frente. Com a postura ereta e a elegância impecável dos herdeiros do trono de Illéa, ele estendeu a mão enluvada em direção à aniversariante.