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A Sombra dos Pássaros · CAPÍTULO 2 – AMBIÇÃO NÃO CRIA RAÍZES. — Rodrigo Fernandes

Por Rodrigo Fernandes

Alguns nunca acreditaram nas histórias sobre a Matinta Pereira. Até testemunharem uma revoada de pássaros levar Paulo Bernardi, filho do homem mais poderoso de Poço da Rainha, à morte. Enquanto Antônio Bernardi transforma Nia, uma das principais suspeitas, em alvo de sua vingança e avança sobre a floresta em busca de poder e destruição. Anna, irmã de Paulo, começa a investigar a morte do rapaz e descobre que sua família guarda uma ligação antiga com a floresta, que testemunhou inúmeros segredos que deveriam permanecer no passado. Entre lendas amazônicas, violência, mistérios familiares e um mundo invisível conhecido como O Outro Lado, duas jovens precisarão descobrir por que a floresta decidiu despertar. Em Poço da Rainha, a mata não esquece. E os mortos nem sempre descansam.

CAPÍTULO 2 – AMBIÇÃO NÃO CRIA RAÍZES.

Uma delicada xícara de porcelana branca repousou sobre o pires com um som quase imperceptível, abafado pelo murmúrio elegante do restaurante. O aroma intenso do café recém-passado misturava-se ao perfume amadeirado do ambiente climatizado, onde executivos discutiam cifras milionárias enquanto garçons deslizavam entre as mesas com a discrição de quem aprendera que riqueza não gosta de barulho.

Sentado próximo à ampla janela de vidro, de onde se avistava parte da orla de Santarém sob um céu carregado de nuvens, Antônio Bernardi observava a cidade como quem contemplava uma propriedade prestes a ser adquirida. Tinha pouco mais de quarenta e três anos. Os olhos castanhos, sempre atentos, raramente transmitiam qualquer emoção além da frieza calculista e objetiva. A barba bem aparada acentuava o rosto quadrado e endurecido pelo hábito de jamais aceitar ser contrariado. Vestia-se com elegância impecável, mas havia algo em sua postura que intimidava antes mesmo de abrir a boca: o modo como mantinha a coluna ereta, o queixo levemente elevado e a certeza silenciosa de que tudo, pessoas, empresas, terras e destinos, podia ser comprado.

Desde a morte do sogro, herdara um verdadeiro império fundiário. Fazendas, empresas, contratos e milhares de hectares espalhados pelo oeste paraense, que haviam passado às suas mãos. Contudo, a herança jamais lhe bastara, Antônio não queria apenas conservar o patrimônio que recebera e sim multiplicá-lo, expandi-lo e, sobretudo, deixar sua própria marca sobre aquelas terras, ainda que isso significasse apagar comunidades inteiras da paisagem. Em sua visão, floresta improdutiva era desperdício; rio era obstáculo; tradição era atraso. O Poço da Rainha figurava entre seus principais objetivos. Não descansaria enquanto aquela comunidade deixasse de existir como resistência ao avanço de seus negócios.

À sua frente, um representante da empresa de agronegócio recentemente incorporada ao grupo exibia fotografias, mapas e vídeos em um computador portátil. Chamava-se Júlio, era extremamente competente e correto, um homem de pele parda, alguns anos mais jovem, olhar vivo e mãos marcadas pelo trabalho de campo. Diferentemente de Antônio, conhecia cada curva dos igarapés, cada castanheira centenária e cada família que vivia da floresta na propriedade dos Bernardi. Enquanto apontava os locais na tela, sua voz denunciava um desconforto crescente, não era medo apenas do novo patrão. Era a sensação amarga de assistir alguém planejar, em poucos minutos, a destruição de tudo o que aprendera a respeitar desde criança.

Antônio, porém, sequer prestava atenção às imagens da mata preservada. Seus olhos não enxergavam árvores, avistavam hectares. Não discerniam famílias, visava mão de obra barata. Não se preocupava com os rios; ansiava por limites que poderiam ser removidos.

Júlio respirou fundo antes de continuar.

— O gado vai abrindo caminho, derrubando as árvores. — Apontou para outra fotografia da aérea, demonstrando apreensão no rosto magro. — Alguns moradores já nos procuraram para reivindicar certos limites, principalmente por causa da produção de açaí, que é feita manualmente, com poucos recursos, mas garante o sustento de muitas famílias. Fora os igarapés que já começam a ser comprometidos pelo avanço das máquinas, senhor. — Coçou discretamente a nuca. Sabia exatamente o tipo de homem que tinha diante de si. Mesmo assim, acreditava que havia momentos em que o silêncio também se tornava cumplicidade.

Antônio tomou mais um gole de café sem sequer olhar para a tela. Depositou lentamente a xícara sobre o pires, limpou os lábios com o guardanapo de tecido e fez um discreto gesto com a mão, como quem afastava um assunto irrelevante. Seu semblante permaneceu inabalável. Toda aquela preocupação lhe parecia um incômodo burocrático. No íntimo, seus interesses caminhavam por outro rumo, muito mais lucrativo e mais ambicioso. Guardava um plano que sequer seus sócios conheciam por completo. A compra das terras era apenas o primeiro passo. O verdadeiro objetivo era cercar completamente o Poço da Rainha até que seus moradores, sem alternativas, fossem obrigados a partir.

Então perguntou, quase entediado:

— Você tinha mencionado que alguns moradores foram contratados...

— Sim, mas a maioria não aceitou a proposta. — Júlio respondeu depois de alguns segundos de hesitação. Os dedos permaneceram imóveis sobre a borda da tela, enquanto seus olhos percorriam as imagens como quem buscasse forças na própria paisagem. — Há resistência... e as denúncias começaram a aparecer. O avanço das compras em torno daquela comunidade específica está chamando muita atenção.

Antônio permaneceu em silêncio. Apoiou lentamente as costas na cadeira, cruzou uma perna sobre a outra e levou a xícara até os lábios sem qualquer pressa. Parecia ouvir, mas não escutava. Em seu mundo, objeções eram apenas ruídos produzidos por pessoas incapazes de acompanhar o ritmo de quem nascera para vencer. Após um gole demorado, acomodou novamente a porcelana sobre o pires. O pequeno som seco pareceu encerrar a fala de Júlio antes mesmo que ela tivesse terminado, ele ergueu o olhar.

— Estamos oferecendo emprego para esse povo miserável, não estamos? — Perguntou com uma serenidade que assustava mais do que qualquer grito. — Pelo que me informaram, sobrevivem da caça, da pesca e de um punhado de açaí vendido em feiras improvisadas. — Deu de ombros.

— Retrocedemos senhor? — Perguntou Júlio aflito.

O sarcasmo escorreu naturalmente dos lábios de Antônio:

— Deviam me agradecer de joelhos. Principalmente aquelas famílias que colocam vinte pessoas dentro de uma casa de madeira coberta de palha e ainda acham que isso é qualidade de vida. Vivem dependendo de benefício do governo. Quanto mais filhos, mais pobreza... e, curiosamente, mais filhos. Deus me livre. Pobreza gera pobreza.

Falava sem alterar o tom. Era justamente isso que tornava suas palavras tão ofensivas. Não havia raiva, havia convicção. Antônio jamais precisou elevar a voz para diminuir alguém. Vivera os últimos vinte anos cercado de homens que mediam seu valor pelo patrimônio acumulado, e aprendera com seu sogro que o dinheiro não apenas comprava terras: comprava respeito, silêncio e, muitas vezes, a própria verdade. O restante lhe parecia irrelevante.

Júlio permaneceu imóvel. Sentia o peito apertar, mas evitava responder impulsivamente. Conhecia aquele tipo de homem. Sabia que qualquer demonstração de revolta serviria apenas para alimentar sua arrogância. Mesmo assim, não conseguiu esconder o desapontamento estampado no rosto.

Antônio percebeu e sorriu discretamente.

— Estamos levando progresso para aquela região, Júlio. — Antônio abriu os braços como quem apresentava uma obra grandiosa. — A pecuária sempre foi um dos motores do desenvolvimento. Não fui eu quem inventou isso. É assim há séculos. Há floresta suficiente para todos os lados e por favor, não vamos acabar com a Amazônia. Vamos fazê-la produzir. — Inclinou-se um pouco sobre a mesa. — Grandes civilizações nunca nasceram pedindo licença, Júlio.

Do outro lado da mesa, Júlio abaixou os olhos para o dossiê. Cada folha parecia contradizer o discurso do patrão. Mapas, laudos, imagens de satélite, pareceres técnicos. As licenças ambientais que permaneciam pendentes, algumas desfavoráveis, outras exigindo adequações que jamais haviam sido cumpridas. Ainda assim, as ordens eram sempre as mesmas. Prosseguir.

Júlio respirou fundo e pigarreou discretamente.

— A pecuária continua sendo a linha de frente da ampliação de área da produção rural. Ela abre caminho para tudo o que vem depois. Primeiro, a madeira, depois, o gado compacta o solo. Quando as estradas aparecem e a terra se valoriza, chegam os grãos. É um processo destrutivo conhecido, senhor.

Antônio abriu um sorriso satisfeito. Não enxergava denúncia alguma naquelas palavras. Enxergava eficiência.

— E onde exatamente está o problema? — perguntou, cruzando novamente os braços. — Progresso exige escolhas. Nenhuma sociedade prosperou preservando tudo exatamente como encontrou. Limites existem para serem superados.

A naturalidade com que pronunciou a frase provocou um silêncio breve.

Júlio respirou lentamente. Lembrou-se do avô colhendo açaí antes do nascer do sol. Da mãe atravessando o rio de canoa. Das crianças correndo descalças entre árvores que talvez nem existissem dali a alguns anos. Sentiu um peso estranho no peito, como se estivesse assistindo à venda da própria infância. Então falou:

— Entra boi... sai floresta, senhor. — Não havia agressividade. Apenas tristeza. — E, nesse caso, muita floresta. — Complementou erguendo os mapas. — Estamos falando de uma área imensa. Não é um investimento comum, é uma operação gigantesca para os padrões daqui. Francamente... parece desproporcional. — Olhou diretamente para Antônio. — É como se o senhor quisesse aniquilar aquela comunidade.

O restaurante pareceu diminuir. Ouviam-se apenas talheres e conversas distantes.

Antônio pousou lentamente os cotovelos sobre a mesa, seus olhos perderam qualquer traço de cordialidade.

— Eu não quero apagar lugar nenhum. — A voz saiu baixa. Fria. — Quero substituir atraso por desenvolvimento.

— Com todo respeito... — respondeu Júlio. — Não é isso que os documentos mostram e o que as suas palavras ecoam.

Antônio inclinou levemente a cabeça.

— Então me diga. — Esperou alguns segundos. — O que eles mostram?

— Que a comunidade está sendo cercada.

Antônio fingia observar o mapa.

— Que os cursos d'água serão afetados.

Antônio mergulhou em um silêncio irritante.

— Que centenas de famílias perderão seu modo de vida.

A mandíbula de Antônio enrijeceu.

— O que senhor chama isso de progresso. — Fez uma pausa. — Eu chamo de aniquilação.

Pela primeira vez, Antônio abandonou o sorriso. A palavra atingira exatamente onde não admitia ser atingido.

— Nem mesmo o seu sogro... — Júlio interrompeu a própria frase, mas era tarde. — ...teria ido tão longe. Ele amava a fazenda Bernardi o rio Tapajós e todos em torno.

O nome caiu sobre a mesa como uma pedra. Antônio prendeu a respiração por alguns segundos e depois delineou um sorriso frio.

— Meu sogro está morto. — A resposta saiu quase num sussurro. — E quem manda agora sou eu.

Júlio sustentou o olhar e afirmou:

— É justamente isso que me preocupa.

Antônio inclinou o corpo para a frente.

— Estou começando a duvidar de que lado você está.

— Do lado da razão. — A resposta veio firme e sem medo.

Foi isso que enfureceu Antônio, e o fez levantar-se abruptamente. Algumas mesas voltaram os olhos para eles, Antônio não pareceu se importar, jamais se importava. Apontou o dedo para o rosto de Júlio.

— A única razão nesta conversa é o salário que cai na sua conta todo fim de mês. — Seu tom permanecia controlado, mas agora havia veneno em cada palavra. — Ou prefere voltar para aquela vida miserável que levava antes do meu sogro te contratar? Dormindo numa rede, esperando que alguma oportunidade caísse do céu como a maioria dos miseráveis que vivem aqui?

Júlio levantou-se também, sem violência e sem alterar a voz. Apenas ergueu o rosto.

— Abaixe o braço, Antônio. — Pediu Júlio. — E fale comigo como homem, não como um moleque mimado que acabou de herdar bens e não sabe o que fazer com eles.

O restaurante inteiro pareceu prender a respiração. Foi nesse instante que um jovem funcionário surgiu quase tropeçando entre as mesas. O rosto estava completamente pálido.

— Doutor Antônio... Júlio. Desculpe interromper.

— Agora não! — Rosnou Antônio sem sequer virar o rosto. — Que eu preciso colocar esse funcionariozinho no seu devido lugar.

— É urgente! — Insistiu amedrontado.

— Cala boca, Célio! Eu estou falando... — Continuou Antônio.

— Quem o senhor pensa que é pra mandar alguém calar a boca, Antônio? — Disparou Júlio.

— Bernardi. Senhor Bernardi, pra ti, Júlio Zé ninguém. — Esbravejou.

Os dois mantinham os olhares entrelaçados pela raiva.

— É sobre o seu filho, senhor. — Interrompeu Célio.

O tempo pareceu romper-se, Antônio finalmente olhou para ele. Toda a irritação transformou-se em estranhamento.

— O que aconteceu?

Célio engoliu em seco. Olhou rapidamente para Júlio e depois voltou a encarar o patrão.

— Encontraram... encontraram o corpo do Seu Paulo... perto do Bosque Araúna... na comunidade do Poço da Rainha, senhor. — Informou gaguejando.

Nenhum ruído do restaurante chegou até Antônio. Os talheres desapareceram. As conversas desapareceram. O cheiro do café desapareceu. Tudo o que existia eram aquelas palavras. Seu rosto perdeu a cor. Os olhos permaneceram fixos no rapaz, incapazes de compreender. Deu um passo à frente. A voz saiu rouca, quase irreconhecível e segurou Célio ela camisa.

— Corpo? O que... — Engoliu em seco. — O que foi que você disse?

Júlio sentiu toda a raiva escapar de uma só vez. Baixou lentamente os olhos.

Pela primeira vez desde o início daquela reunião, Antônio Bernardi não parecia um homem poderoso. Parecia apenas um pai prestes a descobrir que existe uma dor diante da qual nenhum império pode comprar uma saída.

— A polícia ligou. É o corpo do seu filho que foi encontrado, senhor. Paulo Bernardi.