CAPÍTULO 3 – OLHOS DA ESCURIDÃO.
O trajeto até a comunidade de Poço da Rainha transcorreu envolto por um silêncio quase insuportável. Não era o silêncio confortável de quem apenas observa a paisagem, era uma ausência de palavras pesada, sufocante, que parecia ocupar cada centímetro da caminhonete enquanto os pneus devoravam a estrada. O motor vibrava continuamente, levantando uma cortina de poeira que se desfazia entre as árvores, como se a própria floresta recusasse qualquer presença estranha.
Antônio Bernardi mantinha os olhos fixos na janela. As árvores desfilavam diante dele em sucessão interminável, transformando-se em manchas verdes que ora escondiam, ora revelavam fragmentos de um passado que julgara enterrado havia mais de duas décadas. Aquilo não podia estar acontecendo. A notícia continuava absurda demais para existir. Paulo, seu primogênito, seu sucessor, o rapaz que herdaria seus negócios, sua influência e seu sobrenome. Morto. E justamente naquele lugar. Seu peito parecia comprimido por uma força invisível. As lembranças surgiam desordenadas, não eram imagens completas, mas pedaços. Um cheiro de lama, uma voz feminina, uma noite escura. O rio... Depois... Nada.
Antônio fechou lentamente os olhos, pois havia escolhido esquecer. Durante vinte e três anos fizera questão de acreditar que certas memórias sumiam quando deixavam de ser mencionadas, entretanto não desapareciam... Apenas permaneciam escondidas, esperando o momento certo de voltar. Sentiu um calafrio percorrer a nuca. Pela primeira vez em muitos anos, teve medo de recordar tudo o que viveu em Poço da Rainha. Tenta manter o foco em quem havia matado Paulo? Ou... A pergunta surgiu antes que pudesse impedi-la, teria sido ele próprio quem colocara o filho naquele caminho? Respirou fundo. Rejeitou imediatamente o pensamento. Era ridículo, absurdo.
A caminhonete diminuiu a velocidade. À frente surgiu a antiga e majestosa ponte. As tábuas envelhecidas rangiam sob o peso do veículo, produzindo um som oco que ecoava pelo vale. Antônio conhecia aquela ponte, sabia cada metro daquele lugar. Mesmo assim, quase não o reconheceu. Abaixo dela não havia rio algum. Apenas um enorme leito seco, coberto por areia clara, pedras arredondadas e pequenas ilhas de vegetação que haviam nascido onde, décadas antes, corria o Arapaima. Um rio inteiro havia desaparecido. Restavam apenas as marcas de suas margens desenhadas na terra, como cicatrizes antigas.
Ao cruzarem a ponte, um calor estranho tomou conta do corpo de Antônio. Não era o calor úmido da Amazônia era diferente. Começava sob a pele e parecia irradiar-se lentamente pelos braços, pelo pescoço e pelas costas. Como febre ou culpa. Sem desviar o olhar da janela, perguntou:
— Onde exatamente encontraram meu filho?
Célio, ao volante, demorou alguns segundos para responder. Parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— Foi ali embaixo, seu Antônio. — Apontou discretamente pela janela. — No pé do Bosque Araúna.
A vegetação fechava-se como uma muralha escura sobre a encosta. Mesmo à distância, havia algo inquietante naquele trecho da floresta.
— O senhor tá vendo aquele movimento? — Indicou novamente.
Viaturas, pessoas, fitas de isolamento.
— É logo onde começa a comunidade. — Afirmou Célio, que logo fez uma pausa e engoliu em seco. — Quando alguém morre por aqui... o povo aparece depressa. — Tentou sorrir, mas engoliu os lábios. — Parece... — Interrompeu-se. — Desculpa.
Antônio virou lentamente a cabeça e o silêncio voltou a ocupar o veículo.
Júlio observava tudo do banco da frente. Aceitara acompanhar Antônio porque conhecia Paulo desde menino. Apesar do comportamento impulsivo e arrogante do rapaz, ainda enxergava nele algo que jamais encontrara no pai: a capacidade de rir de si mesmo. Porém, também percebera, nos últimos anos, que Paulo começava a reproduzir exatamente os mesmos gestos de Antônio, o mesmo desprezo, a mesma sensação de impunidade, a mesma certeza de que o dinheiro apagava consequências. E isso o preocupava.
Antônio rompeu novamente o silêncio.
— E a imprensa?
Célio respondeu sem desviar os olhos da estrada.
— Conseguimos impedir que divulgassem imagens.
Antônio assentiu.
— Não admito fotografia nenhuma do meu filho circulando nesses blogs sensacionalistas.
Sua voz permanecia firme, controlada. Como se ainda estivesse resolvendo um problema empresarial, não uma tragédia.
A caminhonete estacionou logo após a ponte. Ao abrirem as portas, o calor da tarde misturou-se ao cheiro úmido da mata.
Célio desceu primeiro.
— Temos que seguir por aquela escada. — Apontou para uma antiga estrutura de madeira construída sobre a encosta.
Os degraus estavam gastos pelo tempo, alguns rangiam, outros pareciam prestes a ceder. Enquanto iniciavam a descida, Célio olhou novamente para o enorme leito seco.
— Às vezes eu nem acredito que aqui já passou um rio.
Júlio também olhou. Havia crescido ouvindo histórias sobre o Arapaima. Pescarias, banhos, travessias de canoa. Agora restava apenas areia.
— A poluição matou o rio. — Disse Júlio. — Mas muita gente diz que foi uma maldição.
Célio balançou lentamente a cabeça com medo.
— Tem gente imbecil que acredita em cada coisa absurda! — Antônio soltou um riso curto, sem humor. — Crendices.
Mas Júlio percebeu algo, Antônio respondeu depressa demais, como quem desejava encerrar um assunto antes mesmo que ele começasse. E isso lhe causou estranheza.
Seguiram caminhando, quanto mais se aproximavam das árvores da encosta, mais estranho parecia o ambiente. Havia vento, as copas balançavam, mas quase não se ouviam pássaros. Era como se a floresta inteira prendesse a respiração. E, por alguma razão que não sabia explicar, Júlio teve a nítida sensação de que eles não estavam cercando a mata, era a mata que os observava chegar.
Policiais militares e civis, investigadores e moradores da comunidade formavam um amplo círculo ao redor do corpo de Paulo Bernardi. As vozes misturavam-se em murmúrios desconexos, interrompidas pelo clique incessante da câmera da perícia e pelo ruído metálico dos estojos sendo abertos sobre o chão arenoso. Acima deles, o Bosque Araúna erguia-se como um paredão de árvores antigas, cipós grossos pendiam entre os troncos centenários, e a copa fechada impedia que a luz da tarde alcançasse completamente o solo. A floresta inteira permanecia imóvel, como se aguardasse alguma coisa.
Antônio Bernardi atravessou lentamente o cordão de isolamento com imponência.
Os policiais reconheceram imediatamente o empresário. Alguns endireitaram a postura por respeito à posição que ele ocupava na região, outros apenas observaram em silêncio. Havia algo naquele homem que impunha presença, contudo naquele instante ela parecia rachada.
Um delegado de cabelos grisalhos caminhou em sua direção.
— Meus sentimentos, senhor Antônio. — Fez uma breve pausa. — Sei que este não é o momento, mas preciso pedir que preserve a cena. Ainda estamos tentando compreender o que aconteceu.
Antônio sequer o olhou, seus olhos permaneciam presos ao corpo do filho adiante. Cada passo parecia exigir um esforço descomunal, até que parou.
Paulo jazia sobre a terra seca. O impacto da queda deformara parte da vegetação rasteira. A cabeça repousava sobre uma poça espessa de sangue já escurecido, enquanto pequenos filetes haviam penetrado nas rachaduras do solo como raízes rubras. O rosto estava irreconhecível em alguns pontos. Os braços, o peito e o pescoço exibiam dezenas de cortes finos, paralelos, profundos demais para parecerem simples arranhões.
Antônio franziu lentamente o cenho, aquilo não lembrava facadas, também não indicava mordidas. Pareciam... Rasgos. Como se inúmeras lâminas extremamente afiadas tivessem atingido seu filho ao mesmo tempo. Então seus olhos encontraram os de Paulo, abertos e imóveis, completamente opacos. Não estavam mais verdes, como os da mãe, estavam escuros como breu.
Antônio esqueceu de respirar e uma lágrima silenciosa desceu pelo rosto duro. Um frio percorreu-lhe a espinha, nunca vira algo semelhante. Nem mesmo nos inúmeros acidentes de trabalho que acompanhara ao longo da vida.
Atrás dele, alguns moradores começaram a comentar em voz baixa inúmeras hipóteses para a morte, e principalmente pelos olhos de Paulo.
Antônio virou-se abruptamente. O medo transformou-se em irritação.
— O que esse povo medíocre está fazendo aqui? — Sua voz cortou o silêncio. — Saiam daqui!
Ninguém se moveu. Em muitos anos, uma ordem sua não produziu efeito algum. Os moradores permaneceram onde estavam, não por desafio, mas porque aquele corpo também lhes dizia respeito.
Um senhor de cabelos completamente brancos quem respondeu primeiro. A voz saiu cansada, sem ódio.
— A gente encontrou teu filho. — Apontou para Paulo. — E chamamos a polícia. Esperamos aqui até que chegassem. Se a gente tivesse ido embora... Talvez encontrassem só a carcaça desse daí. E é assim que agradecesse?
Antônio o encarou como se a simples presença daquele homem fosse uma afronta.
— Quanto te devo por chamar a polícia? Se tem uma coisa que nunca suportei em minha vida é dever favor a ninguém.
— Pra mim tu não deves nada. Agora pra floresta, tu deves muito. — O idoso balançou lentamente a cabeça.
Antônio sorriu sem humor.
Uma senhora deu um passo à frente. As mãos eram marcadas pelo trabalho no roçado.
— Minha neta deixou de passar sozinha nessa estrada por causa do teu filho.
Outra completou:
— A minha filha também.
— E tem outras pela comunidade que ele vivia atentando. — Disse outra senhora.
Os comentários espalharam-se pelo grupo, ninguém gritava, falavam como quem finalmente deixava de carregar um peso.
Uma mulher de meia-idade apontou para o corpo.
— Era bonito. Tinha estudo, dinheiro, mas pensava que isso dava direito sobre as pessoas.
Antônio avançou um passo.
— Cale essa boca!
A mulher não recuou.
— Vem calar.
O silêncio voltou a cair sobre todos. Até os policiais se entreolharam. Ela ergueu o dedo na direção de Antônio.
— Tu criaste esse rapaz dizendo que podia tudo. Mas dinheiro não compra caráter e muito menos vida!
Foi então que um investigador se aproximou do delegado. Falou baixo, porém Antônio ouviu.
— A moça prestou depoimento.
— Niara? — Indagou o senhor.
— Sim. Ela foi direto para a delegacia antes de encontrarmos o corpo. — Informou.
Antônio virou-se imediatamente.
— Quem é Niara?
O delegado respirou fundo.
— Niara Silva, moça simples, moradora daqui. Ela e a mãe compareceram à delegacia e o depoimento foi colhido, assim como os exames foram feitos.
Antônio permaneceu imóvel.
O delegado prosseguiu.
— Segundo o relato dela... houve tentativa de estupro.
Antônio riu. Um riso curto. Descrente. Quase ofensivo.
— Vocês acreditaram nessa estupidez? — Questionou Antônio. — Olhou um a um os policiais. — Meu filho jamais faria uma coisa dessas. — Apontou para os moradores. — Essas jovens viviam se oferecendo para ele, até foram a minha casa em Santarém. Fora que qualquer homem que aparece por aqui elas veem como uma oportunidade de sair desse mundo desprezível e quando são rejeitadas... Inventam mentiras e se julgam vítimas.
A policial responsável pelo atendimento aproximou-se. Sua expressão endureceu.
— Cuidado com as palavras, senhor. Ela é uma vítima. E há indícios físicos compatíveis com o depoimento. Tudo está sob avaliação da polícia.
Antônio deu um passo em sua direção.
— Eu quero falar com essa tal de Niara agora!
— Não. — Respondeu a policial prontamente.
— Eu exijo! — Insistiu ele.
— O senhor não vai constrangê-la. Ela está sob proteção policial. — Rebateu encarando-o nos olhos.
Atrás deles, um murmúrio percorreu novamente a comunidade. Antônio percebeu que ninguém ali parecia sentir pena dele. A dor daquele pai existia, contudo, para aquelas pessoas, ela chegara tarde demais. A multidão começava a se dispersar, mas os comentários permaneciam espalhados pelo ar, como folhas secas levadas pelo vento.
— A rasga-mortalha cantou a noite inteira... — murmurou um outro senhor de cabelos completamente grisalhos, apoiado num cajado improvisado. — Eu disse que desgraça vinha.
O idoso fez lentamente o sinal da cruz.
— E ainda teve o assobio que dona Dira escutou vindo do Bosque Araúna. — Acresceu outra senhora. — E foi dito e feito.
Foi nesse instante que uma senhora surgiu caminhando lentamente pelo antigo leito do Arapaima. Os passos eram seguros e não havia hesitação. O vestido escuro balançava discretamente com o vento, enquanto seus cabelos completamente grisalhos refletiam a luz do fim da tarde.
O senhor que encontrou o corpo franziu a testa e demorou alguns segundos para reconhecê-la.
— É dona Rosa... — Questionou ele.
— Ela não mora em Belterra? — Perguntou outra senhora.
— Mora no Maguari faz tempo. — Respondeu o senhor e em seguida abaixou a voz. — Mas sempre aparece aqui... É um alerta de quem alguém foi ou vai embora.
Enquanto isso, Rosa aproximou-se do local onde o corpo de Paulo estava, os policiais impediram a passagem. Ela sequer olhou para eles, seus olhos permaneciam presos em Antônio.
— Antônio!
O empresário ergueu lentamente a cabeça, enquanto o sangue desapareceu de seu rosto. Reconhecia aquela voz. Conhecia antes mesmo de enxergar aquele rosto, fingiu indiferença.
Rosa sorriu, um sorriso cansado e sem alegria.
— Esqueceste da funcionária mais antiga da fazenda dos Bernardi? — Aproximou mais. — Manda eles saírem do caminho antes que eu diga em voz alta aquilo que tu passaste todo esse teu tempo medíocre tentando esconder.
Antônio permaneceu imóvel, enquanto Júlio percebeu imediatamente a mudança de Antônio e depositou sua atenção em Rosa, Júlio percebeu medo nos olhos de Antônio.
— Deixem essa velha passar. — Ordenou Antônio.
Os policiais abriram caminho e Rosa aproximou-se, parando diante do corpo de Paulo. Olhou demoradamente para os olhos do rapaz e depois tornou a encarar Antônio.
— Esperei muitos anos por este dia.
— Do que a senhora está falando?
Ela não respondeu imediatamente e voltou a olhar para Paulo.
— A floresta também sabe esperar.
Antônio engoliu em seco.
— Meu filho morreu. — A voz falhou. — Por favor, um pouco mais de respeito.
Rosa levantou lentamente a cabeça.
— A minha filha também, recordas? E eu te fiz essa mesma pergunta. — Os olhos dela encheram-se de água, mas nenhuma lágrima caiu.
Antônio fechou os punhos.
— Basta.
— Tu lembras, não é?
— Por favor, chega. — Tentava não perder o controle.
— Tu lembras daquele dia. Do incêndio.... Na verdade, está sempre presente nessa tua mente escura.
— Cala a boca.
Ela deu mais um passo.
— O tempo enterra corpos. — Olhou para o antigo leito do rio. — Nunca enterra a verdade.
Antônio desviou os olhos. Respirava cada vez mais depressa.
Rosa continuou:
— O homem passa a vida dizendo que a floresta é vazia. — Sorriu tristemente. — Porque só acredita no que consegue comprar. — Olhou para as árvores. — Mas elas veem. — Outra pausa. — Elas guardam. — Mais uma pausa. — Elas lembram. — Os olhos voltaram para Antônio. — E um dia... — A voz tornou-se quase um sussurro. — Elas devolvem.
O empresário cambaleou um passo para trás.
— Essas histórias, dona Rosa... — Respirava com dificuldade. — Essas malditas histórias não existem.
— Existem sim! — Rosa respondeu sem alterar o tom. — Existem desde antes de nós. Desde antes dos Bernardi chegarem aqui e te levarem com eles. Desde antes deste rio secar. Desde antes desta comunidade existir.
O silêncio tornou-se insuportável.
Então ela aproximou o rosto do de Antônio, olhando dentro dos olhos dele.
— Não adianta destruir o Poço da Rainha, não adianta comprar terra, nem calar testemunhas. A mata continua lembrando.
Júlio observava sem compreender, mas absorvendo tudo.
Cada reação de Antônio confirmava que havia muito mais naquela conversa do que superstição. Aquilo era passado. Era culpa e medo.
Rosa fitou novamente Paulo.
— A tua paz acabou no dia em que teu filho colocou os pés nesta terra.
Depois olhou profundamente para Antônio.
— Assim como a minha acabou no dia em que tu mataste a minha filha.
— Como a senhora ousa me acusar...
Antes de Antônio concluir, uma bofetada estalou em seu rosto e a multidão se agitou comemorando o gesto de Rosa.
A polícia interviu. Um policial quis prendê-la.
— Vais me querer presa Antônio. Posso falar muito mais do que aquelas paredes da antiga fazenda sussurram.
Antônio respirou profundamente e disse:
— Deixem essa pobre coitada ir. Tirem-na da minha frente.
A polícia a afastou e Júlio e Célio puxaram Antônio pelos braços, tentando protege-lo dos moradores que avançavam.
Rosa virou-se para ir embora e parou apenas uma última vez, sem olhar para trás.
— Tu achaste que o rio tinha morrido, mas só estava esperando.
Nesse instante, uma revoada de pássaros escuros explodiu da copa das árvores do Bosque Araúna. As asas produziram um único som, grave e ritmado, como um coração gigantesco batendo sobre a floresta, ninguém falou, ninguém respirou. As aves desenharam círculos perfeitos acima de todos e em seguida desapareceram no céu.
Um frio percorreu a espinha de Júlio e Célio.
— Tu viste o que eu vi, Júlio?
— Eu acho que sim, Célio. — Respondeu surpreso.
Todas as pessoas que ali estavam, demonstravam surpresa.
Júlio teve a estranha impressão de que aquilo não era um voo. Era um aviso.
O carro do IML surgiu sobre a ponte, junto com uma viatura da polícia, que rompeu o silêncio. Ao mesmo tempo, jornalistas desciam apressados pela antiga escadaria de madeira.
Antônio ajoelhou-se novamente ao lado do filho e com delicadeza incomum, fechou-lhe os olhos, no entanto, eles tornaram a abrir. Escuros, profundos e vazios.
Célio recuou dois passos e disse:
— Ave-Maria... Seu Antônio. Será que ele está morto mesmo?
Rosa falou adiante:
— Ele está preso do Outro Lado. — E seguiu.
Ninguém ousou tocar novamente no corpo. Foi então que veio um estalo pequeno e seco. As pequenas pedras do antigo leito começaram a vibrar. Primeiro lentamente e em seguida com uma intensidade crescente, assemelhava-se a um pequeno terremoto. O chão parecia respirar, como se um enorme coração despertasse sob a areia.
Os moradores mais antigos empalideceram. Alguns recuaram assustados, enquanto outros caíram de joelhos.
A terra afundou lentamente, pedras deslizaram. Um som profundo percorreu o subsolo. Então... Uma única gota rompeu a areia, seguida de várias. Até que um fio cristalino de água surgiu entre a areia e pedras. Em poucos segundos, transformou-se numa pequena nascente. A água correu vagarosamente, contornando as rochas e seguiu exatamente o caminho que o velho Arapaima percorrera durante gerações.
Antônio aproximou-se como um homem em transe. Agachou-se e mergulhou a mão naquela água, era fria e límpida.
Naquele instante, não foi apenas o rio que voltou, as lembranças romperam a escuridão de sua memória com a mesma força daquela nascente. Uma após outra, sem pedir licença. Atrás dele, os peritos preparavam o corpo de Paulo para partir ante que a água o alcançasse.
Logo a frente, diante de todos, um rio renascia.
Rosa já caminhava distante, não olhou para trás, pois sabia que não precisava. Esperara anos por aquele momento e delineou um sorriso.
— Ela está entre nós novamente. — Disse feliz.
A floresta não esquecera, apenas aguardara o tempo certo para devolver aquilo que lhe haviam tomado.