Pular para o conteúdo

Estrela do Caos · O FILHO DO INVERNO — Valetius

Por Valetius

Uma deusa grega, renegada e odiada, deu à luz um filho com um mortal no pior ano da humanidade. O destino desse semideus no cosmos divino é incerto e sua jornada será marcada pelo caos. Ikarus Kaice é um semideus misterioso, filho da deusa do gelo. Ele cresceu detestando grande parte dos deuses, por serem tiranos, egocêntricos, abusadores e, principalmente, pelo dano que seu avô Poseidon e sua avó Deméter causaram a sua mãe, que foi injustiçada. A deusa do gelo e inverno quebrou regras quando decidiu que criaria sua prole até a maioridade, e no ano de 2021, ao iniciar a guerra dos deuses, em busca de seus próprios interesses, o semideus e sua mãe firmaram um contrato com os deuses. Aos vinte anos, Ikarus Kaice se torna um mercenário de Hera na guerra contra Zeus e Poseidon: a missão dele é resgatar uma semideusa de treze anos. Ikarus não é um herói. É frio por natureza e foi criado para ser impiedoso, por isso age da forma que melhor lhe convir e, mesmo que signifique causar a destruição de um país inteiro, ele não permitirá que ninguém se coloque entre ele e seus objetivos. Como alcançar a liberdade quando deuses regem o destino? Usar a força bruta, estratégia ou a pura manipulação? Em meio ao caos, qual será o destino do cosmos?

O FILHO DO INVERNO

Local: Rússia/ Oymyakon.

Data: 16 de abril de 2008

Horário: 5 horas

Três horas se passaram desde a explosão na casa. O fogo da explosão havia engolido a casa em chamas naquela fria madrugada. O brilho do sol nascia por entre as nuvens de um dia nublado, e ventos fortes vindos do oeste sopravam o fogo, acendendo brasas dos destroços. A casa de Ikarus não existia mais.

Ikarus sentiu uma gota de água cair em sua testa e escorrer pelo rosto. Ele abriu os olhos e viu o céu claro do dia que começava. Piscou os olhos algumas vezes, moveu os dedos e sentiu outra gota caindo em seu rosto, até que finalmente despertou.

O semideus encarava o céu, deitado sobre o para-brisa trincado da van; camadas de gelo e neve cobriam passivamente seu corpo, curando cortes, feridas e a exaustão física que antes sentia. O som dos cacos de vidro o alertou, então ele se levantou com cuidado para não se cortar e, ao conseguir, saiu de cima da van, caindo de joelhos sobre a neve.

O sangue dos ferimentos do semideus, assim como o de seus agressores, havia secado em seu pijama e em partes de seu corpo. Incrédulo com tudo que havia vivido, ele caminhou até parar em frente à sua casa. Ikarus via sua casa carbonizada, lágrimas se formavam em seu rosto. Ele não sentia o cheiro de sua avó ou pai com seu olfato aguçado, apenas carne queimada.

— Pai... vó! — chamou, olhando ao redor, procurando-os, mas a verdade já batia à porta de seu pequeno coração. — A-alguém... socorro! — gritou, olhando ao redor, mas não havia ninguém.

Sua casa ficava afastada do resto das casas de Oymyakon, mas não havia como a explosão não ter sido ouvida. Lágrimas rolavam pelo rosto de Ikarus.

— P-por quê... ninguém veio... ninguém veio me ajudar...? — Ikarus colocava as mãos trêmulas na cabeça, chorando. Os moradores deveriam ter ajudado. Eles eram boas pessoas, mas, por algum motivo, ninguém apareceu para socorrê-lo ou à sua família. — Mamãe... — chorava, clamando por Despoina.

O semideus ouviu uma tábua de madeira caindo na casa. Olhou e lembrou-se do corpo de seu pai baleado, de sua avó amordaçada, ferida e preocupada. Então, um misto de sentimentos começou a percorrer seu corpo. Ele sentia algo estranho acontecendo.

A dor da perda, a ira, o desejo de vingança e a tristeza por saber que ninguém da vila veio em seu auxílio despertaram algo que estava adormecido dentro dele. O corpo dele começava a resfriar ainda mais do que o normal para um filho de uma deusa do gelo; camadas de gelo se formavam em seu rosto; seus olhos cristalinos brilhavam em um tom branco; o vento que soprava do oeste se intensificava; e as lágrimas nos olhos de Ikarus esfarelavam-se em minúsculos pedaços de gelo. O garoto cerrava o punho, e as veias em seu corpo dilatavam-se, brilhando em tons de azul e branco.

— Argh... ahh... ROAHHH!!!, WOAAAAAA!!!

Em um grito de fúria, A natureza divina destrutiva

em Ikarus acordava de vez.

A temperatura do vilarejo de Oymyakon caía gradativamente; a umidade do ar era substituída por pequeninos fragmentos de gelo, que eram inalados por todos os moradores da vila. Esses fragmentos chegavam aos pulmões, congelando-os e cortando o tecido, ocasionando hemorragia pulmonar.

Em algumas casas do vilarejo, moradores saíam em busca de ajuda: alguns carregavam seus bebês no colo, outros tentavam ligar seus snowmobiles para dirigir até a médica local, mas morriam antes de conseguir. Ao tentar fugir, vomitavam sangue e tossiam pelas ruas, desesperados, tingindo a neve branca no chão com um tom vívido de vermelho sangue. O silêncio que antes dominava as manhãs gélidas de Oymyakon agora era preenchido por gritos abafados e o som da neve sendo tingida de vermelho.

A cidade, composta por pouco mais de quinhentos habitantes, diminuía a cada segundo; fosse homem, mulher ou criança, todos eram afetados pela catástrofe de origem divina. Até que, por fim, toda a população da cidade russa de Oymyakon foi dizimada pelo “fenômeno natural”, que seria identificado semanas depois pelos cientistas como “Pó de diamante”. Nesse fenômeno, os pulmões se rasgavam em colapso pela inalação de fragmentos gélidos estranhamente solidificados com minerais resistentes à temperatura corporal humana.

Poucos minutos se passaram, e, no centro da cidade, uma criança caminhava entre os corpos espalhados pelas ruas, descalça, com seu pijama azul-claro sujo de sangue, cinzas, neve e gelo. Ikarus estava irado, e não se importava com aqueles corpos. Ele havia perdido sua família, estava sozinho e não se importava com mais nada além deles. O vento do oeste soprou novamente, balançando os cachos da cabeça da criança. Uma figura masculina estava parada no meio da larga rua de neve por onde Ikarus caminhava.

O vento carregava consigo um aroma doce e perturbador, como uma flor que murcha. De repente, ele estava ali — alto, imponente, com um sorriso que não parecia humano. Era um homem belo, loiro, com cabelos lisos num penteado impecável. Seus olhos rosados brilhavam, e Ikarus imediatamente sentiu um cheiro único: "flores, frescor". Sem sequer olhar para ele, Ikarus passou esbarrando no homem e continuou o caminho reto que havia traçado.

O homem deu um largo sorriso psicótico e passou a língua no lábio inferior, enquanto ouvia os passos do garoto se afastando. O vento vindo do oeste soprava pétalas de rosas na direção do semideus, que dançavam em volta de seu corpo. Ikarus parou para observar com seus olhos cristalinos, ainda brilhando com os sentimentos de raiva.

— Você tem que tomar cuidado! Esbarrar em alguém, sem pedir desculpas, e ainda por cima dar as costas, tão frio... Parece até sua mãe... — o homem disse com uma voz chorosa.

Ikarus ouviu o som de bater de asas e, instintivamente, olhou para trás, para ver algo que nunca havia visto antes em sua existência. O sorriso do deus alado ampliou-se, como se esperasse algo de Ikarus. A provocação parecia ecoar no vento, e por um momento, o tempo congelou.

O homem vestia apenas roupas brancas, era muito alto, o que mais chamou a atenção do semideus foi o fato de que aquele ser tinha asas e olhos cor-de-rosa. Ikarus soube no mesmo momento: era uma divindade, um deus alado. Lembrou-se das aulas com Elliot e sua avó: algumas divindades possuíam asas, mas eram pouquíssimas. O deus perguntou ao semideus:

— Sua mamãe, a Despoina, ela não te deu educação?

Em seguida, ele caminhou em direção a Ikarus. Antes que o pequeno pudesse desviar, a divindade o pegou pelo pescoço.

— Calma, deixa eu pelo menos me apresentar — o deus falou para Ikarus, apertando o pescoço do garoto, que se debatia tentando se soltar. Os flocos de neve começavam a rodopiar em volta do corpo de Ikarus na tentativa de auxiliá-lo, mas o vento os lançava para longe.

— Meu nome é Zéfiro, um dos quatro deuses do vento. Sou uma divindade da primavera, filho do titã Astraeus e da titã Eos, e um inimigo da sua mamãezinha.

Ele apertava o pescoço do semideus, trazendo-o para perto de si. Ikarus via os olhos rosados do deus, que estavam envoltos em fúria e psicose. Zéfiro continuou:

— O gelo frio e invasivo dela sempre afeta meus domínios e os dos meus irmãos. Sabe como é, pequeno. Nada pessoal com você, mas senti sua energia e vim correndo ver se era a Despoina. Você é um achado e tanto — disse, com uma voz chorosa, enquanto cheirava os cabelos de Ikarus.

O deus revirava os olhos ao sentir a essência divina do semideus, que se debatia tentando soltar-se, até que, por fim, o pequeno cerrou o punho, envolto por uma fina camada de gelo. Apertou os olhos e com grande determinação, desferiu um soco no rosto de Zéfiro. Os olhos cristalinos de Ikarus brilharam ainda mais conforme uma expressão de raiva invadia seu rosto até então sereno.

Zéfiro viu o punho de Ikarus vindo em sua direção e deixou que o semideus o acertasse, pois queria ver o quão forte o pequeno era. Ao receber o golpe, virou o rosto com o impacto. Conforme a fina camada de gelo no punho do semideus se estilhaçava, Zéfiro sorria largamente, excitado com a força de vontade do pequeno.

— Own, que maravilhoso! — gemeu, olhando profundamente nos olhos cristalinos e brilhantes do semideus. O deus revirava os olhos e abraçava Ikarus com força, sentindo o corpo do pequenino e toda a força divina que fluía dele. Com uma voz manhosa e ao mesmo tempo ansiosa, ele falou:

— AMO essa expressão de horror...

Zéfiro estava completamente excitado com a evolução divina que Ikarus estava apresentando, o pequeno emanava seus dons conforme o sentimento de ira aumentava em sua alma. Ele resmungou, gemendo entre os dentes:

— Oh!... eu vou me controlar! Ainda não é a hora certa...

Passando a língua entre os lábios, o deus continuou falando:

— Sabe, queria tantooo te devorar, tenho que esperar para te mataaarr awwnn! QUE TÉDIO!

Ele afastou o semideus para olhar novamente o rosto do pequeno, que não entendia o que estava acontecendo, mas lutava pela própria vida.

— Todas as minhas primaveras, sua mamãezinha sempre, sempre destruiu as minhas, as da Perséfone, da Deméter... ela é tão maldosa... vive interferindo em nossos domínios... — dizia choroso, fazendo um beicinho enquanto tocava o rosto de Ikarus com a ponta dos dedos. — Aquela puta fez muitas coisas terríveis — Zéfiro murmurou, quase como uma confidência. — Interferiu nos nossos domínios, destruiu nossos altares... E agora, você vai pagar por isso em nome daquela cadela sarnenta.

— Me solta! — Ikarus gritou, tentando morder, chutar, socar a divindade que o segurava. O semideus não fazia ideia do que estava acontecendo.

Zéfiro era um dos quatro ventos, filho de dois titãs. Ele tinha funções específicas no mundo divino. Não era uma grande divindade, mas ele e seus irmãos, Bóreas, Notus e Eurus, eram reconhecidos por todas as divindades. Os quatro ventos eram inimigos naturais de Despoina: Zéfiro era uma divindade da primavera; Notus, do verão; Eurus, do outono; e Bóreas, líder dos quatro ventos, era uma divindade do inverno e rival de Despoina.

Desde os primórdios, Despoina causava problemas aos quatro ventos, interferindo em suas estações. A presença da deusa lutava contra a de Bóreas, sobrepondo o gelo dele com seu próprio gelo e inverno destrutivo. Enquanto eles faziam parte de um ciclo, Despoina era a quebra dele, engolindo seus domínios com o próprio. A mãe de Ikarus havia feito coisas terríveis para os quatro ventos no passado. Despoina, em seu anseio por poder, desafiou os deuses, matando seus cultistas e destruindo altares e templos de adoração. Uma longa e misteriosa história, que ocorreu há muito tempo e foi arrastada até os dias atuais, resultou em uma guerra por vingança, poder e territórios no mundo divino e mortal.

— Vou levar você comigo até a Hiperbórea. Lá, vou ver você crescer, ficar forte... até a hora de devorar você todinho! — Zéfiro falou com um sorriso.

O deus imaginava como seria a cara de Despoina vendo o filho dela ser torturado pelos rivais que ela tanto detestava.

— Sua morte vai ser nossa diversão... — Zéfiro disse. Ele estava impressionado por Despoina ter um filho; a excitação que a divindade sentia em sua carne ultrapassava os próprios limites de seu egocentrismo divino.

Nos tempos antigos, Zéfiro ficou conhecido por assassinar friamente um filho de Apolo em uma competição amigável. Dos quatro ventos, ele era o irmão mais belo e, infelizmente, o mais psicótico, para o azar do semideus.

— Own, hum... owmm... — gemeu, revirando os olhos, perdido em pensamentos caóticos e lascivos, enquanto apertava a garganta de Ikarus, que soltava o ar.

Os dedos de Zéfiro afundavam na carne do pescoço de Ikarus como garras afiadas, e cada tentativa do garoto de respirar parecia arrancar pedaços de sua alma. Um momento ele estava sorrindo, no outro, seus olhos reviravam como se estivesse possuído por uma raiva antiga.

— Oh, como eu esperei por isso — ele murmurou, quase como uma criança em êxtase, antes de apertar ainda mais o pescoço de Ikarus.

O garoto esperneava, procurando uma maneira de fugir. Zéfiro afrouxou o estrangulamento, permitindo que o semideus puxasse ar para os pulmões novamente, e disse:

— Já sei! Vou te devolver o soco que me deu!

O deus do vento e da primavera sorria de forma doentia. Seus olhos reviravam novamente; era notório o quão excitado ele estava com a tortura do semideus. A vingança que Zéfiro estava planejando contra Despoina seria digna de entrar para a história do cosmos divino.

— Por favor, sobreviva a este soco, garoto! — O deus apertava o punho, erguendo ainda mais o semideus no ar; ele estava preparando o golpe certeiro.

Ikarus instintivamente contraía o abdômen, colocando a mão no estômago para se proteger. Zéfiro desferiu o golpe que cortava o ar em alta velocidade; em uma fração de segundo, atingiu o peito do semideus, evitando a defesa do pequeno.

BLAM!!!