Sete Dias para Não Morrer
Achei que, depois de Hermes me chamar de Décimo Terceiro diante da cidade inteira, a Assembleia terminaria. Seria justo. Minha vida já tinha sido arruinada diante de gente suficiente.
Mas deuses podiam mudar as regras. Não dispensavam cerimônias.
Atena entregou a praça de volta a Hermes com um gesto. Depois se virou para o templo. Os sacerdotes abriram caminho de joelhos, alguns chorando enquanto repetiam os títulos da deusa, e ela passou entre eles sem olhar para os lados. Quando as portas se fecharam, ninguém se levantou de imediato.
Até a ausência dela parecia ocupar espaço.
Hermes soltou meu pulso. Puxei a manga depressa para cobrir a pele antes que o braço caísse junto ao corpo. A marca dos dedos de Zeus latejou sob a manga. A multidão continuava gritando meu nome, mas eu já não entendia por quê. Parte daquelas pessoas me tratava como se eu tivesse vencido alguma coisa. Eu só conseguia pensar que ainda nem tivera tempo de perder.
O deus ergueu uma das mãos.
O barulho diminuiu aos poucos. Primeiro perto da plataforma, depois nas escadarias e, por fim, nos cantos mais distantes da praça. Quando Hermes falou, já era possível ouvir as chamas das piras estalando.
— Os escolhidos foram apresentados. Como manda a tradição, cada campeão terá um mestre durante os sete dias que antecedem a partida.
Sete dias.
Até então, o Grande Agón era uma coisa distante. Acontecia a cada dez anos, longe de Atenas, com pessoas que pareciam ter nascido sabendo empunhar uma espada. Sete dias transformavam uma história numa contagem.
Olhei para os outros campeões.
Na plataforma, a diferença entre mim e os outros escolhidos de Atenas ficava pior. Nenhum deles era criança. O mais novo tinha quinze anos; eu ouvira sua idade quando os sacerdotes recitaram seu nome. Ainda assim, tinha os ombros largos, braços endurecidos pelo treino e a postura de quem aprendera havia muito tempo onde colocar os pés durante uma luta. Os demais eram mais velhos. Alguns usavam o cabelo curto dos soldados; outros exibiam cicatrizes, calos nas mãos ou símbolos das casas que haviam pago por sua preparação.
Eu tinha dez anos, um joelho ralado e cinco manchas arroxeadas no braço.
Hermes começou pelo primeiro nome. Antes mesmo de terminar de pronunciá-lo, um instrutor militar se apresentou. Para a campeã seguinte, levantou-se uma sacerdotisa. Depois veio uma mulher cujo rosto eu reconhecia das placas próximas às arenas, uma antiga representante de Atenas que possuía até uma estátua pequena.
Quase todos já sabiam quem se levantaria por eles. Aquilo também fora preparado durante anos.
Mestres subiam os degraus, ficavam atrás de seus escolhidos e recebiam a aprovação de Hermes. Famílias choravam. A praça aplaudia. Alguns dos campeões mantinham o rosto sério, mas sabiam para onde olhar e como ficar parados enquanto seus nomes eram celebrados.
Eu não sabia o que fazer com as mãos.
Procurei minha mãe. Melissa continuava no mesmo lugar, impedida de se aproximar pelos guardas. Nélios estava ao lado dela. Minha mãe chorava sem fazer barulho. As lágrimas apenas escorriam, e ela não as enxugava. Era pior assim.
Hermes avançou pela fileira até parar diante de mim.
A praça ficou quieta outra vez.
— Thaniel de Atenas — chamou ele. — Quem o preparará para o Grande Agón?
Olhei para o deus.
— Não sei...
Não era uma boa resposta, mas era a única que possuía.
Hermes voltou-se para a multidão.
— Quem, entre os cidadãos de Atenas, se oferece para preparar o Décimo Terceiro?
Ninguém levantou a mão.
Os instrutores militares evitaram olhar uns para os outros. Os antigos combatentes permaneceram imóveis. Um homem que se apresentara para outro campeão poucos minutos antes abaixou a cabeça, como se pudesse ser escolhido de novo por engano.
Não fiquei ofendido. Seria preciso uma pessoa muito corajosa ou muito tola para ligar o próprio nome ao meu. Talvez as duas coisas.
Hermes esperou.
O silêncio cresceu até alcançar minha mãe. Vi quando ela olhou para Nélios.
Ele não se moveu de imediato. Seu maxilar se contraiu uma vez. Depois soltou o ar pelo nariz e ergueu a mão.
— Eu.
Nélios avançou pelo espaço diante da plataforma com as mesmas roupas de comerciante daquela manhã. Não trazia espada, armadura nem símbolo de prestígio. Levava apenas a expressão de quem acabara de aceitar um negócio ruim porque ninguém mais pisaria na loja.
Hermes o esperou subir.
— Seu nome.
— Nélios.
— Ocupação.
Ele demorou um instante.
— Comerciante.
Algumas pessoas riram. Nélios nem piscou.
— Já preparou um campeão? — perguntou Hermes.
— Não.
— Então por que se apresenta?
Nélios lançou um olhar breve para mim.
— Porque ninguém mais se apresentou.
As risadas não voltaram.
Hermes inclinou um pouco a cabeça.
— Isso explica sua decisão. Não sua capacidade.
— Sei lutar.
— Quanto?
— O bastante para saber que ele não tem tempo a perder.
A resposta não pareceu impressionar Hermes. Também não pareceu desagradá-lo. O deus observou Nélios por alguns segundos, e o velho sustentou seu olhar sem baixar a cabeça.
— Você compreende a responsabilidade que assume a partir de agora?
— Compreendo.
— E terá de responder pelo uso dos espaços e recursos reservados aos escolhidos.
— Entendido.
Hermes se voltou para mim.
— Alguma objeção?
Nélios mantinha o rosto impassível. Eu o conhecia havia tempo suficiente para perceber a preocupação escondida ali, justamente porque quase nunca aparecia.
— Não.
— Então está feito.
Nélios veio ficar atrás de mim. Não colocou a mão em meu ombro nem disse que tudo daria certo. Fiquei grato pelas duas coisas.
A cerimônia continuou. Houve juramentos, bênçãos e uma passagem do Livro da Salvação que todos os escolhidos precisaram repetir. Os outros falaram em voz alta. Eu tentei acompanhar, mas as palavras se misturavam ao que Zeus dissera no templo.
"Você não sabe o que carrega?"
Passei os dedos sobre a manga. Meu braço ainda doía.
O artefato marcara zero. Zeus tocara alguma coisa dentro de mim e recuara. As duas coisas não cabiam juntas, por mais que eu tentasse empurrá-las para o mesmo lugar.
Quando me lembrava do rosto dele, a palavra que voltava era medo.
Eu não gostava dela. Zeus era o rei dos deuses. Eu era um menino que trapaceara para terminar em último e conseguira fazê-lo sem esforço demais. Podia ter surpreendido ou irritado Zeus. Assustá-lo parecia impossível.
Mesmo assim, a palavra voltava.
Os sinos anunciaram o fim da Assembleia. Um sacerdote passou diante da fila e entregou a cada escolhido uma pequena medalha de bronze com a coruja de Atena. Recebi a minha por último.
Ela pesava pouco. Ainda assim, minha mão desceu quando a colocaram sobre minha palma.
As barreiras em torno da plataforma foram abertas. Minha mãe atravessou o espaço antes que os guardas terminassem de se afastar. Chegou até mim, segurou meu rosto e me virou para um lado e para o outro.
— Deixe eu olhar para você.
— Estou inteiro.
Ela apalpou meus ombros, minhas costelas e os braços como se esperasse encontrar uma parte faltando. Quando tocou a mancha deixada por Zeus, recuei.
Melissa puxou minha manga.
Cinco marcas arroxeadas cercavam meu braço.
— Quem fez isso?
Olhei para as pessoas ao redor. Até eu sabia que era melhor não conversar ali. Havia ouvidos demais perto de nós.
— Eu conto em casa.
Ela encarou as marcas por mais um instante e cobriu meu braço de novo. Só então pareceu lembrar tudo o que acontecera antes de eu desaparecer no templo.
— Você ficou em último — disse. — O artefato marcou zero!
— Eu sei.
— Você nem estava entre os vinte e quatro.
— Mãe...
— Eles não podiam escolher você!
A voz dela falhou na última palavra. Melissa me puxou contra o peito com tanta força que fiquei sem ar.
— Nós fizemos tudo certo — sussurrou. — Tudo.
Retribuí o abraço. Não sabia o que dizer. Naquela manhã, eu tinha acreditado que perder seria o bastante para voltar para casa. Minha mãe também. Era difícil encontrar consolo depois que os deuses decidiam que as regras só valiam até deixarem de servir.
— Eles não escolheram você — disse ela, ainda me segurando. — Eles levaram você.
Nélios parou a poucos passos. Olhou para meu braço coberto, depois para o rosto de minha mãe.
— Melissa.
Ela me soltou e se virou para ele.
— Você sabia? Sabia que isso podia acontecer?
— Não.
— Então por que se ofereceu?
— Porque ele precisava de alguém.
— Ele precisa ficar em casa.
Algumas pessoas começaram a observar. Nélios notou antes de mim.
— Primeiro vamos sair da praça.
— Não me peça calma.
— Não pedi. Pedi que não falemos diante de metade de Atenas.
Melissa olhou ao redor. Havia sacerdotes descendo as escadarias, soldados abrindo passagem e curiosos tentando chegar mais perto de mim. Ela segurou minha mão.
Nélios nos conduziu por uma rua lateral do templo. Só parou quando os sinos e os gritos ficaram um pouco mais distantes. Minha mãe caminhava depressa demais e respirava como se tivesse corrido.
— Ele está aqui — disse Nélios. — Olhe para ele. Está machucado, mas está aqui. Respire antes de decidir qualquer coisa.
Melissa respirou uma vez. Não ajudou muito.
— Saímos antes do amanhecer — disse ela. — Pelo portão do sul. Ou pelo porto. Não importa.
Nélios ficou imóvel.
— Melissa...
— Eu conheço gente fora da cidade.
— E colocaria todos eles em risco.
— Melhor do que entregá-lo.
— Antes da seleção, fugir das preliminares já seria uma ofensa contra a pólis e o templo. Agora ele foi reconhecido diante de Zeus, Atena, Hermes e milhares de testemunhas. Se desaparecer, será desertor do Grande Agón.
— Ele tem dez anos.
— A lei não vai se importar.
— Então que venham atrás de mim.
— Não seria só de você.
Nélios falou sem aumentar a voz. Isso obrigou minha mãe a ouvi-lo.
— Desertar depois da escolha é sacrilégio e traição contra a cidade. Quem ajudar pode perder casa, cidadania e liberdade. Se o sacerdócio decidir que houve conspiração, não haverá julgamento comum.
Eu conhecia as histórias. Todo aluno conhecia, embora os professores sempre as chamassem de advertências, não de histórias.
Uma dizia que Zeus pulverizara uma família inteira perto dos portões de Tebas. Outra dizia que um escolhido fugira para uma ilha e nunca mais fora visto. Havia ainda a do rapaz que teria chegado a terras estrangeiras antes de os sacerdotes encontrarem seus cúmplices e fazê-los desaparecer. As versões mudavam conforme quem contava. Em algumas, os deuses castigavam. Em outras, eram os homens do templo.
Nenhuma terminava com alguém livre.
— Ele não precisaria saber para onde fomos — disse minha mãe.
Olhei para ela.
— Zeus saberia.
Melissa se calou.
— O que quer dizer? — perguntou Nélios.
— Antes de sair do templo, ele disse que, a partir de agora, saberia onde eu estivesse.
O rosto de Nélios não mudou. Seus olhos, sim.
Minha mãe apertou minha mão com mais força.
— Ele ameaçou você?
— Acho que sim.
Eu não precisava achar. Mas dizer parecia pior.
Melissa encostou a outra mão na parede. Por um instante, pensei que cairia.
— Então não há para onde eu levá-lo — disse ela.
Nélios demorou antes de responder.
— Não sem tornar tudo mais perigoso.
— E você espera que eu simplesmente aceite?
— Não. Espero que você o apoie.
Ela ergueu o rosto. Havia raiva ali, mas a raiva parecia estar segurando alguma coisa pior.
— Apoiar? — esbravejou. — Apoiar essa loucura?! Meu pai também foi chamado de escolhido. Disseram que era uma honra quando o levaram. Eu esperei por ele até entender que ninguém voltaria para dizer que estava morto.
Nélios baixou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Agora fizeram o mesmo com meu filho — o choro dela retornou com força. — Meu menino...
— Eu sei.
— Não diga isso como se bastasse!
— Não basta.
Melissa passou a mão pelo rosto. Quando tornou a falar, sua voz estava baixa.
— Ele vai morrer.
Nélios olhou para mim. A resposta demorou, e eu soube que ele estava escolhendo uma verdade que não piorasse tudo.
— Não vou prometer que ele vencerá — disse. — Também não vou prometer uma coisa que não controlo. Posso prometer que Thaniel não passará esta semana sozinho e que usarei cada hora que tivermos para aumentar as chances de ele voltar.
— Sete dias — murmurou ela.
— Sete dias.
— Como pretende prepará-lo em sete dias?
Ele olhou para mim.
— Não sei.
Outra resposta ruim e honesta. Naquela noite, eu começava a preferir as ruins.
Minha mãe olhou para mim, depois para Nélios.
— Ele confia em você.
— Sei disso.
— Então não esconda de mim o que pretende fazer.
O velho assentiu.
— Voltarei à casa de vocês quando fechar a loja. Quero ouvir tudo o que aconteceu no templo antes de decidir por onde começamos.
— E até lá?
— Leve-o para casa. Dê comida a ele. Não deixe ninguém entrar.
Melissa quase respondeu que não precisava de ordens. Em vez disso, apenas tornou a segurar minha mão.
Nélios me lançou um olhar que desceu até a medalha de bronze.
— Guarde isso.
— Por quê?
— Porque metade da cidade vai querer tocar e a outra metade vai querer roubar.
Foi a coisa mais próxima do Nélios de sempre que ouvi naquela noite. Durou pouco.
O caminho para casa demorou mais do que deveria. Atenas inteira já sabia meu nome.
Algumas pessoas queriam me tocar como se um pouco da escolha dos deuses pudesse passar para elas. Uma senhora beijou minha testa e me chamou de abençoado. Um homem amarrou uma fita dourada em meu pulso. Duas crianças começaram a me seguir até Melissa afastá-las com um olhar.
Outros não celebravam.
— É ele? — ouvi uma mulher perguntar.
— O que ficou em último.
— Zeus viu alguma coisa nele.
— Ou cometeram um erro.
Quem disse isso foi um homem já velho. A filha agarrou seu braço e olhou depressa para os sacerdotes que passavam do outro lado da rua.
— Pai, cale a boca.
Mais adiante, alguém comentou que eu não duraria a primeira prova. Outra pessoa respondeu que era pecado duvidar de uma escolha feita diante de Atena. Um vendedor me chamou de favorito dos Doze; um soldado disse, baixo demais para pensar que eu ouviria, que tinham condenado uma criança.
Cada um parecia enxergar uma coisa diferente quando olhava para mim. Bênção. Erro. Milagre. Castigo.
Eu continuava sendo eu, o que não ajudava nenhuma das versões.
Havia vinho, música e fogueiras pelas ruas. Uma menina que não devia ter mais de oito anos ajudava o pai numa banca. Erguia dois dedos e as taças saíam sozinhas da bandeja, desviavam das pessoas e pousavam nas mãos dos compradores. Ela ria quando alguém tentava pegá-las antes da hora.
Abri a mão. A coruja de bronze estava no centro da palma.
Mandei que se erguesse.
Ela não se mexeu.
Tentei outra vez, só para ter certeza de que meu primeiro fracasso não fora pouco convincente.
Nada.
Não era inveja. Era apenas vontade de possuir exatamente o que outra pessoa possuía. Talvez minha mãe estivesse certa sobre eu precisar prestar mais atenção às palavras na escola.
Fechei os dedos em torno da medalha.
Naquela manhã, não ter Dom parecera uma proteção. Agora eu estava cercado por campeões mais velhos, todos treinados e com Dons reconhecidos, e minha ausência de qualquer coisa especial deixara de parecer segura. Parecia apenas mais uma parte de mim que não estava pronta.
Minha mãe manteve a mão em minhas costas até entrarmos em casa. Trancou a porta, fechou as janelas e conferiu a fechadura duas vezes. A madeira era a mesma de sempre. Eu duvidava que isso importasse para Zeus.
Sentei à mesa. Melissa colocou a lamparina perto de mim e puxou minha manga outra vez.
— Agora conte.
Contei desde o momento em que Hermes me levara para dentro do templo. Falei das portas que se fecharam, das perguntas de Zeus e da mão dele apertando meu braço. Repeti o que dissera sobre o artefato e sobre alguém ter colocado alguma coisa em mim. Deixei por último as palavras sobre eu não dever existir.
Minha mãe ficou pálida.
— Ele disse que você não devia estar ali?
— Disse que isso não devia existir.
— Isso o quê?
— Eu perguntei. Ele não respondeu.
Melissa sentou diante de mim.
— Seu pai nunca manifestou um Dom forte. Eu não tenho nenhum. Seu avô tinha, mas não era uma coisa que pudesse assustar Zeus.
— Talvez Zeus não estivesse assustado.
— Você acha que estava?
Olhei para as marcas no braço.
— Não sei.
Era mentira, ou quase. Eu achava. Só não compreendia como podia ser verdade.
— Eu não tenho nada — falei. — O artefato mostrou isso.
Minha mãe cobriu minha mão com a dela.
— Eu vi.
— Então por que ele me escolheu?
Ela não respondeu. Eu preferia quando os adultos mentiam melhor.
Bateram três vezes à porta.
Melissa levantou tão depressa que a cadeira raspou no chão. Só abriu depois de Nélios dizer o nome. Ele entrou carregando pão, queijo, azeitonas e um embrulho que cheirava a carne assada.
— Vocês não comeram — disse.
— Como sabe? — perguntou minha mãe.
— Porque ninguém pensa direito com medo. Com fome, fica pior.
Pôs a comida sobre a mesa e fechou a porta atrás de si.
Eu não fazia ideia de como alguém começava a preparar uma criança para não morrer. Pelo jeito, começava com jantar.
Nélios não fez perguntas enquanto comíamos. Esperou até Melissa empurrar meu prato de volta pela segunda vez e eu terminar o pão. Então se sentou diante de mim e estendeu a mão.
— O braço.
Mostrei. Ele examinou as marcas sem tocá-las.
— Conte desde a entrada do templo. Não resuma e não tente adivinhar o que considero importante.
Contei tudo outra vez.
Nélios interrompia apenas para fazer perguntas curtas. Onde Zeus estava quando a pedra rachou? Em qual braço tocara? Eu sentira dor antes ou depois de ele apertar? O calor viera da mão dele ou de dentro de mim? O artefato reagira de algum modo diferente quando eu o tocara?
— Não — respondi pela quarta ou quinta vez. — Só marcou zero.
— Teve tontura? Ouviu alguma coisa?
— Não.
— Perdeu algum trecho do que aconteceu?
— Não.
Ele olhou para minha mãe.
— Quando era menor, aconteceu algo que vocês esconderam? Febres sem causa, ferimentos estranhos, objetos quebrados perto dele?
— Não.
— Algum Dom que apareceu uma vez e não voltou?
— Não.
— Na família do pai?
— Nada desse tipo.
Nélios tornou a olhar para mim.
— E você? Escondeu alguma manifestação de sua mãe?
— Não tenho o que esconder.
— Isso não foi o que perguntei.
— Não.
Melissa se inclinou sobre a mesa.
— Você estava lá, Nélios. Viu o artefato marcar zero, como todos nós.
— Vi o que ele mostrou.
— E mesmo assim acha que Thaniel está escondendo alguma coisa?
— Acho que Zeus sentiu algo que o artefato não encontrou. Quero saber se houve algum sinal antes de hoje.
— Não houve.
Nélios ficou em silêncio. Nele, silêncio quase nunca significava falta de palavras. Significava que não gostava das que tinha.
— O que você sabe? — perguntei.
— Menos do que preciso.
— Essa é uma resposta de comerciante.
— E você faz perguntas demais para alguém que ainda vai precisar acordar cedo.
— Então sabe alguma coisa.
Ele estreitou os olhos.
— Você sabe como chatear alguém, garoto.
— Já disse isso hoje.
— E você continua merecendo ouvir.
Minha mãe não sorriu. Nélios também não. A brincadeira terminou antes de ficar parecida com uma.
Ele apoiou os antebraços na mesa.
— Quanto das preliminares foi fingimento?
— Corri mais devagar. Soltei o peso antes de precisar. No combate, deixei muitas aberturas.
— Muitas quantas?
— O suficiente.
— Essa é uma resposta de comerciante.
Eu sorri.
— Eu queria perder.
— Conseguiu. Quero saber do que seria capaz se não quisesse.
— Melhor do que fiz hoje.
— Isso ainda não é uma medida exata.
Baixei os olhos para minhas mãos. Eram pequenas sobre a mesa. Nunca tinham me incomodado antes.
— Eu não sei.
Nélios assentiu como se, enfim, eu tivesse dado uma resposta útil.
— Então descobriremos amanhã.
— E depois? — perguntou minha mãe.
— Depois trabalharemos com o que ele tiver.
— Em sete dias?
Nélios olhou para mim dos pés à cabeça. Não havia crueldade em seu rosto. Isso tornou o que veio em seguida mais difícil de ignorar.
— Em sete dias, não faço dele um guerreiro. Não acrescento peso ao corpo, alcance aos braços nem anos de treino. O mais novo dos outros escolhidos de Atenas tem quinze anos e já foi preparado para isso. Thaniel não recupera cinco anos em uma semana.
Meu estômago apertou.
Eu sabia de tudo aquilo. Sabia desde que olhara para a fila. Ouvir Nélios dizer em voz alta fez as diferenças ganharem tamanho.
— Então não há nada a fazer — disse minha mãe.
— Há. Só não vou fingir que isso basta. Posso ensiná-lo a cair sem se quebrar, a perceber um golpe antes de recebê-lo e a não gastar força tentando vencer alguém mais pesado do modo errado. Posso descobrir se ele é tão esperto quanto pensa e se é observador numa luta tanto quanto demonstra ser para outras coisas.
— E se uma prova exigir força? — perguntei.
Nélios não desviou o olhar.
— Você estará em desvantagem.
— E se eu tiver de lutar com um adulto?
— Também.
— Está ajudando muito.
— Eu disse que seria sincero.
Eu não lembrava de ter pedido, mas talvez tivesse feito isso todas as vezes que não aceitava uma resposta ruim.
— Nosso primeiro objetivo é mantê-lo vivo — continuou. — O segundo é descobrir por que Zeus o colocou entre os escolhidos. Talvez uma coisa ajude na outra. Talvez não. Até sabermos, você não contará a mais ninguém o que aconteceu no templo.
— Nem aos sacerdotes? — perguntou Melissa.
O rosto de Nélios ficou mais duro.
— Principalmente a eles.
Havia raiva em sua voz. Não era alta, mas eu a reconheci. Sempre que os deuses ou seus templos entravam numa conversa, alguma coisa mudava no rosto dele.
Minha mãe também percebeu.
— Por quê?
— Porque Zeus já sabe. Não precisamos oferecer a mesma informação a homens que podem decidir usá-la antes de entendê-la.
Foi tudo o que explicou.
Nélios se levantou.
— Amanhã, ao nascer do sol, na loja.
— Na loja? — perguntei.
— No depósito.
— Entre os sacos de farinha?
— Se falar muito, debaixo deles.
Minha mãe cruzou os braços.
— Quanto tempo?
— Até eu saber o que ele realmente consegue fazer. Depois traço um plano.
— E eu vou vê-lo.
Nélios assentiu.
— Vai.
Ele recolheu a sacola vazia. Antes de abrir a porta, olhou para mim.
— Durma.
— Vou tentar.
— Tente com mais competência.
Normalmente eu teria respondido. Naquela noite, estava cansado demais até para provocar um velho rabugento, o que talvez fosse a primeira prova de que a situação era grave.
Depois que ele saiu, minha mãe ficou parada diante da porta.
— Ele sabe mais do que está dizendo — falou.
— Nélios sempre sabe mais do que diz. Te incomoda?
— Hoje, quase tudo me incomoda.
Ela voltou para a mesa e passou os dedos por meus cabelos. Tentei não recuar. Era o tipo de gesto que fazia comigo desde pequeno, embora eu ainda fosse pequeno e só tivesse começado a reparar nisso porque, de repente, todos pareciam achar importante.
— Mãe.
— O quê?
— Estou com medo.
Seus dedos pararam.
— Eu também.
Não era a resposta que eu queria.
Fui para a cama tarde. Dormir foi outra coisa.
A rua continuava barulhenta. Atenas celebrava seus campeões com música, vinho e meu nome gritado por desconhecidos. Deitado, eu segurava a medalha sobre o peito e imaginava a fila na plataforma.
O campeão de quinze anos voltava toda vez. Os braços dele pareciam pertencer a alguém ainda mais velho. Quando Hermes o chamara, seu mestre se apresentara antes que o eco do nome desaparecesse. Ele tivera anos para aprender a ficar de pé, atacar e usar o Dom que possuía.
Eu teria sete manhãs.
Sete dias podiam me ensinar a cair melhor. Não podiam acrescentar cinco anos aos meus ossos.
Estendi a mão acima do rosto. A medalha cobria boa parte de minha palma. Meus dedos eram curtos. Meus pulsos eram finos. Se segurasse uma espada feita para os outros escolhidos, talvez a espada parecesse estar carregando a mim.
Pela primeira vez, desejei que meu corpo fosse maior. Braços mais longos. Pernas mais fortes. Ombros que não coubessem com tanta facilidade entre as mãos de minha mãe.
O desejo me deu vergonha. Crescer era uma coisa que devia acontecer devagar, enquanto eu não prestava atenção. Não devia ser uma necessidade para continuar vivo.
Fechei os olhos. Vi a parede rachando, os olhos de Zeus iluminados e a mão dele recuando de meu braço.
Talvez Nélios estivesse errado. Talvez não houvesse nada dentro de mim. Talvez Zeus tivesse apenas encontrado um erro que pretendia corrigir depois.
Pensei na menina fazendo taças voarem. Pensei nos campeões, nos corpos treinados e nos Dons que o artefato reconhecera. Pensei em minha mãe dizendo que tínhamos feito tudo certo.
Não bastara.
Ouvi passos no corredor. A porta se abriu devagar. Fechei os olhos antes que a luz da lamparina atravessasse minhas pálpebras.
Melissa se sentou na beirada da cama. Passou os dedos por meus cabelos e ficou ali por muito tempo, acreditando que eu dormia.
Quando falou, sua voz saiu tão baixa que talvez não pretendesse que eu ouvisse.
— Meu menino... eles não tinham o direito.
Ela beijou minha testa e saiu.
Esperei a porta se fechar antes de abrir os olhos.
A medalha continuava presa em minha mão.
Minha mãe achava que aquela podia ser uma das últimas vezes em que me veria dormir. Quando entendi isso, alguma coisa mudou no medo. Não o apagou. Apenas abriu espaço para algo mais quente e menos bonito.
Raiva.
Eu não queria morrer.
E tentei acreditar que isso teria de ser suficiente.