Seis Dias e Nenhum Milagre
Na manhã seguinte, descobri que raiva não tornava ninguém mais forte. Só ajudava a acordar antes do sol e aceitar uma espada de madeira das mãos de um velho que parecia ter esperado anos por uma desculpa para me acertar.
Minha mãe me acompanhou até a loja de Nélios. O céu ainda estava escuro, as lamparinas da rua se apagavam uma a uma e eu sentia nos músculos as preliminares do dia anterior. Ela carregava um embrulho com pão, queijo, um frasco de pomada e comida suficiente para uma viagem de três dias, embora eu fosse ficar no outro lado da rua.
Nélios já nos esperava diante da porta.
— Atrasado — disse.
Olhei para o céu.
— O sol nem chegou.
— E você conseguiu chegar depois de mim. É um talento.
Ele destrancou a loja. Minha mãe não se moveu.
— Se ele não aguentar, você para.
— Se ele não aguentar, eu troco os métodos.
— Nélios.
Ele se virou para ela. A implicância desapareceu de seu rosto, embora a voz continuasse a mesma.
— Vou devolvê-lo com a mesma quantidade de ossos.
Ela não gostou da resposta. Eu também não, mas Nélios já havia entrado, e discutir na rua não acrescentaria músculos aos meus braços.
Minha mãe segurou meu rosto entre as mãos.
— Não tente provar nada para ele.
Olhei por cima do ombro. Nélios arrastava caixas para as paredes do depósito.
— Acho que ele já tem uma opinião bem formada sobre mim.
— Thaniel.
— Eu falo se não aguentar.
Ela me abraçou. Dessa vez, não se importou que Nélios visse. Ele teve a delicadeza de ficar ocupado com um barril que não precisava ser movido.
Quando Melissa partiu, entrei e fechei a porta.
O depósito parecia diferente. Barris, tecidos e caixas ocupavam as laterais, deixando livre um retângulo comprido no centro. Nélios havia traçado linhas de carvão no chão. Havia dois bastões, uma espada de madeira, uma corda, sacos de areia e um banco baixo.
— Você vende tudo isso? — perguntei.
— Hoje não.
Ele apontou para uma linha.
— Fique ali.
— E depois?
— Depois você obedece à próxima ordem.
Fiquei sobre a linha.
Nélios me fez correr de uma parede à outra, saltar o banco, sustentar os sacos com os braços estendidos, equilibrar-me numa tábua estreita e levantar do chão sem usar as mãos. Cronometrava cada tentativa pelo gotejar de um pequeno vaso de bronze e anotava marcas numa tabuinha.
Na terceira corrida, cheguei ofegante à parede.
— De novo — ordenou.
— Você não vai me ensinar a lutar?
— Estou tentando descobrir quanto tempo levaria para alguém matá-lo.
— E?
Ele olhou para as marcas.
— Menos do que eu esperava.
— Isso foi quase um elogio.
— Corra.
Eu discuti durante boa parte da manhã. Discuti a quantidade de corridas, a utilidade da tábua, o peso dos sacos e o fato de Nélios sempre dizer “a última” quando claramente pretendia dizer “mais cinco”. Ele respondia de três maneiras: “de novo”, “mais rápido” ou apenas apontando para o lugar onde queria que eu estivesse.
Perto do meio-dia, entregou-me a espada.
Era curta para um adulto e grande demais para mim. Segurei com as duas mãos, copiando a postura dos guerreiros que eu vira nas festas da cidade.
Nélios bateu com o bastão na lateral de meu joelho.
Minha perna dobrou.
— Ai.
— Seus pés estão errados.
— Podia ter dito.
— Eu disse com o bastão.
Ele empurrou meu pé esquerdo para trás e virou o direito um pouco para fora. Depois corrigiu meus dedos, baixou meus ombros e tocou minha barriga com a ponta do bastão.
— Não prenda a respiração.
— Não estou prendendo.
Ele esperou.
Soltei o ar.
— Agora não está.
Nélios caminhou ao meu redor. Eu o acompanhei com os olhos.
— Onde está olhando?
— Para a sua arma.
— Então o resto de mim pode fazer o que quiser.
— É difícil olhar para você inteiro.
— Pés, quadris, mãos, respiração. Nessa ordem, até aprender quando mudar.
— Quatro lugares não são uma ordem. São quatro ordens.
O bastão tocou minha testa.
— Enquanto reclama, morreu.
Ergui a guarda.
Nélios atacou devagar. Eu vi o movimento, tentei bloquear e cheguei tarde. O bastão bateu em meu ombro. Na segunda vez, olhei para seus pés e não percebi a mão. Na terceira, acompanhei os quadris, mas recuei em linha reta até bater numa caixa.
— O depósito acabou — disse ele. — Seu adversário, provavelmente não.
— Você disse para olhar os pés.
— Disse para observar. Não para esquecer que existe uma parede.
Tentei outra vez. E outra. Na décima, bloqueei o golpe e senti uma pequena vitória nascer.
Nélios varreu minhas pernas.
Caí de costas. O ar fugiu de mim.
— Nunca admire o próprio trabalho antes de terminar — disse ele.
Fiquei no chão.
— Terminou?
— Levante.
— Isso não respondeu.
— Respondeu o bastante.
Levantei.
No fim da tarde, minhas mãos ardiam, minhas pernas tremiam e a espada parecia mais pesada do que pela manhã. Nélios ainda se movia sem desperdiçar um passo. Quando eu atacava, ele não precisava correr. Saía do caminho por muito pouco, como se soubesse onde a madeira passaria antes de mim.
Em uma das tentativas, vi seu ombro girar. Baixei-me antes do golpe e avancei. A ponta de minha espada parou a um palmo da barriga dele.
O bastão encostou em meu pescoço.
— Morto.
—Eu vi o ataque.
— Viu.
— E desviei.
— Também.
— Então por que eu morri?
Ele baixou os olhos para a distância entre minha espada e seu corpo.
— Porque enxergou uma coisa que seus braços não alcançaram.
Aquilo me calou.
Nélios recolheu a espada, colocou água ao meu lado e se afastou para guardar os sacos. Ao beber, percebi uma faixa de linho sobre a caixa. Ele não disse que a deixara para minhas mãos. Eu não lhe dei o trabalho de fingir que não.
Até ali, eu achava que podia compensar meu tamanho sendo mais esperto. Parecia uma troca justa: outros teriam braços, eu usaria a cabeça. Na prática, minha cabeça podia encontrar uma abertura perfeita e meu corpo ainda ficava do lado errado dela.
Quando minha mãe veio me buscar, olhou primeiro para meu rosto, depois para minhas mãos enfaixadas.
— Mesma quantidade de ossos — informou Nélios.
Melissa lançou-lhe um olhar que poderia ter reduzido o número dos dele.
Naquela noite, ela aqueceu água e espalhou pomada nos meus ombros. Perguntou onde doía. Respondi “em todo lugar”, e pela primeira vez no dia ninguém mandou que eu repetisse.
No segundo dia, cheguei antes de Nélios.
Sentei diante da loja e esperei no escuro. Quando ele dobrou a esquina, carregava dois pães, um odre de água e o mau humor de quem havia sido privado da chance de me chamar de atrasado.
— Veio dormir na porta? — perguntou.
— Não queria exercitar meu talento.
Ele abriu a loja.
— Entre antes que eu encontre outro defeito.
Não discuti naquele dia. Não porque Nélios tivesse se tornado agradável, mas porque sete dias já eram poucos e eu gastara um deles tentando convencê-lo de coisas que ele não mudaria. Se existisse algo útil dentro daquele velho, eu precisava arrancar tudo antes que o Agón começasse.
Nélios cobriu as linhas do dia anterior e desenhou no chão uma sequência de quadrados. Durante horas, mandou que eu avançasse, recuasse e mudasse de direção sem cruzar os pés. Quando eu errava, ele apagava as marcas com a sandália, traçava tudo outra vez e recomeçava a contagem.
Depois vieram as quedas.
— Queixo no peito — dizia. — Braço perto do corpo. Não ofereça a cabeça ao chão.
Eu caía, rolava, levantava e voltava ao início.
— De novo.
Caía, rolava, levantava.
— Seu pé esquerdo está atrasado.
Recomeçava.
— Você conta as repetições? — perguntei depois de tantas que o teto parecia balançar.
— Conto as certas.
— Quantas?
— Duas.
Olhei para ele.
— Desde o amanhecer?
— Agora uma. Perdeu a postura para fazer essa cara.
Tive vontade de atirar a espada nele. Como não conseguiria acertar, continuei.
À tarde, ele pendurou três tiras de tecido em alturas diferentes e ficou atrás delas com o bastão. Eu devia atravessar o depósito e tocar a parede sem ser atingido.
Na primeira tentativa, observei o bastão. Ele me acertou com a mão livre.
Na segunda, observei as mãos. Nélios estendeu o pé e me derrubou.
Na terceira, olhei para tudo ao mesmo tempo e não entendi nada.
— Seus olhos não são uma rede de pesca — disse ele. — Escolha o que importa.
— Você disse pés, quadris, mãos e respiração.
— E continuo tendo todos. Isso não significa que todos vão atacá-lo juntos.
Ele apontou para o próprio peito.
— Antes de um golpe, o corpo entrega alguma coisa. O peso muda. O ombro prende. A respiração para. Não procure movimento. Procure a decisão.
Na tentativa seguinte, vi seu peso passar para a perna direita. Corri para o outro lado antes que o bastão subisse. Nélios mudou o golpe no meio do caminho e ainda roçou minhas costas, mas toquei a parede.
Virei-me sorrindo.
— Quase não doeu.
— Posso corrigir isso.
Meu sorriso desapareceu.
Ele fez um gesto curto com a cabeça, mandando que eu voltasse à linha. Era pouco, mas reconheci o que significava: eu havia feito algo certo.
No intervalo, Nélios puxou minha mão, desfez a faixa e examinou as bolhas. Aplicou uma pomada escura que ardeu mais do que os golpes.
— Onde aprendeu isso? — perguntei.
— A cuidar de bolhas?
— A fazer alguém cair sem parecer que se mexeu.
— Prática.
— Com quem?
— Pessoas que faziam perguntas melhores.
— Elas batiam em você quando não gostavam da pergunta?
— Com frequência.
— Começo a gostar delas.
Nélios apertou o nó da faixa com força demais.
— Mão fechada.
Obedeci. O curativo não soltou.
— Ainda está muito apertado — falei.
— Então pense duas vezes antes de me provocar enquanto seguro suas feridas.
Ele se levantou e voltou ao treino. Não respondeu quem o ensinara. Também não precisou. A maneira como escondia a resposta dizia que não aprendera protegendo carregamentos de azeite.
No terceiro dia, havia três homens no depósito.
Eu conhecia dois do mercado. Um descarregava ânforas no porto; o outro trabalhava numa banca de carne e tinha braços largos o bastante para fazer minhas pernas parecerem ainda menores. O terceiro era magro, tinha uma cicatriz no queixo e segurava um bastão curto.
Nélios colocou uma ficha de bronze sobre um banco, atrás deles, e traçou uma linha perto da porta.
— Pegue a ficha e atravesse a linha.
— Eles vão tentar impedir?
— Não. Vieram admirar sua corrida.
O homem do porto riu. Nélios nem olhou para ele.
— Sem golpes na cabeça — ordenou. — Nem articulações. Se machucarem o garoto antes que os deuses tenham a oportunidade, não recebem.
— Reconfortante — murmurei.
Na primeira tentativa, corri direto para a ficha. O homem do porto me ergueu pela cintura e me devolveu ao início.
Na segunda, tentei passar entre ele e o açougueiro. Uma mão agarrou minha túnica e outra meu braço. Não cheguei perto do banco.
Na terceira, esperei. Os três também.
— Isto pode durar o dia todo — falei.
— Eles recebem pelo dia — disse Nélios.
Tentei fazê-los avançar. O homem da cicatriz lançou o bastão no chão, perto de meus pés. Saltei por cima e corri para a esquerda.
Ouvi a madeira raspar atrás de mim.
O bastão atravessou o depósito de volta para a mão dele. Eu me virei tarde demais. A ponta tocou minhas costas.
Nélios encostou dois dedos em meu pescoço.
— Morto.
Olhei do bastão para o homem.
— Ele puxou sem tocar.
— Excelente percepção — disse Nélios. — Um pouco depois de morrer, mas excelente.
— Podia ter avisado que ele tinha um Dom.
— No Agón, pretende pedir que façam uma fila e expliquem os próprios poderes?
O homem da cicatriz tornou a lançar o bastão. Dessa vez, observei seu braço. Antes que a madeira se movesse, os dedos dele se abriram e os músculos perto do pulso ficaram duros.
— O Dom não apaga o corpo — disse Nélios. — Ele ainda precisa querer, mirar e agir. Procure o que vem antes.
Recomeçamos.
O homem usava o bastão para fechar qualquer espaço que os outros deixassem. Nas primeiras vezes, eu me escondia do objeto e acabava diante de um dos dois homens maiores. Depois, percebi que ele sempre olhava para o lugar onde queria chamar a arma. Quando o olhar mudava, seus dedos se abriam logo depois.
Na tentativa seguinte, corri para a direita e fingi tropeçar. O bastão veio baixo, procurando minhas pernas. Saltei para o lado no último instante.
A madeira atingiu a canela do açougueiro.
Ele gritou. O homem da cicatriz perdeu um momento pedindo desculpas. Passei entre os dois, subi no banco, agarrei a ficha e saltei do outro lado.
O carregador segurou a parte de trás de minha túnica. O tecido apertou meu pescoço.
Em vez de puxar, soltei o fecho do ombro. A túnica ficou na mão dele e eu atravessei a linha de roupa de baixo, apertando a ficha contra o peito.
O silêncio durou pouco.
O açougueiro começou a rir. O carregador olhou para a túnica vazia. Até o homem da cicatriz sorriu.
Nélios não.
— Outra vez — disse.
— Eu consegui.
— Conseguiu uma vez. Agora eles conhecem o truque.
Na tentativa seguinte, o carregador me pegou antes do banco. Na outra, levei o bastão no estômago. Depois disso, consegui alcançar a ficha, mas não a linha.
Ao fim da manhã, eu tinha vencido quatro vezes e perdido tantas que parei de contar.
Nélios dispensou os homens, jogou minha túnica sobre minha cabeça e deixou água no banco.
— Você é rápido — disse.
Tirei o tecido do rosto.
— Eu perdi quase todas.
— Não disse que é invencível. Disse que é rápido.
Ele apontou para as marcas no chão.
— Seu primeiro passo é bom. Você muda de direção antes que gente maior consiga transferir o peso. E aprende padrões depressa. Precisou ver o bastão voltar três vezes.
— Duas.
— Na primeira estava ocupado morrendo.
Não discuti.
Nélios se agachou à minha frente.
— Seus olhos chegam antes do resto de você. Isso pode mantê-lo vivo, se aprender a escolher para onde olhar.
Era o elogio mais comprido que ele me dera. Esperei a parte ruim.
Ela veio.
— Mas seus braços são curtos, seu corpo é leve e você se cansa cedo. Se alguém o agarrar, acabou. Se precisar trocar força por força, acabou. Se não houver espaço para correr, provavelmente acabou.
— Você poderia ter parado depois da parte dos olhos.
— Poderia. Aí você sairia daqui satisfeito e morreria satisfeito.
Ele se levantou.
— Beba. Temos a tarde inteira para trabalhar no “provavelmente”.
Naquela tarde, Nélios me ensinou a reconhecer distância, a não entrar no alcance de alguém maior sem saber como sair e a usar paredes, portas, caixas e até outras pessoas para dificultar uma perseguição. Não me ensinou a lutar de modo bonito. Ensinou a pisar num pé, empurrar um joelho, atingir dedos e fugir enquanto o outro decidia qual parte doía mais.
Sabia onde um golpe tirava o ar sem quebrar uma costela. Sabia como um homem com armadura distribuía o peso e quanto tempo alguém levava para sacar uma lâmina presa nas costas. Quando demonstrou uma torção, parou antes de deslocar meu ombro por uma distância tão pequena que eu só percebi porque estava olhando.
— Você já treinou campeões? — perguntei.
Nélios soltou meu braço.
— Já negociei com homens armados.
— E eles deixavam você estudar onde as articulações dobram?
— Quem quer continuar vivo aprende onde o outro quebra.
— Isso não parece coisa de feirante.
— E você não parece alguém que tenha tempo a perder falando. De pé.
Mandou que eu me levantasse antes que pudesse perguntar outra coisa.
Nélios não mentia bem quando escolhia respostas engraçadas demais. Eu não sabia onde aprendera tudo aquilo, mas tinha certeza de que não fora atrás de um balcão. Guardei a pergunta. Havia segredos que eu ainda não conseguiria alcançar, mesmo vendo a abertura.
No quarto dia, Nélios colocou um círculo de carvão no próprio peito.
— Toque aqui.
— Só isso?
— Só.
Ele me deu a espada de madeira e pegou um bastão mais comprido. Avancei. Nélios manteve a ponta entre nós e me obrigou a ficar longe. Tentei desviar, bater na arma, passar por baixo e correr pelo lado. Toda vez, a madeira me encontrava antes.
Depois de muitas tentativas, percebi que ele sempre recolhia o cotovelo quando eu atacava por fora. Esperei o gesto, bati o bastão para o lado e entrei.
O círculo estava diante de mim.
Estiquei o braço até o ombro doer.
Minha espada parou antes de tocá-lo.
Nélios recuou meio passo e encostou o bastão em minha barriga.
— Morto.
Joguei a espada no chão.
— Eu fiz tudo certo.
— Quase.
— Eu vi o cotovelo. Tirei a arma. Entrei no momento certo.
— E não alcançou.
— Essa parte não depende de mim.
— No Agón, isso não vai importar.
A vontade de responder sumiu. Olhei para o círculo no peito dele, perto o bastante para eu saber que deveria conseguir e longe o bastante para provar o contrário.
Nélios me devolveu a espada.
— Outra vez.
Tentei durante o resto da manhã. Às vezes errava o movimento. Às vezes ele mudava a defesa. Duas vezes repeti tudo como devia e falhei pelo mesmo palmo.
No intervalo, sentei sobre um saco de grãos e examinei meus braços. Continuavam iguais aos do início do treinamento. Talvez tivessem ganhado mais hematomas, o que não ajudava.
Do lado de fora, dois rapazes passaram discutindo a seleção. Um deles devia ter quinze ou dezesseis anos. Era quase da altura de Nélios e carregava um cesto apoiado num ombro como se não pesasse nada.
Esperei que desaparecesse.
— Queria que existisse um jeito de me esticar uns cinco anos — falei. — Só até meus braços chegarem onde eu mando.
Nélios fechava um odre. Não levantou a cabeça.
— E eu queria joelhos novos.
— Você nem usa os joelhos direito.
— Por isso quero outros.
Voltei para a linha.
Nélios mandou repetir o exercício, mas já não corrigia meus pés. Apenas esperava que eu tentasse alcançar o círculo em seu peito. Quando falhei pelo mesmo palmo, encerrou o treino antes da hora.
Pegou um pedaço de corda e mediu meu braço. Depois me encostou na parede e marcou minha altura com um nó. Não precisava de corda para saber que eu era menor do que os outros, mas ele ficou olhando para as duas medidas como se procurasse alguma coisa entre elas.
— Não dá para compensar isso correndo mais depressa, dá? — perguntei.
— Nem sempre.
Enrolou a corda na mão. Demorou tanto a guardá-la que eu soube que o treino não havia terminado por cansaço.
— Conheço alguém que talvez possa ajudar — disse.
— Ajudar como?
— Primeiro preciso descobrir se é possível. Depois você decide se quer ouvir o preço.
Não gostei da última palavra.
— É perigoso?
— Pode ser.
Nélios apontou para a porta.
— Amanhã, antes do sol. Leve botas, capa e comida para o dia inteiro. Vou falar com sua mãe esta noite.
Nélios conversou com minha mãe naquela noite. Eu ouvi parte da discussão da escada, embora os dois falassem baixo demais para admitir que era uma discussão.
Ele disse que conhecia alguém capaz de avaliar uma alternativa. Melissa perguntou qual. Nélios respondeu que não a colocaria diante de uma esperança antes de saber se era real.
— E por que precisa levá-lo? — perguntou ela.
— Porque a resposta depende dele.
— Thaniel tem dez anos.
— O Agón não parece interessado nisso.
Houve um silêncio.
— Vocês vão apenas conversar — disse minha mãe.
Nélios demorou o bastante para que eu descesse mais um degrau.
— Primeiro, vamos descobrir se há algo sobre o que conversar.
Não era uma promessa. Minha mãe percebeu. Mesmo assim, permitiu a viagem sem arrancar uma resposta melhor, talvez porque a palavra “alternativa” fosse a única coisa que alguém nos oferecera desde a Assembleia.
Na manhã do quinto dia, encontrei duas mochilas diante da loja.
— Quanto vamos andar? — perguntei.
— Até chegar.
— Essa medida não ajuda.
— Ela basta.
Ele me entregou a mochila menor. Ainda era pesada.
Saímos antes que o sol tivesse nascido completamente.
As montanhas pareciam próximas quando vistas de Atenas. Depois de algumas horas, concluí que estava completamente enganado. Subimos por uma estrada, depois por uma trilha e, por fim, por pedras que Nélios chamava de caminho por teimosia.
Ele andava depressa. Eu precisava dar dois passos para cada passo dele. No treino, Nélios corrigia minha respiração; na subida, fingia não reduzir o ritmo quando eu começava a perder o fôlego. A espera disfarçada me irritou menos do que deveria.
— Quem vamos encontrar? — perguntei.
— Uma pessoa que me deve um favor.
— Que tipo de favor?
— Um antigo.
— Isso não é um tipo.
— É o único que importa.
Continuei alguns passos em silêncio.
— Ela gosta de você?
— Não o suficiente para recusar a dívida.
— Ela é uma comerciante?
— Não diga isso quando chegarmos.
— Por quê?
— Porque quero descer com a mesma quantidade de ossos.
Foi o máximo que consegui arrancar dele durante a subida.
Encontramos a casa no começo da tarde. As paredes de pedra escura se confundiam com a montanha. Havia sinais riscados junto à porta, mas nenhum pertencia aos Doze.
Nélios bateu três vezes.
— Talvez ela não esteja — falei.
— Está.
— Como sabe?
— A casa ainda está aqui.
A porta se abriu antes que eu perguntasse o que aquilo significava. A mulher do outro lado era alta, de cabelos negros longos e cacheados e olhos tão escuros que quase escondiam as pupilas. Usava um vestido simples, também negro, sem colares, bordados ou qualquer coisa que lembrasse as roupas de Atenas. Havia tinta nos dedos e uma mancha de cera seca no punho da manga. Era mais nova que minha mãe e tinha um rosto belo, mas de um jeito cortante, que fazia o corpo pedir um passo para atrás.
Ela olhou para Nélios. Não havia surpresa em seu rosto, muito menos boas-vindas. Havia apenas o peso de uma visita indesejada.
— Você devia ter morrido na subida — disse.
— Também é bom ver você, Reyna.
Ela não sorriu.
— Por que subiu até aqui? Depois de todos esses anos — dessa vez, a voz era fria, polida e perigosa.
— Pretendia nunca subir — respondeu Nélios, sem se abalar. — Mas estou aqui. E vim cobrar aquele favor.
A mulher estudou o rosto dele como quem verificava se uma lâmina velha ainda podia cortar. Só então os olhos dela passaram de Nélios para mim e pararam na medalha escondida sob minha túnica. Puxei o tecido sobre o peito, embora já fosse tarde.
— O Décimo Terceiro — murmurou, não demonstrando tanta surpresa.
— Thaniel — corrigi, puxando o tecido do ombro.
A mulher ergueu uma sobrancelha e olhou novamente para Nélios, fulminante.
Nélios sustentou o olhar e eles se encararam por alguns segundos como se fosse uma disputa. Depois ela desviou os olhos, suspirando, derrotada.
Ela deu um passo para o lado, liberando o vão estreito.
— Entrem. Antes que o vento traga o cheiro da cidade para dentro.
Entramos. Nélios fechou a porta pesada de madeira atrás de nós, e o som do vento na serra desapareceu como um golpe.
Lá dentro havia livros, velas sem fumaça e uma mesa de pedra cercada por marcas que eu não sabia ler. Nenhuma imagem dos Doze ocupava as paredes. Reyna indicou uma cadeira; sentei e percebi que meus pés não alcançavam o chão.
— Que lugar é este? — perguntei.
— Minha casa — respondeu ela.
— Isso eu entendi.
— Então está indo melhor do que ele — disse, olhando para Nélios.
— Reyna é uma feiticeira — explicou o velho. — Os sacerdotes de Atenas chamariam de crime o que ela faz. É por isso que você não contará a ninguém onde estivemos.
Ela abriu um armário e retirou um livro envolto em couro cinzento.
— E você escolheu trazer uma criança até a minha porta sem antes contar à mãe dela, presumo. Continua péssimo em pedir favores.
— Foi você quem disse que me devia um.
— Eu disse que devia pela minha irmã. Não disse que esqueceria o resto.
Olhei para Nélios. Ele nunca me contara que conhecia a irmã de Reyna. Pelo jeito como evitou meus olhos, eu não receberia a história inteira naquele dia.
— O que aconteceu com ela? — perguntei.
— Homens armados cercaram uma caravana — disse Reyna. — Nélios a tirou de lá.
— Nélios?
— Eu também já fui jovem — resmungou ele.
Reyna fechou o armário com força.
— E já soube lutar muito melhor do que finge.
Nélios se voltou para ela.
— Não viemos falar de mim. Mostre o que pode fazer pelo garoto.
Reyna sustentou o olhar dele sem recuar um milímetro. A diversão desapareceu de seu rosto, substituída pela mesma frieza clínica de quando abrira a porta.
— Muito bem — respondeu ela, afastando a mecha escura que caía sobre o ombro. — Vá direto ao ponto, então. Por que trouxe o Décimo Terceiro até a minha mesa?
Nélios puxou o ar, engolindo a raiva, e pousou as duas mãos na madeira da cadeira.
— Ele tem quatro dias de treinamento — começou o velho, sem olhar para mim. — Nenhum Dom detectável que possamos usar, nenhum milagre dos templos e um corpo de dez anos. O competidor mais novo além dele tem quinze e já treina com espada desde que aprendeu a andar.
Reyna inclinou a cabeça.
— Isso explica a desvantagem. Não o pedido.
Nélios olhou nos olhos dela.
— É possível forçar o amadurecimento do corpo?
Demorei a entender a pergunta. A feiticeira, não.
— É possível — respondeu. — Mas não é sensato.
— Sensatez deixou de ser uma opção.
Ela me observou outra vez, agora dos pés até a cabeça.
— Quanto?
— O bastante para que alcance os outros.
— Você fala como se encomendasse tecido.
— Falo como alguém que precisa saber se consegue entregar o garoto vivo a mãe.
— E ainda se pergunta por que o trato como negociante.
A feiticeira se aproximou de mim e estendeu a mão.
— Seu pulso.
Obedeci. Seus dedos estavam frios. Ela contou minha respiração, examinou meus olhos, mediu meu antebraço com um cordão e pressionou os ossos de meu ombro e de minhas costas. Fez perguntas sobre doenças, febres, fraturas e sobre o artefato da seleção.
— Zero — respondi. — Ele mostrou zero.
Ela apenas assentiu e soltou meu pulso.
— Espere.
Foi até as estantes. Abriu um livro, percorreu duas páginas e o fechou. Repetiu o processo com outro. Depois subiu num pequeno banco e retirou do alto um volume envolvido em couro cinzento. As letras da capa estavam gastas.
Nélios não a apressou. Isso me disse mais sobre a dificuldade do que qualquer resposta.
— Vocês podem explicar o que estão procurando? — perguntei.
— Ainda não — disse a feiticeira.
— Por quê?
— Porque talvez não exista uma forma de fazer sem matá-lo.
Nélios lançou-lhe um olhar.
— Ele precisa saber.
— Saberá quando eu souber.
Ela levou três livros para a mesa e começou a comparar trechos. Alguns símbolos pareciam letras; outros, feridas desenhadas. Em certo momento, acendeu outra vela e segurou uma página sobre a chama. Linhas que não estavam ali surgiram no papel.
— Isto não é olímpico — disse ela, mais para Nélios do que para mim.
Sua voz não demonstrava medo. Apenas desprezo.
— Melhor ainda — respondeu ele.
O rosto dela endureceu.
— Não existe “melhor” quando se mexe com tempo e carne. Existe o preço a se pagar.
Nélios ficou em silêncio.
Ela virou mais algumas páginas. Por fim, pousou um dedo sobre um desenho do corpo humano cercado por círculos.
— Encontrei.
Meu estômago apertou.
A feiticeira fechou os outros livros e puxou uma cadeira para diante de mim. Quando falou, já não parecia impaciente.
— Existe um rito capaz de apressar seu crescimento. Não lhe daria anos vividos. Daria ao seu corpo as mudanças que esses anos fariam.
— Eu iria crescer? Quanto?
— Não escolhemos uma altura. Podemos conduzir o corpo até uma maturidade aproximada. Oito anos. Talvez dez. A reação varia.
Olhei para Nélios.
— Eu sairia daqui com dezoito ou vinte anos, então?
— Biologicamente, perto disso — respondeu ela.
— Hoje?
— O processo levaria algumas horas.
Não encontrei nada engraçado para dizer. Minhas mãos se fecharam sobre a beirada da cadeira.
— Eu continuaria sabendo as mesmas coisas?
— Sim. O rito não inventa lembranças, treino ou experiência. Um corpo adulto não saberá usar uma espada melhor do que você sabe agora.
— Então eu continuaria sendo eu?
A feiticeira não respondeu depressa.
— Continuaria. Mas seu corpo também participa de quem você é. Ele mudará seus impulsos, sua força, sua fome, a maneira como sente cansaço e talvez a velocidade de algumas emoções. Você não se tornará um adulto por dentro. Terá de aprender a viver dentro de um adulto por fora.
Olhei para minhas mãos. Ainda cabiam inteiras entre as de minha mãe.
— Vai doer?
— Muito.
— Posso morrer?
— Pode.
Nélios se aproximou um passo.
— Qual é o risco?
— Menor do que mandá-lo assim para o Grande Agón. Maior do que eu aceitaria para qualquer outra finalidade.
Era o tipo de resposta que não ajudava ninguém a decidir.
— E depois? — perguntei.
— Depois não há como desfazer. Você não volta a ter dez anos. Não recupera o crescimento devagar. Seu corpo terá atravessado anos que deveria atravessar aos poucos.
— Isso tira anos da minha vida?
Ela apoiou as mãos sobre o livro.
— Talvez. O rito vai exigir do seu corpo uma mudança que deveria levar anos. Sei como alimentá-lo durante o processo e como tentar mantê-lo vivo. Não sei se, mais tarde, ele cobrará alguma coisa que não conseguiremos medir hoje.
Nélios ficou imóvel. Eu conhecia seu rosto bem o bastante para perceber o maxilar endurecer.
— Você sabia disso? — perguntei.
— Sabia que haveria um preço. Não qual.
— E me trouxe mesmo assim.
— Trouxe para que soubéssemos qual era a escolha.
A feiticeira virou-se para ele.
— A mãe sabe?
Nélios não tentou escapar.
— Sabe que procurei uma alternativa.
— Não foi o que perguntei.
Reconheci minhas próprias palavras na voz dela e quase teria gostado da mulher em outra situação.
— Não — disse Nélios. — Ela não sabe o que é.
A feiticeira fechou o livro.
— Então não haverá rito.
— A dívida é comigo.
— A dívida compra meu trabalho. Não compra a decisão dele.
— Não pedi que decidisse por ele.
Ela o encarou.
— Você o trouxe até uma montanha sem contar à mãe porque sabia qual seria a decisão dela.
— Sabia.
— E isso não o incomoda?
Nélios olhou para mim antes de responder.
— Incomoda.
Sua voz saiu baixa e sem qualquer brincadeira.
— Melissa ainda enxerga um menino que pode esconder em casa. Eu enxergo quem terá de entrar naquele lugar. Ela o ama demais para escolher qualquer coisa que pareça roubá-lo agora, mesmo que recusar entregue o resto dele aos deuses depois.
— Isso é uma desculpa conveniente — disse a feiticeira.
— Não. É uma explicação ruim para uma situação pior.
Eu me levantei.
— Vocês poderiam parar de falar como se eu não estivesse aqui?
Os dois se calaram.
Olhei para Nélios.
— Minha mãe pediu para você me trazer de volta inteiro.
— Pediu.
— E você já sabia que talvez não fizesse isso.
— Sabia.
— Então mentiu para ela.
— Deixei que ela entendesse o que precisava para permitir que viéssemos.
— Isso é uma maneira comprida de dizer “sim”.
Nélios aceitou o golpe sem desviar.
A raiva veio primeiro. Não a raiva quente que eu sentira dos deuses, mas outra, mais apertada. Nélios estivera em nossa mesa. Minha mãe confiara em suas mãos quando já não confiava em mais ninguém. Ele usara essa confiança para me levar até ali.
— Por quê?
— Porque é você que vai lutar. É seu corpo que vai pagar por qualquer resposta. Melissa pode escolher poupá-lo desta decisão agora, mas não pode entrar no Agón e protegê-lo do que vem depois.
— E você pode?
— Também não.
Ele respondeu sem hesitar.
— Posso ensiná-lo, procurar saídas, estratégias e lhe mostrar o custo antes que escolha. Não posso fazer o resto.
A feiticeira observava Nélios como se procurasse outra dívida escondida.
— Você espera que ele cresça antes mesmo do rito — disse ela.
— Espero que decida.
Nélios tornou a olhar para mim.
— Se disser não, descemos agora. Treinaremos amanhã e depois, e farei tudo que sei com o tempo que resta. Não vou obrigá-lo a fazer o ritual.
— E se eu disser sim?
— Sua mãe talvez nunca me perdoe.
— Perguntei sobre mim.
Uma mudança quase invisível passou pelo rosto dele. Dor, talvez. Em Nélios, até isso parecia irritação.
— Então você perde uma parte da infância que ninguém poderá devolver. E ganha uma chance melhor de sobreviver. Uma chance, não uma garantia.
Sentei outra vez.
Meus pés não tocavam o chão. Balançavam por hábito, e de repente aquele movimento pareceu importante. Talvez fosse uma das últimas coisas que meu corpo faria daquela maneira.
Pensei no campeão de quinze anos na plataforma. Ele já era menor que muitos dos escolhidos e parecera enorme ao meu lado. Pensei nos braços do carregador em volta de minha cintura, na espada parando a um palmo de Nélios e no cansaço chegando antes que o treino terminasse.
Quatro dias tinham me ensinado a cair sem bater a cabeça, a ver um golpe antes de ele nascer e a fugir um pouco melhor. Não tinham engrossado meus pulsos. Não tinham alongado meus braços. Não tinham colocado anos de repetição dentro dos meus músculos.
Os outros teriam Dons. Eu tinha olhos rápidos e zero de poder.
Lembrei-me da parede rachando sob o raio de Zeus. Da mão do deus em meu braço. Do medo que ele escondera antes de me ameaçar.
Lembrei-me também de minha mãe sentada ao lado da cama, chorando porque pensava que eu dormia.
Se aceitasse, voltaria para ela com um rosto que ela nunca vira crescer. Talvez mais alto do que ela. Talvez com uma voz que não reconhecesse. Ela perderia anos meus numa tarde, e eu também.
Se recusasse, continuaria sendo exatamente o filho que ela conhecia até o momento em que os deuses decidissem que não.
— Minha mãe ainda vai me reconhecer? — perguntei.
A feiticeira respondeu com mais cuidado do que antes.
— Seu rosto continuará sendo seu. Mudado, mas seu.
— E eu vou me reconhecer?
— Não imediatamente.
O medo apertou minha garganta.
— Quanto tempo vou ter para aprender?
— O que restar antes da partida.
Dois dias, pensei. Talvez menos.
Eu queria pedir que Nélios escolhesse. Queria voltar para casa e colocar a decisão nas mãos de minha mãe. Era para isso que adultos serviam: escolher as coisas horríveis e depois explicar às crianças por que eram necessárias.
Mas Nélios estava certo sobre uma parte, e eu o odiei um pouco por isso. Minha mãe não estaria dentro da arena. Ele também não. Quando alguma coisa viesse me matar, seria meu braço curto, meu corpo leve e minha escolha que estariam ali.
A feiticeira esperou. Nélios não tentou me apressar. Pela primeira vez desde o início do treinamento, não mandou que eu me levantasse, respirasse ou repetisse.
Eu não queria ser adulto. Queria ter tempo para chegar lá do jeito certo, reclamando de aulas, crescendo para fora das túnicas e percebendo tarde demais que minha mãe já não precisava se abaixar para me abraçar.
O Grande Agón não me daria esse tempo.
Fechei as mãos para que ninguém visse que tremiam.
— Faça.