Minha Infância Acabou Antes do Jantar
Reyna começou mandando Nélios sair.
Ele não gostou. Ficou parado no centro da sala de pedra, com os braços cruzados sobre o peito e a postura de quem pretendia criar raízes no piso.
— Vou ficar.
— Não vai — respondeu ela, sem erguer os olhos da mesa onde alinhava três frascos de vidro escuro.
— Fui eu que trouxe o garoto.
— Exatamente. Sua utilidade terminou na soleira da porta. Agora você é apenas um estorvo com opiniões demais e conhecimento de menos.
Nélios deu meio passo à frente, mas Reyna virou o rosto para ele com uma lentidão cortante.
— Preciso ouvir o coração dele, acompanhar a respiração e perceber a hora em que o corpo começar a crescer depressa demais. Você já conduziu um rito desses, Nélios?
Ele não respondeu.
— Foi o que pensei — concluiu Reyna. Apontou com o queixo para a porta lateral. — Lá fora.
Nélios não se moveu.
— Posso segurá-lo — insistiu ele.
— E eu perderia metade do tempo impedindo que tentasse me dizer como fazer o meu trabalho.
— Não diria.
Reyna ergueu os olhos.
— Você continua mentindo mal quando a mentira é para mim.
Houve um silêncio estranho. Não parecia uma discussão que começara naquela tarde. Nélios apertou a boca até ela quase sumir sob a barba.
Reyna apontou novamente para a porta.
— Fique do outro lado. Se eu chamar, entre. Até lá, mesmo que ele grite, não atravesse a porta.
— Reyna...
— E, desta vez, tente não desaparecer antes do fim.
O rosto de Nélios não mudou. Foi assim que percebi que a frase o atingira.
Ele olhou para mim. A preocupação de Nélios funcionava de um jeito ruim: quanto mais sentia, menos mostrava. Naquele momento, parecia feito da mesma pedra que a mesa.
— Estarei do outro lado — disse ele.
Assenti.
— E se eu gritar muito alto?
— Provavelmente vai — respondeu ele, pousando a mão pesada sobre o meu ombro. Os nós dos seus dedos estavam tensos. — Você ainda pode desistir, garoto. Podemos descer agora.
Reyna não interferiu. Continuou moendo folhas secas num pequeno almofariz de pedra, o ritmo compassado do pilão batendo como um relógio indiferente.
Olhei para a bacia de bronze, para as correias de couro presas à mesa comprida e para as marcas estranhas talhadas na rocha. A decisão já fora tomada quando eu dissera faça, mas saber que a porta ainda estava aberta tornava o ar difícil de engolir.
— Minhas chances na arena continuam nulas se eu voltar com dez anos? — perguntei.
Nélios sustentou meu olhar.
— Continuam.
— Então nada mudou.
— Mudou tudo — corrigiu ele, áspero. — Agora você sabe o que vai custar.
Pensei na minha mãe sentada ao lado da minha cama, no olhar dela ao medir meus braços pequenos e na ponta da minha espada de madeira parando a um palmo do peito de Nélios.
— Saber só deixa o medo mais pesado — falei. — Não muda a conta.
Nélios apertou meu ombro uma última vez. Não disse palavras de coragem, e agradeci por isso.
— Aguente firme — murmurou, virando as costas.
A porta lateral bateu com um estalo seco.
Ficamos apenas Reyna e eu. O vento da montanha assobiava fino pelas frestas das janelas fechadas.
— Tire a túnica — ordenou ela, sem se virar.
Desatei as fivelas e puxei o linho pela cabeça. Ao ver meu peito e meus braços cobertos pelas manchas arroxeadas das pancadas de Nélios — além da marca avermelhada deixada pelos dedos de Zeus —, Reyna parou. Tocou uma das minhas costelas com a ponta dos dedos gelados.
— Seu tutor não perdeu tempo — comentou.
— Disse que eu precisava aprender a cair.
— O corpo humano não foi feito para aprender as coisas de uma vez.
— Estou descobrindo isso faz cinco dias.
Ela indicou a mesa de pedra.
— Deite-se de costas.
A rocha estava fria contra a minha pele nua. Mal apoiei a nuca, Reyna puxou tiras largas de couro cru presas à estrutura e passou uma por cada um dos meus pulsos. O clique das fivelas de ferro me fez tentar puxar os braços.
— Você não mencionou amarras — falei, a voz saindo mais fina do que eu pretendia.
— Durante o rito, seu corpo tentará fugir da própria dor. Se eu deixar, você pode quebrar o pescoço antes de crescer o primeiro dedo.
Ela desceu para os meus tornozelos, apertando as tiras até prenderem o osso contra a pedra.
— Vai doer muito?
— Sim. Vai tentar quebrar os próprios dentes, se eu não controlar o processo.
Engoli em seco. O teto de vigas escuras parecia estar descendo devagar.
— Existe algum chá para a dor? Uma erva de adormecer?
— Existe.
— Então use.
— Não posso. — Ela se inclinou sobre mim com uma tigela de barro. — Preciso que você me diga o que sente e onde dói. Se perder a consciência na hora errada, talvez eu não perceba o que seu corpo está fazendo até ser tarde demais.
A lógica era impecável e aterrorizante.
Reyna verteu um óleo escuro e espesso sobre um pó prateado no fundo da tigela. A mistura chiou baixinho, soltando uma fumaça com cheiro de terra queimada e ferro velho. Ela levou a borda aos meus lábios.
— Beba tudo.
— Isso serve para quê?
— Para impedir que seu coração se rasgue por dentro quando a pressão subir.
Não fiz mais perguntas. Inclinei a cabeça o máximo que as amarras permitiam e engoli. O gosto era nauseante, uma combinação de cinza úmida, seiva amarga e cobre cru. Tossi com força, o líquido queimando minha garganta como brasa viva.
— Respire pelo nariz — instruiu Reyna, apoiando as duas mãos espalmadas sobre meu esterno. — Feche os olhos. Pense no seu nome.
— Thaniel.
— Guarde isso. É a única coisa que precisa continuar inteira.
Ela começou a entoar.
A língua não era grego. Não soava como nada recitado nos templos de Atenas, nem como os hinos de Dodona que os sacerdotes cantavam nos festivais. As palavras eram longas, sibilantes e guturais, como pedras rolando numa caverna funda.
No início, houve apenas o frio das mãos dela. Depois, um calor súbito brotou bem no centro do meu peito, onde a mistura que engoli parecia ter se transformado num núcleo incandescente.
O calor desceu pelas artérias. Meus dedos começaram a formigar, depois a arder, como se milhares de agulhas estivessem sendo empurradas sob as unhas.
Alguma coisa estalou na minha perna. Gritei antes de entender que o som saíra de dentro de mim.
A mesa pareceu encolher. Meus joelhos empurraram as tiras de couro, os ombros arderam e uma dor funda correu pelas costas. Tentei me soltar. Quanto mais puxava, mais as amarras mordiam meus pulsos.
— Olhe para mim e respire! — ordenou Reyna.
Abri os olhos. Ela estava acima de mim, repetindo palavras numa língua que eu não conhecia. Puxei o ar; o grito veio junto.
Meu pé bateu na borda da mesa, muito mais longe do que deveria. Reyna afrouxou a tira do tornozelo e prendeu-a em outro encaixe antes de voltar ao encantamento. Eu quis perguntar quanto faltava. Não consegui formar as palavras.
Em algum momento, Reyna se calou no meio de uma palavra.
Abri os olhos com esforço. O líquido escuro que corria pelos sulcos talhados na pedra havia desaparecido de quase metade dos canais. Ela tocou meu ombro, depois meu peito e minha barriga. Pela primeira vez, vi dúvida em seu rosto.
— O que foi? — consegui articular entre dentes trincados.
— Continue respirando.
— Isso não é resposta.
— É a única de que precisa agora.
Ela pegou outro frasco às pressas e verteu sobre o círculo entalhado. O líquido sumiu depressa outra vez, como água derramada em areia seca, sendo sugado em direção à minha pele.
— Não deveria estar fazendo isso — murmurou ela, a voz tensa.
Meu coração bateu tão descompassado que pareceu bater nas costelas por fora.
— Eu... eu não estou fazendo nada.
Reyna me encarou, viu que eu falava a verdade e retomou as palavras numa cadência mais alta e urgente.
A dor piorou. O tempo desmanchou-se por completo. Houve fogo, frio, mãos pressionando meu peito e o gosto ferroso de sangue quando mordi a própria língua. Às vezes eu enxergava as vigas do teto; às vezes, apenas borrões avermelhados. Reyna me forçava a abrir os olhos com tapas curtos no rosto.
— Thaniel! Quem é você?
— Th-Thaniel...
— Onde você está?
— Na... montanha...
— Quem é sua mãe?
— Melissa!
— Quem está atrás da porta?
— Um velho mentiroso.
Ela quase sorriu.
— Ainda é você.
A mão dela pressionou com força meu peito. A dor agora atingia os feixes musculares: fibras inteiras se partindo e se recompondo sob a pele repuxada. Meus calcanhares bateram secos na borda extrema da mesa de pedra, onde antes sobravam dois palmos de espaço vazio.
Meu coração errou uma batida.
Depois outra.
O ar sumiu por completo. Uma pressão insuportável acumulou-se atrás dos meus olhos, e o mundo escureceu num tom arroxeado e doentio.
— O pulso está caindo — ouvi a voz de Reyna, rápida, sem qualquer frieza.
A porta lateral rangeu ao ser escancarada com violência.
— O que está acontecendo aí dentro?! — o rugido de Nélios ecoou pela sala.
— Saia! — gritou Reyna, furiosa. — Feche essa porta agora ou ele morre!
Senti duas mãos geladas esmagarem meu esterno, um choque agudo que perfurou o calor sufocante e empurrou meu coração de volta ao ritmo à força. Minha cabeça tombou de lado, o suor ardendo nos meus olhos, e o teto desapareceu num abismo negro.
Quando o mundo retornou, não havia dor aguda. Havia apenas uma exaustão colossal, surda e pesada, como se cada osso tivesse sido desmontado e colado com chumbo.
Puxei o ar.
O peito se expandiu muito além do que eu conhecia. Uma quantidade enorme de ar entrou de uma só vez pelos meus pulmões, fazendo minha cabeça oscilar.
Abri os olhos. O teto continuava no mesmo lugar, mas parecia bem mais próximo.
As amarras haviam sumido. Minhas mãos descansavam abertas sobre a pedra. Olhei para a direita: a mão que vi não pertencia ao menino que subira a trilha. Os dedos eram compridos, com juntas grossas e uma palma larga. Pulsos fortes, antebraços densos, tendões evidentes sob a pele úmida.
Tentei engolir. Minha garganta parecia forrada de areia.
— Reyna?
O som que saiu da minha boca me paralisou.
Não era a voz fina de um garoto de dez anos. Era um som grave, ressonante, raspando no fundo do peito com uma vibração áspera e desconhecida.
Ela estava sentada perto da lareira apagada, limpando uma lâmina com um retalho de linho. Suas olheiras eram fundas, e mechas de cabelo negro haviam escapado da trança. Olhou para mim e soltou o ar devagar.
— Você sobreviveu — disse, a voz gasta de cansaço.
— Minha voz...
— Suas cordas vocais alongaram. Sua laringe desceu. Tudo em você mudou.
Apoiei as mãos na mesa para sentar. Foi um erro: empurrei a pedra com o esforço de sempre, mas meus braços responderam com uma alavanca desmedida que quase me projetou para a frente. O equilíbrio falhou. Minha cabeça girou, o centro de gravidade inteiramente fora de onde meu cérebro esperava encontrá-lo.
Reyna levantou-se e segurou meu ombro com firmeza para me aprumar.
— Devagar. Eu disse que seus nervos precisariam de tempo.
Olhei para a mão dela no meu ombro. Antes, os dedos de um adulto cobriam quase toda a articulação; agora, a mão de Reyna parecia proporcional, menor do que a minha estrutura.
— Quero ver — pedi, a nova voz ainda me causando estranheza.
Ela indicou com o queixo a placa retangular de bronze polido na parede.
Pus os pés para fora da mesa. Quando desci, meus calcanhares bateram no chão de pedra muito antes do que eu calculava. O impacto estremeceu meus joelhos. Cambaleei, as pernas compridas demais se cruzando num tropeço desajeitado, e precisei me agarrar à borda da mesa para não cair.
— O chão desceu — murmurei.
— O chão continua onde sempre esteve, Thaniel. Você é quem está mais longe dele.
Dei passos lentos, arrastados, parecendo um potro recém-nascido tentando descobrir para que serviam quatro patas compridas. Cheguei diante do bronze polido.
O reflexo devolveu a imagem de um estranho.
O cabelo escuro e os olhos eram meus. O resto parecia ter chegado cedo demais: rosto mais comprido, pescoço largo, ombros que ocupavam quase todo o bronze. Ergui uma mão para tocar a bochecha. O homem diante de mim fez o mesmo.
Toquei a bochecha. Uma penugem áspera raspou contra a minha palma. No reflexo, o homem fez exatamente o mesmo gesto.
— Quantos anos? — perguntei, sem tirar os olhos do metal.
— Biologicamente? Perto dos vinte. Dezenove, talvez.
Engoli a saliva amarga. Naquela manhã, ao acordar, eu tinha dez anos. Eu cabia inteiro nos braços da minha mãe.
Senti o estômago revirar. Dei dois passos para trás e me sentei na cadeira de madeira pesada. Meus joelhos dobraram em ângulo reto; meus pés assentaram firmes, planos contra o chão. A sensação de não ter as pernas balançando no vazio me deu uma pontada de pânico frio.
Foi isso que me fez chorar.
Não o rosto no espelho, nem a voz funda. Foram as pernas paradas no chão.
Tentei conter, mas Reyna viu as lágrimas. Ela me entregou uma caneca de água e esperou sem dizer que passaria. Talvez soubesse que não passaria tão cedo.
Segurei a caneca com as duas mãos. Ela não se partiu, mas precisei prestar atenção à força dos meus dedos. Bebi o resto da água com cuidado.
Meus braços não estavam apenas compridos. Havia neles uma força que eu não lembrava de ter pedido. Reyna também a observava.
— Isso era parte do rito? — perguntei.
Ela mediu meu pulso outra vez e pressionou meu braço com os dedos.
— Não assim. Eu esperava crescimento, não essa reação.
— É ruim?
— Ainda não sei. Durante o rito, seu corpo puxou mais magia do que eu lhe ofereci. Tentei conter a mudança, mas uma parte veio de você.
— Eu não fiz nada.
— Acredito. Isso não quer dizer que não exista algo aí.
Lembrei-me da mão de Zeus recuando no templo.
— O artefato marcou zero — falei.
— Ele procurava o que foi feito para encontrar. Não sei o que despertou em você, nem se conseguirá usá-lo. Por enquanto, é pouco mais que uma fagulha.
Pouco ou não, aquilo tinha me deixado maior do que Reyna esperava. Pousei a caneca longe da beirada da mesa.
Quando ergui os olhos, encontrei Reyna me observando. Eu já sabia que ela era bonita. Naquele instante, porém, percebi seu rosto de um jeito novo e fiquei sem saber onde pôr os olhos. O calor subiu às minhas orelhas.
Reyna notou meu embaraço. Em vez de rir, afastou a mão do meu braço e me deu espaço.
— Seu corpo vai reagir a coisas que antes passavam despercebidas por você — disse. — Isso não significa que saiba o que fazer com elas. Não precisa entender tudo hoje.
— Ótimo — murmurei. — Hoje já teve coisas demais.
Ela apontou para as roupas dobradas no banco, encerrando o assunto. Agradeci em silêncio.
Olhei para baixo e vi o estado das minhas roupas: o calção de baixo com que me deitara havia rasgado nas costuras laterais, apertando minhas coxas. A túnica de menino que tirei antes do ritual parecia uma bandeira velha atirada sobre um banco. Meus pés nus eram grandes demais para as sandálias infantis deixadas perto da entrada.
A porta lateral rangeu.
Nélios entrou. Trazia pó de pedra nas botas e a cara de quem passara duas horas esperando por uma tragédia. Parou no limiar. Seus olhos varreram minha altura, a linha dos meus ombros e o contorno da mandíbula, travando nos meus olhos.
Soltou o ar com força pelo nariz.
— Pelos deuses...
— Não há deuses nesta sala, Nélios — cortou Reyna, fria. — Guarde suas orações.
Tentei me levantar para mostrar firmeza. Meus pés se descompassaram e bati o quadril na quina da mesa. A pancada foi amortecida pelo músculo novo, mas a caneca quase rolou pelo tampo.
— Ainda estou aprendendo onde termino — falei.
A nova voz fez Nélios piscar duas vezes. Ele se aproximou com cautela incomum. Tocou meu ombro, medindo a solidez do osso como quem avalia uma viga de escoramento.
— A respiração? — perguntou.
— Sobra peito. Entra ar demais.
— E a cabeça?
— Parece que estou olhando o mundo de cima de um muro.
Nélios assentiu, uma sombra de alívio quebrando a dureza do rosto. Virou-se, abriu a mochila de lona que trouxera na subida e tirou de dentro uma túnica de linho escuro, calças e um par de botas de couro com tiras largas e ajustáveis.
— Você já tinha trazido isso? — perguntei.
— Vim cobrar um favor, não passar vergonha descendo a serra com um sujeito desse tamanho sem roupas — respondeu ele, jogando as peças na mesa. — Veste logo.
A túnica era dele; reconheci o cheiro de óleo vegetal, fuligem de forja e a costura dupla na gola. As calças ficaram curtas acima das canelas, mas as botas deram firmeza imediata aos meus pés no chão de pedra.
Vestir-me foi uma provação ridícula. Meus braços passavam do comprimento pretendido, os dedos erravam as amarras e eu puxava o tecido com força em excesso. Nélios tentou ajeitar a fivela do cinto, mas afastei sua mão.
— Eu faço.
Ele recuou um passo. Levei três tentativas desajeitadas para acertar o furo do couro.
— Conseguiu — disse ele, seco.
Reyna relatou o que acontecera durante o rito, apontando as marcas na pedra e a absorção fora do padrão. Nélios ouviu tudo em silêncio absoluto.
— Um Dom? — perguntou ele.
— A raiz de algo — respondeu Reyna. — Não há forma conhecida ou controle. Apenas um corpo que aproveitou a magia mais do que deveria.
— No templo, o artefato deu zero.
— O templo só encontra o que o Olimpo manda buscar — rebateu ela.
Nélios assentiu devagar, os olhos carregados daquela mesma frieza que aparecia sempre que alguém mencionava os sacerdotes.
— Ele pode descer?
— Depois de comer. Devagar. Se ele sentir dor no peito, falta de ar ou vertigem forte, você o traz de volta.
— Entendido.
Comi pão de cevada, queijo duro e duas porções inteiras de carne seca na mesa de pedra, mas a sensação de estômago vazio mal cedeu. Meu corpo parecia uma fornalha recém-acesa que consumia combustível sem parar.
Quando o sol começou a tocar a crista das pedras, Reyna nos acompanhou até a saída. Entregou a Nélios dois pequenos frascos de vidro e uma série de advertências sobre febres e contrações.
Olhei para ela antes de pisar na trilha.
— Quanto tempo de vida perdi?
Reyna sustentou meu olhar com firmeza.
— Não sei. O rito forçou anos de mudança em algumas horas. Talvez o preço termine aqui; talvez seu corpo cobre parte dele mais tarde. Não vou inventar uma conta para fazê-lo se sentir melhor.
Antes que eu me virasse, ela segurou meu antebraço com firmeza.
— Não mencione este lugar nem o meu nome. Se os sacerdotes de Atenas souberem desta casa, não virão conversar.
— Eu sei.
— Não sabe. Mas vai obedecer mesmo assim.
Soltou meu braço e encarou Nélios.
— A dívida acabou.
— Acabou.
— Então não use isso como desculpa para sumir outra vez.
Nélios permaneceu imóvel sob o vento da montanha.
— Desta vez, tenho para onde voltar.
Reyna apertou os lábios, e por um instante a raiva no rosto dela pareceu triste.
— Você também tinha antes.
Ele não respondeu. Virou as costas e tomou a dianteira na descida.
Descer a encosta foi pior do que subir. Minhas pernas chegavam ao chão antes que eu esperasse, e cada pedra parecia estar no lugar errado.
Subir com dez anos fora uma luta de fôlego: eu dava dois passos para cada passada de Nélios e meu peito queimava. Agora, descer era uma disputa para não despencar. Minhas pernas cobriam terreno rápido demais, os calcanhares golpeavam o cascalho com um peso descompassado e, por duas vezes, bati o ombro em galhos baixos que antes passavam longe de mim.
— Abaixe o tronco, garoto — rosnou Nélios, sem frear o ritmo. — Dobre os joelhos.
— Meus joelhos parecem molas duras — reclamei, a voz ressoando no peito. — Se eu dobrar, saio quicando.
— Então aprenda a frear. Temos pouco tempo.
— Quanto tempo?
— Dois dias.
Parei de supetão. Uma pedra rolou montanha abaixo com o impacto da minha bota.
— Dois dias? Você disse que seriam sete!
Nélios virou-se para trás. Pela primeira vez, eu não precisei erguer a cabeça para encará-lo; meus olhos estavam na mesma linha dos dele.
— Quatro dias no depósito — contou ele nos dedos calejados. — Hoje na montanha: quinto dia. Restam o sexto e o sétimo antes de a comitiva marchar para o Peloponeso. Você achou que ia viajar tropeçando nas próprias pernas?
A lógica dele era implacável. Fechei a boca e continuei descendo.
A noite já havia caído quando vimos as primeiras tochas de Atenas. Nélios me fez vestir a capa de viagem e puxar o capuz sobre a testa.
— Ninguém ouve o nome de Reyna — avisou.
— E o que eu digo quando me virem desse tamanho?
— Nada esta noite. Amanhã inventamos uma mentira que sobreviva à luz do sol.
Entramos pelos fundos da cidade, contornando a aglomeração do mercado e as praças onde os sacerdotes ainda mantinham as piras acesas em louvor aos escolhidos.
Minha mãe esperava do lado de fora de casa, segurando uma lamparina de azeite.
Quando ouviu as botas na calçada de pedra, deu dois passos rápidos à frente.
— Onde ele está, Nélios? Onde você colocou meu...
Ela travou.
Seus olhos passaram por Nélios, procuraram atrás de nós na penumbra e voltaram. Subiram pelas minhas pernas compridas, pela largura dos ombros e pararam no meu rosto.
A lamparina tremeu na mão dela.
— Mãe — chamei.
O som grave da minha voz pareceu esvaziar os pulmões dela. Melissa levou a mão livre à boca; suas pupilas dilataram até quase apagar o castanho dos olhos.
— Não... — murmurou, o ar escapando num fio. — Não, não...
Dei um passo para a frente.
— Sou eu.
Ela estendeu os dedos trêmulos. Tocou minha bochecha áspera, contornou o ângulo duro da mandíbula e subiu para a raiz do meu cabelo. As lágrimas brotaram de uma vez, escorrendo quentes.
— Thaniel?
Assenti.
Ela me puxou para um abraço.
Foi nesse instante que a realidade daquele dia me atingiu com força.
Minha mãe era menor do que eu.
A vida inteira eu me abrigara no ombro dela; agora, o topo da cabeça de Melissa mal batia no meio do meu peito. Eu precisei curvar a coluna para encostar nela, e meus braços compridos pareciam pesados demais contornando suas costas frágeis.
Melissa se afastou um palmo, os olhos procurando a criança que ela havia despachado naquela manhã.
— O que ele fez com você? — a pergunta saiu num sussurro cortante, carregada de um veneno que nunca ouvira nela. Virou o rosto para o velho. — O que você fez com o meu menino, Nélios?!
— Foi um rito — respondi, tentando conter a tremedeira.
— Eu perguntei a ele! — rebateu ela, sem tirar os olhos de Nélios. — Pedi que trouxesse meu filho de volta! Você sabia o que ia fazer quando veio ontem à noite. Deixou que eu acreditasse que iam apenas conversar!
Nélios sustentou o golpe sem recuar.
— Se eu contasse, você diria não.
— É claro que eu diria não!
— E ele entraria na arena como estava.
— Isso não lhe dava o direito!
— Eu sei.
Melissa hesitou por uma fração de segundo, desarmada pela admissão crua.
— Então por que fez? — exigiu ela.
Nélios olhou nos olhos dela.
— Porque preferi que você me odiasse a ver Thaniel morrer por uma desvantagem que não era culpa dele.
— Não use a vida dele para fingir que isso foi nobre.
— Foi minha escolha, mãe — cortei. Minha voz ressoou pesada no beco. — Eu mandei Reyna fazer.
— Reyna? — repetiu Melissa.
Nélios fechou os olhos por um instante.
— Esse nome não sai daqui. Não é uma ordem. É o que mantém aquela mulher viva e vocês dois longe de uma cela do Conselho.
Melissa voltou a olhar para mim.
— Você sabia que podia morrer?
— Sabia.
— E sabia que podia perder anos da sua vida?
— Ela explicou o risco.
Minha mãe respirou fundo, mas o queixo continuou tremendo.
— Eu não estou com raiva porque você quis viver, Thaniel.
— Então está com raiva de quê?
— De terem obrigado meu filho a escolher qual pedaço da própria vida ele queria perder.
Ficamos em silêncio. Os sacerdotes, o rei dos deuses e os magistrados que haviam gravado meu nome na Assembleia estavam longe dali. Só restavam três pessoas numa rua escura.
Melissa tocou meu peito com a mão aberta.
— Você tinha dez anos hoje de manhã!
— Eu continuo com dez anos aqui dentro — falei, apontando para o peito.
— Não diga isso! — soluçou ela, batendo contra o meu esterno com a palma aberta. O golpe mal moveu meu corpo, e isso a fez chorar com mais força. — Não fale como se fosse consolo! Eu não vi seus dentes mudarem. Eu não vi você esticar. Eu ia brigar quando ficasse mais alto do que eu... ia reclamar das túnicas curtas...
Tentei forçar um sorriso.
— A senhora ainda pode brigar comigo.
Ela soltou um suspiro entrecortado entre o pranto e o desespero e me puxou contra si. Fiquei ali, segurando minha mãe no escuro.
Por cima da cabeça de minha mãe, olhei para Nélios. Ele mantinha as mãos abertas junto ao corpo. Nunca o vira sem saber o que fazer com elas.
Melissa se recompôs, os olhos vermelhos voltando-se para o velho. Havia uma distância intransponível na voz dela:
— Quanto custou isso? O que essa magia arrancou dele?
— Não sabemos ao certo — disse Nélios. — O rito força o corpo. A dívida pode vir mais tarde ou ser absorvida pelo crescimento.
— Você não sabe — repetiu ela, as palavras afiadas. — Entregou o corpo do meu filho sem saber o preço.
— Melissa...
— Chega. Não esta noite. Você terá os próximos dois dias para terminar a loucura que começou. Mas esta noite ele é meu. Saia da minha porta.
Nélios baixou a cabeça devagar.
— Amanhã cedo, então.
Deixou a mochila no chão e me estendeu um frasco.
— Se a dor no peito voltar, três gotas em água. Não quatro.
— Eu ouvi as instruções.
— Ótimo. Assim posso ir embora sabendo que um de nós dois presta atenção.
Ele se virou e desceu a rua. Minha mãe nem sequer olhou para trás.
Entramos. Melissa preparou comida como se esperasse alimentar uma guarda inteira: lentilhas com cordeiro, pão fresco, azeitonas e figos secos. Sentei à mesa e meus joelhos bateram com força na madeira por baixo; precisei afastar as pernas para o lado para conseguir me ajeitar no banco de sempre.
Comi duas tigelas cheias e quase todo o pão. A fome parecia um poço sem fundo.
Ao tentar alcançar o copo d’água, errei o cálculo do meu braço: a mão passou do ponto e acertou a borda de um prato de cerâmica. O prato rodopiou e estalou no chão, partindo-se ao meio.
Fiquei paralisado.
— Desculpa. As coisas parecem perto demais.
Minha mãe se abaixou, recolheu os cacos sem erguer a voz e colocou-os na bancada.
— O mundo é que foi empurrado para cima de você depressa demais, Thaniel.
No quarto, tentei deitar na cama antiga. Minha cabeça encostou na cabeceira de pinho; meus pés e quase metade das canelas sobraram para fora do estrado de palha.
Fiquei olhando para o teto escuro, com as pernas suspensas no ar, e uma risada rouca e involuntária escapou da minha garganta.
Melissa, parada na soleira com a lamparina, começou a rir junto. Foi uma risada solta e desesperada, o ridículo de ver um homem feito espremido num estrado de menino.
Então o riso dela se desfez em choro.
Sentou-se na beirada da madeira que rangeu sob nosso peso e cobriu o rosto. Pousei minha mão grande sobre as costas dela.
— Mãe...
— Eu conhecia você — soluçou ela. — Sabia a hora que ia pedir água, conhecia sua cara de birra quando não queria azeite no pão... Eu sabia quem era o meu filho. Eu olho para você agora e sei que está aí dentro, mas preciso aprender você de novo. E depois de amanhã você vai embora.
Não havia frase pronta que pudesse consertar aquilo. Apenas deitei minha cabeça no ombro dela — agora me inclinando para baixo — e ficamos ali até o azeite da lamparina apagar.
No sexto dia, acordei com a luz cinzenta invadindo o quarto.
Encontrei Melissa na cozinha, parada diante do batente, me olhando como se ainda tentasse se convencer do que via. Comi o restante do pão antes de Nélios bater à porta.
Minha mãe não foi atender. Quando as batidas insistiram, ela apenas assentiu com a cabeça, permitindo que eu abrisse.
Nélios entrou trazendo duas túnicas de lã áspera, calças folgadas e uma sacola de mantimentos.
— As roupas devem dar folga — disse ele, pondo o embrulho na mesa.
Melissa cruzou os braços.
— Isso não apaga o que você fez.
— Não trouxe para apagar.
Ele me encarou.
— Alguma pontada no coração?
— Nenhuma.
— Tontura?
— Só ao levantar rápido.
— Então não levante rápido.
Vesti a túnica nova. Ficou melhor nos ombros, sem repuxar. Nélios tirou do cinto o mesmo pedaço de corda com que medira minha altura no quarto dia e mandou que eu encostasse na parede de taipa do pátio interno.
O nó que antes marcava o topo da minha cabeça parou na altura do meu externo. Ele esticou a corda até a nova marca, cortou a sobra e mediu a distância com o palmo.
— O bastante para alcançar onde você olha — comentou.
— Isso é um elogio?
— É medição. Não estrague.
Naquela manhã, Nélios não me levou ao depósito. Ficamos no pátio de terra batida atrás da casa, sob o olhar constante de Melissa.
Ele passou horas me obrigando a reaprender o básico: caminhar em linha reta, mudar de direção sem cruzar os calcanhares, parar de repente e agachar sem tombar. Espalhou tigelas de barro vazias pelo chão e ordenou que eu corresse entre elas. Esmaguei duas na primeira volta.
— Brilhante — resmungou ele. — Se os monstros do Agón forem feitos de louça barata, já temos uma estratégia.
Na quarta tentativa, passei por todas sem encostar o couro das botas.
Depois jogou pequenos sacos de feijão na minha direção. Minhas mãos fechavam no vazio ou batiam neles com força demais, fazendo os grãos estourarem a costura. Levei um no peito, outro na testa. Peguei o terceiro.
Perto do meio-dia, ele empurrou um saco de areia com o pé.
— Erga até a altura do peito.
Abafei o ar, dobrei as pernas e puxei. O saco subiu tão rápido que quase passou por cima do meu ombro. Nélios segurou a ponta antes que voasse contra a cerca.
— Cuidado.
— Achei que estivesse pesado como antes.
Ele colocou um segundo saco sobre o primeiro. Puxei de novo. O peso exigiu trabalho das costas, mas meus braços sustentaram a carga sem o tremor desesperado da infância. A contração, contudo, veio com uma pontada áspera nos tendões do cotovelo, como se a carne estivesse puxando uma alavanca crua demais para as juntas.
Nélios apalpou meu braço com força.
— Reyna não estava errando — disse. — Seu corpo pegou mais massa do que apenas dez anos trariam.
Melissa, na porta da cozinha, deu um passo à frente.
— Isso é perigoso?
— Força sem base sempre é — respondeu Nélios. Ele virou para mim e me empurrou pelo flanco sem aviso. Tentei travar a perna, meu pé escorregou na terra seca e caí sentado. — Viu? Se você tentar usar essa massa sem ter apoio, vira um tronco rolando. Não tente disputar força na arena. Se pegar um lutador de Esparta ou um monstro no tranco direto, suas articulações estouram antes das dele.
Ajudou-me a levantar.
Trabalhamos esquivas curtas e recuperação até o entardecer. A queimação muscular era profunda, mas meu fôlego recuperava muito mais rápido do que deveria.
Antes de sair, Nélios alinhou a história que apresentaríamos:
— Se os oficiais ou os outros campeões perguntarem, foi uma adequação física autorizada pelo preparo do Décimo Terceiro. Não mencione a serra, a cabana nem o nome de Reyna. Uma mentira curta resiste melhor.
No sétimo dia, antes de a cidade acordar, atravessei a rua deserta e entrei no depósito de Nélios.
O cheiro de poeira e metal antigo preenchia o ar. Ele me esperava no centro do retângulo livre, segurando uma espada de madeira feita para adultos — pesada, talhada em carvalho escuro.
Entregou-a em minhas mãos.
O punho coube com precisão entre meus dedos. O peso já não arrastava meus ombros para baixo. Pela primeira vez na vida, a arma parecia pertencer ao meu alcance.
— Empunhadura firme — mandou Nélios. — Avance.
Na primeira investida, dei um passo tão largo que meu pé dianteiro ultrapassou a marca de carvão. Nélios bateu com o bastão no meu punho e a espada voou no chão.
— Você tem alcance agora, garoto. Pare de se atirar para a frente como se estivesse sem pernas.
Apanhei a espada. Ele pintou o círculo negro de carvão no próprio peito, no mesmo ponto do quarto dia.
— Toque aqui.
Avancei. Errei duas vezes por afobação. Na terceira, desviei da madeira dele, entrei no compasso certo e bati a ponta da minha arma bem no centro do círculo.
No mesmo instante, o bastão de freixo dele encostou na minha garganta.
— Dois mortos — disse ele, impassível. — Um empate no papel e dois corpos na vala. Outra vez.
Foram necessárias onze tentativas até que eu conseguisse bater no círculo, girar o quadril e escapar da resposta do bastão sem perder a guarda. Nélios não sorriu, mas passou a mão pelo peito e apagou a marca de carvão.
À tarde, aumentou a velocidade dos ataques.
Vi o ombro dele travar, a respiração estancar e a madeira vir em arco descendente. Abaixei-me no tempo exato, passei por baixo do golpe e desferi uma estocada defensiva com o peso do corpo inteiro.
O impacto da minha espada de carvalho contra a guarda dele produziu um estalo seco.
Uma onda espasmódica de força saiu do meu ombro, vibrando nos ossos com tanta violência que meus dentes estalaram. Nélios vacilou, os calcanhares arrastando na terra batida, e deu um passo para trás para não perder o equilíbrio.
Paramos.
Eu nunca o havia feito recuar.
Nélios olhou para o próprio bastão, depois para os meus braços. Havia uma expressão de cálculo puro no seu semblante.
— De novo — ordenou.
Tentei forçar o mesmo movimento na investida seguinte, querendo sentir aquela explosão de novo. Antes que eu completasse o giro, o bastão dele bateu com força no meu ombro desprotegido, fazendo meu braço adormecer.
— Ai! — reclamei, soltando a guarda. — O que foi isso?
— Foi o lembrete de que você é tolo — disse Nélios, a voz cortante. — Você acertou o golpe anterior por pura sorte de alavanca e um espasmo muscular que quase deslocou sua clavícula. Não tente lutar como se tivesse o poder de um titã dentro da carne. Seus tendões mal aguentaram aquele tranco.
Ele apontou a ponta de madeira para o meu peito:
— Use o que já era seu: seus olhos, sua leitura de abertura e a velocidade para sair do caminho. A força que apareceu aí dentro só serve se você souber onde ela termina. Se confiar nela contra guerreiros experientes, eles quebram seus braços antes de você entender por que caiu.
Entendi a lição. Voltamos a treinar esquiva e contenção até o sol sumir por completo.
Ao anoitecer, Nélios trancou a porta do depósito. Separou cantis, pomada, tiras de linho e uma caixa com agulhas e fio grosso. Por último, abaixou-se atrás do balcão e retirou um volume longo e pesado, firmemente enrolado em pano grosso e amarrado com correias de couro. Prendeu-o às costas com uma tira transversal.
— Isso é uma espada? — perguntei, apontando para o embrulho.
— É uma mercadoria.
— Mercadorias costumam ter punho de ferro aparecendo na ponta?
Ele ajeitou o pano sobre o pomo escuro.
— As caras, às vezes.
— Reyna disse que você sabia lutar melhor do que finge atualmente.
Nélios me lançou um olhar que teria calado um homem feito.
— Reyna fala coisas demais quando quer me aborrecer. Pegue a sua sacola, Thaniel.
Não insisti. Peguei as minhas coisas e atravessei a rua de volta para casa.
Minha mãe passara o dia consertando bainhas e dobrando as túnicas de lã. Colocou comida seca nas sacolas e guardou os frascos de vidro com cuidado. Quando tudo estava pronto sobre a mesa, ela me chamou até o batente da porta.
— Venha cá.
Fui até lá.
— Fique reto contra a madeira.
Encostei os calcanhares e as costas na quina.
Melissa pegou um pedaço de carvão escuro. No batente de pinho, havia riscos antigos, marcando cada ano do meu crescimento. O último deles, feito poucos meses antes da Assembleia, ficava agora na linha do meu peito, logo abaixo do coração.
Ela apoiou a mão trêmula no alto da minha cabeça e traçou uma linha preta e firme na madeira.
A marca nova ficou bem acima dos olhos dela.
Melissa não falou nada. Apenas passou o polegar devagar pelo espaço liso e vazio entre as duas linhas de carvão. Dez anos de vida que haviam desaparecido entre o almoço e o jantar.
Fiquei olhando para a madeira riscada.
Pela primeira vez em sete dias, não encontrei nenhuma palavra.