Boa Sorte, Disseram os Deuses
Os sacerdotes nos separaram assim que atravessamos os portões de Olímpia.
Não houve tempo para contemplar o Estádio dos Doze. Homens de túnicas brancas se distribuíam pela avenida com tábuas de cera, estiletes de bronze, selos de argila e muita experiência em organizar pessoas a caminho da morte. Cada comitiva era contada e conduzida para um pavilhão diferente. Atenas exigiu três conferências.
Na última contagem, o sacerdote pediu meu medalhão e comparou o nome gravado nele com a tábua oficial.
— O registro diz que Thaniel de Atenas tem dez anos.
— O registro continua correto — respondeu Nélios, sem desviar os olhos da avenida.
O homem me examinou outra vez, da ponta das botas até a largura dos ombros.
— Eu esperava uma criança.
— Ela só ocupa mais espaço agora.
O sacerdote franziu o cenho, acrescentou a décima terceira marca na cera e não achou graça.
A Vila dos Campeões ficava entre o rio e o estádio. Doze pavilhões cercavam uma praça central. Reconheci o de Atenas pelas corujas de bronze; o de Esparta parecia preparado para resistir a um cerco.
Havia campos de treino, uma enfermaria e caminhos largos por onde soldados vigiavam a passagem de uma pólis para outra. Nélios disse que a Trégua Sagrada nos protegia de ataques fora da arena. Olhando para a quantidade de guardas, tive a impressão de que ninguém confiava apenas na palavra dos deuses.
Nélios observava os telhados, as guaritas e a posição das torres como alguém conferindo se as coisas continuavam onde as deixara. O objeto comprido permanecia amarrado transversalmente às suas costas, coberto pelo mesmo tecido escuro da partida. Dez dias de poeira da estrada haviam mudado a cor do linho, mas não afrouxado nenhum dos nós.
— O que foi? — perguntei.
— Nada.
— E o embrulho?
— Ferramenta agrícola.
— Em Corinto você disse que era um mapa detalhado.
— Negócios mudam conforme a região, garoto.
Antes que eu pudesse insistir na piada, a comitiva de Esparta, a pólis consagrada a Ares, entrou na praça sob estandartes vermelhos e negros. Os doze guerreiros marchavam com precisão mecânica, acompanhados por instrutores veteranos escolhidos, aparentemente, pela capacidade de desaprovar o mundo inteiro em silêncio.
Reconheci apenas um deles.
Ajax de Esparta era maior do que parecera nos Espelhos de Íris. Trazia uma lança pesada, um escudo marcado por golpes antigos e um javali pintado no peito. Os outros espartanos abriram caminho sem que ele pedisse.
— Ajax — murmurei.
— Conhece? — perguntou Nélios.
— Nos Espelhos, venceu todos os combates das preliminares sem receber um único golpe.
— Quantas vezes mostraram isso?
— Três.
— Então queriam que você lembrasse.
Ajax percebeu que falávamos dele. Entregou a lança a um companheiro e veio até nós com a calma de quem sabia que não precisava correr para assustar ninguém.
Nélios não se moveu. Eu também não, embora cada nervo do meu corpo pedisse um passo atrás.
O espartano parou a dois palmos de mim. Era alguns centímetros mais alto e quase o dobro da minha largura. De perto, o cheiro de couro curtido, suor seco e óleo de armas era sufocante.
— Você é o Décimo Terceiro.
Não era uma pergunta.
— Thaniel.
Ele ignorou a minha mão estendida e examinou meus ombros, o comprimento dos meus braços e o apoio dos meus pés no saibro.
— Disseram que era uma criança.
— Tecnicamente, sou.
— Não parece.
— Os últimos dias foram confusos.
Ajax não sorriu nem fez menção de puxar uma arma; não precisava de teatro para intimidar ninguém. Seu olhar tinha a franqueza prática e desagradável de um ferreiro avaliando o ponto de quebra de uma barra de ferro.
— Doze lugares — disse ele, a voz rascante. — Atenas trouxe treze. Quero descobrir se Zeus encontrou um verdadeiro campeão ou apenas criou um problema para a contagem dos sacerdotes.
— Quando descobrir, pode me avisar. Também estou curioso.
Uma ruga funda surgiu entre as sobrancelhas dele. Por um segundo, achei que meu hábito idiota de responder a tudo tivesse me colocado em apuros antes da hora, mas Ajax apenas inclinou o queixo num gesto curto.
— Espero que chegue à minha frente em alguma prova.
— Para quê?
— Para que eu possa ultrapassá-lo.
Deu meia-volta e retornou à fileira espartana sem esperar resposta.
— Agradável — comentei.
— Direto — corrigiu Nélios. — É mais perigoso.
Continuei observando as outras delegações cruzarem a praça. Uma mulher de pele escura e tranças apertadas carregava uma rede metálica enrolada no braço e se movia como se o chão pudesse inclinar a qualquer momento. Dois irmãos usando armaduras idênticas caminhavam colados, vigiando o lado cego um do outro com precisão quase mecânica. Um rapaz que parecia ter a minha idade real — dez ou onze anos — permanecia encolhido no centro de um círculo de tutores que discutiam estratégias aos gritos sem consultá-lo. Outra campeã não trazia nenhuma arma visível, o que me deixou mais inquieto do que se ela carregasse três espadas nas costas.
Nenhum deles parecia estar ali por engano.
Atrás das comitivas, os Dons eram usados para tarefas banais. Um carregador ergueu a palma aberta, e seis baús pesados de cedro saíram da carroça, flutuando em fila indiana pelo ar até a soleira de um pavilhão. Perto da fonte central, uma atleta vestindo o azul-marinho de Poseidon girou o pulso direito; a água que ensopava sua túnica desprendeu-se das fibras em gotículas, reuniu-se numa esfera transparente no ar e mergulhou de volta na bacia de mármore sem respingar.
Ninguém parou para aplaudir.
Foi essa indiferença que me atingiu com força. Nas preliminares de Atenas, cada demonstração era acompanhada por anotações febris de escrivães e exclamações de espanto da multidão. Ali na Vila, poderes serviam para tirar poeira de mantos e descarregar mantimentos.
Eu estava cercado por pessoas para quem a matéria do mundo obedecia a vontades naturais.
Para mim, o mundo continuava surdo.
O pavilhão de Atenas fora projetado rigorosamente em torno do número doze: doze quartos individuais, doze corujas entalhadas no mosaico do chão e doze suportes de armas nas paredes do pátio. Nenhuma linha daquela planta considerara a hipótese de um décimo terceiro habitante.
Os doze campeões receberam suas chaves de ferro. O sacerdote contou as portas fechadas, contou os rostos na sala e prometeu verificar com a intendência o que poderia ser feito.
No pátio interno, uma sacerdotisa de Atena reuniu a equipe para explicar as diretrizes da Trégua Sagrada e as penas imediatas para qualquer agressão fora da arena oficial: execução sumária ou entrega aos algozes do Conselho. Nenhuma prova possuía duração prefixada: algumas terminavam em poucas horas; outras estendiam-se por dias a fio. Entre uma prova e outra, os sobreviventes teriam duas semanas de repouso para tratamento de ferimentos e estudo dos desafios seguintes.
Ouvir as regras dentro de Olímpia fez os seis meses parecerem uma montanha palpável. Se eu sobrevivesse, passaria mais de meio ano naquele vale. Se morresse, o calendário deixaria de ter importância.
— A primeira prova ocorrerá depois de amanhã — anunciou a sacerdotisa. — A divindade responsável revelará o desafio esta noite. Ao pôr do sol, todos os campeões deverão se apresentar no Pavilhão das Celebrações para o banquete de boas-vindas. Lorde Zeus exige a presença de cada um dos escolhidos.
Ninguém ousou perguntar se o convite era opcional.
Depois da dispensa, saí para memorizar os acessos e estudar os rostos dos competidores antes que o início dos jogos transformasse curiosidade em combate.
Foi perto do campo de tiro que encontrei a segunda pessoa cujo nome eu conhecia dos registros.
Cassandra vinha do campo de tiro com um arco numa mão e flechas às costas. Eu conhecia seu nome dos registros de Éfeso. Ela notou a coruja no meu manto e passou por mim sem diminuir o passo. Ela era loira, de olhos verdes levemente puxados e pele bronzeada de sol. Era mais musculosa que a maioria dos escolhidos do Agón. Ela usava o cabelo em tranças de combate, roupa de caçadora e pinturas discretas de camuflagem no rosto.
Ao lado dela vinha um rapaz que julguei ser o irmão, pela semelhança. Era pouco mais baixo que eu, mas tinha ombros mais largos. Tinha os mesmos olhos e pele bronzeada, e os cabelos loiros eram presos em um coque alto.
O rapaz ao lado dela parou, olhando para mim.
— Thaniel?
— Sim.
Ele olhou para meu rosto, depois para meus ombros.
— Os Espelhos mostraram um garoto bem menor.
— Também foi uma surpresa para mim.
Ele riu, sem a cautela que eu começara a esperar de todo mundo naquela Vila.
— Sou Jason. Aquela é minha irmã, Cassandra.
Apertamos as mãos. Ele não tentou medir força; gostei dele por isso.
Cassandra voltou a cabeça.
— Nos registros, você tinha dez anos e zero magia.
— O registro continua certo — respondi.
Ela examinou meus pés, como se o modo de ficar parado dissesse mais do que meu tamanho.
— Então ainda precisa aprender a usar o que ganhou.
Retomou o caminho para os alvos. Jason soltou o ar pelo nariz.
— Aquilo foi quase uma apresentação amistosa.
— Vou tentar me recuperar da emoção.
Ele sorriu e me convidou a acompanhá-lo. Depois de Ajax, conversar com alguém que não parecia decidir onde me acertaria primeiro foi um alívio.
Jason me mostrou a localização dos banhos termais, o depósito de flechas e as cozinhas do setor leste. Não tentava parecer mais sábio do que era e, quando perguntei sobre a primeira prova de Deméter, confessou que não sabia nada além do boato de que envolveria terrenos acidentados.
— Quase todo mundo aqui anda de queixo empinado fingindo que sabe o que vai acontecer — comentou ele.
— Ajax parece saber.
— Ajax só sabe o que pretende quebrar primeiro. Não é a mesma coisa.
Ao nos despedirmos perto do pavilhão de Atenas, Jason me desejou boa sorte com o dormitório. O rumor de que o Décimo Terceiro dormia no chão já havia percorrido os alojamentos antes do meio-dia.
Nélios me esperava na antecâmara do pavilhão ateniense, onde havia bancos corridos de pinho e uma mesa baixa de madeira gasta. O sacerdote da intendência finalmente retornara, escoltado por dois auxiliares que carregavam um catre dobrável de lona e ferro.
A explicação foi curta e burocrática: os doze quartos faziam parte do círculo ritual consagrado do santuário, e suas fechaduras haviam sido lacradas com os doze nomes homologados perante o Conselho antes da partida. Os sacerdotes não podiam consagrar uma décima terceira porta nem abrir espaço na ala dos mestres sem autorização expressa dos patriarcas de Dodona. Como esse rito só acontecia a cada dez anos, a sala de passagem comum seria o único teto disponível para mim durante a temporada.
Não era um quarto. Era um leito de passagem no meio do corredor.
Os serviçais armaram o catre encostado na parede de taipa, entre a porta de entrada e a mesa dos bancos. Coloquei minha mochila de lona como cabeceira e ajeitei a manta cinzenta de Melissa até a lona parecer habitável.
Nélios assistiu a tudo encostado numa coluna, de braços cruzados. Ele recebera um aposento regular na ala norte reservada aos tutores; eu recebera uma cama improvisada do lado de fora das doze portas que a cidade tivera uma década para preparar.
— Já dormi em valas piores — comentou ele.
— Isso deveria me fazer sentir um príncipe?
— Deveria fazer você parar de olhar para a parede e começar a pensar no que vai vestir esta noite.
Contei a ele sobre o encontro com Cassandra e a conversa aberta com Jason enquanto ajeitava as tiras do colchão.
— Jason parece legal — concluí.
— Talvez seja.
— Você fala como se fosse uma doença infecciosa.
Nélios desencostou da coluna e deu um passo na minha direção.
— Sorrir, mostrar o caminho dos banhos e falar de forma mansa não faz de ninguém seu aliado, garoto. Aqui dentro, ninguém é seu amigo.
— Você está aqui.
— Eu não vou disputar a coroa na arena.
Ele apontou para a praça iluminada pelo sol da tarde, onde dezenas de competidores circulavam armados.
— Todos os outros são rivais. Alguns serão leais à própria pólis, outros serão cruéis e alguns podem até ter pena de você. Mas quando os portões do estádio se fecharem, cada um deles precisará garantir a própria cabeça antes de lembrar do seu nome. Não confunda educação com segurança.
Pensei no olhar direto de Ajax, na frieza calculista de Cassandra e no tom despreocupado de Jason.
— Então não devo confiar em ninguém?
— Deve aprender em quem confiar, em que medida e para qual finalidade. Desconfiar de todos sem pensar é apenas outra forma de ser fácil de enganar.
— Você tem um talento raro para complicar coisas simples.
— É para isso que mestres servem.
Ele ajeitou a tira da espada oculta sobre o peito e seguiu para a ala dos tutores, deixando-me sozinho na antecâmara vazia.
O Pavilhão das Celebrações possuía proporções monumentais, projetado para acolher milhares de cortesãos em festejos imperiais, mas naquela noite suas galerias estavam reservadas exclusivamente para os cento e quarenta e cinco campeões.
Doze mesas compridas de carvalho maciço cercavam uma plataforma circular de mármore branco. Na extremidade da mesa de Atenas, os organizadores haviam encaixado uma cadeira adicional de madeira simples, ligeiramente desalinhada das outras doze. As bandejas transbordavam de javali assado, pães de trigo puro, azeite dourado, uvas e queijos maturados em mel; mesmo assim, quase ninguém encostou nos talheres.
Sobre a plataforma elevada, os tronos de ouro e marfim permaneciam vazios.
Nélios e os outros mestres ficaram na ala dos tutores; o banquete pertencia apenas aos combatentes e aos deuses. Divindades menores ocupavam assentos baixos nas laterais do salão: ninfas de fontes sagradas, espíritos de rios locais e entidades menores ligadas a vitórias esquecidas.
Entre elas, destacava-se uma mulher de cabelos negros com mechas brancas compridos, tez muito clara e vestes austeras em prata fosca e azul-pálido. Ela não conversava com os espíritos ao lado nem tocava nas taças de vinho; sua postura imóvel e serena atraiu minha atenção por vários segundos, até que as cornetas dos arautos soaram perto do teto abobadado.
Os sacerdotes chamavam aquele momento de bênção suprema dos mortais. A maioria dos homens passava a existência inteira acendendo incenso para estátuas de pedra; nós veríamos o panteão inteiro reunido a poucos passos de distância. Para a maior parte daqueles cento e quarenta e cinco jovens, essa honra duraria poucas semanas antes do sepultamento.
As portas de bronze do fundo se abriram.
Ajoelhamo-nos antes que alguém mandasse. O peso que senti na Assembleia voltou, multiplicado. Zeus entrou à frente com Hera. Mantive os olhos baixos, mas reconheci o som dos passos dele. Meu braço doeu onde seus dedos o haviam marcado.
Atrás dos dois vieram os outros. Poseidon trouxe cheiro de maré ao salão; Deméter, o de terra molhada. Atena e Hermes passaram pela mesa de Atenas. Hermes olhou para mim.
— Nos Espelhos, fizeram parecer fácil — disse.
— Não foi, meu senhor.
Atena me examinou por um instante.
— O corpo mudou — disse. — A idade, não.
Eles seguiram antes que eu encontrasse resposta. Ares passou pelos espartanos com um sorriso que os fez bater nos escudos. Ártemis encontrou Cassandra e Jason de cabeça baixa. Hefesto trazia fuligem nas mãos, como alguém que saíra da forja antes de terminar o serviço.
Quando Afrodite passou, senti o rosto esquentar e desviei os olhos. Não soube dizer se era efeito dela ou do meu corpo novo. Dionísio entrou com uma taça na mão e se sentou antes dos outros. Ninguém reclamou.
Apolo veio por último. A luz ao redor dele tornou mais fácil enxergar o salão, e a pressão sobre meu peito pareceu diminuir um pouco. Olhei para seu rosto por mais tempo do que havia ousado olhar para o de qualquer outro deus.
Zeus ergueu a mão direita e nos permitiu levantar. Voltamos aos assentos com cautela extrema, os olhos baixos. Servos começaram a circular com jarras de vinho e bandejas fumegantes, mas ninguém se atreveu a quebrar o silêncio solene.
O soberano do Olimpo levantou-se para inaugurar os jogos.
Falou sobre a honra imperecível da Salvação, o dever cívico das Doze Pólis e o privilégio imortal de sangrar pela preservação da ordem divina. Declarou que nossos nomes ecoariam através das eras ao lado dos grandes heróis que sustentavam a paz do mundo. Sua oratória possuía uma cadência paternal impecável — o suficiente para encantar qualquer jovem que nunca tivesse sentido seus dedos esmagando a carne de um braço numa câmara escura.
Ao se sentar, Zeus olhou diretamente para mim.
Não foi uma varredura casual sobre a delegação ateniense; foi um foco reto, deliberado e imóvel.
Seus olhos azuis-elétricos estreitaram-se, cravando na largura dos meus novos ombros e no contorno da minha mandíbula com uma frieza de gelo.
Por um instante, o Pavilhão das Celebrações desvaneceu-se ao meu redor. Voltei a ouvir o estalo da coluna quebrando no templo de Atena e senti o bafo metálico da presença que tentara arrancar o que havia dentro de mim. Isso não deveria existir. Você. Minha mão direita fechou-se sob a mesa até as unhas morderem a palma, e precisei forçar o ar para dentro do peito para lembrar que havia cento e quarenta e quatro competidores ao meu lado e uma Trégua Sagrada nos protegendo do raio.
O contato visual durou uma eternidade de segundos. Então Hera se levantou, quebrando o feixe de tensão, e Zeus desviou a atenção como se eu fosse poeira insignificante.
Hera falou de honra; Ares, de glória. Ouvi pedaços dos discursos seguintes, mas a maioria das palavras se misturou ao ruído dos pratos. Eu ainda procurava não olhar para Zeus.
Deméter nos fez prestar atenção outra vez.
— A primeira prova será minha. Começará depois de amanhã, ao nascer do sol.
Ela não disse qual seria o desafio. Fez apenas um pedido para que comêssemos enquanto ainda havia comida à nossa frente. Ninguém na mesa de Atenas pareceu disposto a aceitar o conselho.
Dionísio ergueu a taça e disse que esperava aprender nossos nomes antes do fim dos jogos. Alguns riram. Eu não consegui decidir se era uma brincadeira.
Apolo se levantou por último. Antes de falar a todos, chamou pelo nome cada um dos doze campeões de sua pólis. Não precisava consultar registros. Quando terminou, voltou-se para o salão.
— Cada um de vocês será visto durante o Agón — disse. — Aquilo que fizerem aqui terá consequências além destas paredes.
Seu olhar dourado deslizou pelas bancadas e desacelerou ao cruzar a minha mesa. Em sua expressão, havia uma curiosidade aguda e um esboço de aprovação que parecia incluir em vez de segregar.
— Contudo... — continuou ele, o tom baixando um semitom. — Os fios das tecelãs do destino estão agitados.
Apolo parou de falar. A luz ao redor dele se tornou branca, forte demais para que eu sustentasse o olhar. Os sacerdotes junto aos tronos recuaram; até os deuses se calaram.
Quando sua voz voltou, parecia vir de muito longe.
— Este será um Agón de números partidos. Onde doze deveriam caminhar, caminhará um décimo terceiro. Vejo atos que sobreviverão à memória de quem os cometeu, vitórias erguidas onde todos apostavam na derrota, e acontecimentos que surpreenderão até mesmo aqueles que julgam conhecer o amanhã.
Senti pessoas se virarem para mim. Mantive as mãos sob a mesa. Não precisava olhar para saber por que tinham lembrado meu nome.
A luz diminuiu. Apolo respirou como quem acabara de acordar e ainda não reconhecia o lugar onde estava. Então, um sorriso enigmático brincou em seus lábios antes do fecho:
— E antes que a última pira sagrada deste Agón se apague, uma das deusas donzelas descobrirá que nem mesmo um coração imortal e intocado pode escolher tudo o que sente.
Houve um murmúrio, algumas risadas cautelosas. Dionísio ergueu a taça e Afrodite sorriu, interessada no vislumbre de Apolo. Mas a música recomeçou antes que alguém transformasse o presságio em assunto de toda a mesa.
Eu não sabia a quem Apolo se referia, nem por que dissera aquilo diante de nós. Sabia que Deméter nos esperava depois de amanhã. Era uma parte do futuro próxima o bastante para me tirar a fome.
Tentei mastigar um pedaço de pão com queijo. O gosto era excelente, mas a comida parou no fundo da garganta, travada pela certeza de que o tempo de esperar havia chegado ao fim.
Depois de amanhã, desceríamos para a terra de Deméter. Apolo havia acabado de transformar minha presença numa anomalia profetizada perante os Doze, Ajax prometera me esmagar na pista e Jason era simpático demais para um lugar onde a sobrevivência custava a vida do vizinho.
Ao meu redor, a celebração transbordava sob o olhar soberano dos deuses. Pela primeira vez na história, cento e quarenta e cinco mortais haviam ouvido o panteão inteiro desejar-lhes boa sorte em coro.
Eu começava a ter certeza absoluta de que eles sabiam exatamente o quanto nós precisaríamos dela.