Capítulo 6: O Banquete de Ileia e o Caderno de Segredos
O salão principal do Castelo de Ileia ressoava com o eco de risadas polidas, o tilintar de taças de prata e a música suave dos alaúdes. Nobres de todas as províncias desfilavam suas vestes luxuosas sob a luz dourada de centenas de velas. No entanto, para Sofia, todo aquele espaço parecia opressor.
Afastada da multidão, ela se encolhia perto de uma das grandes colunas de pedra do salão, tentando passar despercebida. Seu vestido, embora simples para os padrões da corte, era de um azul claro delicado que combinava com sua postura suave. O cabelo castanho estava cuidadosamente preso em uma trança lateral embutida, que caía de lado sobre o ombro, deixando algumas mechas soltas emoldurando seu rosto jovem.
Apertando contra o peito seu bem mais precioso — um diário de capa estampada sem tranca —, Sofia mordia o lábio inferior, um tique nervoso que denunciava sua timidez. Ela olhou para os lados, os olhos arregalados e inocentes brilhando com o reflexo das tochas, e se sentou em um pequeno banco de madeira escondido pelas sombras da tapeçaria.
Com as mãos levemente trêmulas, ela abriu o diário. Sofia não escrevia músicas ou notas musicais — seu refúgio era o desenho. Ela pegou um pedaço de carvão e começou a traçar linhas rápidas no papel em branco, tentando capturar os arabescos da arquitetura do castelo. Quando desenhava, o mundo exterior desaparecia. Ela inclinava a cabeça para o lado, focada, com um meio-sorriso ingênuo nos lábios, totalmente alheia ao banquete.
— Você desenha muito bem — uma voz masculina, firme mas surpreendentemente gentil, ecoou bem acima dela.
Sofia deu um sobressalto. O susto foi tão grande que ela perdeu o equilíbrio ao tentar se levantar rapidamente. Seus pés se enredaram na barra do próprio vestido e ela tropeçou para a frente.
O impacto não veio contra o chão de pedra, mas contra o peito de alguém.
O diário escapou de suas mãos, caindo aberto no chão. Sofia congelou, com as mãos espalmadas contra os ombros de um rapaz. Ela piscou os olhos várias vezes, subindo o olhar lentamente até encarar o rosto dele.
Era o Príncipe Henry. Ele tinha um sorriso arqueado, um olhar caloroso e uma postura imponente, mas sem a arrogância comum aos outros nobres.
— Ei, tudo bem? Eu não quis te assustar — disse Henry, segurando-a firmemente pelos braços até garantir que ela estava firme sobre os pés.
Sofia sentiu o rosto queimar instantaneamente, as bochechas ganhando um tom rubro intenso. Ela deu dois passos para trás, desajeitada, arrumando a trança sobre o ombro com um gesto rápido e nervoso, sem saber onde enfiar as mãos.
— M-Me desculpe! — gaguejou ela, a voz saindo quase em um sussurro, os olhos fixos no chão. — Eu... a culpa foi minha. Eu sou muito distraída.
— Não precisa pedir desculpas — Henry riu baixo, um som leve que fez o coração de Sofia dar um salto estranho.
Ele se abaixou com elegância para recolher o diário de couro e o pedaço de carvão. Antes de fechar o caderno, seus olhos passaram pelo desenho das colunas do castelo.
— Realmente... é um talento impressionante — ele comentou, estendendo o diário de volta para ela.
Sofia esticou os braços e pegou o caderno, abraçando-o contra o peito novamente, como se fosse um escudo protetor. Ela olhou para Henry de baixo para cima, por entre as mechas de cabelo, com uma mistura de admiração e puro pânico social.
— É só... um caderno antigo. Eu só guardo meus pensamentos nele — ela explicou, a voz doce e vacilante, dando de ombros com aquele jeitinho inocente que a acompanhava desde a infância.
— Um caderno de segredos? — Henry deu um passo à frente, curioso, inclinando a cabeça com um sorriso divertido. — Prometo que não vou tentar ler nenhum deles. Sou Henry, a propósito.
Sofia engoliu em seco, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o diário. Ela sabia exatamente quem ele era, mas a simplicidade dele a desarmou.
— Eu sei... quer dizer, Alteza... — ela se atrapalhou, fazendo uma reverência desajeitada que quase a fez tropeçar de novo. — Sou Sofia.
— Só Henry, por favor. E não precisa de tanta formalidade aqui nos cantos escondidos do salão, Sofia — ele disse, enfatizando o nome dela com uma suavidade que a fez morder o lábio outra vez, desviando o olhar para esconder o sorriso tímido que começava a surgir.
Naquele canto esquecido do banquete medieval, cercada por reis e rainhas, Sofia sentiu que seu diário tinha acabado de ganhar uma página inteira nova, mesmo que ela ainda não tivesse coragem de desenhar o que acabou de acontecer.